terça-feira, 3 de novembro de 2026

Segunda Guerra Mundial - Campanha da França - Termina a Tramoia - Dunquerque Maio 1940

 

Campanha da França
Termina a tramoia
Dunquerque


Na noite de 20 de maio de 1940, os tanques de vanguarda do 19° Corpo
Blindado do General Guderian, cruzaram rapidamente as ruas desertas da
cidade francesa de Noyelles e, minutos depois, detinham sua marcha nas
bordas do Canal da Mancha. A meta havia sido finalmente alcançada. Ao
norte, nas planícies belgas, acabavam de ficar cercados mais de meio
milhão de soldados aliados.
Assim, 10 dias após de iniciada a ofensiva alemã na frente ocidental, as
divisões Panzer terminaram uma operação de cerco das mais gigantescas
da história da guerra. Agora, só faltava ocupar os portos da costa para
cortar a última saída que ainda restava aos exércitos franco-britânicos.
Na madrugada do dia 19, o general Gort, chefe da FEB (Força
Expedicionária Britânica), enviara uma mensagem urgente a Londres,
anunciando que, ao menos que houvesse uma reviravolta inesperada, as
suas tropas se veriam obrigadas, em curto prazo, a se retirarem para costa
e embarcar, para escapar do avanço mortal das divisões Panzer, que
ameaçavam fechar-se sobre os flancos dos Aliados. Gort compreendera
que nada poderia conter o avanço dos tanques alemães.
No mesmo dia, o general Gamelin, comandante-chefe do Exército francês,
decidiu realizar um último e desesperado esforço para evitar que as suas
forças fossem envolvidas pelos alemães. Às 9 horas da manhã, firmou sua
“Diretiva Pessoal e Secreta n° 12”, na qual se propunha desencadear um
ataque simultâneo sobre ambos os flancos da cunha aberta pelos tanques
alemães. O plano, contudo, foi acolhido sem maior entusiasmo pelo
general Georges, comandante direto das forças aliadas no norte da França.
Gamelin, desanimado, absteve-se de ordenar a sua execução.
No dia 20, as divisões de Guderian finalmente completaram o cerco sobre
as costas do canal e os Aliados tinham perdido a última possibilidade de
escapar por terra para o sul. Ao receber a notícia, Hitler, emocionado pelo
triunfo, anunciou aos chefes da Wehrmacht que se propunha a iniciar
imediatamente os preparativos para as negociações de paz. Hitler
considerava que a derrota dos exércitos franco-britânicos era um fato
consumado.
Entretanto, a luta ainda não terminara. A 20 de maio pela manhã,
Churchill se reuniu com seu gabinete de Governo e, após estudar a
comunicação de Gort, ordenou que se procedesse o quanto antes ao
preparo de uma frota destinada a evacuar as tropas inglesas da costa da
França. Nesta mesma tarde, o Almirante Ramsey, designado chefe da
operação - batizada como “Dínamo” - iniciou a concentração dos
primeiros barcos no porto de Dover.

A Batalha de Arras

Churchill ainda acreditava ser possível que os exércitos Aliados abrissem
caminho para o sul. No dia 20 de maio, o general Ironside, chefe do
Estado-Maior inglês, foi à Bélgica, por conta própria e ordenou ao general
Gort realizar uma última tentativa para romper o cerco alemão. Gort
declarou que não tinha a menor fé nas possibilidades de êxito dessa ação,
mas, se dispôs a realizar um ataque, em escala limitada, até a cidade de
Arras, no sul. O franceses prometeram apoiar, com as suas forças de
ataque. Na tarde do dia 21, uma brigada blindada e duas DIs inglesas,
apoiadas por uma divisão mecanizada francesa, apressaram-se a lançar um
ataque sobre os alemães que convergiam para Arras.
No último instante, o general Blanchard, chefe do 1° Exército francês,
comunicou a Gort que as suas tropas não podiam atacar, pelo menos até o
dia seguinte, devido à demora provocada por seu deslocamento. Gort,
apesar de tudo, decidiu levar adiante a operação na forma prevista
anteriormente.
Poucos depois das 15 horas, as tropas inglesas comandadas pelo general
Martel, iniciaram a sua marcha para o sul. Na vanguarda iam 16 tanques
pesados “Matildas”, veículos providos de uma blindagem de 75 mm de
espessura. Nesse momento, duas divisões panzer se aproximavam de
Arras.
Os tanques ingleses conseguiram superar facilmente as unidades da
vanguarda de Rommel e destruiram as baterias antitanques, que tentaram
deter seu avanço. Os canhões alemães eram de calibre reduzido e não
podiam perfurar as grossas couraças dos tanques “Matilda”, alguns dos
quais chegaram a receber até 15 impactos, sem sofrer o menor dano.
Diante dessa crítica situação, Rommel ordenou o fogo de poderosos
canhões antiaéreos de 88 mm, que conseguiram paralisar o avanço dos
tanques. Mas, os alemães já haviam perdido cerca de 500 soldados, 40
tanques e uma centena de caminhões.
Ao cair da tarde, o general Martel ordenou que suas forças se
entrincheirassem em duas localidades perto de Arras. Logo em seguida, a
Luftwaffe lançou um ataque de suas esquadrilhas de Stukas e, mediante
bombardeio incessante e demolidor, conseguiu desalojar os britânicos das
suas posições. Era o momento esperado por Rommel. Rapidamente,
movimentou os seus veículos blindados e atacou em campo aberto as
forças inglesas em retirada, infligindo-lhe perdas sangrentas. Ao cair da
noite, a batalha havia terminado. Os ingleses estavam de novo em Arras,
seu ponto de partida. Fracassara completamente a última tentativa de
romper as linhas alemães para o sul.

O Plano de Weygand

Contudo, uma mudança radical ocorrera na direção política e militar dos
franceses. No dia 18, chegou a Paris o marechal Pétain, que era
embaixador francês em Madri. Havia sido chamado com urgência por Paul
Reynaud que, no mesmo dia, nomeou Pétain vice primeiro-ministro.
Reynaud decidiu ainda, afastar Daladier do Ministério da Guerra e
substituir Gamelin pelo general Weygand, um dos chefes mais destacados
da Primeira Guerra.
Na manhã de 20 de maio, Weigand assumiu o comando supremo do
Exército e a sua primeira medida foi deixar sem efeito a ofensiva projetada
por Gamelin. Ele desejava estudar pessoalmente a situação e, para isso,
voou naquele mesmo dia para a Bélgica, para se entrevistar com o rei
Leopoldo e os chefes militares francesas e britânicas.
Na tarde de 21 de maio, Weygand chegou à cidade de Ypres, onde era
aguardado pelo rei Leopoldo e o general Billotte, chefe do 1° Grupo de
Exércitos Aliados. O general Gort estava ausente. Sem aguardar a chegada
do chefe britânico, Weigand expôs o plano que se dispunha a executar;
era, em suas linhas fundamentais, semelhante ao projeto de Gamelin.
As forças franco-britânicas sediadas na Bélgica atacariam em direção ao
sul e o exército belga cobriria o seu deslocamento, entrincheirando-se nas
margens do rio Yser. Simultaneamente, os exércitos franceses acampados
nas margens do Soma avançariam para o norte. Assim, pressionando sobre
ambos os flancos da barreira interposta pelas divisões Panzer, tentariam
abrir um corredor destinado a restabelecer a unidade das forças aliadas.
O Rei Leopoldo não deu de imediato o seu consentimento ao plano, pois, a
sua realização implicaria na perda de quase todo o seu território. A
conferência terminou às 7 horas da noite, sem que houvessem chegado a
um acordo. Weigand, imediatamente, regressou a Paris. Pouco depois
chegou a Ypres o general Gort, tomando conhecimento do plano francês.
O chefe britânico, entretanto, absteve-se de comentar, considerando
totalmente irrealizável o projeto. Estava convencido, naquela altura, que a
via de salvação que restava aos Aliados era a imediata evacuação das
tropas aliadas pelos portos da costa do Canal da Mancha. Os fatos que se
sucederam justificariam plenamente a sua tese. Ao terminar a reunião, o
general Billotte regressou ao seu posto de comando. Na viagem, o seu
automóvel se chocou violentamente com um caminhão e Billote acabou
gravemente ferido. Assim, no momento mais crítico, os exércitos Aliados
que combatiam na Bélgica ficaram sem o seu comandante-em-chefe.
Finalmente, ao falecer Billote, em 23 de maio, foi sucedido no posto pelo
general Blanchard, que não havia assistido à conferência de Ypres e
desconhecia os pormenores do plano de Weygand. Essa desafortunada
circunstância contribuiu para aumentar a grande confusão que reinava nas
fileiras do alto comando aliado.
Na manhã de 22 de maio, Churchill foi a Paris coordenar com os franceses
as medidas destinadas a assegurar a salvação dos exércitos acampados na
Bélgica. Ao meio-dia, reuniu-se no QG em Vincennes com Paul Reynaud
e o general Weigand. Este informou a Churchill o plano que havia
discutido com o rei Leopoldo.
Churchill, entusiasmado, deu plena aprovação ao projeto. Reafirmou a
necessidade imperiosa de que os Aliados, ao atacar para o sul,
mantivessem aberto, em todo momento, um corredor de fuga para a costa.
Ao concluir a conferência, enviou urgente telegrama a Gort, ordenando-
lhe apoiar com todas as suas forças o plano de Weygand.
Neste mesmo dia, o Rei Leopoldo informou ao alto comando francês, que
tinha decidido não mais resistir e comunicou a sua decisão de se render
aos alemães, pondo por terra todo plano de Weigand. Só restava agora a
possibilidade da fuga pelos portos.

Hitler Detém o Avanço dos Panzers

Ao chegar às costas do Canal da Mancha, o general Guderian se viu
obrigado a deter o avanço de suas divisões. Faltavam-lhe instruções do
alto comando da Wehrmacht sobre a direção em que havia de continuar o
ataque. Por causa disto, os tanques alemães ficaram parados 24 horas na
desembocadura do rio Soma.
Finalmente, na noite do dia 21, Guderian recebeu ordem de prosseguir o
avanço para o norte até completar a ocupação de todos os portos da zona
do Canal. Dessa forma, ficaria definitivamente concluído o cerco em torno
dos exércitos aliados. Uma nova ordem, entretanto, veio arrefecer a
manobra. Por determinação do Alto Comando, deveria conservar nas
margens do Soma uma de suas divisões, para proteger a sua retaguarda até
que esta força pudesse ser substituída por tropas da infantaria motorizada.
Essa divisão, a 10ª, era justamente a que Guderian desejava lançar em
ataque direto ao porto de Dunquerque.
Na madrugada do dia 22, Guderian reiniciou o avanço com duas divisões
Panzer. Nesse mesmo dia, após encarniçados combates, os tanques da 2ª
DP cercaram o porto de Bolonha. Durante a jornada, a 10ª DP
reincorporou-se ao exército e recebeu a missão de ocupar Calais, o quanto
antes. Excluída desta tarefa, a 1ª DP lançou-se a toda velocidade em
direção à Dunquerque.
Na tarde de 24 de maio, os tanques de Guderian alcançaram as margens do
canal Aa, situado a 16 km a oeste de Dunquerque. Nesse momento, a
única força aliada que se interpunha em seu caminho era um único
batalhão de infantaria inglês. Guderian apressou-se em acelerar os
preparativos para a realização da última investida. A vitória já estava ao
alcance de suas mãos.
Nessas circunstâncias , chegou do QG uma mensagem urgente. Sem poder
dar crédito aos seus olhos, Guderian leu apressadamente o insólito
telegrama: “O 19° Corpo Blindado deve deter-se na linha Aa. Aproveitará
a pausa para realizar reparos. Dunquerque ficará a cargo da aviação”. Que
havia acontecido? Na manhã de 22 de maio, Hitler discutiu violentamente
com o general Brauchitsch, comandante-chefe do Exército, quanto à forma
de terminar o cerco dos exércitos aliados. Brauchitsch propunha
encarregar um único chefe da direção da batalha final, o general Von
Bock, comandante do Grupo de Exército B, para coordenar eficazmente as
operações. Com este fim, toda as unidades blindadas que dependiam do
general von Rundstedt seriam colocadas sob as ordens de Bock. Os
tanques avançariam pelo sul, operariam como “martelos”, enquanto as
unidades de infantaria atuariam como “bigornas”, pressionando pelo norte
os exércitos aliados.
Hitler, furioso, rejeitou o plano de Brauchitsch, argumentando que a costa
pantanosa do Canal, cruzada por numerosos canais e cursos d’água, era
um terreno completamente inadequado para o emprego dos Panzer. Não se
poderia, em conseqüência, correr o risco de perder muitos blindados numa
batalha que já estava praticamente vencida. A força de tanques tinha que
ser reservada para realizar a segunda fase da campanha. Mas, apesar da
oposição de Hitler, Brauchitsch ordenou a execução do seu plano a 23 de
maio. Hitler se deslocou no dia seguinte ao posto de comando de von
Rundstedt, em Charleville, para consultar a opinião desse militar,
considerado um dos mais brilhantes comandantes da Wehrmacht.
Rundstedt, que fora excluído por Brauchitsch de qualquer intervenção na
batalha de Dunquerque, já estava concentrado na preparação da conquista
do sul da França e, por isso mesmo, informou ao Fuhrer que achava
necessário conservar ao máximo a capacidade de combate das divisões
Panzer, para usá-las na sua própria operação. Era a indicação de que Hitler
necessitava. Sem perda de tempo, dispôs-se a anular a transferência
dos blindados para o Grupo de Exércitos B e ordenou paralisar o avanço
dos tanques nas margens do canal Aa.
Goering, que havia participado da polêmica, conseguiu convencer a Hitler
de que a aviação, mediante um bombardeio ininterrupto do porto de
Dunquerque, impediria o embarque dos exércitos aliados e os obrigaria a
se render; sem a necessidade da intervenção maciça os blindados e das
forças terrestres. A glória da vitória final recairia, assim, sobre a
Luftwaffe, arma revolucionária criada pelo nazismo.
A intempestiva ordem de “alto”, provocou uma reação violenta dos chefes
de todas as unidades blindadas. O General Von Kleist, comandante do
grosso das forças Panzer do Grupo de Exércitos A, decidiu continuar o
avanço e, nesta mesma tarde, os seus tanques ocuparam Hazebrouck, um
centro vital de comunicações situadas ao largo do corpo expedicionário
britânico. O caminho de fuga até Dunquerque estava, assim, praticamente
cortado. Entretanto, uma nova ordem e definitiva instrução do QG
obrigou-o a bater em retirada e abandonar as posições conquistadas.
Assim, no dia 24 de maio, Hitler frustrou, através da ordem de “alto”, às
divisões blindadas a possibilidade de que a Wehrmacht completasse o
aniquilamento das forças franco-britânicas. Seu grave erro teria influência
decisiva no prosseguimento posterior da guerra.

A Retirada Para o Mar

A 23 de maio, a 7ª DP de Rommel, cercou pelo oeste a cidade de Arras e
ameaçou isolar pela retaguarda as forças inglesas aí entrincheiradas.
Diante de situação tão crítica, Gort então ordenou que suas tropas
evacuassem Arras imediatamente. Na mesma noite, os soldados ingleses
tomaram os seus caminhões e abandonaram a cidade pela estreita via de
acesso ao norte.
No dia seguinte, o general Blanchard, chefe do 1° Grupo de Exércitos
aliados, foi informado da retirada inglesa. Compreendeu, então, que a
sorte do plano Weigand estava selada. A perda de Arras, ponto de partida
da planejada operação de avanço para o sul, havia aumentado em mais de
40 km a distancia que separava os exércitos acantonados na Bélgica das
posições francesas no rio Soma.
Blanchard, apesar disso, comunicou ao chefe do Estado maior britânico
que, até ordens em contrário, estava decidido a levar adiante o ataque para
o sul. Mas, na manhã desse mesmo dia, nova catástrofe se desencadeou
sobre as forças aliadas. O 6° Exército alemão, do general von Reichenau,
conseguiu, mediante um violento ataque, abrir uma profunda brecha nas
posições defendidas pelo exército belga e ameaçou cortar pelo norte as
comunicações das forças aliados com os portos da região do Canal da
Mancha.
Chegara o momento decisivo da campanha. A 25 de maio, as forças de
von Reichenau aprofundaram seu avanço, vencendo as dizimadas divisões
belgas que, pelo flanco direito, haviam perdido contato com os ingleses.
Gort, por sua vez, entendeu que não perderia mais tempo. De posse de um
telegrama do ministro da Guerra, Anthony Eden, autorizando-o a colocar a
segurança das tropas inglesas acima de toda outra consideração, ele
ordenou, às 18 horas, que as suas forças iniciassem a retirada até a costa
do Canal. Sua decisão foi comunicada imediatamente ao general
Blanchard.
O general francês, por seu lado, recebeu uma mensagem de Weigand,
ordenando que organizasse um perímetro defensivo em torno de
Dunquerque. As tropas aliadas, então, na tarde de 25 de maio, trataram de
iniciar a marcha para o mar.
No dia seguinte, von Reichenau redobrou os seus ataques, tornando a
situação do exército belga cada vez mais crítica. O rei Leopoldo,
angustiado, dirigiu mensagens a Gort e Blanchard, solicitando que as
tropas franco-inglesas contra-atacassem o mais rápido possível para
auxiliar as suas forças. Mas já era tarde demais e a decisão do general
inglês já estava tomada. Como ele se propunha a salvar o seu exército,
deveria retirar- se imediatamente para a costa do Canal. Nesse dia, recebeu
novo telegrama de Eden, que dizia: “A única saída que possivelmente
ainda está aberta para você é abrir caminho lutando para o oeste, onde
todas as praias e portos situadas a leste de Gravelines serão utilizados para
o embarque. A Marinha providenciará uma frota de barcos e embarcações
menores e a RAF dará o seu mais amplo apoio”.
De tarde, Gort comunicou a Blanchard que havia resolvido acelerar a
retirada e, para isso, propunha abandonar as posições sobre o rio Lys, à
direita dos belgas. O chefe francês ponderou as graves
conseqüências de tal ação, mas, Gort manteve-se impassível. Sem demora,
Blanchard se dirigiu ao QG do rei Leopoldo, informando sobre a decisão
do chefe inglês. Para preencher o vazio deixado pelos ingleses, os
franceses só poderiam oferecer aos belgas uma dizimada divisão
mecanizada, integrada unicamente por 15 tanques.
O rei Leopoldo, amargurado, assinalou a Blanchard que o Exército belga
estava ameaçado de total aniquilamento, a partir daquela hora.

O Momento Decisivo

Enquanto esses dramáticos acontecimentos se desenrolavam no campo
aliado, do lado alemão prosseguia a ácida polêmica em torno da atuação
das divisões Panzer.
Finalmente, Hitler cedeu às ponderações de seus generais e, a 26 de maio,
exatamente ao meio-dia, autorizou que os tanques prosseguissem o avanço
na direção de Dunquerque. Tão logo recebeu essa comunicação, Guderian
ordenou que as suas divisões se lançassem, a toda velocidade, para o
porto. Mas, os aliados, valendo-se dos dois dias de trégua inesperada, já
haviam posto numerosas forças a oeste de Dunquerque e conseguiram
opôr aos alemães uma encarniçada resistência.
Sustentando combates violentos, os tanques alemães avançaram ao largo
da costa e, na manhã de 29, se apoderaram de Gravelines, situada a poucos
quilômetros de Dunquerque. Furioso e amargurado, Guderian
compreendeu que a presa estava a ponto de lhe escapar das mãos.
Contudo, ainda poderia realizar uma última investida e tomar o porto,
antes que o grosso das tropas britânicas chegassem a embarcar. Até este
dia, o número de ingleses evacuados era de apenas 25.000 soldados.
Neste momento decisivo, Hitler interviu novamente. Pela manhã, manteve
uma conferência com os chefes da Wehrmacht e lhes confidenciou o seu
temor de que os franceses conseguissem lançar um ataque maciço vindo
do sul, contra as forças alemães que sitiavam Dunquerque. Assim, era
necessário retirar, o quanto antes, todas as divisões Panzer da batalha e
concentrá-las frente ao rio Soma, para enfrentar essa ameaça. A Luftwaffe
e a infantaria completariam, sem dificuldades a ocupação de Dunquerque.
E, assim, a 29 de maio, Hitler ordenou às divisões Panzer abandonar
imediatamente a frente e dirigir-se para o sul. Hitler cometeu, com isso, o
maior erro de toda a sua carreira. Ao receber ordem de deter o avanço, as
divisões Panzer dos generais Guderian e Reinhardt estavam a menos de 6
km de Dunquerque.

A Operação Dínamo

Precisamente às 18:57 horas de 26 de maio, o Almirantado inglês enviou
às suas unidades a senha que pôs em marcha a Operação Dínamo.
Realizando um supremo esforço, as autoridades navais haviam conseguido
reunir nos portos do sul da Inglaterra mais de 800 embarcações de todos
os tipos e toneladas. A improvisada frota era integrada por grandes navios
mercantes, cruzadores, caça-minas, lanchas torpedeiras, barcos- hospitais,
rebocadores, lanchas pesqueiras, “ferry-boats”, iates e até veleiros. Todo
inglês que possuísse um barco capaz de se fazer ao mar apresentou-se
voluntariamente, para servir naquela empresa arriscada.
A situação era desesperada. Como se recorda, no dia 26 os tanques da 10ª
DP haviam conseguido ocupar Calais, após vencer a heróica resistência da
guarnição inglesa. Assim, só restava como ponto de embarque o porto de
Dunquerque e este já estava sob a ação da Luftwaffe e sob ameaça de
ocupação iminente pelas forças alemães, que convergiam do leste, sul e
oeste.
Os oficiais da Marinha britânica calcularam que poderiam evacuar perto
de 25.000 solados, nos dias que se esperava resistir ao alemães. Não
sabiam eles que Hitler, mediante a sua desastrosa ordem de alto às
divisões Panzer, lhes daria a oportunidade de embarcar a totalidade da
FEB, além de milhares de soldados franceses.
Dia 27 de maio: o 6° Exército de von Reichenau consegue irromper,
através das linhas belgas, em vários setores. O rei Leopoldo compreende
que o fim havia chegado. Pouco depois do meio-dia comunicou ao general
Gort que se via obrigado a se render em questão de horas, para evitar o
completo aniquilamento de seu Exército. Três horas depois, chamou o
almirante britânico Keyes e o general francês Champon, informando-o que
à meia-noite pedira um armistício aos alemães. De fato, a zero hora do dia
seguinte, o general belga Desrousseaux firmava a rendição incondicional
no QG de von Reichenau.
A capitulação do Exército belga abriu, de repente, uma imensa brecha no
flanco esquerdo dos ingleses. Gort ordenou que Alan Brooke cobrisse de
imediato aquele setor, que se estendia da cidade de Ypres às costas do
Canal da Mancha, com as duas divisões britânicas que haviam escapado
de Arras. Duas divisões francesas se juntaram aos ingleses e a frente pôde
ser rapidamente reconstruída.
Graças a esta manobra, a situação ao norte ficou temporariamente
estabilizada. Ao sul, porém, pairava uma ameaça mortal sobre os exércitos
aliados, concentrados em torno da cidade de Lille. Pressionando tanto de
leste quanto a oeste, os alemães estavam prestes a cortar estas forças, isto
é, a rota de fuga para Dunquerque.
Ante situação tão crítica, Gort decidiu, a 28 de maio, retirar sem demora as
forças inglesas ali destacadas. O general Blanchard, ao receber a notícia,
correu ao QG de Gort para dizer, com espanto, que a retirada inglesa
permitiria aos alemães cercar o grosso do 1° Exército francês em Lille. O
chefe francês pediu que a manobra fosse adiada por 24 horas, para
permitir que as forças francesas alcançassem Dunquerque.
Gort se negou e assinalou que a última possibilidade de salvação que ainda
restava era começar, nesta mesma noite, a retirada para o norte. Sua
opinião era totalmente correta. Nesse exato momento, os tanques de
Rommel se aproximavam do caminho que liga Lille à Dunquerque.
Indignado com a atitude de Gort, Blanchard partiu de imediato para o
posto de comando do general Prioux, chefe do 1° Exército francês e
anunciou a retirada inglesa para o norte, naquela mesma noite. Sem perder
um minuto, Prioux, por seu lado, também ordenou a partida para
Dunquerque de todas as forças que tivessem meios de transporte. Assim,
pôde ser salva quase a metade dos efetivos do 1° Exército. Em Lille,
porém, sucumbiram 50.000 soldados. Sob as ordens do general Molinié,
opuseram aos alemães, uma resistência encarniçada e, até o dia 31,
conseguiram sustar o avanço de sete divisões do 6° Exército de Reichenau
rumo a Dunquerque. Com seu heróico sacrifício, as tropas de Molinié
contribuíram para prolongar a evacuação dos aliados e asseguraram a
salvação de milhares de seus camaradas de armas.
Durante todo o dia 29, colunas intermediárias de soldados franceses e
ingleses convergiam para Dunquerque. A poucos quilômetros do porto,
eles abandonavam os caminhões à beira da estrada. juntamente com
tanques e canhões, prosseguindo a pé sua marcha, levando unicamente os
fuzis. Todo o equipamento pesado desse gigantesco exército caiu na mão
do alemães.
Dunquerque incessantemente atacada pela Luftwaffe, havia se
transformado numa autêntica fogueira. Em meio às explosões das bombas
e ao pipocar das metralhadoras dos aviões alemães, os barcos e lanchas se
aproximavam das praias e recolhiam os extenuados soldados. A situação
era desesperadora. Três contratorpedeiros e mais de 20 barcos foram
afundados pelos Stukas.
Angustiado, o general Gort enviou uma mensagem urgente ao seu
governo, solicitando o apoio maciço da RAF. Churchill, então, resolveu
enfrentar a situação com energia e ordenou que participassem da batalha a
totalidade dos aviões de caça, incluindo os Spitfires que, até aquele
momento, haviam sido zelosamente reservados para a defesa das Ilhas
Britânicas. Realizando até quatro incursões diárias sobre Dunquerque, os
pilotos da RAF conseguiram derrubar diversos aviões alemães e
frustraram os planos de Goering de aniquilar pelo ar as indefesas tropas
aliadas, encurraladas nas praias do Canal.

Concluída a Retirada

Na tarde de 30 de maio, Churchill ordenou a Gort abandonar Dunquerque
no momento em que suas forças ficassem reduzidas a apenas três divisões.
Por sua vez, o general britânico pediu às autoridades navais que
acelerassem ao máximo o ritmo dos embarques, pois, o perímetro
defendido, constantemente debilitado pela ininterrupta evacuação, se
desmoronaria em menos de dois dias.
Antes de partir para a Inglaterra, Gort avistou-se com o almirante Abrial,.
chefe das forças francesas em Dunquerque, comunicando-lhe que deixava
no porto três divisões para apoiar a última fase da evacuação. Na tarde do
dia 31, o comandante britânico deixou as praias de Dunquerque. Para ele a
luta havia terminado. Com resolução obstinada, conseguira salvar o
Exército inglês do aniquilamento certo.
Em Dunquerque estava, também, a quase totalidade da forças francesas.
Nesse mesmo dia, Churchill e os dirigentes franceses mantiveram uma
dramática reunião em Paris. Reynaud e o general Weygand
assinalaram com amargura, que até aquele momento os navios britânicos
se haviam limitado quase exclusivamente a embarcar tropas inglesas. Só
15.000 franceses haviam sido evacuados de Dunquerque. Churchill então
prometeu que a Marinha inglesa faria um grande esforço para resgatar o
máximo de franceses possível e que os últimos ingleses ficariam para
cobrir a retaguarda as tropas que ainda permaneciam na cabeça-de-ponte e
exigiu que se permitisse aos soldados ingleses cobrir a retaguarda e
embarcar por último.
Enquanto os dirigentes Aliados conferenciavam em Paris, na sitiada
Dunquerque, o general Alexander, sucessor de Gort, comunicou
inesperadamente ao almirante Abrial que decidira embarcar as suas tropas
naquela mesma noite, pois acreditava que os alemães ocupariam o porto
em questões de horas.
O General Fagalde, assistente de Abrial, retrucou enfurecido que o chefe
britânico deveria cumprir as ordens de Gort e permanecer em Dunquerque,
para apoiar a evacuação dos franceses. Após uma discussão áspera e
extensa, Alexander aceitou prorrogar a hora de seu embarque, apenas até a
manhã do dia seguinte. Poucas horas depois, o almirante Abrial recebia
um telegrama urgente de Paris, no qual os dirigentes aliados,
comunicavam a sua decisão, de que as tropas britânicas ficassem
encarregadas da defesa da retaguarda. Imediatamente Abrial transmitiu a
ordem a Alexander mas, este se negou a acatá-la.
A partir das primeiras horas da manhã de 1° de junho, a Luftwaffe
reativou seus furiosos ataques sobre Dunquerque. Um verdadeiro dilúvio
de bombas foi descarregado sobre o porto e as praias, afundando mais de
30 barcos cheios de tropas. Alarmado com essas perdas catastróficas,
Churchill comunicou a Reynaud, por telegrama, que devido à gravidade da
situação, autorizara o general Alexander a embarcar nessa mesma noite, se
ele considerasse necessário, a totalidade de suas forças.
À meia-noite de 1° de junho, Alexander abandonou Dunquerque,
juntamente com as sua três últimas divisões. Na cabeça-de-ponte ficava
uma reduzida força britânica, integrada por 4.000 soldados e alguns
canhões antitanques. A intensidade dos ataques aéreos alemães, somada ao
fogo mortífero das baterias instaladas na costa marítima, impediram a
evacuação durante o dia. Ao cair da noite, o Almirantado resolveu fazer
um esforço maciço e enviou 88 barcos, que recolheram os últimos
soldados ingleses e cerca de 20.000 franceses.
Durante a noite de 3 de junho, outros 26.000 franceses foram recolhidos
nas praias. O Almirante Abrial, abandonou finalmente o porto às 22h e
partiu para a Inglaterra nua lancha a motor. Havia terminado a Operação
Dínamo.

Anexo:

Ordem de Weygand

Dirigida ao exército francês no dia 26 de maio de 1940
“1. A batalha da qual depende a sorte do país será encarada com o espírito
de não retroceder em nenhum momento.
2. Para ter segurança de deter o inimigo é necessário dar prova de uma
constante agressividade. Se uma unidade constata que a unidade vizinha
ficou para trás, não deve recuar a nenhum preço e deve tentar restabelecer
a situação e, em caso de não poder fazê-lo, converter-se em ouriço e
constituir num núcleo de resistência.
3. Todas as retaguardas da linha principal e na maior profundidade
possível devem ser organizadas em centros de resistência, especialmente
sobre as vias de acesso...
4. É necessário que todos os generais-de-divisão entrevistem-se com muita
freqüência com os coronéis, estes com seus chefes de batalhão, estes com
os de suas companhias, os capitães e tenentes com seus soldados.
Atividade. Solidariedade. Decisão”.
“Eu creio no milagre...”
No dia 22 de maio de 1940, Paul Reynaud anuncia no Senado a
incorporação do Marechal Pétain ao Governo e a designação do General
Weygand como comandante-chefe do Exército.
“Reynaud: Quando, anteontem, cheguei ao Ministério da Guerra, ali
encontrei o Marechal Pétain e o General Weygand (aplausos).
Senador Reinel e muitas vozes: Finalmente!
Senador Jesse: É um pouco tarde, mas já que estão conosco...
Senador Reinel: Não é demasiado tarde!
Reynaud: Diante das desgraças que atravessa nossa pátria, nos sentimos
orgulhosos de pensar que dois de nossos filhos, que tem o direito de
repousar, em suas glórias, vieram colocar-se, nesta hora trágica, ao serviço
do país... Se me
disserem, algum dia, que só um milagre pode salvar a França (aplausos)
nesse dia, eu diria: Eu creio no milagre, porque creio na França! (novas
aclamações).

Rei Leopoldo

“Devo anunciar ao povo francês um grave acontecimento. Este fato
ocorreu durante a noite. A França já não pode contar com o Exército
belga. O Rei Leopoldo III, sem uma palavra para os soldados franceses e
ingleses, depôs as armas. É um fato sem precedentes, na História” Paul
Reynaud. Primeiro Ministro da França. 28 de maio de 1940.
“Não tenho a intenção de instigar a Câmara para que julgue neste instante
o ato do rei dos belgas em sua condição de Comandante-Chefe do Exército
de seu país. Esse Exército lutou valentemente e sofreu e infligiu
gravíssimas perdas” Winston Churchill, Primeiro Ministro da Inglaterra.
28 de maio de 1940.
10 de maio de 1940 - 28 de maio de 1940
No dia 10 de maio de 1940, a tempestade se abateu sobre os belgas. As
divisões blindadas de von Bock e a infantaria de von Reichenau
atravessaram o Canal Alberto, primeira linha defensiva belga, cruzando
por pontes que permaneceram misteriosamente intactas. É possível que
Leopoldo tivesse a intuição, com dramática lucidez, da arrasadora
superioridade alemã e da inevitável derrota. É possível, também, que
Leopoldo tenha tratado de poupar o povo belga de novos sofrimentos. A
realidade não poderia ser mais dolorosa. A batalha era desesperada, as
munições escasseavam, as ordens e contra-ordens, principalmente do
Governo francês, haviam convertido a situação numa horrível confusão; os
refugiados não tinham alimentos, os feridos precisavam de medicamentos.
Que podia fazer efetivamente, o rei? Resistir até o último homem ou
entregar-se.
O tempo em que a Europa foi ensangüentada numa luta sem precedentes
na História, Leopoldo passou em seu retiro de Laeken. Entre suas
atividades desse período, sabe-se de uma visita ao QG de Hitler, em
Berchtesgaden. Finalmente, em junho de 1944, ante o avanço das forças
aliadas, Leopoldo, com seus filhos e a esposa Liliana Baels, abandonaram
Laeken e passaram para a fortaleza de Herschstein, na Alemanha.
Terminada a guerra e repudiado pelo povo belga, ele abdicou em favor de
Balduíno, seu filho mais velho. Foi em 16 de julho de 1951. Leopoldo
havia deixado de ser rei dos belgas.

Soldado até o Fim

Canal Ypres-Comines. Algumas centenas de soldados ingleses defendem
desesperadamente aquela última linha. Em seu redor, dezenas de milhares
de soldados aliados se agrupam na costa, à espera dos barcos que os
conduzirão à Inglaterra. Frente à débil linha inglesa, os alemães, seguros
de sua vitória, desenvolvem a ação com calma e sangue-frio. Mais que
isso: comportam-se como se achassem em manobras de treinamento e não
numa guerra cruel e sem piedade. Um setor de trincheiras, defendido por
vários pelotões de granadeiros britânicos, enfrenta um ataque de uma
companhia alemã. Os nazistas, detidos pela valente resistência, redobram
seus esforços para conquistar a posição. Mas tudo é inútil. A defesa não
cede. Vários soldados alemães, enviados em missão de reconhecimento,
caem sob os tiros dos ingleses. E, então, acontece o episódio
desconcertante. Nas posições alemães, um oficial se prepara. Traja um
capote impecável e botas reluzentes. É o tenente Georg, comandante da
companhia. Empunha seus binóculos e observa atentamente as linhas
britânicas. Dez segundos depois, os binóculos caem de suas mãos. Seu
rosto empalidece e torna-se branco. Volta- se cambaleando para seus
homens, que permanecem escondidos. Uma grande mancha vermelha
começa a crescer sobre seu peito, umedecido o capote. Aproxima-se de
seus soldados e olha-os fixamente. Em seguida, enquadrando-se, diz em
volta alta: O tenente Georg anuncia a sua morte, em combate!. Depois,
leva a sua mão direita à fronte, e bate uma rígida continência. Dois
segundos depois e tomba morto.

O “soldado” Augusta Hersey

O soldado Bill Hersey enquadrou-se, bruscamente. Alguém lhe havia
sacudido pelos braços, sem contemplação. Uma voz, muito próxima,
gritava em tom enérgico: - Companhia, de pé! Rápido, todos. Voltaremos à
Inglaterra! Bill Hersey sentiu um calafrio. Compreendeu que não havia
tempo a perder. Aproximou-se do capitão Smith. - Senhor... Posso fazer
algo por minha mulher?
O capitão o olhou fixamente. Talvez, nesse instante, tenha pensado em
expulsá-lo dali. Talvez considerasse a possibilidade de castigos severos.
Em plena guerra, em pleno desastre, um soldado perguntava o que poderia
fazer pela sua mulher... Mas, seguramente, o capitão talvez tivesse
pensado em sua própria mulher, que o esperava na Inglaterra. E respondeu
somente isto: - Pode trazê-la.
Pedalando rápido, Bill Hersey chegou ao povoado de Tourcoing. Cruzou
as ruas desertas e parou ante uma pequena casa. Eram 2:30 horas. Ele
chamou quase aos gritos: - Augusta! Augusta! Uma jovem mulher surgiu
apressada. Hersey tomou-a por ambos os braços e lhe disse, quase
gritando: - Apanha sua roupa e vem comigo. Rápido, para a Inglaterra! O
capitão Smith percorria as fileiras de seus homens, quando Bill Hersey
chegou arquejante: - Meu capitão... Minha mulher está comigo. - Que suba
em meu carro... Mas , antes , é necessário que ela troque de roupa. Tudo
foi muito rápido. Vestida com calças e camiseta do exército, capacete à
cabeça e fuzil nas mãos, a pequena Augusta saltou para o jipe que
encabeçava a coluna. Uma troca de palavras com o capitão Simith e o
chofer foi o bastante. Depois, o veículo partiu. Atrás dele, em 12
caminhões, os homens da companhia também puseram-se em marcha.
Entre eles estava Bill Hersey, o soldado inglês do Esast Surreys. Augusta
era francesa, tinha 21 anos e não sabia inglês. Bill Hersey, com dicionário
na mão, a pedira em casamento. Ela aceitara. Agora o destino de ambos
era comum.
Seis semanas antes do desastre de Dunquerque, Bill e Augusta eram
marido e mulher, para a paz e para a guerra.

Brauchitsch

Verdun, França, 1916. O inferno sobre a Terra.
Uma das mas gigantescas batalhas de todos os tempos envolve centenas de
milhares de homens. Nas fileiras imperiais, um capitão, ainda
desconhecido, planeja “na mente” os movimentos que se deveriam
realizar. Fala com seus chefes, comunica-lhes as suas idéias e consegue
que algumas sejam tomadas em consideração. No comando de sua divisão,
algum menciona, ao passar o nome do obscuro capitão. E é provável que
algum chefe tenha franzino o cenho, ao perguntar: Brauchitsch? Quem é
ele?
O tempo dirá que é Brauchitsch. E também a Cruz de Ouro do Partido
Nazista, a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro e o grau máximo de
Marechal-General-de-Campo o dirão. E, junto a tudo isto, o Comandante-
Supremo da Wehrmacht.
Henrique Alfredo Herman Gualterio von Brauchitsch nasceu em Berlim,
em 4 de outubro de 1881. Filho de um general de cavalaria, seu destino só
poderia ser a carreira das armas.
Aos 14 anos, ingressou no Corpo de Cadetes. Cinco anos depois, aos 19
anos, dirige-se ao seu primeiro destino: o Regimento da Rainha Elizabeth
(Granadeiros da Guarda n° 3). É um simples tenente. Falta muito ainda
para que o círculo se feche.
1914. Brauchitsch combate nas Argonas e em Verdun. Seu valor e
inteligência o distinguem rapidamente. Em 1921, começa a desenvolver as
suas idéias em outras frentes: o da mesa de comando. Além disso, é
encarregado da reorganização das forças armadas, desde a criação do
Ministério do Reichswehr. Em 1928, chega a coronel e em 1930 retorna
àquele Ministério. Em 1931, chega a general, permanecendo até 1933, ano
em que o nazismo subiu ao poder. Passa, então, ao seu novo comando:
Prússia Oriental. Cargo: comandante em chefe da 1ª Divisão e da Região
Militar. Em outubro de 1933, é promovido a tenente-general. Chega o ano
de 1937 e a grande catástrofe se aproxima. Von Brauchitsch sobe na sua
carreira, que culminará com o posto máximo. Em 1937 é o chefe do 4°
Exército e, no ano seguinte, passa a Coronel-General, em substituição a
von Fritsch. Será, desde esse momento, Comandante-Supremo do Exército
alemão.

Chega a Guerra

Se bem que a Segunda Guerra tivesse começado oficialmente a 1° de
setembro de 1939, seus antecedentes remontam aos primeiros meses de
1938, no que se refere a movimentação efetiva de tropas, avanços e
ocupações militares. De fato, foi em março de 1938, que as tropas sob o
comando de von Brauchitsch ocuparam a vizinha Áustria, culminando um
processo de pressão exercida pela Alemanha. Em setembro de 1938,
ocorreu o episódio dos “sudetos”, cujo dramático final, a cargo do exército
alemão, foi dirigido por von Brauchitsch. A ocupação, iniciada em
setembro de 1938 foi concluída em março de 1939. No dia 15 do mesmo
mês, as tropas alemães entraram em Praga, eliminando a Checoslováquia
como nação independente.

O Final

Dia 1° de setembro de 1939. Hora: 4:45hs. As primeiras luzes da
madrugada iluminavam os muros de Dantzig. A guerra havia começado. À
frente da formidável força que começa o seu avanço sobre a Polônia, está
von Brauchitsch, Comandante-em-chefe da Wehrmacht.
Mensagem a Lord Gort
No dia 27 de maio de 1940, Churchill enviou o seguinte telegrama ao
General Gort: “Nestes momentos tão solenes não posso fazer outra coisa
senão expressar-lhe os meus melhores votos. Ninguém sabe como
sairemos desta. Mas tudo é melhor que ficar cercados e mortos de fome.
Exponho as seguintes observações: Primeiro: lançar todos os tanques ao
ataque, já que estariam perdidos deste ou de outro modo. Segundo: guardo
fundados temores com relação a Ostende até que não seja ocupada por
uma brigada de artilharia...
2. É necessário agora informar aos belgas. mandei este telegrama a Keyes,
mas seria necessário que você estabelecesse contato pessoal com o rei.
Estamos pedindo-lhes que e sacrifiquem por nós.
3. Supomos que nossas forças sabem que empreendem o regresso à pátria.
Proporcionaremos toda a colaboração da Marinha e da Força Aérea.
Anthony Eden está a meu lado nestes momentos e lhes deseja, igualmente,
muito boa sorte.
“Você é nosso prisioneiro”
9° Exército francês. Acampamento: Rio Mosa, entre Namur, na Bélgica, e
Sedan, na França.
As unidades francesas resistem desesperadamente ao violento ataque
alemão. Paris, sede do Alto-Comando Aliado. Um acúmulo de ordem e
contra-ordens se sucede. A desorientação começa a desorganizar as
fileiras.
Chegam informações da frente do 9° Exército. A situação é insustentável.
Torna-se imprescindível uma mudança de comando. Imediatamente
partem as ordens. O general Henri Giraud, comandante do 7° Exército
francês, deverá assumir o comando do 9°.
O general Giraud, acompanhado de seu Estado-Maior, parte num relance.
Uma pequena coluna de veículos os conduz a toda velocidade. Duas horas
depois, os automóveis param diante das portas do QG do 9° Exército.
Giraud desce, caminha alguns passos e se detém. Os oficiais que o seguem
não podem ocultar o seu assombro. De frente, em posição de sentido,
soldados alemães os recebem com saudação militar. Um oficial alemão
adianta-se. Bate os calcanhares e saúda. Em seguida, sem deixar a sua
posição de sentido, diz, com firmeza: - Senhor general, sois nosso
prisioneiro...!
Com assombro no rosto, Giraud dirige-se para o interior do comando.
Tudo havia terminado com ele. Um oficial que o segue interroga um
oficial alemão. E a resposta não tarda: - Tiveram má sorte, os senhores. O
comando anterior do 9° Exército abandonou a região há meia hora.
Quinze minutos depois, nós chegamos. Seria falta de consideração não
esperarmos os senhores...
Assim, de modo tragicômico Giraud marchou à prisão.

Dunquerque em Números

Soldados evacuados
27.05 - 7.669
28.05 - 17.804
29.05 - 47.310
30.05 - 53.823
31.05 - 68.014
01.06 - 64.429
02.06 - 26. 256
03.06 - 26.746
04.06 - 26.175
Total: 338.226
Foram usados 168 barcos de guerra e 17 foram afundados.
Foram usados 689 barcos de todos os tipos e 226 foram afundados.
No total foram usados 857 barcos e 243 afundados.
Material abandonado
90.000 fuzis - 8.000 metralhadoras - 2.472 canhões - 63.879 veículos -
20.548 motos - 6.097 toneladas de munição.
Baixas aliadas : 68.000 mortos, feridos e prisioneiros. Não evacuados:
40.000
Atuação da RAF - 9 dias de campanha - 4.822 horas de vôo - 101 missões
de patrulha - 265 aviões inimigos destruídos - 177 aviões empregados.

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