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Janeiro a Março de 1940 O Desenvolvimento das Hostilidades O início do ano encontrou os exércitos dos principais beligerantes a vigiarem-se uns aos outros das respectivas posições fortificadas na frente ocidental, com uma cautela que não oferecia nenhuma perspectiva imediata de um ataque em larga escala. Os aliados, no momento, pareciam ter aceito o ponto de vista de Mr. Churchill, expresso a 12 de novembro, no sentido de que "se atravessarmos o inverno sem que ocorra algo grande ou importante, teremos, na verdade, vencido a primeira campanha da guerra". Ao lado alemão havia indícios de vaga ferocidade a ameaçar os aliados com quase imediata destruição. Hitler, na sua proclamação de Ano Novo, e novamente no seu discurso de 30 de janeiro, insinuou que estava para começar a coisa a sério. Goering anunciou que ao sinal de Hitler a força aérea "desencadearia sobre a Grã-Bretanha um assalto de violência jamais conhecida na história." Mas, com todas essas palavras, a atividade na frente ocidental era confinada a incursões esparsas, nas quais os aliados pareciam apenas procurar informações, e os alemães tentando conseguir o domínio de posições que mais tarde lhes pudessem vir a ser úteis. A ameaça séria de possível ação veio a 14 de janeiro, com um novo surto de guerra nos Países Baixos. Certos informes da imprensa alegaram que este era baseado no fato de que o piloto de um avião alemão que fez uma aterrissagem forçada em solo belga tinha por casualidade no bolso os planos de um ataque alemão. A circunstância foi realçada de um modo curioso pelo fato de que o governo holandês, a 6 de janeiro, anunciara a determinação de resistir a qualquer ataque "com toda a potência de nossas armas", e o governo belga se tinha mostrado disposto a apoiar a Holanda contra a agressão. Mas, fosse qual fosse a razão, o alarme foi suficientemente forte para que a Bélgica mobilizasse 600.000 homens e para que a Holanda e a Grã-Bretanha cassassem todas as licenças no Exército. A 24 de janeiro, Mr. Chamberlain renovou o compromisso britânico de assistência imediata à Bélgica no caso de um ataque alemão. Embora nessa ocasião a crise tivesse amainado, os Países Baixos e a Suíça também permaneceram em estado de alerta à vista das informações periódicas que recebiam acerca de concentrações alemães nas proximidades de suas fronteiras. Os pequenos vizinhos da Alemanha, estava claro, não confiavam absolutamente em sua boa fé. Entretanto, dificilmente se poderiam considerar ideais para uma ofensiva militar as condições desse período. As condições meteorológicas - as informações a respeito das quais incorriam nas muitas coisas suprimidas pela censura, em razão de que elas pudessem servir aos aviadores inimigos - mostraram de que eram capazes, desencadeando uma Blitzkrieg por conta própria. O inverno mais frio do último meio século se abatera sobre a Europa. Os temporais desencarrilavam trens, interrompiam o tráfego e criaram uma escassez temporária de carvão, tanto para as indústrias como para es cidadãos particulares. Em fevereiro, foi informado que uma quarta parte da população de Berlim vivia em casas sem calefação. Essas dificuldades na frente interna refletiam-se sem dúvida na contínua inação militar. Isto não era verdade, entretanto, nem no mar, nem no ar. Navios mercantes continuavam a cruzar os mares com abastecimentos essenciais. As marinhas mantinham uma vigilância incessante sobre as rotas vitais de comércio. E tanto à superfície das águas como em baixo dela, a guerra prosseguia - uma guerra que procurava apertar o bloqueio contra o inimigo e romper o cerco que o inimigo se esforçava por impor. A guerra no mar Nestas lutas os aliados estavam mais do que bem. Pelo fim de março, cálculos não oficiais indicavam o total das perdas britânicas e francesas em 211 navios, perfazendo 810.000 toneladas. As perdas em navios de todas as nações beligerantes e neutros atingiam 7.300 toneladas diárias, em comparação com as 20.000 toneladas registradas durante o período da guerra irrestrita de 1917. O que era mais encorajador era a prova de que os afundamentos estavam em declínio, o que era, em grande parte, devido ao bom êxito do sistema de comboio. As perdas de navios aliados e neutros somavam 90.000 toneladas em março contra 200.000 toneladas em fevereiro. Mesmo na semana que terminava a 20 de fevereiro, e a qual mostrava a perda de 20 navios, apenas cinco britânicos havia entre estes. Entre 26 de fevereiro e 3 de março, a Grã-Bretanha perdeu somente dois navios pequenos, somando 1886 toneladas. E a 30 de março, Mr. Churchill anunciou que durante a quinzena anterior apenas um navio britânico havia sido afundado em consequência de ação inimiga |
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Nesta situação, a Alemanha lançou toda a sua fúria contra a navegação neutra. O completo desprezo pela lei do direito internacional demonstrado pelos nazistas com o afundamento de navios beligerantes sem aviso prévio, e o espalhar indiscriminado de minas, ficou mais luminosamente em evidência com os seus ataques deliberados às tripulações dos navios mercantes. Durante o mês de fevereiro, em que foi informada a perda de 25 navios britânicos, as nações neutras perderam 39. Até 14 de fevereiro a Suécia tinha perdido, desde o rebentar da guerra, 32 navios de carga, com 228 marinheiros mortos e 15 perdidos. De conformidade com o ministro sueco das relações exteriores, sete desses navios foram indiscutivelmente afundados pelos submarinos da Alemanha, três dos quais quando estavam a caminho de portos neutros; e do total de 32 apenas sete tinham a Grã-Bretanha como destino. Até 21 de fevereiro, a Noruega perdera 49 navios e 327 marinheiros. Um total de cerca de 200 navios neutros fôra destruído até o fim de março. Somente num comboio aliado, onde suas probabilidades de afundamento eram de um contra 800, estava um navio neutro razoavelmente protegido nos mares. Mas, se a navegação aliada era martelada e a neutra ameaçada, a navegação alemã era varrida dos mares. Pelo fim de março, 38 navios somando cerca de 200.000 toneladas tinham sido postos à pique, a maioria pela própria tripulação a fim de evitar a captura. Quando foram acrescentadas as cem mil toneladas da navegação alemã tomadas pelos aliados, elas somaram cerca de 8% da marinha mercante da Alemanha. As restantes estavam presas em portos alemães ou neutros ou confinados, no que dissesse respeito à navegação, às águas do Báltico e dos estados neutros do norte. A rota principal deixada aberta para a navegação alemã ficava ao longo da costa norueguesa. A Alemanha tinha preparado um caminho marítimo que permitia aos seus barcos navegar de Murmansk para os portos alemães, mantendo-se dentro de águas territoriais neutras durante todo o trajeto. Na última parte de fevereiro, foi informado que vasos de guerra aliados estavam cruzando o Ártico na região de Murmansk e Petsamo. Protestos da Noruega à Grã-Bretanha pelos fins de março revelaram que destróieres britânicos mantinham estreita vigilância sobre navios alemães carregados de minério, os quais às vezes viajavam dentro do limite de três milhas. Uma nova dosagem de audácia nas operações efetuadas pelos submarinos britânicos conduzia no dia 22 de março ao torpedeamento de um cargueiro alemão carregado de minério na zona fortemente minada do Kategat, e no dia seguinte outro cargueiro foi afundado na mesma área. Foi tornado claro que em ambos os casos, em contraste com os métodos nazistas, os comandantes dos submarinos britânicos tomaram providências para o salvamento das tripulações alemães e efetuaram a destruição dos navios sem perda de vidas. A esse tempo o bloqueio abrangia um campo ainda mais vasto. Informações de que mercadorias eram transportadas pelo mar à Alemanha através de Vladivostok e de que a Alemanha tinha feito propostas tanto à Rússia tomo ao Japão para a criação de bases submarinas no Pacífico, eram seguidas de notícias de atividade naval aliada no Extremo Oriente. Pelos fins de março, pelo menos dois navios russos - um dos quais tinha sido capturado já a 13 de janeiro - tinham sido apreendidos com a sua carga de metais em Hong Kong pelos navios de guerra britânicos. Um protesto soviético conduziu a nada mais que a entrega desses navios aos franceses por "motivos administrativos". Estava ficando claro que, onde os aliados suspeitavam que uma carga se destinava à Alemanha, ficavam cada vez menos inclinados conceder aos neutros o benefício da dúvida. Seria esperar demais que uma atividade tão constante e de tão longo alcance pudesse ser executada inteiramente sem perdas. Assim mesmo, o preço que os navios aliados eram forçados a pagar durante esse período foi comparativamente pequeno, e muito inferior ao registrado durante os primeiros meses da guerra. Nenhum navio de importância fôra afundado, conquanto o Nelson tenha sido danificado por uma mina e outro cruzador levemente atingido durante um reide aéreo sobre Scapa Flow. A 16 de janeiro, foi revelado que três submarinos britânicos tinham sido perdidos enquanto "empenhados num serviço particularmente perigoso" - presumivelmente uma tentativa para alcançar a base naval alemã da enseada de Heligoland. Dois destróieres, o Grenville e o Exmouth, foram perdidos pelos britânicos durante o mês de janeiro; outro, o Daring, foi torpedeado em fevereiro; e em março o destróier francês La Railleuse foi a vítima de uma explosão no porto de Casablanca. Contra essas perdas menores, a Grã-Bretanha tinha cinco navios grandes quase prontos, esperando-se que dois desses entrassem em serviço na primavera. A França tinha um vaso de guerra para ficar pronto provavelmente no decurso do ano, e outro, o Jean Bart - o segundo de quatro em construção - chegou à fase de lançamento nos primeiros dias de março. |
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Na questão da guerra submarina, a posição alemã era da mesma forma difícil de ser calculada. A despeito dos clamores alemães sobre produção em massa, era altamente duvidoso que mais do que quatro botes submarinos por semana tivessem sido completados, e um número mais baixo estaria provavelmente mais próximo da verdade. Isto faria pouco mais que manter o equilíbrio com a base aliada de destruição, conservadoramente calculada entre dois a três por semana. Informes sobre a natureza dos novos submarinos alemães eram igualmente variados; mas a sugestão de que a Alemanha se empenhava pela obtenção de unidades maiores capazes de mais largo campo de ação, viria ficar comprovada por evidências definitivas. A libertação do Altmark Mas, o episódio mais emocionante da guerra no mar foi um que produziu menos efeito sobre a força naval alemã do que sobre o restante do prestígio alemão. O caso do Altmark foi uma seqüência triunfante da destruição do Graf Spee. Esse navio, que tinha à bordo a tripulação de sete navios ingleses destruídos pelo cruzador de bolso, fôra objeto de uma busca meticulosa da armada britânica mesmo desde a batalha do rio da Prata. Por dois meses, o navio-prisão iludia os caçadores. E então, a 16 de fevereiro, foi localizado por aviões britânicos de reconhecimento quando deslizava pela costa norueguesa ao sul de Bergen, rumo a Hamburgo e à segurança. Três destróieres britânicos saíram no encalço de sua presa. Mas a tentativa do Intrepid de capturar o Altmark foi frustrada por um navio armado norueguês cujo comandante exigiu que os britânicos respeitassem as águas territoriais da Noruega. Durante as discussões, o Altmark penetrou no abrigo de um fiorde próximo; e então os navios britânicos retiraram-se para além do limite de três milhas e radiografaram por ordens ao Almirantado. O almirante respondeu com uma ordem de penetrar na zona neutra e libertar os prisioneiros. Foi depois do escurecer que o destróier mais antigo, Cossack, aproximou-se do norueguês e pediu que o Altmark fosse levado a Bergen sob guarda unida e ali revistado à cata de prisioneiros britânicos. Quando isto foi recusado, da mesma forma como foi recusado o pedido de que o comandante norueguês permitisse uma busca no local, o Cossack foi adiante. O Altmark, libertando-se dos gelos em que tinha sido colhido, tentou enfrentar o Cossack, mas o destróier abordou-o e um grupo de marinheiros galgou a coberta do navio alemão. Houve tiros de ambos os lados; um número de marinheiros alemães que tinha escapado pelos lados abriu fogo da terra, e o fogo com que os ingleses responderam causou entre eles numerosas baixas. Encerrados nos paióis de munição, depósitos e num tanque vazio de óleo havia 299 marujos britânicos, muitos deles em sérias condições físicas causadas pelas fadigas penosas do aprisionamento. Com estes a bordo, o Cossack deixou o Altmark paralisado entregue à respectiva tripulação e rumou com os homens libertados para a Inglaterra. Seguiu-se a isto um feixe de protestos diplomáticos. A Alemanha protestou junto à Noruega por ter esta permitido a violação de sua neutralidade. A Grã-Bretanha, alegando que o Altmark era um navio armado e que as autoridades norueguesas tinham-no abordado e revistado em Bergen, protestaram junto à Noruega por ter esta deixado de descobrir e de libertar os prisioneiros. A Noruega, negando que o navio tivesse parado em Bergen e afirmando que ignorava que houvesse prisioneiros a bordo ou que o Altmark estivesse armado, protestou contra a ação do Cossack e exigiu a volta dos marinheiros libertados - exigência provavelmente feita mais para satisfazer a Alemanha do que com a esperança de ser atendida. A cólera apoplética dos porta- vozes nazistas ofereceu o espetáculo algo cômico da Alemanha expressando horror por uma violação do direito internacional. O contraste entre a atitude normal alemã e essa repentina exigência de legalidade foi sutilmente estabelecido por Mr. Chamberlain, a 24 de fevereiro. |
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Cumprido o seu dever, por meio de formais e vigorosos protestos, acompanhados por uma oferta de arbitramento, a Noruega por sua vez mostrou-se contente em aceitar um compromisso que deixou o caso no ponto em que estava. A guerra no ar Enquanto, pois, a guerra se desenvolvia à superfície das águas como em baixo dela, a guerra no ar continuava a dar sua contribuição principal a esse aspecto particular do conflito. Extensivos vôos de reconhecimento em terra, durante os quais os aviões aliados chegavam a pontos longínquos do leste tão distantes como a Polônia, eram efetuados por ambos os lados; mas, à exceção de ocasionais encontros de patrulhas, não houve lutas, e nenhum bombardeio de objetivos civis ou militares. Mas os navios de guerra e os mercantes estavam expostos aos perigos da guerra aérea tanto quanto aos dos submarinos e das minas. Aqui, como no caso da guerra submarina, os neutros desprotegidos é que corriam os principais riscos. Os ataques aéreos alemães a comboios britânicos, conquanto aparentemente em aumento durante o mês de março, foram na quase totalidade infrutíferos. Os bombardeios e metralhamentos de traineiras e navios leves davam resultados dificilmente compensadores da indignação suscitada por tão implacável brutalidade. Ocasionalmente, um navio britânico isolado podia sofrer - como por exemplo o transatlântico de passageiros Domala, vítima, a 2 de março, de um ataque aéreo a metralhadora e o qual ceifou pelo menos 108 vidas, na maioria de indianos britânicos que estavam sendo repatriados depois de um internamento na Alemanha. Mas eram os neutros que ofereciam a presa mais fácil. particularmente porque estavam geralmente desarmados e completamente iluminados. Nove navios holandeses foram bombardeados e metralhados somente a 4 de março; outros três foram atacados no dia seguinte. A navegação escandinava não era mais respeitada pelos aviões do que pelos submarinos. Nem mesmo os italianos escapavam. A 7 de março, durante uma fase particularmente crítica nas relações entre a Grã-Bretanha e a Itália, o cargueiro italiano Emilia Lauro foi vítima de um selvagem ataque aéreo que matou um e feriu três - ação que, conforme observara, lastimosamente, o comandante italiano, "veio como surpresa de nossos amigos". Scapa e Sylt A atividade era dirigida principalmente contra navios mercantes, e de quando em vez contra os vasos de guerra ocupados no serviço de comboiamento. O esforço máximo dos aviadores alemães contra a frota britânica durante esse período verificou-se com o reide contra Scapa Flow, a 16 de março. Embora Mr. Churchill tivesse anunciado cerca de três semanas antes que Scapa Flow não havia sido usada como base principal desde o afundamento do Royal Oak, ela estava sendo utilizada claramente como importante ancoradouro, e parecia nessa ocasião estar abrigando certo número de grandes navios e outras embarcações menores. Ao escurecer do dia 16 de março, catorze Heinkels se lançaram sobre a base, num reide que durou hora e meia. Algo como cem bombas foram deixadas cair, causando sete baixas entre o pessoal naval e infringindo danos menores num vaso de guerra descrito como não sendo um "navio de primeira classe". O aspecto mais importante da incursão, todavia, consistiu no fato de os alemães terem pela primeira vez atacado objetivos de terra da mesma forma que os navios no porto. Aparentemente com o fim de danificar hangares e campos de pouso, a decolagem dos caças britânicos, os alemães lançaram bombas explosivas e incendiárias nas cercanias desses objetivos, matando um civil e ferindo sete. A ação provocou imediatas represálias britânicas. A atividade aérea britânica nesse sentido orientou-se para o interceptar dos incursores alemães, tanto por meio de patrulhamentos de costa como por ataques aéreos a bases aeronavais e para o ataque a navios alemães de patrulhamento na costa do Reich. No dia do reide contra Scapa Flow, aviadores britânicos localizaram e bombardearam vários navios de patrulha ao largo de Heligoland. Mas, a 19 de março, nova intensificação de ação se verificou, quando os britânicos efetuaram o maior reide aéreo da história contra as bases aéreas alemãs na ilha de Sylt. Tendo começado logo depois do |
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Como no caso do reide contra Scapa Flow, os comunicados britânicos e alemães sobre o reide contra Sylt mostraram ampla divergência. Os aviadores britânicos acreditaram terem destroçado numerosos hangares alemães, obtido impactos em tanques de óleo e depósitos de munição, e danificado seriamente o molhe conhecido como Dique Hindenburgo, a única ligação ferroviária da ilha com o continente. O comunicado alemão admitiu apenas danos de menor importância, e os nazis procuraram provar sua afirmativa com uma excursão cuidadosamente organizada de jornalistas especialmente escolhidos. De qualquer modo, pareceu provável que ambos os reides tinham, até certo ponto, um caráter experimental, e havia dúvidas sobre se os experimentos foram concludentes para qualquer um dos lados beligerantes. Nenhum dos dois lados, era claro, estava ainda pronto para arriscar-se a um ataque aéreo de plenitude de força. Se ficou certo que os bombardeiros podiam passar, ficou também certo que o faziam arriscando-se consideravelmente a jamais regressar. Se a defesa, não desfrutava, no ar, da preponderância que "afirmava" ter conseguido em terra, era mesmo assim bastante forte para obrigar ao atacante a interromper sua ação. Os próprios reides contra a navegação consistiam em ações rapidíssimas, em que pequenas esquadrilhas ou mesmo aparelhos isolados lançavam suas bombas e se punham imediatamente a salvo; dificilmente 3% dos navios afundados o foram por ataques aéreos. Nem também as esquadrilhas atacantes, via de regra, se empenhavam em batalhas quando alçavam vôo os aviões defensores. As perdas em combate propriamente dito, tanto nesses reides como na frente ocidental, foram desprezíveis. Os aliados pretendiam ter abatido 133 aparelhos (os alemães reconheciam a perda de 85) e danificado outros 26 tão seriamente que era improvável tivessem podido alcançar suas bases. Os alemães afirmaram ter abatido 357 aviões aliados - número que os aliados disseram ser mais que o dobro de suas perdas reais. Mas mesmo aceitando completamente as afirmações de ambos, o comentário do Spectador a 23 de fevereiro continuaria verdadeiro: "A escala da guerra aérea até esta data, e as possibilidades da guerra aérea futura, serão postas nas suas verdadeiras proporções se se notar que em todas essas luta - Mar do Norte, Baía de Heligoland, Frente Ocidental - nenhum dos lados perdeu em aparelhos o equivalente a uma semana, ou meia semana, de produção." Assim, tanto no mar como no ar, não menos que em terra, as forças armadas hesitavam em empenhar-se fortemente em luta. Ao invés elas tentavam, por meio do bloqueio e dos ataques à navegação, estrangular a vida econômica do adversário. E enquanto cada qual conduzia esta espécie de ofensiva, cada qual também se esforçava por fortalecer e consolidar sua frente interna para os esforços crescentes que se esperavam fossem exigidos pela guerra. As frentes internas A declaração do gabinete de guerra britânico, a 9 de setembro, de que os planos estavam sendo feitos de acordo com a presunção de que a guerra durasse três anos ou mais podia ser tranqüilizadora, mas dificilmente será tida como inesperada. Em contraste com o ocorrido em 1914, quando se esperava uma vitória rápida e fácil, havia agora poucas ilusões sobre o caráter sério da luta em que as nações tinham entrado. Diante de tal perspectiva, ambas as facções pareciam determinados a evitar o mais possível as dispendiosas confusões da última guerra, no terreno civil não menos que no militar. Em 1914 se verificara arraigada relutância em perturbar o curso normal da vida civil, mesmo com sacrifício de uma maior eficiência militar. Em 1939 era evidente desde o começo que todas as atividades nacionais tinham que ser orientadas com o único propósito de se obter o máximo da eficiência bélica. Para as democracias isto significou a regularização e coordenação dos esforços econômicos até um ponto muito mais extensivo que o que jamais tinham conhecido até então, dirigidas por uma concentração de autoridade muito mais poderosa que qualquer outra que existira em tempos de paz. A Grã-Bretanha e a França preferiram evitar a palavra "ditadura", como também o que ela representava. Mas para a direção eficiente das energias nacionais a uma finalidade suprema, alguma forma de autoridade central, munida de poderes adequados, era absolutamente essencial. O reconhecimento deste fato serviu de base à organização dos gabinetes de guerra em ambos os países. Por trás dessa resolução, entretanto, ostentava-se um fato ainda mais fundamental. Este era a manutenção, em ambos os países, do sistema do governo parlamentar. A autoridade obtida pelos ministros franceses e ingleses descansava solidamente na sóbria decisão de uma maioria de representantes selecionados da nação. |
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Isto foi demonstrado pela crítica constante, se bem que razoável, que os governos dos dois países tiveram que sofrer e satisfazer. Nos primeiros dias da guerra, foi a Câmara dos Comuns que promoveu uma drástica modificação dos regulamentos do Decreto das Medidas de Guerra nos interesses de uma pior liberdade pessoal. Na França, semelhante criticismo pôs fim a alguns dos piores absurdos da censura, inclusive a supressão de toda a crítica à política governamental; na Inglaterra, isto teve resultado igual com a reorganização do impropriamente denominado Ministério da Informação. Mas tais realizações reforçaram a eficácia do governo democrático, ao invés de enfraquecê-la. Conforme Mr. Churchill disse numa irradiação de 27 de janeiro: "No nosso país, os homens públicos sentem orgulho em serem servidores do povo. Envergonhar-se-iam de ser seus patrões. Ministros da Coroa sentem-se fortalecidos por terem ao seu lado a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, a se reunirem com grande regularidade e buscarem contínuas oportunidades de estimular suas atividades. Naturalmente, é bem verdade que surgem muitas vezes severas críticas ao governo em ambas as Casas. Mas nós não nos ressentimos com a crítica bem-intencionada de qualquer homem que queira vencer a guerra. Nem mesmo a crítica honesta nós evitamos, e esta é a mais perigosa de todas." O gabinete de guerra britânico Percebeu-se na Grã-Bretanha, durante a guerra passada, que um gabinete de uns vinte membros era organismo grande demais para uma eficiente direção dos negócios. Quando Mr. Lloyd George se tornou Primeiro Ministro, em 1916, ele criou um pequeno grupo interno de cinco, cuja função única era a direção da guerra. Esse foi o precedente que orientou a formação de um Gabinete de Guerra interno ao romper da presente conflagração. Presidiu-o o Primeiro Ministro e contava com Sir John Simon (Chanceler do Erário), Lord Halifax (Secretário do Exterior), Lord Chatfield (Coordenação da Defesa), Mr. Hore-Belisha (Guerra), Sir Kingsley Wood (Ar), e Sir Samuel Hoare (Lord do Selo Privado). Dois outros membros levaram a essa corporação a experiência obtida durante a Grande Guerra. Mr. Winston Churchill, voltando ao seu antigo posto no Almirantado, foi incluído no Gabinete de Guerra; e Lord Hankey, que tinha longa folha de serviço como Secretário do Comitê de Defesa Imperial e o qual servira como Secretário do Gabinete Imperial de Guerra, entrou como ministro sem pasta. Em edição, Mr. Anthony Eden, que foi nomeado Secretário dos Domínios, iria ter acesso ao Gabinete de Guerra no tocante a assuntos relativos ao seu departamento. Em 1916 observaram-se certas divergências entre esse corpo e o Gabinete de Guerra. Em primeiro lugar, este não era uma coalizão de todos os partidos. Os partidos Liberal e Trabalhista tinham sido aproximados, mas, depois de confabulações, haviam decidido manter-se de lado, prontos a apoiar os esforços de guerra do governo, mas permanecendo livres para criticar onde a crítica se mostrasse justificada. Em segundo lugar, ele consistia em grande parte na chefia de pastas. Os membros do anterior gabinete de guerra tinham sido libertados de todos os deveres administrativos, com a finalidade de poderem devotar todas as suas energias aos problemas mais amplos da guerra. No caso presente, os membros retinham suas pastas executivas, e sentiu-se que isto seria um erro. Foi também sugerido em alguns círculos que devido a razões não alheias à inclusão de Mr. Churchill - o Gabinete de Guerra pendia pesadamente para o lado dos serviços militares, e que o fiel da balança poderia, com vantagens, ser desviado para o lado civil. Mal se tinham passado quatro meses antes que uma mudança mais importante no Gabinete de Guerra tivesse lugar. A 5 de janeiro foi anunciado que Mr. Hore-Belisha renunciara a pasta de Secretário de Estado da Guerra. A notícia apanhou o público em geral inteiramente de surpresa. Mr. Hore-Belisha tinha ganho uma reputação de enérgico reformador, particularmente durante a sua gestão na pasta da Guerra. Sua drástica modificação do Supremo Comando, suas medidas para democratizar o exército e acelerar as promoções, seus esforços para melhorar o soldo dos soldados, tinham provocado comentários favoráveis. O mistério foi mal desfeito pelas explicações oficiais no Parlamento. A coisa mais aproximada a uma insinuação, na declaração algo velada de Mr. Hore-Belisha, foi a observação: "Não me ocorreu considerar que estávamos tornando o exército democrático demais para lutar pela democracia." O primeiro ministro limitou-se grandemente a negar algumas interpretações que corriam em forma de boatos. Não tem havido, disse ele, divergência alguma em política entre Mr. Hore-Belisha e o Gabinete ou o Conselho do Exército. Não tem havido pressão alguma para o seu afastamento de parte dos homens de "galões dourados", e nenhum membro do Alto Comando ameaçou renunciar. "Quero dizer apenas que cheguei à percepção de dificuldades - talvez possa descrevê-las como resultado das muito grandes qualidades de meu honrado amigo - que, a meu modo de ver, faziam desejável que alguma mudança ocorresse de quando em vez". Tudo que era possível deduzir-se de tal declaração era que, no caso de Mr. Oliver Stanley, que substituiu Mr. Hore-Belisha na pasta da Guerra, essas dificuldades peculiares dificilmente se apresentariam. |
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A substituição, se bem que aceita sem críticas sérias, pouco contribuiu para refrear a crescente impaciência que se tornou manifesta num certo número de círculos durante os meses que se sucederam. Um sentimento foi expresso abertamente: não apenas o de que certos funcionários se conduziam de um modo algo menos que ideal em seus postos, mas também o de que havia necessidade de mais eficaz coordenação dos esforços do que a empregada pelo Gabinete de Guerra nas bases existentes. No começo de abril foram tomadas medidas experimentais para conciliar esses sentimentos. Além de certas modificações ministeriais, inclusive a substituição de Sir Kingsley Wood no Ministério do Ar por Sir Samuel Hoare, e a resignação de Lord Chatfield ao seu cargo no Gabinete, a estrutura mesma do corpo central governante foi reorganizada. Mr. Churchill tornou-se chefe de um comitê composto dos chefes dos serviços de guerra; Sir John Simon, daí em diante, passou a presidir um comitê de política econômica; e Sir Kingsley Wood, agora Lord do Selo Privado, foi posto na chefia de um comitê de política interna. Assim, a direção das ativas hostilidades, dos assuntos econômicos e dos problemas sociais e domésticos foi entregue a uma autoridade coerente, com o Gabinete de Guerra a exercer a suprema função de órgão coordenador. Não era de modo algum tudo que a crítica esperava, mas representou progresso destacado em favor da unidade de direção. Governo de guerra na França Também na França, o início da guerra conduziu a uma reorganização do governo. Daladier procurou ampliar as bases de seu ministério com a inclusão de dois líderes socialistas, mas estes não obtiveram a permissão de seu partido em termos aceitáveis por Daladier. O ministério que ele anunciou a 13 de setembro era, portanto, muito semelhante na composição ao que o precedera. A modificação mais notável foi a transferência para o ministério da Justiça de M. Bonnet, que durante a sua gestão no ministério do Exterior estivera por demais ligado à política de apaziguamento. Nem também era este um órgão reduzido, nos moldes do Gabinete de Guerra britânico, se bem que de certa maneira uma significativa concentração de poderes tivesse sido efetuada quando Daladier tomou em mãos as pastas da Guerra e dos Negócios Exteriores, além da chefia do Gabinete. O parlamento francês governa tradicionalmente o executivo com mãos ciumentas; e um ministério dotado do poder de emitir decretos-leis de tanta autoridade concentrada nas mãos do primeiro ministro iria fazer com que seus atos fossem fiscalizados com cuidados ainda maiores que os habituais. Os socialistas particularmente poderiam mostrar certa preocupação a respeito da atitude do governo no tocante aos elementos mais radicais da Esquerda. Ao começo da guerra, o governo utilizou todos os recursos de sua autoridade para lançar um golpe contra os comunistas. O partido estava proscrito e seus líderes presos; sua tentativa de se reorganizar num Partido de Operários e Camponeses foi declarada ilegal; os conselhos municipais comunistas foram suprimidos, e 60 dos 73 deputados comunistas à Câmara foram privados de seus assentos. Mas, na verdade, os próprios socialistas se adiantaram em condenar Moscou desde o pacto germânico-soviético. O próprio Parlamento votou a expulsão dos deputados comunistas; e quando, em fevereiro, M. Daladier defendeu sua política ante a Câmara, em sessão secreta, obteve o triunfo quase sem precedentes de um voto unânime de confiança. Este sucesso, entretanto, mostrou-se temporário. Certa obstinação sobre a condução da guerra tornou-se evidente em março, e foi acentuada à conclusão da paz entre a Finlândia e a Rússia. A 15 de março, depois de dois dias de debates secretos, uma moção de confiança foi obtida no Senado, sem nenhum voto em contrário, mas, de um modo significativo, com certo número de abstenções. A 19 de março houve uma prolongada sessão secreta na Câmara dos Deputados. Ao terminar, uma moção expressando admiração pela Finlândia e confiança em que o governo conduzisse a guerra à vitória foi aprovada por 239 contra 1 voto. Mas as cifras demonstraram que 300 deputados, na maioria socialistas, tinham-se abstido de votar, e indicava crescente precariedade na posição do governo. O resultado foi a renúncia do governo Daladier a 20 de março. |
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O sucessor de Daladier foi Paul Reynaud, ministro das Finanças. M. Reynaud era conhecido como um homem de energia e decisão um moderado que apoiava os métodos democráticos e as finanças equilibradas. Sua reputação crescera com o trabalho desenvolvido no gabinete Daladier, onde sua política conseguira estabilizar a posição financeira da França e trouxera uma volta de confiança capaz de paralisar a evasão do capital para o exterior. Seu gabinete, em que Daladier permaneceu na qualidade de Ministro da Guerra e o próprio M. Reynaud assumiu a direção da política estrangeira, ficou marcado por dois feitos especiais. Criou um grupo central de nove ministros para agir como Gabinete de Guerra, e ampliou as bases do governo com a inclusão de três socialistas no ministério. Além disso, um Comitê de Guerra, consistente dos ministros da defesa e dos chefes dos serviços combatentes, e um Comitê Econômico Inter-Ministerial, cuja função era coordenar a atividade econômica, foram criados no interesse de uma direção central mais eficaz. O novo ministério foi recebido de maneira algo duvidosa. Seu primeiro voto de confiança foi obtido pela contagem de 268 contra 156, mas a abstenção de 111 membros deixou-o com uma maioria real de apenas um voto. Havia várias razões para isto. O gabinete dos nove, que M. Reynaud descreveu como "bastante para a deliberação, mas não para a ação", era considerado por muita gente como sendo ainda grande demais. A inclusão dos ministros socialistas foi vista com maus olhos pelos conservadores; e os radical-socialistas, o partido de Daladier, exibia certos sinais de descontentamento. Embora o novo gabinete tivesse mostrado sinais de força crescente nos dias que se seguiram, no começo de abril seu futuro era ainda duvidoso. A ascendência de Goering Na Alemanha de Adolf Hitler não havia, naturalmente, problema algum de concentração de autoridade para fins de guerra. Isto fôra conseguido com a ascenção de Hitler ao poder. Mas mesmo assim o governo alemão sentiu a necessidade de um órgão capaz de supervisar a coordenação das medidas necessárias para o eficaz prosseguimento da guerra. O equivalente alemão do Gabinete de Guerra britânico era, pois, o Conselho Ministerial para a Defesa do Reich, que Hitler criara com o decreto de 30 de agosto. O chefe desse órgão era o marechal-de-campo Goering, agora definitivamente estabelecido como segundo na importância depois do próprio Hitler. Desde que os nazistas tomaram o poder, ele tinha sido encarregado de uma sucessão de tarefas críticas, de modo que a sua autoridade já se estendia aos terrenos político, militar e econômico. Foi presidente do Reichstag, criador e chefe da força aérea alemã, e diretor do Plano de Quatro Anos que governava a atividade econômica da Alemanha. E em seu discurso no Reichstag, a 1 o de setembro, Hitler nomeou Goering seu sucessor imediato para o caso de lhe acontecer algo durante a guerra. Para o segundo na lista, e também para membro do Conselho de Defesa, Hitler nomeou Rudolf Hess. O mérito relevante deste era a sua completa devoção pessoal a Hitler. Em troca, Hitler provavelmente confiava em Hess mais que em qualquer outro de seus associados. Tornou Hess seu vice-líder no Partido Nazista, e dependia dele em muitos dos trabalhos de detalhe envolvendo coisas como a redação de decretos. Da parte de Hess, Hitler podia contar com solícita obediência. Os outros quatro membros do Conselho eram Wilhelm Frick (Ministro do Interior), dr. Walther Fuck (Ministro da Economia e diretor do Reichsbank), general Wilhelm Keitel (Chefe do Estado-Maior pessoal de Hitler) e dr. Heinrich Lamers, chefe da Chancelaria do Reich e secretário do Conselho. Esses homens eram naturalmente membros em função dos próprios cargos que ocupavam, e sua inclusão foi menos digna de nota que a omissão de certos outros líderes. A ausência de Herr von Ribbentrop poderia ser atribuída ao fato de que ele era Ministro do Exterior, visto que o Conselho iria lidar principalmente com questões domésticas. Mas a exclusão do dr. Goebbels, ministro da Propaganda, e de Heinrich Himmler, chefe da Polícia Secreta, eram levadas por muitos observadores na conta da hostilidade pessoal de Goering. Sua inimizade em relação a Goebbels havia muito era notória; e sua antipatia a Himmler, embora possivelmente mais recente, não era por isso menos amarga. Parecia ser compartilhada pelos altos círculos do exército, revoltados com a brutalidade dos métodos policiais de Himmler. Diz muito do poder de Himmler o fato de pouco tempo depois Goering ter sido obrigado a conceder-lhe o direito a um assento como substituto do dr. Frick sempre que este tivesse que ausentar-se. Ao término do ano era sentida a necessidade de coordenação ainda maia estreita. O Conselho de Defesa poderia harmonizar a política, mas algo semelhante a um Estado-Maior para a economia nacional atrairia |
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Economia de guerra "As Finanças", disse Sir John Simon ao apresentar o orçamento de guerra da Grã-Bretanha, "são a quarta arma de defesa, não menos importante que as outras três, e se as finanças falharem, o pilar que sustenta todos os nossos esforços de guerra, ruirá". Mas as finanças nesta guerra significam algo muito mais que o simples equilíbrio entre as despesas e as receitas do governo. Com todos os beligerantes, mesmo durante o período mais calmo da guerra, gastando somas equivalentes a menos de metade de suas rendas nacionais, as fontes de empréstimos e impostos tinham que ser consideradas; e isto significava, em última análise, um cuidado extraordinário com as próprias fontes de renda nacional. Um resultado foi a completa mudança de atitude quanto à questão dos gastos individuais. Em tempo de paz era natural que os cidadãos fossem encorajados a comprar quanta coisa lhes fosse possível. Quanto mais eles comprassem, maior seria o encorajamento dos esforços de produção; e esse caminho, sentia-se, conduzia à prosperidade nacional. Mas em tempo de guerra, todas as energias produtivas da nação eram necessárias à condução da guerra. Quanto mais o cidadão médio exigia para si próprio, menos ficaria para os propósitos de guerra. Por outro lado, quanto mais suas exigências fossem reduzidas ao estritamente essencial, tanto maiores seriam os recursos à disposição do Estado. Um dos modos de restringir s consumo individual era o racionamento. Isto foi introduzido na Alemanha para certo número de artigos de primeira necessidade a 27 de agosto, e depois regulamentado em setembro. Os aliados foram mais vagarosos para adotar restrições obrigatórias. Mas a 8 de janeiro a Inglaterra introduziu cartões de racionamento para a manteiga, açúcar, toucinho e presunto, e a carne foi acrescida à lista em março. Sir John Simon explicou essas medidas como destinadas deliberadamente a reduzir o consumo dos gêneros; e as medidas tomadas em fevereiro para o controle do algodão e da lã foram dirigidas para idêntico fim. As restrições francesas, introduzidas a 1 o de março, tomaram a forma não de cartões de racionamento, mas da proibição de certos alimentos em determinados dias - nenhuma carne na segunda-feira, por exemplo, e nada de farináceos na terça-feira. O álcool ficou proibido por três dias da semana, mas o vinho foi deixado à vontade dos consumidores gauleses. Um segundo método consistia na elevação dos preços - ou, alternativamente, na redução dos salários. Todos os governos beligerantes reconheceram as dificuldades com que esbarrava esta última medida; mas todos se empenharam em evitar qualquer séria elevação de salários, enquanto deixavam que os preços tomassem um rumo ascendente. No caso de certos gêneros de primeira necessidade ainda não racionados, percebeu-se que estes tinham que ser limitados; e em fevereiro o governo britânico apresentou um plano de subsídio alimentar ao custo de 58.000.000 de libras por ano para ser aplicado ao trigo e ao leite, da mesma forma que aos gêneros racionados como carne e toucinho, cujos preços se elevavam acima do desejável. Mas a elevação de preços de muitos artigos foi deixada à vontade; e nos países beligerantes - como também, na verdade, nas nações neutras da Europa - o custo da vida subiu durante esse período entre vinte e trinta por cento. A par desses acontecimentos manifestava-se um esforço, não somente para aumentar a produção da agricultura e indústria nacionais, como também - e particularmente no caso da Grã-Bretanha - para dar um estímulo especial às indústrias de exportação. As compras britânicas no exterior - sempre grandes, aumentaram substancialmente como resultado das exigências bélicas. As importações de 105.000.000 libras em janeiro ultrapassavam mais que duas vezes e meia as exportações, e excederam as importações de janeiro de 1939 em perto de 30.000.000 de libras. As importações de fevereiro baixaram a menos de 96.000.000 libras, mas as exportações também baixaram até 40.000.000 de libras. Isto envolvia não somente um problema de balança comercial, mas também um de câmbio estrangeiro. Algum alívio poderia ser esperado de planos como o da expansão da agricultura doméstica para dois milhões de acres; e o problema do câmbio poderia tornar-se menos agudo por meio de compras dentro do Império, onde as aquisições extensivas de produtos como lã, cobre e madeira já tinham sido resolvidas. Mas era aparente que sério esforço ainda tinha que ser feito para equilibrar a balança. |
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O problema das finanças Esses, pois, eram alguns dos acontecimentos que se ocultavam por trás dos esforços dos governos beligerantes para assentar as bases necessárias à neutralização do crescente custo da guerra - custo que, na Grã-Bretanha, chegava a seis e meio milhões de libras por dia. A França gastava algo menos, a Alemanha consideravelmente mais. Nem toda essa despesa podia ser coberta pelos impostos comuns, embora sérios esforços tenham sido feitos para a obtenção da maior renda possível. Os impostos sobre a renda dos britânicos subiram de 37 para 80 por cento. O imposto francês sobre a renda - de 4 para 15 por cento - parecia baixo em comparação, mas foi completado por impostos indiretos e por taxações drásticas sobre os lucros comerciais. A Alemanha aumentou um imposto já pesado em 50 por cento, e impostos indiretos sobre vários artigos em 20 por cento. Mesmo a Grã-Bretanha dificilmente poderia esperar, entretanto, obter pela taxação mais que 40 por cento de um gasto de guerra que acabaria por subir a tanto como três bilhões de libras por ano. A Alemanha teria conseguido muito se se aproximasse daquela proporção; enquanto a França, que gastaria sete e meio bilhões de dólares em 1940, teria provavelmente que obter tanto como três quartas partes daquela soma por meio de empréstimos e créditos. Essa situação exigia uma cuidadosa administração dos recursos de crédito do país. Certo uso poderia ser feito dos empregos de capital existentes, particularmente para conseguir créditos no exterior. Todos os beligerantes tinham imposto rígidas restrições cambiais. A Alemanha, naturalmente, havia muito tinha reivindicado para o Estado todos os bens de estrangeiros. Em fevereiro, a Grã-Bretanha atribuiu uma lista de sessenta garantias americanas selecionadas. Mas a principal fonte de recursos devia ser as apropriações dos fundos disponíveis dentro do país. A flutuação favorável de um empréstimo britânico de 300.000.000 libras à taxa de três por cento mostrou a intenção de se manter o custo das apropriações o mais baixo possível; e isto foi acompanhado de medidas tendentes a evitar a alta conseqüente das inversões particulares e pela fixação a um preço mínimo das garantias governamentais. A França também se empenhou em preservar ao governo uma posição crediária favorável; e a Alemanha mostrou sinais de ampliar o já extenso controle que exercia sobre a política de inversões de indivíduos e corporações. O fato era, naturalmente, que fora desses países - os baluartes financeiros da Europa - relativamente poucas fontes de crédito havia disponíveis. A Grã-Bretanha esperava poder fazer uso da capacidade de crédito do Canadá e dos outros Domínios, e poderiam ser obtidos créditos comerciais de vários neutros. Mas estes, à exceção dos Estados Unidos, tinham fundos limitados para poder pôr à disposição dos beligerantes; e os créditos americanos estavam barrados pela Lei da Neutralidade. Conforme Mr. Robert Hudson, Secretário do Comércio Ultramarino, resumiu o duplo problema dos suprimentos e finanças: "Não estamos livres para concentrar todas as nossas forças na fabricação de munições, porque devemos devotar parte dos nossos recursos industriais, uma parte crescente, ao preparo de artigos que pagarão pela matéria-prima de que essas munições por sua vez possam ser fabricadas. Não podemos tomar empréstimos externos para fazer isto, como fizemos entre 1914 e 1918. Devemos pagar à vista. Esta é uma guerra de cash- and-carry". Dificuldades orçamentárias, entretanto, não iriam, por si só, trazer o colapso a qualquer um dos beligerantes. Enquanto os seus povos continuassem a produzir, e enquanto consentissem em fazer entrega de uma parte bastante de sua produção ao Estado para fins bélicos, suas dificuldades econômicas não seriam insuperáveis. As restrições e o racionamento que tinham sido impostos o foram, na maioria dos casos, devido à necessidade da precaução, mais que em resultado de necessidades imediatas, e as necessidades absolutas da vida eram ainda satisfeitas em todos os países beligerantes. A Alemanha tinha, sem dúvida, impelido seus cidadãos para mais perto de um padrão mínimo de vida do que a Grã-Bretanha ou a França. Ao começo do ano, uma política mais suave foi adotada com respeito aos salários e horas-extras indicação de que a pressão sobre os trabalhadores era considerada como tendo ido longe demais. E quando a 15 de fevereiro Goering anunciou um aumento no preço da manteiga e do leite, ele sentiu a necessidade de acrescentar a isso um argumento de que a Alemanha tinha grande quantidade de gêneros alimentícios disponíveis, como também um apelo às donas de casa para que se mantivessem animosas. |
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No terreno comercial, as importações alemães dos neutros acessíveis pareciam alcançar ou mesmo ultrapassar o nível de antes da guerra, e certa quantidade de suprimentos de outros países gotejou através dos vizinhos da Alemanha. Um sinal menos prometedor foi o decréscimo das exportações, mesmo para a Europa continental. Para sanar as deficiências em ambos esses terrenos, as melhores esperanças da Alemanha repousavam no desenvolvimento de suas relações com a Rússia. Era verdade que pequeno lucro fôra obtido até então de tais relações. Mas um novo tratado comercial, a 12 de fevereiro, (esses tratados estavam se tornando ocorrenciais quase que mensais) acenava com o elevar do tráfico entre os dois países dos existentes 200 milhões de marcos para "um nível que excederia o de todos os anos decorrentes desde a Guerra Mundial" - isto é, ultrapassaria o bilhão de marcos a que chegara em 1931. E se tais esperanças fossem seriamente alimentadas, elas sem dúvida haveriam de receber considerável impulso com a conclusão da guerra russo-finlandesa. A Rússia e a Finlândia A severidade do inverno que se abatera sobre a Europa, fossem quais fossem os seus efeitos sobre as operações no ocidente, em nada contribuíra para diminuir a intensidade da guerra que se travava entre a Rússia e a Finlândia. Nas frentes de batalha que se estendiam ao Círculo Ártico, sob uma temperatura que às vezes decaía a 45°C. abaixo de zero, a luta prosseguia; e à medida que ela continuava, a fantasia exuberante dos primeiros informes sobre os êxitos finlandeses começou a dar lugar a apreciações mais sóbrias em torno das graves perspectivas que se descortinavam. Ao iniciar-se o ano, os finlandeses ainda mostravam uma resistência de notável sucesso à contínua pressão soviética, que se manifestava em todas as frentes. O avanço norte, de Salla ao entroncamento ferroviário de Kemijaervi, encontrou uma barreira inicial a 19 de dezembro, e uma tentativa subseqüente foi paralisada em meados de janeiro. O esforço de atravessar a estreita cintura da Finlândia, com a finalidade de alcançar o golfo de Bothnia e assim cortar as ligações ferroviárias com a Suécia, levou, pelo fim do ano, à batalha de Suomussalmi, em que os finlandeses primeiro derrotaram a 163 a divisão russa e depois, passada uma semana, voltaram-se contra a 44 a divisão, que vinha em socorro da primeira, e castigaram-na severamente. Os ataques contra a linha Mannerheim foram repelidos com êxito; outro movimento ofensivo ao sul de Suomussalmi, em Kuhmo, foi frustrado; e a séria ofensiva ao norte do lago Ladoga, que continuou por todo o mês de janeiro, chegou até o fim desse mês sem ser coroada de sucesso decisivo. Ao começo de fevereiro, entretanto, mudou a tática russa. Já então tivera lugar uma modificação no comando russo, e as tropas de segunda categoria empenhadas nas operações anteriores foram substituídas por divisões mais bem treinadas, possivelmente trazidas das forças siberianas. Essa reorganização foi então seguida de um nove plano de campanha. Até aí os esforços principais tinham sido dirigidos por forças mecanizadas contra a fronteira não-fortificada da Finlândia oriental. As dificuldades de terreno, a deficiência das comunicações russas, e a habilidade dos finlandeses em tirar plena vantagem desses fatores, tinham contribuído para a falta de êxito dos russos. Foram então abandonados os métodos iniciais. Os esforços ao norte ficaram reduzidos a meras operações auxiliares; e a 1 o de fevereiro todo o peso da ofensiva russa foi lançado num ataque frontal contra a Linha Mannerheim. A Linha Mannerheim A Linha Mannerheim era um exemplo de primeira classe de modernas fortificações. Seguiu ela os princípios adotados pelos alemães no ocidente e pelos franceses na sua mais recente construção atrás da Linha Maginot os princípios da defesa em profundidade. Tirou plena vantagem das características naturais do terreno em que fôra construída. A largura de 96 km. do istmo de Carélia é pontilhada de lagos que constituem obstáculos para um assalto em massa ao longo de todo o comprimento daquela linha. A tática de infiltração impõe-se praticamente ao atacante pela própria natureza do terreno. E as obras de fortificações haviam sido construídas justamente para fazer frente a essa tática. Elas não eram construídas numa linha contínua, mas numa série de posições isoladas. Os pontos fortes eram a cidadela de Muolaa ao centro, as defesas de Taipale no lago Ladoga, e os fortes de Koivisto no golfo da Finlândia. Entre eles, e mais atrás, em três zonas principais, havia uma série de posições fortificadas a cobrirem as principais linhas de aproximação e construídas de modo a produzir um fulminante fogo cruzado contra as tropas atacantes. Uma crescente resistência na defesa foi calculada para infligir aos atacantes perdas tais que um contra-ataque apropriado lhes completaria a destruição. |
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Parecia que uma brecha preliminar fôra aberta, na última parte de janeiro, onde o principal peso do ataque russo estava então concentrado: ao longo da estrada de Viipuri a Leningrado antes de Summa, no centro direito da linha entre Muolaa e Koivisto. Atrás do ataque havia uma concentração de artilharia remanescente das batalhas do Somme e de Verdun, durante a Grande Guerra. Assestados quase lado a lado, os canhões russos martelavam incessantemente as fortificações, atirando, segundo cálculos, umas 300.000 granadas diariamente. Os efeitos desse canhoneio foram a erradicação das peças defensoras e o desvio de sua linha de fogo, ficando assim a infantaria atacante, coberta por tanques, capacitada de avançar sobre cada posição sucessiva. Depois de uma batalha de quinze dias, Summa foi capturada e a primeira linha defensiva estava penetrada. Os finlandeses tinham obtido suas vitórias iniciais ao permitirem que as forças russas, avançassem para depois isolá-las, por meio de ataques às suas comunicações. Isto exigia uma flexibilidade de manobra que não era possível na defesa de posições fortificadas. O equivalente dessa tática na Linha Mannerheim teria sido um contra-ataque antes que o saliente criado pelos russos no ataque contra Summa se tivesse transformado numa ruptura das linhas finlandesas. Mas fortes ataques russos na extremidade oriental da linha e ao norte do lago Ladoga mantiveram engajadas substanciais forças finlandesas e impediram os finlandeses de reforçar os defensores de Summa. Eles não tinham reservas frescas disponíveis para contra-ataques, apesar da convocação de homens de 45 e 46 anos. Com a ruptura da frente finlandesa, os russos estavam capacitados a alargar a sua frente e a voltar a atenção aos fortes de Koivisto que ameaçavam seu flanco. A 26 de fevereiro. os finlandeses finalmente admitiram a perda de Koivisto. A cidade-chave de Viipuri encontrava-se então sob um bombardeio a curta distância. Tropas russas penetraram em seus subúrbios nos primeiros dias de março; outras forças russas foram empregadas num movimento de flanco em torno da baía de Viipuri. Apesar da barragem de artilharia e do fogo de metralhadoras que as acolheu no avanço aberto por sobre o gelo, elas dominaram as ilhas e a baía e puderam fixar-se no continente. A 11 de março, Viipuri estava envolvida e seus dias visivelmente contados. Mas quatro dias antes, a 7 de março, o mundo ficara atônito ao ter conhecimento da notícia de que negociações de paz já estavam em andamento entre a Rússia e a Finlândia. A oferta russa de paz Os passos que conduziram a esse acontecimento foram um segredo cuidadosamente guardado; e os vários documentos disponíveis ao tempo de ter sido este trabalho escrito haviam levantado apenas uma parte muito pequena do véu. Mas parecia claro que, mesmo depois de declarada a guerra, ambas as facções continuavam a acalentar na mente a possibilidade de um acordo. A 15 de dezembro, o Ministro dos Estrangeiros da Finlândia irradiou uma mensagem pessoal ao premier Molotov oferecendo negociações para uma paz honrosa. Oferta semelhante foi feita pelo presidente Kallio, numa reunião da Dieta de Guerra, a 1 o de fevereiro. Nesse ínterim, os russos haviam, segundo parece, informado à Suécia, a 29 de janeiro, que estavam desejosos de receber sugestões dos finlandeses, uma vez que as primitivas reivindicações russas fossem satisfeitas e garantias subseqüentes lhes fossem dadas. Mas a resposta finlandesa, e a base sugerida no discurso do presidente Kallio, não iam de encontro a essas condições. Moscou decaiu na atitude de que o regime de títeres de Terijoki, e não "os bandidos finlandeses" de Helsingfors, constituía o governo legal da Finlândia; e novas iniciativas finlandesas, por intermédio da Suécia, a 12 de fevereiro, não receberam resposta. Na parte final de fevereiro, entretanto, essa atitude mudou. Novos perigos de um choque com o Japão, sobre a fronteira da Mongólia, negociações que haviam sido interrompidas, e um certo nervosismo devido à situação interna, podem ter tido algo a ver com isso. De qualquer forma, o embaixador soviético em Londres achegou-se ao governo britânico a 22 de fevereiro com uma série de propostas que pedia à Grã-Bretanha encaminhasse à Finlândia. As propostas russas eram mais duras que as exigências originais que tinham conduzido à guerra com a Finlândia. Elas incluíam todo o território que cobre o lago Ladoga e o total do istmo de Carélia, bem como concessões na região de Petsamo e um longo arrendamento da base naval de Hangoe. O governo britânico estudou-as durante cinco dias e depois achou que eram ultrajantes demais para serem encaminhadas. Assim, tendo falhado na obtenção dos bons ofícios britânicos, o governo soviético voltou-se de novo para a Suécia. |
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A posição da Suécia Os suecos tinham boas razões para procurar a oportunidade de paz com mais empenho que os ingleses. Sua posição era a de uma crescente inquietude. A guerra entre a Alemanha e os aliados tornara a sua neutralidade bastante precária. Os interesses da Alemanha em manter acesso aos suprimentos suecos, particularmente o minério de ferro, acentuaram a sua pressão política, dirigida especialmente em favor da supressão na imprensa sueca de quaisquer comentários menos favoráveis à Alemanha. Em vista do que o comércio e a navegação suecos sofriam com os indiscriminados métodos alemães de guerra naval, tais comentários eram naturalmente de certa freqüência. E, do mesmo modo naturalmente, os aliados, conquanto simpatizassem com os suecos por sua tão difícil situação, eram obrigados a efetuar todos os esforços para impedir a sua manutenção técnica de neutralidade, utilizada, de fato, numa forma favorável à Alemanha. O início da guerra russo-finlandesa complicou enormemente a situação. Pôs a Escandinávia, particularmente a Suécia, entre três fogos. Havia a sensação geral de que a Finlândia era um baluarte essencial cuja queda tornaria a Suécia a próxima vítima da agressão russa; e um sentimento "ativista" muito considerável manifestou-se no país, exigindo não somente assistência voluntária aos finlandeses, mas também intervenção militar direta a seu favor. E mesmo que os aliados não tenham até então exercido pressão para o mesmo fim, manifestações como o discurso de Mr. Churchill a 20 de janeiro, solicitando aos neutros que apoiassem os aliados contra a Alemanha, eram sinais bastante claros de que isso poderia por fim acontecer. Contra essa possibilidade erguia-se o perigo muito mais iminente de uma ação direta alemã, se a Suécia desse um passo em falso. Não que a Alemanha fosse necessariamente hostil aos finlandeses, apesar de sua ligação com a Rússia. Ela cedeu à pressão russa, retendo aviões italianos que eram mandados à Finlândia, via Alemanha, no começo da guerra. Mas não mostrou entusiasmo algum pela aventura russa. Negou peremptoriamente o boato de que dera assistência militar ou técnica contra os finlandeses. E era significante o não ter, aparentemente, oposto objeções ao auxílio sueco à Finlândia ou ao trânsito de abastecimentos e de voluntários dos países aliados através de solo escandinavo. Uma intervenção militar aliada direta, entretanto, teria sido um caso decididamente diferente. A Alemanha nutria a viva suspeita de que o objetivo de tal intervenção não seria apenas o de libertar a Finlândia, mas também o de desfechar um golpe no Reich. Na Grã-Bretanha e França havia apoio considerável à política de ser utilizada a intervenção na Finlândia para a criação de uma frente norte contra a Alemanha e assim privar esta do acesso às minas de ferro da Suécia. Esta política foi vivamente defendida por Mr. Hore-Belisha num discurso aos seus eleitores, a 23 de fevereiro. A Alemanha, por sua vez, tornou claro à Suécia e à Noruega que a presença de tropas aliadas em seu território constituiria o sinal para uma invasão alemã. Os aliados e a Finlândia Em fevereiro, os aliados estavam definitivamente estudando uma expedição à Finlândia. As primeiras solicitações finlandesas, que se tornaram freqüentes de 30 de novembro em diante, eram de suprimentos militares. A essas, os aliados responderam com a melhor de sua capacidade, e uma relação impressionante de suprimentos, incluindo artilharia e aviões como também grande variedade de armamento leve, foi mais tarde revelada pelos governos francês e britânico. Mas não foi senão em meados de janeiro que o barão Mannerheim disse que se sentiria satisfeito em ter 30.000 soldados bem treinados pelos meados de maio. A 5 de fevereiro, o Supremo Conselho de Guerra reuniu-se e se decidiu a mandar uma expedição. Percebeu- se, entretanto, que isso provocaria um ataque alemão à Suécia e que parte da força seria requerida para auxiliar os suecos. Assim, embora o efetivo da expedição fosse estabelecido em 100.000, apenas 30.000 iriam realmente para a Finlândia. Foi sugerido aos finlandeses na segunda metade de fevereiro que fizessem um apelo público por uma expedição que não chegasse depois de 5 de março, o que permitiria aos aliados ajustar com a Noruega e a Suécia a questão da passagem. A esse tempo, com a Rússia a martelar a Linha Mannerheim, a situação finlandesa se tornara muito mais desesperadora. A 13 de fevereiro, mais ou menos, a Finlândia procurou os países escandinavos com um pedido oficial de auxílio militar, estabelecendo que a alternativa era para ela solicitar intervenção aliada, e deixando compreendido que os aliados tinham feito uma promessa concreta de assistência militar. A 16 de fevereiro foi anunciado que a Suécia recusou a solicitação finlandesa. A notícia conduziu a um estourar de protestos "ativistas" tão sério que dois dias depois o rei Gustavo teve que convocar o Conselho da Coroa a fim de fazer uma declaração pública apoiando a ação de seus ministros. A 25 de fevereiro, uma reunião dos ministros do Exterior da Noruega, Suécia e Dinamarca resultou na declaração de que estes países estavam unanimemente decididos a manter sua neutralidade, e que "receberiam com satisfação quaisquer propostas para o início de negociações entre os beligerantes." |
Entrementes, parece que os finlandeses tinham começado a fazer pressão por um auxílio aliado mais imediato. Uma declaração de M. Daladier, a 12 de março, revelou que no começo da segunda metade de fevereiro, fôra feito um apelo e que a 16 de fevereiro os finlandeses haviam sido informados de que os transportes necessários tinham sido reunidos e que os franceses dispunham de 50.000 soldados prontos para embarcar. Reconheceu-se, não oficialmente, haver a Inglaterra tomado medidas semelhantes. Enquanto esperavam um pedido formal da Finlândia, os aliados trataram de limpar o caminho na Escandinávia. A 2 de março, de conformidade com uma declaração do ministro dos Estrangeiros da Noruega, os aliados pediram a este país e à Suécia permissão para o transporte de tropas através de seu território. A Suécia recusou a 3 de março; a Noruega a 4 de março. A esse tempo, conversações preliminares de paz estavam em andamento em Estocolmo, e os próprios finlandeses se mostravam hesitantes. Pediram aos aliados permissão para suspender a sua decisão de uma solicitação formal de ajuda, e ao mesmo tempo inquiriam se podiam contar com 50.000 homens no prazo de um mês. Os aliados, de conformidade com Mr. Chamberlain, responderam que a sua proposta anterior representava a maior força materialmente capaz de ser transportada. Este era o significado, aparentemente, de "todos os recursos disponíveis" que, conforme disse Mr. Chamberlain na Câmara dos Comuns a 11 de março, os aliados tinham prometido oferecer à Finlândia, se esta lhes pedisse. Mas o pedido jamais veio, pois que os finlandeses já estavam negociando os termos finais da paz em Moscou. Um pedido formal dos aliados, a 12 de março, de passagem pela Escandinávia não deu em nada, pois que algumas horas mais tarde os representantes finlandeses firmaram o tratado de paz com a Rússia. O tratado de paz russo-finlandês Os termos impostos pelo tratado à Finlândia eram muito mais severos que os que ela havia rejeitado em novembro. Ao norte, ela obteve a volta de Petsamo, que os russos tinham ocupado ao começo da guerra; mas as restrições do tratado de paz de 1920 a respeito de forças navais naquela região foram renovadas, e um território na península de Rybachi devia ser cedido. Na fronteira oriental, ao invés de obterem uma faixa da Carélia Russa, de conformidade com as propostas anteriores, os finlandeses cederam uma faixa na região de Salla, incluindo a cidade de Kuolajaervi. Além disso, houve importantes concessões de trânsito em ambas estas regiões. Haveria livre trânsito entre a Rússia e a Noruega através da região de Petsamo, e entre a Rússia e a Suécia pela rota ferroviária mais curta. Para este propósito, os finlandeses prometeram que a linha que corria do interior do golfo de Bothnia até Kemiajervi iria nesse mesmo ano estender-se até atingir a fronteira e estabelecer ligação com uma linha russa de Kandalaksha. Isto completaria uma rápida rota de trânsito da extremidade do golfo de Bothnia ao mar Branco, o que poderia ser de primeira importância para o desenvolvimento da região de Murmansk. Mas foi no sul que a Finlândia sofreu as perdas realmente importantes As negociações anteriores tinham fracassado em conseqüência da relutância finlandesa em ceder as ilhas estratégicas do golfo da Finlândìa e vender ou arrendar a base naval de Hangoe. Agora, os finlandeses tiveram que atender a ambas as exigências. Todas as ilhas na baía de Viipuri e um certo número no golfo da Finlândia foram entregues. Hangoe foi arrendada à Rússia por trinta anos, a uma renda anual de 8 milhões de marcos finlandeses, e a península e ilhas adjacentes passaram para administração russa até a duração do prazo de arrendamento. Os termos relativos ao istmo de Carélia foram os mais drásticos de todos. As exigências originais da Rússia baseavam-se apenas num reajustamento fronteiriço sem importância, que faria recuar a fronteira de modo a deixar Leningrado fora do alcance de artilharia. Ao invés, o istmo todo, inclusive Viipuri, foi cedido juntamente, com uma faixa para o norte do lago Ladoga, colocando-o completamente em território russo. Economicamente, esta foi a perda mais grave sofrida pela Finlândia. Viipuri, ou Viborg, a terceira cidade da Finlândia em tamanho, era o porto de mar de uma área que continha grande parte da indústria finlandesa. Agora metade dessa área, com importantes serrarias e fábricas de pasta para papel e uma população de cerca de 400.000 pessoas, era entregue à Rússia, enquanto a área remanescente ficava privada de um acesso direto ao seu escoadouro natural. |
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A perspectiva de que a Rússia tivesse assim a Finlândia à sua mercê constituía motivo de grave preocupação para a Suécia. A garantia russa de que não tinha mais aspirações territoriais na Escandinávia foi aceita com alguma reserva, que não foi mitigada pela informação de que, na comissão designada para assentar os detalhes da nova fronteira, os delegados russos tinham traçado um mapa que estendia suas reivindicações a vários pontos. E quando a proposta de um pacto de defesa mútua entre a Suécia, Noruega e Finlândia foi vetada pela Rússia, como sendo contrária à cláusula do tratado que proibia alianças hostis, parecia claro que a Rússia estava determinada a manter a Finlândia dentro da sua própria órbita política. Desta forma, a paz, embora tivesse apaziguado as apreensões imediatas da Suécia, de forma nenhuma as removeu inteiramente. Em certos círculos manifestava-se a tendência de criticar a Suécia pelas suas argumentações, e particularmente pelo seu bloqueio da intervenção aliada. Mas o seu problema era de caráter desesperadamente difícil, e a sua simpatia pelos finlandeses tinha sido demonstrada de uma forma a mais tangível. Calcula-se que nove mil voluntários suecos tinham sido enviados à Finlândia - indubitavelmente muito mais que os que tinham vindo de todos os outros países juntos. Cinco mil mais tinham oferecido seus serviços. Dinheiro e suprimentos no valor de 125.000.000 de marcos filandeses lhes tinham sido mandados. Para uma nação de 6.000.000 de habitantes esse esforço não era de modo algum pequeno. O balanço de toda a questão foi muito bem resumido pelo barão Mannerheim nas suas despedidas às exaustas forças finlandesas: "Sem o auxílio pronto, em armas e equipamentos, que nos foi dado pela Suécia e as potências ocidentais, a nossa luta até esta data teria sido concebível... Somos orgulhosamente cônscios do dever histórico, que continuaremos a cumprir - a defesa daquela civilização ocidental que tem sido nossa herança por séculos; mas também sabemos que pagamos até o último níquel qualquer dívida que porventura tenhamos contraído com o Ocidente." O Oriente Próximo e os Bálcãs O fim da guerra finlandesa removeu, temporariamente, qualquer imediata perspectiva de criação de uma frente norte contra a Alemanha. Era esta uma perspectiva que tinha sido abertamente discutida por certo número de comentadores, tanto na Inglaterra como na França, os quais achavam que a existência da linha Siegfried tornava necessário o encontro de outro ponto mais promissor por onde a Alemanha pudesse ser atacada. Mas uma frente norte não era a única possibilidade; e enquanto alguns olhos estavam voltados para a Escandinávia e a Finlândia, outros perscrutavam, especulantes, os Bálcãs e o Oriente Próximo. Essa especulação foi alimentada pela revelação de que mui consideráveis preparativos militares aliados estavam a caminho na extremidade oriental do Mediterrâneo. O desembarque em Suez, a 12 de fevereiro, de um contingente de tropas australianas e neozelandesas, estimado em 30.000 homens, chamou a atenção sobre as forças muito consideráveis que estavam sendo concentradas naquela região. Tropas britânicas no Egito e na Palestina e tropas francesas na Síria, calculava-se com justeza, tinham atingido um total de bem acima de meio milhão de homens. A Turquia tinha cerca de 350.000 homens em armas; e na segunda parte de março a realização de uma conferência em Aleppo entre os Estados-Maiores aliados e turco sugeriram que essas forças estavam se preparando para agir de acordo quando a ocasião se apresentasse. |
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Um ataque aos próprios poços de Baku teria que ser conduzido através do difícil terreno montanhoso do Cáucaso meridional. Séria falta de comunicações agravaria essa dificuldade; é que, embora fosse informado que a Turquia tinha completado uma nova linha ferroviária para Erzerum, parte dessa linha não passava ainda de bitola estreita, e o próprio sistema ferroviário turco tinha sofrido considerável dano em resultado do tremor de terra da Anatólia setentrional, em princípios do ano. Se, contudo, o principal objetivo era cortar os suprimentos para a Alemanha, algo poderia ser feito pela tomada de Baku. Esse porto, terminal, no mar Negro, do oleoduto de Baku, ficava a apenas 32 km. da fronteira turca, e seria vulnerável a um ataque ou bloqueio pelo mar. Um incentivo para tal ação foi fornecido pela notícia, em fevereiro, de que navios-tanque russos estavam começando a transportar petróleo de Batum para o porto romeno de Constança, onde este ficaria armazenado para depois ser reembarcado para a Alemanha. Afirmou-se mesmo que os aliados, na conferência de Aleppo, tinham aplanado o caminho para a obtenção do consentimento da Turquia de passagem de vasos de guerra aliados através dos Dardanelos para o mar Negro - informe este que, entretanto, os aliados logo desmentiram. Por outro lado, foi sugerida a possibilidade da Rússia mesma desferir um ataque, não tanto à Turquia, como à Pérsia ou ao Iraque. A finalidade seria os campos de petróleo de Mosul ou as comunicações aliadas com a Índia, através do golfo Pérsico. Certo esforço foi feito para o encontro de um significado agressivo nas misteriosas manobras navais russas no mar Negro, manobras que tiveram lugar na última fase de fevereiro. Mas, conquanto um certo nervosismo fosse informado como existente entre as nações do Oriente Médio, nenhuma prova tangível surgiu de que a Rússia estivesse alimentando quaisquer desígnios agressivos naquela direção. Uma terceira possibilidade de ação existia sobre os Bálcãs. Se um ou mais Estados balcânicos se resolvessem afinal a entrar para o campo dos aliados, ficaria aberta a possibilidade da criação de uma frente oriental contra a Alemanha. Se um desses Estados fosse atacado pela Alemanha ou pela Rússia, semelhante perspectiva se apresentaria. E em vista da intensa luta diplomática que vinha sendo travada nessa região era bastante possível que algo semelhante pudesse verificar-se. Ao mesmo tempo, era improvável que a Alemanha atacasse nos Bálcãs até que todas as outras formas de pressão estivessem esgotadas. O que a Alemanha queria no momento era não tanto a posse das terras daquela região como a garantia de que os produtos dessas terras lhe ficariam à plena disposição. Uma invasão militar também mui provavelmente interviria na produção, frustrando, pelo menos temporariamente, o propósito que se destinaria a servir. Enquanto os países balcânicos continuassem a comerciar com ela, a Alemanha teria todo o interesse em apoiar-lhes a neutralidade, tentando, simultaneamente, por todos os meios de pacífica pressão colocar suas economias a serviço do Reich. A Romênia e a Alemanha O foco principal de tal pressão - e não somente do lado alemão mas também do aliado - era a Romênia. Os produtos romenos eram de primeira necessidade para a Alemanha, e o mais importante deles era o petróleo. Pelo acordo de dezembro, supunha-se que a Alemanha tinha assegurado um mínimo de 130.000 toneladas por mês. Na verdade, entretanto, os fornecimentos de janeiro não chegaram a mais de 26.000 toneladas. Ampla variedade de obstáculos erguia-se a caminho. O transporte por si mesmo apresentava um problema formidável. O Danúbio gelado impedia o transporte por água, e os aliados se preparavam para a primavera fretando todos os barcos disponíveis, a fim de deixá-los fora do alcance dos alemães. O funcionamento dos transportes por estradas de ferro, através da Galícia, agora em poder da Rússia, era tão pouco satisfatório que, pelo fim de janeiro, a Alemanha arranjou permissão para colocar em serviço as seus próprios técnicos e guardas de ferrovia, a fim de tentar remediar a situação: A concorrência aliada nas compras elevou o preço de 17 para 44 dólares por tonelada. A pressão alemã em favor do aumento dos embarques foi respondida pela contra-pressão aliada. Oitenta por cento da indústria petrolífera romena pertencia a estrangeiros; e quando, a 17 de janeiro, uma comissão de petróleo foi nomeada para regulamentar a indústria, a Romênia foi advertida pelos aliados de que não deveria forçar as companhias francesas e britânicas a fornecerem petróleo à Alemanha. Em fevereiro, com o estrangulamento do comércio da România e corte dos embarques de metais e borracha, os aliados extraíram do governo do rei Carol a promessa de que as exigências alemães de aumento das cotas não seriam aceitas e de que seriam sustados os embarques de gasolina de aviação para o Reich. Pelo menos durante o inverno, as esperanças nazistas de receber substanciais fornecimentos de petróleo da Romênia pareciam destinadas a sofrer um desapontamento |
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Houve ainda medidas a interferir também nos fornecimentos de outros produtos. A 12 de fevereiro foram impostas aos cereais e óleos vegetais fortes taxas de exportação. A 22 do mesmo mês, um interdito de exportação foi imposto a uma longa relação de artigos empregados na manufatura de munições. A 26 de fevereiro, foram aumentados os fretes de exportação, em alguns casos até em 40 por cento. Além disso, a Romênia, no começo de março, tinha 1.600.000 homens em armas - circunstância que empobrecia a agricultura romena e reduzia o total da produção agro-pecuária disponível para a Alemanha. Uma tentativa alemã de obter a redução desse efetivo com o oferecimento de garantia das fronteiras da Romênia foi acompanhada pela exigência de, praticamente, um monopólio do comércio romeno e da inclusão dos simpatizantes dos nazistas no ministério - exigências essas que foram firmemente rejeitadas. No fim de março, uma missão alemã chegou para negociar novas concessões comerciais, particularmente em torno de produtos agrícolas e cotas de petróleo; mas até o fim do mês não parecia haver obtido qualquer êxito digno de menção. A Turquia e a Aliança Balcânica Por trás desse equilíbrio bem sucedido da Romênia entre os beligerantes estava o esforço de todo o grupo dos Estados balcânicos de permanecer alheio ao conflito. Esta atitude foi indubitavelmente fortalecida pela posição da Turquia. Era verdade que a Turquia mesma estava francamente a favor dos aliados. Os termos de sua aliança, suas estreitas relações econômicas com a Grã-Bretanha e a França, e episódios como a ocupação das fábricas Krupp em Estambul e a expulsão de mais de cem técnicos alemães eram expressões claras de sua simpatia. Conforme o ministro turco das Relações Exteriores declarara no começo de fevereiro: "A Turquia não é neutra, mas apenas não-beligerante no momento." Mas a sua influência sobre os países balcânicos era dirigida menos para impeli-los para o lado dos aliados do que para mantê-los fora do controle da Alemanha. E a sua influência não ficou diminuída com a sua posição firme em favor da independência balcânica. Como um jornal turco dissera a 20 de fevereiro: "Se a Alemanha atacar os Bálcãs encontrar-nos-á para enfrentá-la ao lado dos aliados. Nosso país não esperará a sua vez de braços cruzados, enquanto os Bálcãs forem esmagados. Este é um erro que nós não cometeremos.'' Houve alguns sinais no começo do ano de uma tendência turca para encorajar a formação de um bloco balcânico mais forte como barreira eficaz à penetração alemã ou russa, e por algum tempo parecia que os Estados balcânicos concordariam com essa idéia. Mas qualquer frente comum envolveria o ajuste das dificuldades existentes entre esses mesmos Estados, e ficou demonstrado que isto constituía um grande embaraço. Neste caso, novamente, a Romênia foi o foco. Ela tinha obtido territórios tanto da Hungria como da Bulgária no fim da guerra passada, e não estava disposta a desistir deles para ganhar a amizade desses dois vizinhos seus. A Bulgária, segundo parecia, não tencionava criar dificuldades sérias, e a própria Hungria não oferecia qualquer ameaça imediata; mas nenhum desses países estava disposto a renunciar às suas ambições territoriais, que somente poderiam ser satisfeitas às custas da Romênia. Havia alguma perspectiva de que se fizesse algum esforço para encontrar uma solução, quando a conferência da Aliança Balcânica - a que nem a Hungria, nem a Bulgária pertenciam - reuniu-se em Belgrado, a 2 de fevereiro. Mas a conferência, de três dias de duração, findou sem qualquer outro resultado, além de um comunicado ligeiro expressando o interesse comum pela manutenção da neutralidade e da paz. Isto deixou claro que os outros membros da Aliança não estavam dispostos a exercer pressão efetiva sobre a Romênia no interesse de uma solidariedade mais ampla. Mais significativo ainda era que nenhum passo pareceu ter sido dado em favor de um acordo de apoio mútuo contra a agressão. De fato, o ministro das Relações Exteriores da Iugoslávia, ao encerramento da conferência, asseverou com considerável otimismo que "Os Bálcãs não estão ameaçados por lado algum". Mas pelo menos era verdade que a sensação de perigo imediato que se alastrara ao começo do ano dera lugar a um maior grau de confiança na segurança dos Bálcãs. Isto queria dizer que a unidade não era, no momento suficientemente importante para impelir os diversos Estados a fazer concessões sérias ou firmar compromissos de apoio mútuo. E a razão desse modo de pensar era menos a fé nas intenções reais da Alemanha do que a sensação de maior desafogo em relação às atitudes da Itália e da Rússia. |
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A atitude de encorajamento em favor da idéia de um bloco balcânico, que a Itália, numa fase, pareceu ter adotado, diminuía de força à medida que o ano se escoava. Ela tinha sido motivada em primeiro lugar pelo receio da penetração russa nos Bálcãs, talvez mesmo de um ataque russo naquela região. Mas esse receio se desfez quando a Rússia ficou com a Finlândia, e com isto também diminuiu o desejo de solidariedade nos Bálcãs. Afinal de contas, havia ao menos a possibilidade de que a influência da Turquia sobre um agrupamento dessa espécie pudesse tornar-se forte bastante para atraí-lo à órbita aliada, e isto não seria de modo algum vantajoso para a Itália. Seus propósitos seriam melhor servidos se os Estados balcânicos pudessem continuar suspeitando de todos os beligerantes, inclusive da Rússia. Então, movidos pelo desejo de manter sua neutralidade, poderiam mostrar-se inclinados a procurar o apoio da Itália, e a aceitar uma benévola orientação política deste país em troca da perspectiva de sua proteção. Isto significava que a Itália, como as outras Grandes Potências, tinha um interesse, bem definido quanto à situação da Romênia. Se a Rússia tinha alguma intenção de expandir-se nos Bálcãs, a Romênia é que deveria formar a primeira linha de defesa. E se a Itália obtivesse garantias de que a Romênia estava firmemente resolvida opor-se ao avanço do bolchevismo, verse-ia obrigada neste caso a ir em socorro da Romênia. Foi, de fato, assegurado no Senado romeno que Mussolini tinha prometido vir em auxílio desse país em caso de ataque, não importa de onde partisse. Havia razão para dúvidas, entretanto, sobre se a Itália faria uma promessa de tal natureza, inteiramente sem reservas. Embora ela reconhecesse a posição crucial da Romênia, tinha um interesse tradicional muito mais vivo pela Hungria; e a Hungria, embora mantivesse uma atitude moderada, de modo nenhum tinha abandonado o desejo de reaver o território perdido para a Romênia. A Hungria também estava numa posição de certo modo exposta. Ela também tinha a Rússia por vizinha; e, o que ainda é mais importante, estava obstruindo grandemente o caminho de qualquer projetada expansão alemã pelo Danúbio. Para a Hungria, pois, havia boas razões em fortalecer os laços com a Itália, e para a Itália em apoiar a Hungria como um baluarte de uma zona balcânica neutra. Nos começos de janeiro, os dois ministros das Relações Exteriores, conde Ciano e conde Csaky, tiveram uma conferência na Itália. A declaração de que tinham estabelecido "uma perfeita identidade de vistas" foi interpretada como significando quase tudo para uma aliança militar definitiva. Foi desmentido em Roma que qualquer novo acordo formal tivesse sido negociado; mas pareceu provável que os dois estadistas tinham acordado a resistência comum à Rússia, e que Ciano, enquanto, possivelmente, tivesse renovado a promessa de apoio italiano às reivindicações territoriais da Hungria, usara de sua influência para persuadir este país a não exercer pressão em tal sentido no momento. A carência de qualquer acordo preciso foi sugerida pelas circunstância que cercaram a visita do primeiro ministro Teleki a Roma na última semana de março. Os rumores de que o encontro de Hitler com Mussolini no Brenner era o prelúdio de uma reaproximação ítalo-russa deixaram naturalmente a Hungria nervosa a respeito de sua posição. Aparentemente, o conde Telek foi tranqüilizado quanto a este ponto particular pela informação de que a Itália não encarava transformação fundamental alguma de sua atitude em relação a Moscou. Ao mesmo tempo, entretanto, foi-lhe dado perceber que as próprias ambições da Hungria não poderiam complicar uma situação extremamente delicada. "A Hungria", disse ele numa entrevista, "plenamente cônscia da dificuldade do momento, adotou uma atitude que harmonizava com as necessidades superiores da Europa. Meu país é paciente. Ele tem uma história milenar, e portanto pode esperar." Era uma clara demonstração de que as reivindicações particulares da Hungria iriam ser protelada: para quando o resultado da guerra européia se mostrasse mais certo do que parecia no momento. O que não era tão claro era fazer com que tudo isso ficasse dentro da influência alemã na bacia do Danúbio. Embora a Itália naturalmente desejasse uma posição predominante, poucos sinais havia de que ela estivesse disposta a oferecer qualquer forte resistência à penetração alemã na Hungria e nos Bálcãs. Sua atitude era a de que a Itália não era neutra, mas sim um país não-beligerante cujos laços com a Alemanha permaneciam firme; como nunca. A conclusão de um acordo comercial a 24 de fevereiro, após um mês de negociações, foi transformada na oportunidade para a reafirmação da colaboração política entre a Alemanha e a Itália; e a imprensa controlada continuava a manifestar uma contínua hostilidade em relação à Grã-Bretanha e à França. |
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A disputa do carvão Foi talvez com a intenção de esclarecer a atitude italiana por um exemplo que a advertisse sobre as conseqüências de qualquer real hostilidade que a Grã-Bretanha, no fim de fevereiro, sufocou os fornecimentos de carvão alemão. A ocasião era a da suspensão das negociações comerciais anglo-italianas. A Grã-Bretanha, acreditava-se, tinha oferecido suprir a Itália de certas matérias-primas industriais em troca de armas e munições. A Itália esquivou-se a fornecer armas à inimiga da Alemanha e ofereceu pagar com produtos tais como frutas e téxteis. (Foi notado, entretanto, que os fornecimentos de armas italianas à França continuavam sem interrupção; e a 6 de março um novo acordo comercial foi firmado entre os dois países). Pelos meados de fevereiro, as negociações com a Inglaterra foram suspensas; após mais algumas escaramuças, foi anunciado que todos os carregamentos de carvão da Alemanha para a Itália seriam interceptados a contar da meia noite de 1 o de março. Essa ordem feriu a Itália num ponto particularmente sensível. Ela importava cerca de doze milhões de toneladas de carvão por ano, e, destas, sete milhões vinham da Grande Alemanha. Normalmente, dez milhões chegavam por mar; e, embora parte desse carvão pudesse ser transportada por terra, calculava-se que as super-ocupadas estradas de ferro alemães possivelmente não poderiam transportar mais que cinco milhões de toneladas. Se a Itália quisesse obter o combustível tão vital às suas indústrias, tinha que entrar em acordo com os aliados. A Grã-Bretanha já tinha demonstrado o desejo de lidar brandamente com a Itália ao permitir que o carvão alemão continuasse a fazer parte das exportações da Alemanha mesmo depois da interdição de dezembro. Parece que a Itália estava incerta sobre se a nova medida iria realmente ser reforçada e se decidiu a tirar uma prova disso com o desafiar da ordem britânica. Treze transportes italianos de carvão que deixaram os portos alemães ao começo de março foram prontamente capturados pela frota britânica. Com uma falta de carvão já existente e os preços a subirem rapidamente, a Itália, apesar de protestos irados, decidiu-se a procurar um acordo. A Grã-Bretanha, por sua vez, estava pronta a aceitar uma transigência, particularmente em vista da projetada visita de Ribbentrop a Roma. A 9 de março ficou decidido o reinício das negociações comerciais, tendo a Grã-Bretanha desistido de insistir sobre os armamentos, mas obtido uma promessa de fornecimento de materiais como caminhões e motores para avião, e a Itália prometido não importar mais carvão alemão por mar. Para assinalar a lição, a nota britânica de 20 de março, em resposta aos anteriores protestos italianos, afirmou que os navios italianos, bem como os de outros países neutros, tinham sofrido as conseqüências do completo desrespeito alemão às leia de guerra, assegurando a intenção de, no futuro, usar todas as armas legais contra o Reich. Esse acordo chegou justamente no momento em que a Alemanha estava empenhada em novos esforços para arrastar sua parceira do Eixo a uma cooperação mais eficiente. Sua ansiedade em torno das possíveis complicações que poderiam resultar da guerra finlandesa desvanecera-se agora com a perspectiva da paz entre a Rússia e a Finlândia. Seu desejo de melhorar e consolidar a posição na Europa sul-oriental podia agora prosseguir com mais vigor e liberdade. A possibilidade de que a derrota da Finlândia fosse considerada como um revés dos aliados, capaz de ferir o seu prestígio nos Estados balcânicos, era uma razão adicional para tirar vantagem desse momento particular. E a Itália, cuja cooperação era essencial numa empresa de tal espécie poderia, impelida pelo ressentimento ficado da disputa do carvão com a Grã-Bretanha, oferecer auxílio à Alemanha. Hitler e Mussolini A 10 de março, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, von Ribbentrop, chegou a Roma em missão diplomática de exploração. Além das conversações com o rei e Mussolini, fez uma visita ao Vaticano, no desejo de suavizar as relações tensas entre o Papado e o Reich. Aí, foi friamente correta a recepção de que o fizeram alvo. O Papa tinha estado durante algum tempo gravemente ressentido com a cruel brutalidade do tratamento alemão aos poloneses derrotados, e ele deixou claro, como o fizera no programa de paz de cinco ítens apresentado no Natal, que a reparação de tais injustiças era, a seu modo de ver, condição essencial à paz. |
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Parecia certo que von Ribbentrop falhara em quaisquer tentativas que pudesse ter feito para obter o apoio do Pontífice em favor de uma cruzada de paz. Suas conversações com os líderes italianos, embora possivelmente mais cordiais, não pareciam ter conseguido nenhum resultado mais tangível. Um acordo sobre os fornecimentos de carvão alemão sugeriu que a influência de von Ribbentrop tinha sido utilizada para apoiar as negociações comerciais que o dr. Clodius estava na ocasião realizando em Roma. Mas embora o comunicado final dissesse que as conversações haviam sido levadas a efeito dentro do espírito e da estrutura do pacto de aliança e dos acordos existentes entre a Itália e a Alemanha, não pareceu que se tivesse concordado sobre qualquer medida positiva. Foi significativo o fato de nem bem havia von Ribbentrop cruzado os Alpes, ter sido anunciado oficialmente que as novas fortificações italianas cobriam as fronteiras tanto da Alemanha como da França - declaração essa saudada com entusiásticos aplausos pela Câmara italiana. Nessa situação, Hitler se decidiu a tratar ele próprio do problema. Numa declaração de surpresa a 17 de março, foi revelado que os dois ditadores tinham combinado um encontro para o dia seguinte na fronteira italiana. O encontro de Brennero de 18 de março foi oficialmente descrito como um "colóquio cordial". Além desta, nenhuma informação positiva foi concedida. Mas embora quaisquer conclusões fossem, portanto, algo especulativas, era ainda possível divisar entre essas várias atividades diplomáticas os contornos da política que a Alemanha tinha em mente. O primeiro elemento nessa política era o desejo de se impedir que as hostilidades se estendessem. Fossem quais fossem os planos militares da Alemanha, ela parecia inclinada a confinar a guerra ao ocidente e a impedir a criação de uma nova frente na qual os aliados pudessem atacar. Isto envolvia a manutenção da neutralidade balcânica - uma área resistente que guardaria as portas de fundo da Alemanha. Para plena segurança, era desejável que a influência política predominante nos Bálcãs fosse a da Alemanha e seus amigos. Isto aplanaria o caminho ao incremento da influência econômica que traria os Estados balcânicos de modo efetivo sob dominação alemã e permitiria a plena exploração de seus recursos agrícolas e outros. A criação de um forte bloco econômico nessa região, firmemente ligado à Alemanha, pelas relações comerciais, representaria longo caminho percorrido em favor da frustração do bloqueio aliado; e se o xeque- mate resultante não convencesse os aliados da desesperança em continuar a luta, poderia aplainar o caminho para um golpe esmagador e possivelmente decisivo da Alemanha no ocidente. Um plano desta ordem, entretanto, requereria a cooperação tanto da Rússia como da Itália com a Alemanha. A concorrência dessas três potências pela influência nos Bálcãs, e os receios que ela provocou, tornaram possível à Turquia e aos aliados manter viva a sua influência naquela região. Uma frente comum, por outro lado, poderia estabelecer tal pressão sobre os Bálcãs que eles não teriam outra escolha a fazer, senão a de aceitar o domínio e de adaptar as respectivas políticas para servir as necessidades bélicas da Alemanha. Esse era o ponto crítico de todo o plano, e, sob quaisquer aparências, constituía um obstáculo que não era fácil de transpor. A hostilidade italiana ao bolchevismo, que aumentou rapidamente depois do tratado germano-soviético de agosto, tinha-se inflamado com o rebentar da guerra finlandesa. A possibilidade de um avanço russo nos Bálcãs fez com que a Itália encarasse a Rússia como a inimiga mais imediata. A Alemanha parecia esperar que o fim da guerra finlandesa diminuísse essa hostilidade, e que a garantia de que a Rússia estava pronta para proteger as fronteiras romenas e turca aquietaria o temor italiano. Mas a Itália mostrava-se céptica; e a anunciada alegação de Ciano a Ribbentrop de que a Itália não tinha intenção alguma de mudar sua política era relativa tanto à sua atitude para com a Rússia como à sua manutenção da neutralidade. A Rússia e o Eixo A Rússia, por sua vez, parecia igualmente fria relativamente a idéia de uma cooperação mais estreita. Embora Berlim persistentemente informasse que o premier Molotov estava para visitar a capital alemã, não havia quaisquer indício de que tal se realizasse. Ao invés, a conclusão da paz com a Finlândia parecia ter sido aproveitada como oportunidade para a volta a uma atitude de vigilante e defensiva neutralidade. |
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A atitude da Rússia foi resumida pelo premier Molotov num discurso perante o Soviete Supremo a 29 de março. Reiterando sua promessa de não reaver a Bessarábia da Romênia pela força, e relembrando a existência de pactos de não-agressão com a Turquia e o Irã, expressou ele suspeitas em torno dos preparativos dos aliados no Oriente Próximo e advertiu-os de que estavam brincando com fogo. Seu tom foi saturado de hostilidade clara aos aliados - hostilidade aumentada pela ação francesa de exigir o regresso do embaixador soviético depois de seu telegrama demasiado antidiplomático sobre a conclusão da paz finlandesa. Foi tornado abundantemente claro por essas passagens, como também pelas referências de Molotov à América, que a Rússia continuava a não sentir amizade às potências ocidentais. Os aliados, contudo, acharam que um certo conforto podia ser extraído da carência de qualquer cordialidade fora do comum nas referências de Molotov ao Eixo. A julgar por esse discurso, a relutância da Itália em entrar em relações amigáveis com a Rússia parecia ser retribuída por Moscou. Houve um relancear à atitude da Itália em relação à guerra finlandesa, e uma referência cheia de ressentimento aos embarques italianos de aviões para os finlandeses. Quanto à Alemanha, a linguagem de Molotov podia ser simpática. Estabeleceu ele contraste entre os vínculos amigáveis de Moscou e Berlim com "a política hostil dos imperialistas em relação a um Estado socialista", e predisse outras conseqüências nas relações econômicas entre os dois países. Mas essas referências, embora sem dúvida cordiais, dificilmente chegaram à altura do entusiasmo; e a acompanhá-las havia a clara indicação de que a Rússia não tinha a menor intenção de transformar essas relações amigáveis numa aliança militar. "A União Soviética", disse Molotov, "nunca foi nem será instrumento da política de outrem. Somos pela neutralidade e não participaremos da guerra entre as Grandes Potências." Assim, embora os aliados nada esperassem, no momento, da Itália e da Rússia, viam ao menos a perspectiva de que nenhum desses dois neutros teria pressa em lançar seu peso para o lado da Alemanha. Havia ainda para a Grã-Bretanha e a França a possibilidade de exercer pressão sobre eles por meio de apelos, se não à sua mais alta emotividade, ao menos à sua cupidez ou receios. E, enquanto tentassem por meios diplomáticos diminuir a hostilidade que essas potências continuavam a exibir, os aliados podiam contar em seu ativo com a constante amizade continuada dos Estados Unidos. As Américas e a Guerra As repúblicas americanas, contemplando através do oceano as condições dos países neutros da Europa, tinham certa razão de se sentirem gratas à enorme distância que as separava da cena do conflito. Era um conflito cujo desenrolar deveria ter efeito importante sobre seus interesses e cujo resultado poderia ser de vital significado para o seu destino. Mas ao menos não estavam expostas a pressões imediatas como as sofridas pelos pequenos Estados da Europa. Nenhum dos principais beligerantes olhava com olhos calculadores para as suas fronteiras. A perspectiva de alastramento da guerra não ameaçava envolvê-las a qualquer momento em hostilidades de que elas desejavam permanecer alheias. Algumas poderiam acabar por participar do conflito, como fizeram na Grande Guerra; mas essa decisão seria tomada por sua livre vontade à luz das circunstâncias, e não forçada por uma pressão contra a qual seria vã qualquer resistência. A situação do Canadá O contraste foi evidenciado pela situação do Canadá no continente americano. A proclamação de 10 de setembro, pela autoridade do Parlamento do Canadá, de um estado de guerra com a Alemanha, colocou o Domínio, sem reservas, na relação dos beligerantes. Contudo, nenhuma outra nação americana - apesar das observações alarmistas do coronel Lindbergh achou que com esse passo a ameaça da guerra tinha sido trazida para mais perto de suas portas. No continente europeu, se a Holanda fosse invadida, a Bélgica dificilmente poderia esperar permanecer à margem; se a Romênia entrasse na guerra, a posição de neutralidade de todos os outros Estados balcânicos estaria conseqüentemente periclitante. E o risco de que esses Estados fossem envolvidos era aumentado pelo fato de estarem eles ocupando uma posição estratégica que poderia ser de primeira importância a uma ou outra das nações em guerra. Mas não era provável que o Canadá se tornasse o foco de tais considerações estratégicas; nem também, no referente à frente ocidental, seria a sua participação na guerra capaz de provocar uma invasão ameaçadora da segurança de qualquer outro Estado americano. |
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Isto não quis dizer que o seu valor estratégico, à parte outros fatores, fosse de qualquer modo desprezível. Sem contar a possível importância de sua posição no Pacífico, possuía ele em Halifax uma base naval que era a chave do Atlântico norte. Desse porto, completado com bases nas Índias Ocidentais Britânicas, divisões navais poderiam operar no trabalho de comboios e na busca de submarinos e corsários inimigos. Em teoria, tal coisa traria a possibilidade de operações bélicas inquietadoramente perto do hemisfério americano. Mas na prática pouco mais fazia do que fornecer certas facilidades valiosas àquele controle marítimo que as armadas britânica e francesa de qualquer maneira teriam que procurar impor nas áreas em que fossem encontrados navios mercantes ou de guerra beligerantes. As atividades do Canadá mesmo podiam, portanto, ser olhadas sem perturbação séria pelos seus vizinhos do continente. Nem o aumento de suas forças militares, nem a criação de sua parte de indústrias de guerra ameaçavam-nos com embaraços. Sem dúvida, os planos de utilização dos recursos industriais do Canadá para a manufatura extensiva de munições poderiam, afinal, reduzir em algo a dependência em que os aliados se encontravam dos Estados Unidos. Mas, entrementes, o esquema de treinamento aéreo, que visava a produção de 15.000 pilotos treinados anualmente, provavelmente exigiria a utilização em larga escala do equipamento americano; e o uso dos recursos financeiros do Canadá para a causa aliada dificilmente poderia provocar qualquer sério ressentimento da parte dos países a que as compras aliadas iriam ser feitas. Efeitos na América Latina Foi a questão do provável efeito da guerra sobre os seus interesses econômicos que se tornou a preocupação mais imediata das várias repúblicas americanas. Peritos observadores advertiam que os tempos de bloqueio da última guerra dificilmente se repetiriam, e que não era absolutamente desejável que se repetissem. Mas era claro que, para bem ou mal, sérias mudanças iriam ter lugar no comércio das nações americanas. Os canais normais do comércio exterior estavam irremediavelmente desfeitos, e a questão era a de que lucros poderiam ser adiantados para se contrabalançar as perdas inevitáveis. No caso da América Latina, havia ao irromper a guerra um ponto especial a considerar-se. Era o da existência de acordos comerciais de troca com vários países europeus, e particularmente com a Alemanha. Com eles, muitos desses países da América Central e do Sul tinham obtido créditos comerciais em Berlim, créditos que somente podiam utilizar para a aquisição de mercadorias alemães. No período que se seguira ao Munique, a incerteza da situação levou esses países a procurar liquidar seus saldos com o aumento de suas importações da Alemanha. Ainda não se conhece ao certo até que ponto, com o início da guerra, a política teve êxito. O Uruguai desmentiu os boatos de que tivesse fortes créditos congelados, e assegurou que suas contas com a Alemanha estavam saldadas até essa data. O México, por outro lado, tinha ainda créditos pendentes, em resultado de vendas de petróleo à Alemanha e à Itália. Um observador calculou que uma soma de 75.000.000 de dólares estavam presos; mas, no conjunto, a maioria dos países parecia ter os saldos reduzidos a somas comparativamente pequenas. Era claro que se estava, contudo, tornando difícil para a Alemanha manter esses acordos de troca, em vista do bloqueio e da captura de suas exportações pelos aliados. No caso de países como a Argentina e o Chile, o comércio com a Alemanha mostrou uma queda violenta. Havia indícios de que algumas exportações seguiam ainda caminhos indiretos. Suspeitou-se que as crescentes exportações de algodão brasileiro para a Itália não se destinavam à Itália somente. O Brasil perdeu o seu melhor mercado europeu de café quando a Alemanha foi eliminada, mas em compensação passou a aumentar suas vendas aos vizinhos do Reich. Mas ao sinal de que os aliados pretendiam exercer uma supervisão mais estrita sobre as compras neutras, a América Latina precisava enfrentar a perspectiva de um considerável reajustamento das relações comerciais. |
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O comércio de guerra e os Estados Unidos As relações comerciais entre os aliados e os Estados Unidos eram mesmo em tempos de paz de importância capital. A Grã-Bretanha e o Canadá havia muito eram os fregueses mais importantes dos Estados Unidos. Os países juntos compraram em 1939 mercadorias americanas no valor total de um bilhão de dólares - cifra que representa a terça parte do total das exportações americanas, excedendo consideravelmente as compras de toda a América Latina. As vendas à Alemanha no mesmo ano somaram apenas 47.000.000 de dólares. A França, com aquisição no valor de 182.000.000 de dólares, comprou mais que a Alemanha, Rússia e Itália combinadas. Essa disparidade foi acentuada pela guerra, que trouxe um grande aumento do total das compras aliadas. Estatísticas de dezembro mostraram que, enquanto as exportações para a Grã-Bretanha tinham ultrapassado em modestos três milhões de dólares às do mesmo mês do ano anterior, as exportações para a França tinham triplicado, e as compras pelo Canadá tinham aumentado em 15.000.000 de dólares - aumento esse de mais de quarenta por cento. Em contraste, nos cinco meses decorrentes de setembro a janeiro inclusive, toda a Grande Alemanha, inclusive a Polônia, comprou menos que um milhão de dólares de mercadorias, em comparação com os 66.000.000 de dólares a que chegaram as suas compras no mesmo período do ano anterior. O aumento de 47 por cento nas compras neutras - a de 70 por cento no caso da Escandinávia - sugeriu que a Alemanha podia estar obtendo mais do que esses números mostravam; mas este era um caso que os aliados não tardariam a examinar. Fosse qual fosse o prejuízo líquido do comércio americano com a Europa central, ele era mais que contrabalançado pelas vendas crescentes aos aliados e à América Latina. As exportações de janeiro foram as mais altas em dez anos; 75 por cento mais que em janeiro de 1939. Nem todos os setores da produção americana, entretanto, partilharam desse aumento. Os materiais de guerra foram beneficiados às custas de algumas das mais vendíveis indústrias de exportação. As aquisições britânicas de trigo nos Domínios e na Argentina reduziram as exportações de trigo americanas. O fumo americano sofreu em resultado das compras britânicas na Turquia. A exportação de automóveis ficou reduzida em dez por cento. O algodão, por outro lado, beneficiou-se com as crescentes compras britânicas e canadenses, que em fevereiro de 1940 triplicaram de exportação, comparadas com 1939; e os metais, maquinaria, produtos químicos, e especialmente aviões; pareciam ter de enfrentar o fechamento dos portos. No caso dos fornecimentos bélicos, entretanto, havia sinais de grande dose de prudência de parte tanto dos compradores como dos vendedores. O acordo franco-britânico de coordenação das respectivas políticas de compra significava que suas comissões de compra nos Estados Unidos evitavam a concorrência uma com a outra; capacitando-as a seguir uma política de forte pechincha pelos suprimentos que desejavam. Os fabricantes americanos, por sua vez, mostravam muita cautela na aceitação de pedidos excedentes à sua capacidade, a menos que lhes fosse assegurado um preço alto bastante para quaisquer necessidade de suas instalações e equipamento. Isto era ilustrado particularmente pela situação que dizia respeito aos aviões. Os aliados, e a França em especial, estavam contando com fornecimentos substanciais dos Estados Unidos, e ofereciam uma perspectiva de pedidos no total de um bilhão de dólares. Naturalmente, eles queriam os últimos tipos de aviões, que deveriam ser fabricados com a maior rapidez possível. Pedidos desse volume exigiriam a expansão das instalações fabris existentes; e os fabricantes exigiam a garantia de que o custo das novas construções seria coberto, e que um acordo a esse respeito não seria anulado pelas regulamentações do Tesouro sobre o fisco. Ao mesmo tempo, tanto a opinião pública como os círculos militares ficavam algo perturbados ao pensamento de que a venda dos aviões mais modernos poderia deixar certos segredos militares à disposição de potências estrangeiras. Durante todo o mês de março, tiveram lugar, intensivas negociações com um comitê do Congresso a perscrutar o ângulo militar da situação. Mas pelo fim do mês, essas várias dificuldades pareciam ter sido sanadas, e havia toda a probabilidade de que fornecimentos em grande escala estariam à disposição dos aliados durante o ano vindouro. |
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Os direitos dos neutros Essas realizações econômicas indicavam algumas das vantagens de uma neutralidade benevolente. Por outro lado, as desvantagens imediatas eram relativamente pequenas. Os neutros europeus tinham a preocupação permanente de que direitos de diversas espécies seriam violados - suas águas penetradas por vasos de guerra beligerantes, seu território sobrevoado por aviões beligerantes. As repúblicas americanas tinham poucas preocupações dessa natureza. Mesmo a questão dos direitos de comércio neutro, que nas guerras passadas fôra tão considerada, ficou reduzida de importância quando os navios dos Estados Unidos foram proibidos de entrar na zona de guerra. E embora certas dificuldades houvessem surgido de quando em vez, em conseqüência do bloqueio e de outros incidentes da guerra marítima, elas eram comparativamente menores na importância e no efeito. Uma controvérsia, na verdade, surgia diretamente da tentativa de se criar uma situação que evitasse o aparecimento de tais controvérsias. Ao iniciar a guerra, uma conferência pan-americana foi chamada a considerar a adoção de uma política comum em relação aos problemas que a guerra provavelmente apresentaria. A idéia mais notável surgida na conferência, que teve lugar mo Panamá, de 23 de setembro a 3 de outubro, era a da criação de uma "zona de segurança americana" da largura média de 300 milhas em torno do continente, e do tratamento dessa faixa como sendo de águas territoriais dentro das quais as atividades beligerantes fossem barradas. Embora ela não incluísse as águas canadenses, abrangia as possessões britânicas nas Caraíbas, e levantou a questão de utilizá-las como bases navais e a da imunidade do comércio beligerante dentro de seus limites. A efetivação dessa proposta dependeria inteiramente da boa vontade dos países em guerra de aceitá-la e submeter-se à mesma, pois que nenhum Estado americano tinha realmente em vista medidas navais de garantia. Um almirante americano pôs o dedo no ponto vital. "É uma bela idéia", comentou, "mas que faremos se alguém meter o nariz nessa zona?" Em dezembro, alguém o fez. A batalha do rio da Prata entre os cruzadores britânicos e o Graf Spee projetou a questão para a frente, complicando-a com a alegação uruguaia de que o encontro tinha tido lugar dentro do limite das três milhas. A 23 de dezembro, foi apresentado um protesto aos beligerantes por esse e outros episódios, inclusive ataques à navegação beligerante. A resposta britânica de 15 de janeiro implicou o desejo de aceitar a declaração do Panamá, se a sua garantia pudesse ser assegurada, mas assegurou que, enquanto disto se carecesse, "as legítimas atividades dos navios de Sua majestade não podem de modo algum pôr em perigo, mas muito pelo contrário contribuir para a segurança do continente americano". A Alemanha, a 14 de fevereiro, rejeitou toda a idéia, assegurando que ela favorecia a Inglaterra e a França e mostrando que o Canadá era um Estado beligerante que diretamente confinava com essa zona. Embora a 3 de fevereiro novas propostas para o controle da navegação beligerante fossem delineadas pelo Comitê Inter-Americano de Neutralidade, estava claro que tão ampla inovação no direito internacional tinha pouca probabilidade imediata de aceitação prática. Em torno de questões mais assentadas havia também rusgas ocasionais. Uma nota americana protestando contra o interceptar das exportações alemães foi publicada a 8 de dezembro, mas na prática tal medida criou sérios agravos; e a Grã-Bretanha, em resposta a 22 de fevereiro, defendeu a sua legalidade justificada pelo direito às represálias, e apontando para as violações alemães do direito e dos tratados por seus métodos de lançamento de minas e de guerra submarina. Mas certos outros aspectos do bloqueio criaram considerável, se bem que passageiro, aborrecimento na América. A detenção de navios americanos em portos de controle, particularmente em Gibraltar, era considerada como envolvendo injustificável distinção. Um memorial de protesto a 22 de janeiro acentuou o fato de que embora os navios italianos fossem soltos após uma detenção média de quatro dias, os navios americanos eram retidos por uma média de 12 dias e 10 horas. Um protesto ainda mais ríspido foi enviado relativamente à retenção pelos britânicos das malas destinadas à Alemanha a bordo dos navios americanos - prática que foi estendida até ao Clipper transatlântico durante a sua aterrissagem nas Bermudas a 18 de janeiro. As discussões em torno da legalidade dessa prática concentraram-se na Convenção de Haia de 1907. Os Estados Unidos reivindicavam o artigo I, que assegurava que a inviolabilidade de toda a correspondência postal era claramente estabelecida. Mas a Grã- Bretanha e a França, indicando o artigo II que dizia que essa inviolabilidade não excluía um navio neutro das leis da guerra marítima, achavam que isso as justificava no interceptar de dinheiro e outros valores que a mala apreendida continha, no valor de 8.000.000 de dólares, como em outras questões, as discussões terminaram sem se chegar a um acordo. |
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Mas, embora tais incidentes mostrassem a possibilidade de surgir um atrito entre os Estados Unidos e os aliados, não era provável que deles resultasse qualquer ruptura séria. A administração Roosevelt estava interessada pelos aspectos mais amplos do conflito. O presidente se mostrava plenamente cônscio de seu significado para a América e dos perigos inerentes a uma possível derrota dos aliados. Ele estava impaciente por usar de sua influência onde fosse possível em favor de uma oportunidade para a restauração da paz. Mas, como demonstrou em seu discurso de 16 de março, percebeu que era necessária uma base moral para que a paz fosse real e duradoura; e durante esse período parecia haver pouca possibilidade de que a Alemanha aceitasse qualquer ajuste que ao menos se aproximasse dessa condição. Foi, segundo parece, com a intenção de descobrir se existia mesmo alguma perspectiva que o presidente Roosevelt anunciou, a 9 de fevereiro, a nomeação de Mr. Sumner Welles para a realização de uma tournée de sondagens pelos capitais beligerantes. "Essa visita", disse o comunicado da Casa Branca, "é somente destinada a servir o propósito de esclarecer o presidente e o secretário de Estado a respeito da atual situação da Europa. Mr. Welles não estará, naturalmente, autorizado a fazer propostas ou tomar compromissos em nome do governo dos Estados Unidos." Essa explicação pareceu simples demais para satisfazer as tendências especuladoras de um grande número de observadores. Mas na busca dos propósitos mais fundos e sutis que se escondessem atrás dessa missão, eles não obtinham ajuda alguma de Mr. Welles. O subsecretário de Estado seguiu o caminho que lhe foi traçado, alto e de lábios cerrados, de uma capital a outra. No decurso de quatro semanas, ele se avistou com os mais altos funcionários de Roma e Berlim, conversou com os líderes dos diversos partidos em Paris e Londres e se encontrou com representantes do governo polonês no exílio. Ao fim dessa excursão, o único esclarecimento que ofereceu foi o comunicado: "Desejo declarar categoricamente que não recebi nenhum plano ou proposta de paz de beligerante algum ou de qualquer outro governo; que não apresentei nenhuma proposta nesse sentido a governos beligerantes ou outros quaisquer; que nem estou trazendo ao presidente quaisquer propostas dessa natureza". O que, entretanto parecia claro, é que, em suas conversações com Mr. Welles os estadistas europeus haviam insistido em que nenhuma paz seria virtualmente conseguida com vitória. Tanto a Grã-Bretanha como a França insistiram em que a sombra nazista tinha de ser varrida da Europa. Do lado alemão houve declarações ainda mais peremptórias, se é que pudessem ser aceitas as explicações semi-oficiais de Berlim. Von Ribbentrop assinalou a firme intenção alemã de romper o poder da "plutocracia" britânica. Interpretou isto como significando o fim do controle britânico dos mares, a entrega de Gibraltar e do canal de Suez e a exclusão da influência britânica do continente, para que pudesse ser assegurado o domínio alemão em favor de seu "espaço vital". Hitler elaborou essas exigências e acrescentou-lhes a devolução das colônias à Alemanha e o reconhecimento do direito da Alemanha de estabelecer a sua própria Doutrina de Monroe na Europa central e oriental. A isto, o "New York Times" comentou: "A Doutrina de Monroe, segundo essa interpretação, dá-nos o direito de ocupar a Argentina e o Brasil, de fuzilar seus principais cidadãos, fechar- lhes as universidades, estabelecer o seu trabalho obrigatório, arrancar milhares de mulheres e crianças de seus lares e impor nossas idéias à América Latina a ponta de baioneta." A declaração do presidente Roosevelt, por ocasião da volta de Mr. Welles, revelou o quanto este enviado especial se sentia pouco à vontade ao regressar de suas explorações pela Europa. "Ele não recebeu, nem me trouxe nenhuma proposta de paz, de nenhuma fonte", disse Mr. Roosevelt, acrescentando que a sua informação seria valiosa "mesmo que ela delimite as perspectivas imediatas do estabelecimento de qualquer paz justa, estável e duradoura na Europa." Ao mesmo tempo, um episódio curioso sugeria que Mr. Welles tinha deixado atrás certa soma de descontentamento em, pelo menos, um país europeu. Mal tinha ele chegado em casa quando os nazis publicaram o que era inculcado como uma série de documentos dos arquivos poloneses tendentes a provar que enviados diplomáticos americanos tinham contribuído, com o encorajamento da Polônia e dos aliados, para o atiçamento das disputas que acabaram por conduzir à guerra. Fosse qual fosse o valor histórico que essa publicação pudesse chegar a ter, era difícil ver-se que valor propagandístico poderia ter no momento para a causa nazista, ou de que modo esta tiraria vantagens de tão curiosa manifestação de ressentimento para com a América. O anel que se aperta |
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Pelo menos uma forma de seu uso estava claramente indicada - o aumento da pressão econômica sobre a Alemanha. Os aliados não mais estavam contentes em ver a manutenção da neutralidade legal das pequenas nações resultar da prática em vantagem para o inimigo. Estavam utilizando meios legais para diminuir essa vantagem. Uma política de compras mais extensiva foi elaborada para afastar os produtos neutros das mãos dos alemães. Novos tratados comerciais prescreviam que os países em questão racionariam voluntariamente as suas importações, a fim de evitar que elas servissem de canais de suprimento ao Reich. Mas foi tornado claro que se os neutros não o fizessem voluntariamente, isso lhes seria imposto pelo bloqueio aliado; e foi também previsto que, de um modo ou de outro, se encontraria meio de se lidar com questões tão importantes como os embarques de minério de ferro sueco para a Alemanha. Com o bloqueio a estreitar-se no Báltico, no Adriático e no Pacífico, os aliados estavam visivelmente ficando prontos para a aplicação de uma nova intensidade de pressão. Restava ver-se se isso, que em nada contribuiria para o bem-estar dos neutros, também conduziria à extensão das hostilidades às suas custas quando a Alemanha procurasse romper o anel que se apertava. |
