quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Segunda Guerra Mundial - Janeiro a Março de 1940 - O Desenvolvimento das Hostilidades


Janeiro  a  Março  de  1940

O  Desenvolvimento  das  Hostilidades

O  início  do  ano  encontrou  os  exércitos  dos  principais  beligerantes  a  vigiarem-se  uns  aos  outros  das respectivas  posições  fortificadas  na  frente  ocidental,  com  uma  cautela  que  não  oferecia  nenhuma  perspectiva imediata  de  um  ataque  em  larga  escala.  Os  aliados,  no  momento,  pareciam  ter  aceito  o  ponto  de  vista  de  Mr. Churchill,  expresso  a  12  de  novembro,  no  sentido  de  que  "se  atravessarmos  o  inverno  sem  que  ocorra  algo grande  ou  importante,  teremos,  na  verdade,  vencido  a  primeira  campanha  da  guerra".  Ao  lado  alemão  havia indícios  de  vaga  ferocidade  a  ameaçar  os  aliados  com  quase  imediata  destruição.  Hitler,  na  sua  proclamação de  Ano  Novo,  e  novamente  no  seu  discurso  de  30  de  janeiro,  insinuou  que  estava  para  começar  a  coisa  a sério.  Goering  anunciou  que  ao  sinal  de  Hitler  a  força  aérea  "desencadearia  sobre  a  Grã-Bretanha  um  assalto de  violência  jamais  conhecida  na  história."  Mas,  com  todas  essas  palavras,  a  atividade  na  frente  ocidental  era confinada  a  incursões  esparsas,  nas  quais  os  aliados  pareciam  apenas  procurar  informações,  e  os  alemães tentando  conseguir  o  domínio  de  posições  que  mais  tarde  lhes  pudessem  vir  a  ser  úteis.

A  ameaça  séria  de  possível  ação  veio  a  14  de  janeiro,  com  um  novo  surto  de  guerra  nos  Países  Baixos. Certos  informes  da  imprensa  alegaram  que  este  era  baseado  no  fato  de  que  o  piloto  de  um  avião  alemão  que fez  uma  aterrissagem  forçada  em  solo  belga  tinha  por  casualidade  no  bolso  os  planos  de  um  ataque  alemão. A  circunstância  foi  realçada  de  um  modo  curioso  pelo  fato  de  que  o  governo  holandês,  a  6  de  janeiro, anunciara  a  determinação  de  resistir  a  qualquer  ataque  "com  toda  a  potência  de  nossas  armas",  e  o  governo belga  se  tinha  mostrado  disposto  a  apoiar  a  Holanda  contra  a  agressão.  Mas,  fosse  qual  fosse  a  razão,  o alarme  foi  suficientemente  forte  para  que  a  Bélgica  mobilizasse  600.000  homens  e  para  que  a  Holanda  e  a Grã-Bretanha  cassassem  todas  as  licenças  no  Exército.  A  24  de  janeiro,  Mr.  Chamberlain  renovou  o compromisso  britânico  de  assistência  imediata  à  Bélgica  no  caso  de  um  ataque  alemão.  Embora  nessa ocasião  a  crise  tivesse  amainado,  os  Países  Baixos  e  a  Suíça  também  permaneceram  em  estado  de  alerta  à vista  das  informações  periódicas  que  recebiam  acerca  de  concentrações  alemães  nas  proximidades  de  suas fronteiras.  Os  pequenos  vizinhos  da  Alemanha,  estava  claro,  não  confiavam  absolutamente  em  sua  boa  fé.

Entretanto,  dificilmente  se  poderiam  considerar  ideais  para  uma  ofensiva  militar  as  condições  desse  período. As  condições  meteorológicas  -  as  informações  a  respeito  das  quais  incorriam  nas  muitas  coisas  suprimidas pela  censura,  em  razão  de  que  elas  pudessem  servir  aos  aviadores  inimigos  -  mostraram  de  que  eram  capazes, desencadeando  uma  Blitzkrieg  por  conta  própria.  O  inverno  mais  frio  do  último  meio  século  se  abatera  sobre a  Europa.  Os  temporais  desencarrilavam  trens,  interrompiam  o  tráfego  e  criaram  uma  escassez  temporária  de carvão,  tanto  para  as  indústrias  como  para  es  cidadãos  particulares.  Em  fevereiro,  foi  informado  que  uma quarta  parte  da  população  de  Berlim  vivia  em  casas  sem  calefação.  Essas  dificuldades  na  frente  interna refletiam-se  sem  dúvida  na  contínua  inação  militar.

Isto  não  era  verdade,  entretanto,  nem  no  mar,  nem  no  ar.  Navios  mercantes  continuavam  a  cruzar  os  mares com  abastecimentos  essenciais.  As  marinhas  mantinham  uma  vigilância  incessante  sobre  as  rotas  vitais  de comércio.  E  tanto  à  superfície  das  águas  como  em  baixo  dela,  a  guerra  prosseguia  -  uma  guerra  que procurava  apertar  o  bloqueio  contra  o  inimigo  e  romper  o  cerco  que  o  inimigo  se  esforçava  por  impor.

A  guerra  no  mar

Nestas  lutas  os  aliados  estavam  mais  do  que  bem.  Pelo  fim  de  março,  cálculos  não  oficiais  indicavam  o  total das  perdas  britânicas  e  francesas  em  211  navios,  perfazendo  810.000  toneladas.  As  perdas  em  navios  de todas  as  nações  beligerantes  e  neutros  atingiam  7.300  toneladas  diárias,  em  comparação  com  as  20.000 toneladas  registradas  durante  o  período  da  guerra  irrestrita  de  1917.  O  que  era  mais  encorajador  era  a  prova de  que  os  afundamentos  estavam  em  declínio,  o  que  era,  em  grande  parte,  devido  ao  bom  êxito  do  sistema  de comboio.  As  perdas  de  navios  aliados  e  neutros  somavam  90.000  toneladas  em  março  contra  200.000 toneladas  em  fevereiro.  Mesmo  na  semana  que  terminava  a  20  de  fevereiro,  e  a  qual  mostrava  a  perda  de  20 navios,  apenas  cinco  britânicos  havia  entre  estes.  Entre  26  de  fevereiro  e  3  de  março,  a  Grã-Bretanha  perdeu somente  dois  navios  pequenos,  somando  1886  toneladas.  E  a  30  de  março,  Mr.  Churchill  anunciou  que durante  a  quinzena  anterior  apenas  um  navio  britânico  havia  sido  afundado  em  consequência  de  ação inimiga

Nesta  situação,  a  Alemanha  lançou  toda  a  sua  fúria  contra  a  navegação  neutra.  O  completo  desprezo  pela  lei do  direito  internacional  demonstrado  pelos  nazistas  com  o  afundamento  de  navios  beligerantes  sem  aviso prévio,  e  o  espalhar  indiscriminado  de  minas,  ficou  mais  luminosamente  em  evidência  com  os  seus  ataques deliberados  às  tripulações  dos  navios  mercantes.  Durante  o  mês  de  fevereiro,  em  que  foi  informada  a  perda de  25  navios  britânicos,  as  nações  neutras  perderam  39.  Até  14  de  fevereiro  a  Suécia  tinha  perdido,  desde  o rebentar  da  guerra,  32  navios  de  carga,  com  228  marinheiros  mortos  e  15  perdidos.  De  conformidade  com  o ministro  sueco  das  relações  exteriores,  sete  desses  navios  foram  indiscutivelmente  afundados  pelos submarinos  da  Alemanha,  três  dos  quais  quando  estavam  a  caminho  de  portos  neutros;  e  do  total  de  32 apenas  sete  tinham  a  Grã-Bretanha  como  destino.  Até  21  de  fevereiro,  a  Noruega  perdera  49  navios  e  327 marinheiros.  Um  total  de  cerca  de  200  navios  neutros  fôra  destruído  até  o  fim  de  março.  Somente  num comboio  aliado,  onde  suas  probabilidades  de  afundamento  eram  de  um  contra  800,  estava  um  navio  neutro razoavelmente  protegido  nos  mares.  Mas,  se  a  navegação  aliada  era  martelada  e  a  neutra  ameaçada,  a navegação  alemã  era  varrida  dos  mares.  Pelo  fim  de  março,  38  navios  somando  cerca  de  200.000  toneladas tinham  sido  postos  à  pique,  a  maioria  pela  própria  tripulação  a  fim  de  evitar  a  captura.  Quando  foram acrescentadas  as  cem  mil  toneladas  da  navegação  alemã  tomadas  pelos  aliados,  elas  somaram  cerca  de  8%  da marinha  mercante  da  Alemanha.  As  restantes  estavam  presas  em  portos  alemães  ou  neutros  ou  confinados, no  que  dissesse  respeito  à  navegação,  às  águas  do  Báltico  e  dos  estados  neutros  do  norte.

A  rota  principal  deixada  aberta  para  a  navegação  alemã  ficava  ao  longo  da  costa  norueguesa.  A  Alemanha tinha  preparado  um  caminho  marítimo  que  permitia  aos  seus  barcos  navegar  de  Murmansk  para  os  portos alemães,  mantendo-se  dentro  de  águas  territoriais  neutras  durante  todo  o  trajeto.  Na  última  parte  de  fevereiro, foi  informado  que  vasos  de  guerra  aliados  estavam  cruzando  o  Ártico  na  região  de  Murmansk  e  Petsamo. Protestos  da  Noruega  à  Grã-Bretanha  pelos  fins  de  março  revelaram  que  destróieres  britânicos  mantinham estreita  vigilância  sobre  navios  alemães  carregados  de  minério,  os  quais  às  vezes  viajavam  dentro  do  limite de  três  milhas.  Uma  nova  dosagem  de  audácia  nas  operações  efetuadas  pelos  submarinos  britânicos  conduzia no  dia  22  de  março  ao  torpedeamento  de  um  cargueiro  alemão  carregado  de  minério  na  zona  fortemente minada  do  Kategat,  e  no  dia  seguinte  outro  cargueiro  foi  afundado  na  mesma  área.  Foi  tornado  claro  que  em ambos  os  casos,  em  contraste  com  os  métodos  nazistas,  os  comandantes  dos  submarinos  britânicos  tomaram providências  para  o  salvamento  das  tripulações  alemães  e  efetuaram  a  destruição  dos  navios  sem  perda  de vidas.

A  esse  tempo  o  bloqueio  abrangia  um  campo  ainda  mais  vasto.  Informações  de  que  mercadorias  eram transportadas  pelo  mar  à  Alemanha  através  de  Vladivostok  e  de  que  a  Alemanha  tinha  feito  propostas  tanto  à Rússia  tomo  ao  Japão  para  a  criação  de  bases  submarinas  no  Pacífico,  eram  seguidas  de  notícias  de  atividade naval  aliada  no  Extremo  Oriente.  Pelos  fins  de  março,  pelo  menos  dois  navios  russos  -  um  dos  quais  tinha sido  capturado  já  a  13  de  janeiro  -  tinham  sido  apreendidos  com  a  sua  carga  de  metais  em  Hong  Kong  pelos navios  de  guerra  britânicos.  Um  protesto  soviético  conduziu  a  nada  mais  que  a  entrega  desses  navios  aos franceses  por  "motivos  administrativos".  Estava  ficando  claro  que,  onde  os  aliados  suspeitavam  que  uma carga  se  destinava  à  Alemanha,  ficavam  cada  vez  menos  inclinados  conceder  aos  neutros  o  benefício  da dúvida.

Seria  esperar  demais  que  uma  atividade  tão  constante  e  de  tão  longo  alcance  pudesse  ser  executada inteiramente  sem  perdas.  Assim  mesmo,  o  preço  que  os  navios  aliados  eram  forçados  a  pagar  durante  esse período  foi  comparativamente  pequeno,  e  muito  inferior  ao  registrado  durante  os  primeiros  meses  da  guerra. Nenhum  navio  de  importância  fôra  afundado,  conquanto  o  Nelson  tenha  sido  danificado  por  uma  mina  e outro  cruzador  levemente  atingido  durante  um  reide  aéreo  sobre  Scapa  Flow.  A  16  de  janeiro,  foi  revelado que  três  submarinos  britânicos  tinham  sido  perdidos  enquanto  "empenhados  num  serviço  particularmente perigoso"  -  presumivelmente  uma  tentativa  para  alcançar  a  base  naval  alemã  da  enseada  de  Heligoland.  Dois destróieres,  o  Grenville  e  o  Exmouth,  foram  perdidos  pelos  britânicos  durante  o  mês  de  janeiro;  outro,  o Daring,  foi  torpedeado  em  fevereiro;  e  em  março  o  destróier  francês  La  Railleuse  foi  a  vítima  de  uma explosão  no  porto  de  Casablanca.  Contra  essas  perdas  menores,  a  Grã-Bretanha  tinha  cinco  navios  grandes quase  prontos,  esperando-se  que  dois  desses  entrassem  em  serviço  na  primavera.  A  França  tinha  um  vaso  de guerra  para  ficar  pronto  provavelmente  no  decurso  do  ano,  e  outro,  o  Jean  Bart  -  o  segundo  de  quatro  em construção  -  chegou  à  fase  de  lançamento  nos  primeiros  dias  de  março.

As  perdas  alemães  eram  menos  fáceis  de  se  avaliar,  pois  que  a  frota  nazista  era  demasiadamente  importante para  ficar  inativa.  Mais  notável  era  a  carência  de  qualquer  ação  de  parte  dos  couraçados  de  bolso.  Em  teoria, a  Alemanha  deveria  ainda  possuir  dois  desses  depois  da  perda  do  Graf  Spee,  Mas,  um  deles,  o  Admiral Scheer,  não  dera  notícia  de  si  desde  que  a  guerra  tivera  início.  Quanto  ao  Deutschland,  a  última  notícia obtida  foi  a  declaração  curiosa  de  25  de  janeiro  de  que  ele  retornara  à  sua  base  e  fôra  rebatizado  com  o  nome de  Lutzow  a  fim  de  reservar  seu  antigo  nome  para  um  navio  mais  poderoso.  Já  que  um  dos  cruzadores alemães  em  construção  havia  sido  batizado  com  o  nome  de  Lutzow,  esse  procedimento  pareceu extraordinariamente  singular.  Mas,  qualquer  que  fosse  o  seu  nome,  nada  mais  dele  foi  ouvido;  e  parecia haver  certa  razão  para  a  suspeita  de  que  ambos  os  navios  de  batalha  de  bolso  tinham  sido  postos  fora  de  ação no  decurso  dos  vários  ataques  britânicos  pelo  ar  e  por  meio  de  submarinos.

Na  questão  da  guerra  submarina,  a  posição  alemã  era  da  mesma  forma  difícil  de  ser  calculada.  A  despeito dos  clamores  alemães  sobre  produção  em  massa,  era  altamente  duvidoso  que  mais  do  que  quatro  botes submarinos  por  semana  tivessem  sido  completados,  e  um  número  mais  baixo  estaria  provavelmente  mais próximo  da  verdade.

Isto  faria  pouco  mais  que  manter  o  equilíbrio  com  a  base  aliada  de  destruição,  conservadoramente  calculada entre  dois  a  três  por  semana.  Informes  sobre  a  natureza  dos  novos  submarinos  alemães  eram  igualmente variados;  mas  a  sugestão  de  que  a  Alemanha  se  empenhava  pela  obtenção  de  unidades  maiores  capazes  de mais  largo  campo  de  ação,  viria  ficar  comprovada  por  evidências  definitivas.

A  libertação  do  Altmark

Mas,  o  episódio  mais  emocionante  da  guerra  no  mar  foi  um  que  produziu  menos  efeito  sobre  a  força  naval alemã  do  que  sobre  o  restante  do  prestígio  alemão.  O  caso  do  Altmark  foi  uma  seqüência  triunfante  da destruição  do  Graf  Spee.  Esse  navio,  que  tinha  à  bordo  a  tripulação  de  sete  navios  ingleses  destruídos  pelo cruzador  de  bolso,  fôra  objeto  de  uma  busca  meticulosa  da  armada  britânica  mesmo  desde  a  batalha  do  rio  da Prata.  Por  dois  meses,  o  navio-prisão  iludia  os  caçadores.  E  então,  a  16  de  fevereiro,  foi  localizado  por  aviões britânicos  de  reconhecimento  quando  deslizava  pela  costa  norueguesa  ao  sul  de  Bergen,  rumo  a  Hamburgo  e à  segurança.

Três  destróieres  britânicos  saíram  no  encalço  de  sua  presa.  Mas  a  tentativa  do  Intrepid  de  capturar  o  Altmark foi  frustrada  por  um  navio  armado  norueguês  cujo  comandante  exigiu  que  os  britânicos  respeitassem  as águas  territoriais  da  Noruega.  Durante  as  discussões,  o  Altmark  penetrou  no  abrigo  de  um  fiorde  próximo;  e então  os  navios  britânicos  retiraram-se  para  além  do  limite  de  três  milhas  e  radiografaram  por  ordens  ao Almirantado.

O  almirante  respondeu  com  uma  ordem  de  penetrar  na  zona  neutra  e  libertar  os  prisioneiros.  Foi  depois  do escurecer  que  o  destróier  mais  antigo,  Cossack,  aproximou-se  do  norueguês  e  pediu  que  o  Altmark  fosse levado  a  Bergen  sob  guarda  unida  e  ali  revistado  à  cata  de  prisioneiros  britânicos.  Quando  isto  foi  recusado, da  mesma  forma  como  foi  recusado  o  pedido  de  que  o  comandante  norueguês  permitisse  uma  busca  no  local, o  Cossack  foi  adiante.  O  Altmark,  libertando-se  dos  gelos  em  que  tinha  sido  colhido,  tentou  enfrentar  o Cossack,  mas  o  destróier  abordou-o  e  um  grupo  de  marinheiros  galgou  a  coberta  do  navio  alemão.  Houve tiros  de  ambos  os  lados;  um  número  de  marinheiros  alemães  que  tinha  escapado  pelos  lados  abriu  fogo  da terra,  e  o  fogo  com  que  os  ingleses  responderam  causou  entre  eles  numerosas  baixas.  Encerrados  nos  paióis de  munição,  depósitos  e  num  tanque  vazio  de  óleo  havia  299  marujos  britânicos,  muitos  deles  em  sérias condições  físicas  causadas  pelas  fadigas  penosas  do  aprisionamento.  Com  estes  a  bordo,  o  Cossack  deixou  o Altmark  paralisado  entregue  à  respectiva  tripulação  e  rumou  com  os  homens  libertados  para  a  Inglaterra.

Seguiu-se  a  isto  um  feixe  de  protestos  diplomáticos.  A  Alemanha  protestou  junto  à  Noruega  por  ter  esta permitido  a  violação  de  sua  neutralidade.  A  Grã-Bretanha,  alegando  que  o  Altmark  era  um  navio  armado  e que  as  autoridades  norueguesas  tinham-no  abordado  e  revistado  em  Bergen,  protestaram  junto  à  Noruega  por ter  esta  deixado  de  descobrir  e  de  libertar  os  prisioneiros.  A  Noruega,  negando  que  o  navio  tivesse  parado  em Bergen  e  afirmando  que  ignorava  que  houvesse  prisioneiros  a  bordo  ou  que  o  Altmark  estivesse  armado, protestou  contra  a  ação  do  Cossack  e  exigiu  a  volta  dos  marinheiros  libertados  -  exigência  provavelmente feita  mais  para  satisfazer  a  Alemanha  do  que  com  a  esperança  de  ser  atendida.  A  cólera  apoplética  dos  porta- vozes  nazistas  ofereceu  o  espetáculo  algo  cômico  da  Alemanha  expressando  horror  por  uma  violação  do direito  internacional.  O  contraste  entre  a  atitude  normal  alemã  e  essa  repentina  exigência  de  legalidade  foi sutilmente  estabelecido  por  Mr.  Chamberlain,  a  24  de  fevereiro.

"De  tal  maneira  os  nazistas  respeitam  os  interesses  alheios  que  os  navios  neutros  não  mais  estão  livres  de seus  ataques,  mesmo  quando  navegam  apenas  entre  um  ponto  neutro  e  outro.  Podem  afundar  navios mercantes,  podem  destruir  cargueiras  cujas  tripulações  são  deixadas  a  navegar  ao  léu  e  morrer  de  inanição, mas  os  países  neutros  não  devem  reclamar.  Porém,  se  nós,  os  britânicos,  a  fim  de  salvar  300  homens, ilegalmente  feitos  prisioneiros,  da  brutalidade  de  um  campo  de  concentração,  cometemos  assim  uma  quebra meramente  técnica  de  neutralidade,  que  não  envolve  vidas  e  não  toca  na  propriedade  neutra,  então  é  quanto basta  para  que  os  nazistas  fiquem  exaustos  de  tantas  exclamações  de  histérica  indignação."

Cumprido  o  seu  dever,  por  meio  de  formais  e  vigorosos  protestos,  acompanhados  por  uma  oferta  de arbitramento,  a  Noruega  por  sua  vez  mostrou-se  contente  em  aceitar  um  compromisso  que  deixou  o  caso  no ponto  em  que  estava.

A  guerra  no  ar

Enquanto,  pois,  a  guerra  se  desenvolvia  à  superfície  das  águas  como  em  baixo  dela,  a  guerra  no  ar continuava  a  dar  sua  contribuição  principal  a  esse  aspecto  particular  do  conflito.  Extensivos  vôos  de reconhecimento  em  terra,  durante  os  quais  os  aviões  aliados  chegavam  a  pontos  longínquos  do  leste  tão distantes  como  a  Polônia,  eram  efetuados  por  ambos  os  lados;  mas,  à  exceção  de  ocasionais  encontros  de patrulhas,  não  houve  lutas,  e  nenhum  bombardeio  de  objetivos  civis  ou  militares.  Mas  os  navios  de  guerra  e os  mercantes  estavam  expostos  aos  perigos  da  guerra  aérea  tanto  quanto  aos  dos  submarinos  e  das  minas.

Aqui,  como  no  caso  da  guerra  submarina,  os  neutros  desprotegidos  é  que  corriam  os  principais  riscos.  Os ataques  aéreos  alemães  a  comboios  britânicos,  conquanto  aparentemente  em  aumento  durante  o  mês  de março,  foram  na  quase  totalidade  infrutíferos.  Os  bombardeios  e  metralhamentos  de  traineiras  e  navios  leves davam  resultados  dificilmente  compensadores  da  indignação  suscitada  por  tão  implacável  brutalidade. Ocasionalmente,  um  navio  britânico  isolado  podia  sofrer  -  como  por  exemplo  o  transatlântico  de  passageiros Domala,  vítima,  a  2  de  março,  de  um  ataque  aéreo  a  metralhadora  e  o  qual  ceifou  pelo  menos  108  vidas,  na maioria  de  indianos  britânicos  que  estavam  sendo  repatriados  depois  de  um  internamento  na  Alemanha.  Mas eram  os  neutros  que  ofereciam  a  presa  mais  fácil.  particularmente  porque  estavam  geralmente  desarmados  e completamente  iluminados.  Nove  navios  holandeses  foram  bombardeados  e  metralhados  somente  a  4  de março;  outros  três  foram  atacados  no  dia  seguinte.  A  navegação  escandinava  não  era  mais  respeitada  pelos aviões  do  que  pelos  submarinos.  Nem  mesmo  os  italianos  escapavam.  A  7  de  março,  durante  uma  fase particularmente  crítica  nas  relações  entre  a  Grã-Bretanha  e  a  Itália,  o  cargueiro  italiano  Emilia  Lauro  foi vítima  de  um  selvagem  ataque  aéreo  que  matou  um  e  feriu  três  -  ação  que,  conforme  observara, lastimosamente,  o  comandante  italiano,  "veio  como  surpresa  de  nossos  amigos".

Scapa  e  Sylt

A  atividade  era  dirigida  principalmente  contra  navios  mercantes,  e  de  quando  em  vez  contra  os  vasos  de guerra  ocupados  no  serviço  de  comboiamento.  O  esforço  máximo  dos  aviadores  alemães  contra  a  frota britânica  durante  esse  período  verificou-se  com  o  reide  contra  Scapa  Flow,  a  16  de  março.  Embora  Mr. Churchill  tivesse  anunciado  cerca  de  três  semanas  antes  que  Scapa  Flow  não  havia  sido  usada  como  base principal  desde  o  afundamento  do  Royal  Oak,  ela  estava  sendo  utilizada  claramente  como  importante ancoradouro,  e  parecia  nessa  ocasião  estar  abrigando  certo  número  de  grandes  navios  e  outras  embarcações menores.  Ao  escurecer  do  dia  16  de  março,  catorze  Heinkels  se  lançaram  sobre  a  base,  num  reide  que  durou hora  e  meia.  Algo  como  cem  bombas  foram  deixadas  cair,  causando  sete  baixas  entre  o  pessoal  naval  e infringindo  danos  menores  num  vaso  de  guerra  descrito  como  não  sendo  um  "navio  de  primeira  classe".  O aspecto  mais  importante  da  incursão,  todavia,  consistiu  no  fato  de  os  alemães  terem  pela  primeira  vez atacado  objetivos  de  terra  da  mesma  forma  que  os  navios  no  porto.  Aparentemente  com  o  fim  de  danificar hangares  e  campos  de  pouso,  a  decolagem  dos  caças  britânicos,  os  alemães  lançaram  bombas  explosivas  e incendiárias  nas  cercanias  desses  objetivos,  matando  um  civil  e  ferindo  sete.

A  ação  provocou  imediatas  represálias  britânicas.  A  atividade  aérea  britânica  nesse  sentido  orientou-se  para o  interceptar  dos  incursores  alemães,  tanto  por  meio  de  patrulhamentos  de  costa  como  por  ataques  aéreos  a bases  aeronavais  e  para  o  ataque  a  navios  alemães  de  patrulhamento  na  costa  do  Reich.  No  dia  do  reide contra  Scapa  Flow,  aviadores  britânicos  localizaram  e  bombardearam  vários  navios  de  patrulha  ao  largo  de Heligoland.  Mas,  a  19  de  março,  nova  intensificação  de  ação  se  verificou,  quando  os  britânicos  efetuaram  o maior  reide  aéreo  da  história  contra  as  bases  aéreas  alemãs  na  ilha  de  Sylt.  Tendo  começado  logo  depois  do

escurecer  e  prosseguido  com  ondas  sucessivas  de  bombardeiros,  o  reide  durou  quase  sete  horas,  enquanto  o seu  desenvolvimento,  radiografado  pelos  aviadores  ao  Almirantado  e  comunicado  ao  primeiro  ministro,  era relatado,  fase  por  fase,  por  Mr.  Chamberlain  na  Câmara  dos  Comuns.

Como  no  caso  do  reide  contra  Scapa  Flow,  os  comunicados  britânicos  e  alemães  sobre  o  reide  contra  Sylt mostraram  ampla  divergência.  Os  aviadores  britânicos  acreditaram  terem  destroçado  numerosos  hangares alemães,  obtido  impactos  em  tanques  de  óleo  e  depósitos  de  munição,  e  danificado  seriamente  o  molhe conhecido  como  Dique  Hindenburgo,  a  única  ligação  ferroviária  da  ilha  com  o  continente.  O  comunicado alemão  admitiu  apenas  danos  de  menor  importância,  e  os  nazis  procuraram  provar  sua  afirmativa  com  uma excursão  cuidadosamente  organizada  de  jornalistas  especialmente  escolhidos.  De  qualquer  modo,  pareceu provável  que  ambos  os  reides  tinham,  até  certo  ponto,  um  caráter  experimental,  e  havia  dúvidas  sobre  se  os experimentos  foram  concludentes  para  qualquer  um  dos  lados  beligerantes.

Nenhum  dos  dois  lados,  era  claro,  estava  ainda  pronto  para  arriscar-se  a  um  ataque  aéreo  de  plenitude  de força.  Se  ficou  certo  que  os  bombardeiros  podiam  passar,  ficou  também  certo  que  o  faziam  arriscando-se consideravelmente  a  jamais  regressar.  Se  a  defesa,  não  desfrutava,  no  ar,  da  preponderância  que  "afirmava" ter  conseguido  em  terra,  era  mesmo  assim  bastante  forte  para  obrigar  ao  atacante  a  interromper  sua  ação.  Os próprios  reides  contra  a  navegação  consistiam  em  ações  rapidíssimas,  em  que  pequenas  esquadrilhas  ou mesmo  aparelhos  isolados  lançavam  suas  bombas  e  se  punham  imediatamente  a  salvo;  dificilmente  3%  dos navios  afundados  o  foram  por  ataques  aéreos.  Nem  também  as  esquadrilhas  atacantes,  via  de  regra,  se empenhavam  em  batalhas  quando  alçavam  vôo  os  aviões  defensores.  As  perdas  em  combate  propriamente dito,  tanto  nesses  reides  como  na  frente  ocidental,  foram  desprezíveis.  Os  aliados  pretendiam  ter  abatido  133 aparelhos  (os  alemães  reconheciam  a  perda  de  85)  e  danificado  outros  26  tão  seriamente  que  era  improvável tivessem  podido  alcançar  suas  bases.  Os  alemães  afirmaram  ter  abatido  357  aviões  aliados  -  número  que  os aliados  disseram  ser  mais  que  o  dobro  de  suas  perdas  reais.  Mas  mesmo  aceitando  completamente  as afirmações  de  ambos,  o  comentário  do  Spectador  a  23  de  fevereiro  continuaria  verdadeiro:  "A  escala  da guerra  aérea  até  esta  data,  e  as  possibilidades  da  guerra  aérea  futura,  serão  postas  nas  suas  verdadeiras proporções  se  se  notar  que  em  todas  essas  luta  -  Mar  do  Norte,  Baía  de  Heligoland,  Frente  Ocidental  - nenhum  dos  lados  perdeu  em  aparelhos  o  equivalente  a  uma  semana,  ou  meia  semana,  de  produção."

Assim,  tanto  no  mar  como  no  ar,  não  menos  que  em  terra,  as  forças  armadas  hesitavam  em  empenhar-se fortemente  em  luta.  Ao  invés  elas  tentavam,  por  meio  do  bloqueio  e  dos  ataques  à  navegação,  estrangular  a vida  econômica  do  adversário.  E  enquanto  cada  qual  conduzia  esta  espécie  de  ofensiva,  cada  qual  também  se esforçava  por  fortalecer  e  consolidar  sua  frente  interna  para  os  esforços  crescentes  que  se  esperavam  fossem exigidos  pela  guerra.

As  frentes  internas

A  declaração  do  gabinete  de  guerra  britânico,  a  9  de  setembro,  de  que  os  planos  estavam  sendo  feitos  de acordo  com  a  presunção  de  que  a  guerra  durasse  três  anos  ou  mais  podia  ser  tranqüilizadora,  mas dificilmente  será  tida  como  inesperada.  Em  contraste  com  o  ocorrido  em  1914,  quando  se  esperava  uma vitória  rápida  e  fácil,  havia  agora  poucas  ilusões  sobre  o  caráter  sério  da  luta  em  que  as  nações  tinham entrado.  Diante  de  tal  perspectiva,  ambas  as  facções  pareciam  determinados  a  evitar  o  mais  possível  as dispendiosas  confusões  da  última  guerra,  no  terreno  civil  não  menos  que  no  militar.  Em  1914  se  verificara arraigada  relutância  em  perturbar  o  curso  normal  da  vida  civil,  mesmo  com  sacrifício  de  uma  maior eficiência  militar.  Em  1939  era  evidente  desde  o  começo  que  todas  as  atividades  nacionais  tinham  que  ser orientadas  com  o  único  propósito  de  se  obter  o  máximo  da  eficiência  bélica.

Para  as  democracias  isto  significou  a  regularização  e  coordenação  dos  esforços  econômicos  até  um  ponto muito  mais  extensivo  que  o  que  jamais  tinham  conhecido  até  então,  dirigidas  por  uma  concentração  de autoridade  muito  mais  poderosa  que  qualquer  outra  que  existira  em  tempos  de  paz.  A  Grã-Bretanha  e  a França  preferiram  evitar  a  palavra  "ditadura",  como  também  o  que  ela  representava.  Mas  para  a  direção eficiente  das  energias  nacionais  a  uma  finalidade  suprema,  alguma  forma  de  autoridade  central,  munida  de poderes  adequados,  era  absolutamente  essencial.  O  reconhecimento  deste  fato  serviu  de  base  à  organização dos  gabinetes  de  guerra  em  ambos  os  países.

Por  trás  dessa  resolução,  entretanto,  ostentava-se  um  fato  ainda  mais  fundamental.  Este  era  a  manutenção, em  ambos  os  países,  do  sistema  do  governo  parlamentar.  A  autoridade  obtida  pelos  ministros  franceses  e ingleses  descansava  solidamente  na  sóbria  decisão  de  uma  maioria  de  representantes  selecionados  da  nação.

O  parlamento  britânico,  a  24  de  agosto,  votou  a  Lei  dos  Poderes  de  Emergência  (Lei  da  Defesa),  que conferiu  ao  governo  o  direito  de  impor  extensivas  regulamentações  decididas  em  sessão  de  conselho.  O governo  francês,  a  que  já  tinha  sido  dado  o  direito  de  agir  por  meio  de  decretos  temporários,  teve  esse  direito confirmado  para  a  duração  da  guerra,  por  voto  da  Câmara,  a  30  de  novembro,  e  do  Senado,  a  1 o  de dezembro.  Mas  nenhuma  dessas  medidas  era  de  alguma  forma  uma  abdicação  da  autoridade  fundamental  do parlamento.  O  gabinete  existia,  e  os  ministros  exerciam  os  seus  poderes,  sujeitos  em  última  instância  à aprovação  das  legislaturas  eleitas;  e  ou  o  Parlamento  podia  anular  esses  poderes  ou  impor-se  ao  ministério toda  a  vez  que  tal  ação  se  mostrasse  desejável  no  interesse  nacional.

Isto  foi  demonstrado  pela  crítica  constante,  se  bem  que  razoável,  que  os  governos  dos  dois  países  tiveram que  sofrer  e  satisfazer.  Nos  primeiros  dias  da  guerra,  foi  a  Câmara  dos  Comuns  que  promoveu  uma  drástica modificação  dos  regulamentos  do  Decreto  das  Medidas  de  Guerra  nos  interesses  de  uma  pior  liberdade pessoal.  Na  França,  semelhante  criticismo  pôs  fim  a  alguns  dos  piores  absurdos  da  censura,  inclusive  a supressão  de  toda  a  crítica  à  política  governamental;  na  Inglaterra,  isto  teve  resultado  igual  com  a reorganização  do  impropriamente  denominado  Ministério  da  Informação.  Mas  tais  realizações  reforçaram  a eficácia  do  governo  democrático,  ao  invés  de  enfraquecê-la.  Conforme  Mr.  Churchill  disse  numa  irradiação de  27  de  janeiro:

"No  nosso  país,  os  homens  públicos  sentem  orgulho  em  serem  servidores  do  povo.  Envergonhar-se-iam  de ser  seus  patrões.  Ministros  da  Coroa  sentem-se  fortalecidos  por  terem  ao  seu  lado  a  Câmara  dos  Comuns  e  a Câmara  dos  Lordes,  a  se  reunirem  com  grande  regularidade  e  buscarem  contínuas  oportunidades  de  estimular suas  atividades.  Naturalmente,  é  bem  verdade  que  surgem  muitas  vezes  severas  críticas  ao  governo  em ambas  as  Casas.  Mas  nós  não  nos  ressentimos  com  a  crítica  bem-intencionada  de  qualquer  homem  que queira  vencer  a  guerra.  Nem  mesmo  a  crítica  honesta  nós  evitamos,  e  esta  é  a  mais  perigosa  de  todas."

O  gabinete  de  guerra  britânico

Percebeu-se  na  Grã-Bretanha,  durante  a  guerra  passada,  que  um  gabinete  de  uns  vinte  membros  era organismo  grande  demais  para  uma  eficiente  direção  dos  negócios.  Quando  Mr.  Lloyd  George  se  tornou Primeiro  Ministro,  em  1916,  ele  criou  um  pequeno  grupo  interno  de  cinco,  cuja  função  única  era  a  direção  da guerra.  Esse  foi  o  precedente  que  orientou  a  formação  de  um  Gabinete  de  Guerra  interno  ao  romper  da presente  conflagração.  Presidiu-o  o  Primeiro  Ministro  e  contava  com  Sir  John  Simon  (Chanceler  do  Erário), Lord  Halifax  (Secretário  do  Exterior),  Lord  Chatfield  (Coordenação  da  Defesa),  Mr.  Hore-Belisha  (Guerra), Sir  Kingsley  Wood  (Ar),  e  Sir  Samuel  Hoare  (Lord  do  Selo  Privado).  Dois  outros  membros  levaram  a  essa corporação  a  experiência  obtida  durante  a  Grande  Guerra.  Mr.  Winston  Churchill,  voltando  ao  seu  antigo posto  no  Almirantado,  foi  incluído  no  Gabinete  de  Guerra;  e  Lord  Hankey,  que  tinha  longa  folha  de  serviço como  Secretário  do  Comitê  de  Defesa  Imperial  e  o  qual  servira  como  Secretário  do  Gabinete  Imperial  de Guerra,  entrou  como  ministro  sem  pasta.  Em  edição,  Mr.  Anthony  Eden,  que  foi  nomeado  Secretário  dos Domínios,  iria  ter  acesso  ao  Gabinete  de  Guerra  no  tocante  a  assuntos  relativos  ao  seu  departamento.

Em  1916  observaram-se  certas  divergências  entre  esse  corpo  e  o  Gabinete  de  Guerra.  Em  primeiro  lugar,  este não  era  uma  coalizão  de  todos  os  partidos.  Os  partidos  Liberal  e  Trabalhista  tinham  sido  aproximados,  mas, depois  de  confabulações,  haviam  decidido  manter-se  de  lado,  prontos  a  apoiar  os  esforços  de  guerra  do governo,  mas  permanecendo  livres  para  criticar  onde  a  crítica  se  mostrasse  justificada.  Em  segundo  lugar,  ele consistia  em  grande  parte  na  chefia  de  pastas.  Os  membros  do  anterior  gabinete  de  guerra  tinham  sido libertados  de  todos  os  deveres  administrativos,  com  a  finalidade  de  poderem  devotar  todas  as  suas  energias aos  problemas  mais  amplos  da  guerra.  No  caso  presente,  os  membros  retinham  suas  pastas  executivas,  e sentiu-se  que  isto  seria  um  erro.  Foi  também  sugerido  em  alguns  círculos  que  devido  a  razões  não  alheias  à inclusão  de  Mr.  Churchill  -  o  Gabinete  de  Guerra  pendia  pesadamente  para  o  lado  dos  serviços  militares,  e que  o  fiel  da  balança  poderia,  com  vantagens,  ser  desviado  para  o  lado  civil.

Mal  se  tinham  passado  quatro  meses  antes  que  uma  mudança  mais  importante  no  Gabinete  de  Guerra  tivesse lugar.  A  5  de  janeiro  foi  anunciado  que  Mr.  Hore-Belisha  renunciara  a  pasta  de  Secretário  de  Estado  da Guerra.  A  notícia  apanhou  o  público  em  geral  inteiramente  de  surpresa.  Mr.  Hore-Belisha  tinha  ganho  uma reputação  de  enérgico  reformador,  particularmente  durante  a  sua  gestão  na  pasta  da  Guerra.  Sua  drástica modificação  do  Supremo  Comando,  suas  medidas  para  democratizar  o  exército  e  acelerar  as  promoções,  seus esforços  para  melhorar  o  soldo  dos  soldados,  tinham  provocado  comentários  favoráveis.  O  mistério  foi  mal desfeito  pelas  explicações  oficiais  no  Parlamento.  A  coisa  mais  aproximada  a  uma  insinuação,  na  declaração algo  velada  de  Mr.  Hore-Belisha,  foi  a  observação:  "Não  me  ocorreu  considerar  que  estávamos  tornando  o exército  democrático  demais  para  lutar  pela  democracia."  O  primeiro  ministro  limitou-se  grandemente  a negar  algumas  interpretações  que  corriam  em  forma  de  boatos.  Não  tem  havido,  disse  ele,  divergência alguma  em  política  entre  Mr.  Hore-Belisha  e  o  Gabinete  ou  o  Conselho  do  Exército.  Não  tem  havido  pressão alguma  para  o  seu  afastamento  de  parte  dos  homens  de  "galões  dourados",  e  nenhum  membro  do  Alto Comando  ameaçou  renunciar.  "Quero  dizer  apenas  que  cheguei  à  percepção  de  dificuldades  -  talvez  possa descrevê-las  como  resultado  das  muito  grandes  qualidades  de  meu  honrado  amigo  -  que,  a  meu  modo  de  ver, faziam  desejável  que  alguma  mudança  ocorresse  de  quando  em  vez".  Tudo  que  era  possível  deduzir-se  de  tal declaração  era  que,  no  caso  de  Mr.  Oliver  Stanley,  que  substituiu  Mr.  Hore-Belisha  na  pasta  da  Guerra,  essas dificuldades  peculiares  dificilmente  se  apresentariam.

A  substituição,  se  bem  que  aceita  sem  críticas  sérias,  pouco  contribuiu  para  refrear  a  crescente  impaciência que  se  tornou  manifesta  num  certo  número  de  círculos  durante  os  meses  que  se  sucederam.  Um  sentimento foi  expresso  abertamente:  não  apenas  o  de  que  certos  funcionários  se  conduziam  de  um  modo  algo  menos que  ideal  em  seus  postos,  mas  também  o  de  que  havia  necessidade  de  mais  eficaz  coordenação  dos  esforços do  que  a  empregada  pelo  Gabinete  de  Guerra  nas  bases  existentes.  No  começo  de  abril  foram  tomadas medidas  experimentais  para  conciliar  esses  sentimentos.  Além  de  certas  modificações  ministeriais,  inclusive a  substituição  de  Sir  Kingsley  Wood  no  Ministério  do  Ar  por  Sir  Samuel  Hoare,  e  a  resignação  de  Lord Chatfield  ao  seu  cargo  no  Gabinete,  a  estrutura  mesma  do  corpo  central  governante  foi  reorganizada.  Mr. Churchill  tornou-se  chefe  de  um  comitê  composto  dos  chefes  dos  serviços  de  guerra;  Sir  John  Simon,  daí  em diante,  passou  a  presidir  um  comitê  de  política  econômica;  e  Sir  Kingsley  Wood,  agora  Lord  do  Selo Privado,  foi  posto  na  chefia  de  um  comitê  de  política  interna.  Assim,  a  direção  das  ativas  hostilidades,  dos assuntos  econômicos  e  dos  problemas  sociais  e  domésticos  foi  entregue  a  uma  autoridade  coerente,  com  o Gabinete  de  Guerra  a  exercer  a  suprema  função  de  órgão  coordenador.  Não  era  de  modo  algum  tudo  que  a crítica  esperava,  mas  representou  progresso  destacado  em  favor  da  unidade  de  direção.

Governo  de  guerra  na  França

Também  na  França,  o  início  da  guerra  conduziu  a  uma  reorganização  do  governo.  Daladier  procurou  ampliar as  bases  de  seu  ministério  com  a  inclusão  de  dois  líderes  socialistas,  mas  estes  não  obtiveram  a  permissão  de seu  partido  em  termos  aceitáveis  por  Daladier.  O  ministério  que  ele  anunciou  a  13  de  setembro  era,  portanto, muito  semelhante  na  composição  ao  que  o  precedera.  A  modificação  mais  notável  foi  a  transferência  para  o ministério  da  Justiça  de  M.  Bonnet,  que  durante  a  sua  gestão  no  ministério  do  Exterior  estivera  por  demais ligado  à  política  de  apaziguamento.  Nem  também  era  este  um  órgão  reduzido,  nos  moldes  do  Gabinete  de Guerra  britânico,  se  bem  que  de  certa  maneira  uma  significativa  concentração  de  poderes  tivesse  sido efetuada  quando  Daladier  tomou  em  mãos  as  pastas  da  Guerra  e  dos  Negócios  Exteriores,  além  da  chefia  do Gabinete.

O  parlamento  francês  governa  tradicionalmente  o  executivo  com  mãos  ciumentas;  e  um  ministério  dotado  do poder  de  emitir  decretos-leis  de  tanta  autoridade  concentrada  nas  mãos  do  primeiro  ministro  iria  fazer  com que  seus  atos  fossem  fiscalizados  com  cuidados  ainda  maiores  que  os  habituais.

Os  socialistas  particularmente  poderiam  mostrar  certa  preocupação  a  respeito  da  atitude  do  governo  no tocante  aos  elementos  mais  radicais  da  Esquerda.  Ao  começo  da  guerra,  o  governo  utilizou  todos  os  recursos de  sua  autoridade  para  lançar  um  golpe  contra  os  comunistas.  O  partido  estava  proscrito  e  seus  líderes presos;  sua  tentativa  de  se  reorganizar  num  Partido  de  Operários  e  Camponeses  foi  declarada  ilegal;  os conselhos  municipais  comunistas  foram  suprimidos,  e  60  dos  73  deputados  comunistas  à  Câmara  foram privados  de  seus  assentos.  Mas,  na  verdade,  os  próprios  socialistas  se  adiantaram  em  condenar  Moscou  desde o  pacto  germânico-soviético.  O  próprio  Parlamento  votou  a  expulsão  dos  deputados  comunistas;  e  quando, em  fevereiro,  M.  Daladier  defendeu  sua  política  ante  a  Câmara,  em  sessão  secreta,  obteve  o  triunfo  quase sem  precedentes  de  um  voto  unânime  de  confiança.

Este  sucesso,  entretanto,  mostrou-se  temporário.  Certa  obstinação  sobre  a  condução  da  guerra  tornou-se evidente  em  março,  e  foi  acentuada  à  conclusão  da  paz  entre  a  Finlândia  e  a  Rússia.  A  15  de  março,  depois de  dois  dias  de  debates  secretos,  uma  moção  de  confiança  foi  obtida  no  Senado,  sem  nenhum  voto  em contrário,  mas,  de  um  modo  significativo,  com  certo  número  de  abstenções.  A  19  de  março  houve  uma prolongada  sessão  secreta  na  Câmara  dos  Deputados.  Ao  terminar,  uma  moção  expressando  admiração  pela Finlândia  e  confiança  em  que  o  governo  conduzisse  a  guerra  à  vitória  foi  aprovada  por  239  contra  1  voto. Mas  as  cifras  demonstraram  que  300  deputados,  na  maioria  socialistas,  tinham-se  abstido  de  votar,  e  indicava crescente  precariedade  na  posição  do  governo.  O  resultado  foi  a  renúncia  do  governo  Daladier  a  20  de março.

O  sucessor  de  Daladier  foi  Paul  Reynaud,  ministro  das  Finanças.  M.  Reynaud  era  conhecido  como  um homem  de  energia  e  decisão  um  moderado  que  apoiava  os  métodos  democráticos  e  as  finanças  equilibradas. Sua  reputação  crescera  com  o  trabalho  desenvolvido  no  gabinete  Daladier,  onde  sua  política  conseguira estabilizar  a  posição  financeira  da  França  e  trouxera  uma  volta  de  confiança  capaz  de  paralisar  a  evasão  do capital  para  o  exterior.  Seu  gabinete,  em  que  Daladier  permaneceu  na  qualidade  de  Ministro  da  Guerra  e  o próprio  M.  Reynaud  assumiu  a  direção  da  política  estrangeira,  ficou  marcado  por  dois  feitos  especiais.  Criou um  grupo  central  de  nove  ministros  para  agir  como  Gabinete  de  Guerra,  e  ampliou  as  bases  do  governo  com a  inclusão  de  três  socialistas  no  ministério.  Além  disso,  um  Comitê  de  Guerra,  consistente  dos  ministros  da defesa  e  dos  chefes  dos  serviços  combatentes,  e  um  Comitê  Econômico  Inter-Ministerial,  cuja  função  era coordenar  a  atividade  econômica,  foram  criados  no  interesse  de  uma  direção  central  mais  eficaz.

O  novo  ministério  foi  recebido  de  maneira  algo  duvidosa.  Seu  primeiro  voto  de  confiança  foi  obtido  pela contagem  de  268  contra  156,  mas  a  abstenção  de  111  membros  deixou-o  com  uma  maioria  real  de  apenas  um voto.  Havia  várias  razões  para  isto.  O  gabinete  dos  nove,  que  M.  Reynaud  descreveu  como  "bastante  para  a deliberação,  mas  não  para  a  ação",  era  considerado  por  muita  gente  como  sendo  ainda  grande  demais.  A inclusão  dos  ministros  socialistas  foi  vista  com  maus  olhos  pelos  conservadores;  e  os  radical-socialistas,  o partido  de  Daladier,  exibia  certos  sinais  de  descontentamento.  Embora  o  novo  gabinete  tivesse  mostrado sinais  de  força  crescente  nos  dias  que  se  seguiram,  no  começo  de  abril  seu  futuro  era  ainda  duvidoso.

A  ascendência  de  Goering

Na  Alemanha  de  Adolf  Hitler  não  havia,  naturalmente,  problema  algum  de  concentração  de  autoridade  para fins  de  guerra.  Isto  fôra  conseguido  com  a  ascenção  de  Hitler  ao  poder.  Mas  mesmo  assim  o  governo  alemão sentiu  a  necessidade  de  um  órgão  capaz  de  supervisar  a  coordenação  das  medidas  necessárias  para  o  eficaz prosseguimento  da  guerra.  O  equivalente  alemão  do  Gabinete  de  Guerra  britânico  era,  pois,  o  Conselho Ministerial  para  a  Defesa  do  Reich,  que  Hitler  criara  com  o  decreto  de  30  de  agosto.

O  chefe  desse  órgão  era  o  marechal-de-campo  Goering,  agora  definitivamente  estabelecido  como  segundo  na importância  depois  do  próprio  Hitler.  Desde  que  os  nazistas  tomaram  o  poder,  ele  tinha  sido  encarregado  de uma  sucessão  de  tarefas  críticas,  de  modo  que  a  sua  autoridade  já  se  estendia  aos  terrenos  político,  militar  e econômico.  Foi  presidente  do  Reichstag,  criador  e  chefe  da  força  aérea  alemã,  e  diretor  do  Plano  de  Quatro Anos  que  governava  a  atividade  econômica  da  Alemanha.  E  em  seu  discurso  no  Reichstag,  a  1 o  de  setembro, Hitler  nomeou  Goering  seu  sucessor  imediato  para  o  caso  de  lhe  acontecer  algo  durante  a  guerra.

Para  o  segundo  na  lista,  e  também  para  membro  do  Conselho  de  Defesa,  Hitler  nomeou  Rudolf  Hess.  O mérito  relevante  deste  era  a  sua  completa  devoção  pessoal  a  Hitler.  Em  troca,  Hitler  provavelmente  confiava em  Hess  mais  que  em  qualquer  outro  de  seus  associados.  Tornou  Hess  seu  vice-líder  no  Partido  Nazista,  e dependia  dele  em  muitos  dos  trabalhos  de  detalhe  envolvendo  coisas  como  a  redação  de  decretos.  Da  parte de  Hess,  Hitler  podia  contar  com  solícita  obediência.

Os  outros  quatro  membros  do  Conselho  eram  Wilhelm  Frick  (Ministro  do  Interior),  dr.  Walther  Fuck (Ministro  da  Economia  e  diretor  do  Reichsbank),  general  Wilhelm  Keitel  (Chefe  do  Estado-Maior  pessoal  de Hitler)  e  dr.  Heinrich  Lamers,  chefe  da  Chancelaria  do  Reich  e  secretário  do  Conselho.  Esses  homens  eram naturalmente  membros  em  função  dos  próprios  cargos  que  ocupavam,  e  sua  inclusão  foi  menos  digna  de  nota que  a  omissão  de  certos  outros  líderes.  A  ausência  de  Herr  von  Ribbentrop  poderia  ser  atribuída  ao  fato  de que  ele  era  Ministro  do  Exterior,  visto  que  o  Conselho  iria  lidar  principalmente  com  questões  domésticas. Mas  a  exclusão  do  dr.  Goebbels,  ministro  da  Propaganda,  e  de  Heinrich  Himmler,  chefe  da  Polícia  Secreta, eram  levadas  por  muitos  observadores  na  conta  da  hostilidade  pessoal  de  Goering.  Sua  inimizade  em  relação a  Goebbels  havia  muito  era  notória;  e  sua  antipatia  a  Himmler,  embora  possivelmente  mais  recente,  não  era por  isso  menos  amarga.  Parecia  ser  compartilhada  pelos  altos  círculos  do  exército,  revoltados  com  a brutalidade  dos  métodos  policiais  de  Himmler.  Diz  muito  do  poder  de  Himmler  o  fato  de  pouco  tempo depois  Goering  ter  sido  obrigado  a  conceder-lhe  o  direito  a  um  assento  como  substituto  do  dr.  Frick  sempre que  este  tivesse  que  ausentar-se.

Ao  término  do  ano  era  sentida  a  necessidade  de  coordenação  ainda  maia  estreita.  O  Conselho  de  Defesa poderia  harmonizar  a  política,  mas  algo  semelhante  a  um  Estado-Maior  para  a  economia  nacional  atrairia

maior  harmonia  neste  terreno  O  resultado  foi  a  criação,  a  4  de  janeiro,  de  um  Conselho  Geral  da  Economia de  Guerra.  Novamente  Goering  foi  escolhido  chefe,  e  ligados  a  ele  estavam  funcionários  dos  principais ministérios  que  lidavam  com  questões  sociais  e  econômicas,  da  mesma  forma  que  do  exército  e  da organização  do  Plano  de  Quatro  Anos.  A  nova  nomeação  tornou  Goering  chefe  supremo  de  toda  a  economia nacional,  e  colocou  diretamente  em  suas  mãos  o  controle  de  funções  específicas  que  mesmo  Hitler  nunca procurou  exercer.

Economia  de  guerra

"As  Finanças",  disse  Sir  John  Simon  ao  apresentar  o  orçamento  de  guerra  da  Grã-Bretanha,  "são  a  quarta arma  de  defesa,  não  menos  importante  que  as  outras  três,  e  se  as  finanças  falharem,  o  pilar  que  sustenta  todos os  nossos  esforços  de  guerra,  ruirá".  Mas  as  finanças  nesta  guerra  significam  algo  muito  mais  que  o  simples equilíbrio  entre  as  despesas  e  as  receitas  do  governo.  Com  todos  os  beligerantes,  mesmo  durante  o  período mais  calmo  da  guerra,  gastando  somas  equivalentes  a  menos  de  metade  de  suas  rendas  nacionais,  as  fontes  de empréstimos  e  impostos  tinham  que  ser  consideradas;  e  isto  significava,  em  última  análise,  um  cuidado extraordinário  com  as  próprias  fontes  de  renda  nacional.

Um  resultado  foi  a  completa  mudança  de  atitude  quanto  à  questão  dos  gastos  individuais.  Em  tempo  de  paz era  natural  que  os  cidadãos  fossem  encorajados  a  comprar  quanta  coisa  lhes  fosse  possível.  Quanto  mais  eles comprassem,  maior  seria  o  encorajamento  dos  esforços  de  produção;  e  esse  caminho,  sentia-se,  conduzia  à prosperidade  nacional.  Mas  em  tempo  de  guerra,  todas  as  energias  produtivas  da  nação  eram  necessárias  à condução  da  guerra.  Quanto  mais  o  cidadão  médio  exigia  para  si  próprio,  menos  ficaria  para  os  propósitos  de guerra.  Por  outro  lado,  quanto  mais  suas  exigências  fossem  reduzidas  ao  estritamente  essencial,  tanto maiores  seriam  os  recursos  à  disposição  do  Estado.

Um  dos  modos  de  restringir  s  consumo  individual  era  o  racionamento.  Isto  foi  introduzido  na  Alemanha  para certo  número  de  artigos  de  primeira  necessidade  a  27  de  agosto,  e  depois  regulamentado  em  setembro.  Os aliados  foram  mais  vagarosos  para  adotar  restrições  obrigatórias.  Mas  a  8  de  janeiro  a  Inglaterra  introduziu cartões  de  racionamento  para  a  manteiga,  açúcar,  toucinho  e  presunto,  e  a  carne  foi  acrescida  à  lista  em março.  Sir  John  Simon  explicou  essas  medidas  como  destinadas  deliberadamente  a  reduzir  o  consumo  dos gêneros;  e  as  medidas  tomadas  em  fevereiro  para  o  controle  do  algodão  e  da  lã  foram  dirigidas  para  idêntico fim.  As  restrições  francesas,  introduzidas  a  1 o  de  março,  tomaram  a  forma  não  de  cartões  de  racionamento, mas  da  proibição  de  certos  alimentos  em  determinados  dias  -  nenhuma  carne  na  segunda-feira,  por  exemplo, e  nada  de  farináceos  na  terça-feira.  O  álcool  ficou  proibido  por  três  dias  da  semana,  mas  o  vinho  foi  deixado à  vontade  dos  consumidores  gauleses.

Um  segundo  método  consistia  na  elevação  dos  preços  -  ou,  alternativamente,  na  redução  dos  salários.  Todos os  governos  beligerantes  reconheceram  as  dificuldades  com  que  esbarrava  esta  última  medida;  mas  todos  se empenharam  em  evitar  qualquer  séria  elevação  de  salários,  enquanto  deixavam  que  os  preços  tomassem  um rumo  ascendente.  No  caso  de  certos  gêneros  de  primeira  necessidade  ainda  não  racionados,  percebeu-se  que estes  tinham  que  ser  limitados;  e  em  fevereiro  o  governo  britânico  apresentou  um  plano  de  subsídio alimentar  ao  custo  de  58.000.000  de  libras  por  ano  para  ser  aplicado  ao  trigo  e  ao  leite,  da  mesma  forma  que aos  gêneros  racionados  como  carne  e  toucinho,  cujos  preços  se  elevavam  acima  do  desejável.  Mas  a  elevação de  preços  de  muitos  artigos  foi  deixada  à  vontade;  e  nos  países  beligerantes  -  como  também,  na  verdade,  nas nações  neutras  da  Europa  -  o  custo  da  vida  subiu  durante  esse  período  entre  vinte  e  trinta  por  cento.

A  par  desses  acontecimentos  manifestava-se  um  esforço,  não  somente  para  aumentar  a  produção  da agricultura  e  indústria  nacionais,  como  também  -  e  particularmente  no  caso  da  Grã-Bretanha  -  para  dar  um estímulo  especial  às  indústrias  de  exportação.  As  compras  britânicas  no  exterior  -  sempre  grandes, aumentaram  substancialmente  como  resultado  das  exigências  bélicas.  As  importações  de  105.000.000  libras em  janeiro  ultrapassavam  mais  que  duas  vezes  e  meia  as  exportações,  e  excederam  as  importações  de  janeiro de  1939  em  perto  de  30.000.000  de  libras.  As  importações  de  fevereiro  baixaram  a  menos  de  96.000.000 libras,  mas  as  exportações  também  baixaram  até  40.000.000  de  libras.  Isto  envolvia  não  somente  um problema  de  balança  comercial,  mas  também  um  de  câmbio  estrangeiro.  Algum  alívio  poderia  ser  esperado de  planos  como  o  da  expansão  da  agricultura  doméstica  para  dois  milhões  de  acres;  e  o  problema  do  câmbio poderia  tornar-se  menos  agudo  por  meio  de  compras  dentro  do  Império,  onde  as  aquisições  extensivas  de produtos  como  lã,  cobre  e  madeira  já  tinham  sido  resolvidas.  Mas  era  aparente  que  sério  esforço  ainda  tinha que  ser  feito  para  equilibrar  a  balança.

Nos  círculos  comerciais  da  Grã-Bretanha  ergueu-se  em  conseqüência  a  exigência  pela  criação  de  um Ministério  da  Economia,  cuja  tarefa  seria  a  coordenação  e  direção  de  todas  as  atividades  econômicas  da nação  -  a  tarefa  mesma  que  estava  sendo  cumprida  pelo  Conselho  Econômico  de  Goering  na  Alemanha.  Essa proposta  foi  rejeitada  por  Mr.  Chamberlain,  que  receava  que  "esse  ministro  de  altos  poderes  poderia  fazer mais  mal  do  que  bem"  e  o  qual  pensava  no  "que  é  que  o  primeiro  ministro  iria  fazer  depois  que  esse cavalheiro  desse  ordens  a  todos  os  departamentos."  Mas  a  1 o  de  fevereiro  ele  anunciou  a  criação  de  um Conselho  de  Exportação,  chefiada  por  Sir  Andrew  Rae  Duncan,  cuja  tarefa  seria  encorajar  o  comércio exportador  da  Grã-Bretanha  e  diminuir  a  diferença  entre  exportações  e  importações  pelo  incremento  das exportações  em  cerca  de  cinqüenta  por  cento.

O  problema  das  finanças

Esses,  pois,  eram  alguns  dos  acontecimentos  que  se  ocultavam  por  trás  dos  esforços  dos  governos beligerantes  para  assentar  as  bases  necessárias  à  neutralização  do  crescente  custo  da  guerra  -  custo  que,  na Grã-Bretanha,  chegava  a  seis  e  meio  milhões  de  libras  por  dia.  A  França  gastava  algo  menos,  a  Alemanha consideravelmente  mais.  Nem  toda  essa  despesa  podia  ser  coberta  pelos  impostos  comuns,  embora  sérios esforços  tenham  sido  feitos  para  a  obtenção  da  maior  renda  possível.  Os  impostos  sobre  a  renda  dos britânicos  subiram  de  37  para  80  por  cento.  O  imposto  francês  sobre  a  renda  -  de  4  para  15  por  cento  - parecia  baixo  em  comparação,  mas  foi  completado  por  impostos  indiretos  e  por  taxações  drásticas  sobre  os lucros  comerciais.  A  Alemanha  aumentou  um  imposto  já  pesado  em  50  por  cento,  e  impostos  indiretos  sobre vários  artigos  em  20  por  cento.  Mesmo  a  Grã-Bretanha  dificilmente  poderia  esperar,  entretanto,  obter  pela taxação  mais  que  40  por  cento  de  um  gasto  de  guerra  que  acabaria  por  subir  a  tanto  como  três  bilhões  de libras  por  ano.  A  Alemanha  teria  conseguido  muito  se  se  aproximasse  daquela  proporção;  enquanto  a  França, que  gastaria  sete  e  meio  bilhões  de  dólares  em  1940,  teria  provavelmente  que  obter  tanto  como  três  quartas partes  daquela  soma  por  meio  de  empréstimos  e  créditos.

Essa  situação  exigia  uma  cuidadosa  administração  dos  recursos  de  crédito  do  país.  Certo  uso  poderia  ser  feito dos  empregos  de  capital  existentes,  particularmente  para  conseguir  créditos  no  exterior.  Todos  os beligerantes  tinham  imposto  rígidas  restrições  cambiais.  A  Alemanha,  naturalmente,  havia  muito  tinha reivindicado  para  o  Estado  todos  os  bens  de  estrangeiros.  Em  fevereiro,  a  Grã-Bretanha  atribuiu  uma  lista  de sessenta  garantias  americanas  selecionadas.  Mas  a  principal  fonte  de  recursos  devia  ser  as  apropriações  dos fundos  disponíveis  dentro  do  país.  A  flutuação  favorável  de  um  empréstimo  britânico  de  300.000.000  libras  à taxa  de  três  por  cento  mostrou  a  intenção  de  se  manter  o  custo  das  apropriações  o  mais  baixo  possível;  e  isto foi  acompanhado  de  medidas  tendentes  a  evitar  a  alta  conseqüente  das  inversões  particulares  e  pela  fixação  a um  preço  mínimo  das  garantias  governamentais.  A  França  também  se  empenhou  em  preservar  ao  governo uma  posição  crediária  favorável;  e  a  Alemanha  mostrou  sinais  de  ampliar  o  já  extenso  controle  que  exercia sobre  a  política  de  inversões  de  indivíduos  e  corporações.

O  fato  era,  naturalmente,  que  fora  desses  países  -  os  baluartes  financeiros  da  Europa  -  relativamente  poucas fontes  de  crédito  havia  disponíveis.  A  Grã-Bretanha  esperava  poder  fazer  uso  da  capacidade  de  crédito  do Canadá  e  dos  outros  Domínios,  e  poderiam  ser  obtidos  créditos  comerciais  de  vários  neutros.  Mas  estes,  à exceção  dos  Estados  Unidos,  tinham  fundos  limitados  para  poder  pôr  à  disposição  dos  beligerantes;  e  os créditos  americanos  estavam  barrados  pela  Lei  da  Neutralidade.  Conforme  Mr.  Robert  Hudson,  Secretário  do Comércio  Ultramarino,  resumiu  o  duplo  problema  dos  suprimentos  e  finanças:

"Não  estamos  livres  para  concentrar  todas  as  nossas  forças  na  fabricação  de  munições,  porque  devemos devotar  parte  dos  nossos  recursos  industriais,  uma  parte  crescente,  ao  preparo  de  artigos  que  pagarão  pela matéria-prima  de  que  essas  munições  por  sua  vez  possam  ser  fabricadas.  Não  podemos  tomar  empréstimos externos  para  fazer  isto,  como  fizemos  entre  1914  e  1918.  Devemos  pagar  à  vista.  Esta  é  uma  guerra  de  cash- and-carry".

Dificuldades  orçamentárias,  entretanto,  não  iriam,  por  si  só,  trazer  o  colapso  a  qualquer  um  dos  beligerantes. Enquanto  os  seus  povos  continuassem  a  produzir,  e  enquanto  consentissem  em  fazer  entrega  de  uma  parte bastante  de  sua  produção  ao  Estado  para  fins  bélicos,  suas  dificuldades  econômicas  não  seriam  insuperáveis. As  restrições  e  o  racionamento  que  tinham  sido  impostos  o  foram,  na  maioria  dos  casos,  devido  à necessidade  da  precaução,  mais  que  em  resultado  de  necessidades  imediatas,  e  as  necessidades  absolutas  da vida  eram  ainda  satisfeitas  em  todos  os  países  beligerantes.  A  Alemanha  tinha,  sem  dúvida,  impelido  seus cidadãos  para  mais  perto  de  um  padrão  mínimo  de  vida  do  que  a  Grã-Bretanha  ou  a  França.  Ao  começo  do ano,  uma  política  mais  suave  foi  adotada  com  respeito  aos  salários  e  horas-extras  indicação  de  que  a  pressão sobre  os  trabalhadores  era  considerada  como  tendo  ido  longe  demais.  E  quando  a  15  de  fevereiro  Goering anunciou  um  aumento  no  preço  da  manteiga  e  do  leite,  ele  sentiu  a  necessidade  de  acrescentar  a  isso  um argumento  de  que  a  Alemanha  tinha  grande  quantidade  de  gêneros  alimentícios  disponíveis,  como  também um  apelo  às  donas  de  casa  para  que  se  mantivessem  animosas.

No  terreno  comercial,  as  importações  alemães  dos  neutros  acessíveis  pareciam  alcançar  ou  mesmo ultrapassar  o  nível  de  antes  da  guerra,  e  certa  quantidade  de  suprimentos  de  outros  países  gotejou  através  dos vizinhos  da  Alemanha.  Um  sinal  menos  prometedor  foi  o  decréscimo  das  exportações,  mesmo  para  a  Europa continental.  Para  sanar  as  deficiências  em  ambos  esses  terrenos,  as  melhores  esperanças  da  Alemanha repousavam  no  desenvolvimento  de  suas  relações  com  a  Rússia.  Era  verdade  que  pequeno  lucro  fôra  obtido até  então  de  tais  relações.  Mas  um  novo  tratado  comercial,  a  12  de  fevereiro,  (esses  tratados  estavam  se tornando  ocorrenciais  quase  que  mensais)  acenava  com  o  elevar  do  tráfico  entre  os  dois  países  dos  existentes 200  milhões  de  marcos  para  "um  nível  que  excederia  o  de  todos  os  anos  decorrentes  desde  a  Guerra Mundial"  -  isto  é,  ultrapassaria  o  bilhão  de  marcos  a  que  chegara  em  1931.  E  se  tais  esperanças  fossem seriamente  alimentadas,  elas  sem  dúvida  haveriam  de  receber  considerável  impulso  com  a  conclusão  da guerra  russo-finlandesa.

A  Rússia  e  a  Finlândia

A  severidade  do  inverno  que  se  abatera  sobre  a  Europa,  fossem  quais  fossem  os  seus  efeitos  sobre  as operações  no  ocidente,  em  nada  contribuíra  para  diminuir  a  intensidade  da  guerra  que  se  travava  entre  a Rússia  e  a  Finlândia.  Nas  frentes  de  batalha  que  se  estendiam  ao  Círculo  Ártico,  sob  uma  temperatura  que  às vezes  decaía  a  45°C.  abaixo  de  zero,  a  luta  prosseguia;  e  à  medida  que  ela  continuava,  a  fantasia  exuberante dos  primeiros  informes  sobre  os  êxitos  finlandeses  começou  a  dar  lugar  a  apreciações  mais  sóbrias  em  torno das  graves  perspectivas  que  se  descortinavam.

Ao  iniciar-se  o  ano,  os  finlandeses  ainda  mostravam  uma  resistência  de  notável  sucesso  à  contínua  pressão soviética,  que  se  manifestava  em  todas  as  frentes.  O  avanço  norte,  de  Salla  ao  entroncamento  ferroviário  de Kemijaervi,  encontrou  uma  barreira  inicial  a  19  de  dezembro,  e  uma  tentativa  subseqüente  foi  paralisada  em meados  de  janeiro.  O  esforço  de  atravessar  a  estreita  cintura  da  Finlândia,  com  a  finalidade  de  alcançar  o golfo  de  Bothnia  e  assim  cortar  as  ligações  ferroviárias  com  a  Suécia,  levou,  pelo  fim  do  ano,  à  batalha  de Suomussalmi,  em  que  os  finlandeses  primeiro  derrotaram  a  163 a  divisão  russa  e  depois,  passada  uma semana,  voltaram-se  contra  a  44 a  divisão,  que  vinha  em  socorro  da  primeira,  e  castigaram-na  severamente. Os  ataques  contra  a  linha  Mannerheim  foram  repelidos  com  êxito;  outro  movimento  ofensivo  ao  sul  de Suomussalmi,  em  Kuhmo,  foi  frustrado;  e  a  séria  ofensiva  ao  norte  do  lago  Ladoga,  que  continuou  por  todo  o mês  de  janeiro,  chegou  até  o  fim  desse  mês  sem  ser  coroada  de  sucesso  decisivo.

Ao  começo  de  fevereiro,  entretanto,  mudou  a  tática  russa.  Já  então  tivera  lugar  uma  modificação  no  comando russo,  e  as  tropas  de  segunda  categoria  empenhadas  nas  operações  anteriores  foram  substituídas  por  divisões mais  bem  treinadas,  possivelmente  trazidas  das  forças  siberianas.  Essa  reorganização  foi  então  seguida  de um  nove  plano  de  campanha.  Até  aí  os  esforços  principais  tinham  sido  dirigidos  por  forças  mecanizadas contra  a  fronteira  não-fortificada  da  Finlândia  oriental.  As  dificuldades  de  terreno,  a  deficiência  das comunicações  russas,  e  a  habilidade  dos  finlandeses  em  tirar  plena  vantagem  desses  fatores,  tinham contribuído  para  a  falta  de  êxito  dos  russos.  Foram  então  abandonados  os  métodos  iniciais.  Os  esforços  ao norte  ficaram  reduzidos  a  meras  operações  auxiliares;  e  a  1 o  de  fevereiro  todo  o  peso  da  ofensiva  russa  foi lançado  num  ataque  frontal  contra  a  Linha  Mannerheim.

A  Linha  Mannerheim

A  Linha  Mannerheim  era  um  exemplo  de  primeira  classe  de  modernas  fortificações.  Seguiu  ela  os  princípios adotados  pelos  alemães  no  ocidente  e  pelos  franceses  na  sua  mais  recente  construção  atrás  da  Linha  Maginot os  princípios  da  defesa  em  profundidade.  Tirou  plena  vantagem  das  características  naturais  do  terreno  em que  fôra  construída.  A  largura  de  96  km.  do  istmo  de  Carélia  é  pontilhada  de  lagos  que  constituem obstáculos  para  um  assalto  em  massa  ao  longo  de  todo  o  comprimento  daquela  linha.  A  tática  de  infiltração impõe-se  praticamente  ao  atacante  pela  própria  natureza  do  terreno.  E  as  obras  de  fortificações  haviam  sido construídas  justamente  para  fazer  frente  a  essa  tática.  Elas  não  eram  construídas  numa  linha  contínua,  mas numa  série  de  posições  isoladas.  Os  pontos  fortes  eram  a  cidadela  de  Muolaa  ao  centro,  as  defesas  de  Taipale no  lago  Ladoga,  e  os  fortes  de  Koivisto  no  golfo  da  Finlândia.  Entre  eles,  e  mais  atrás,  em  três  zonas principais,  havia  uma  série  de  posições  fortificadas  a  cobrirem  as  principais  linhas  de  aproximação  e construídas  de  modo  a  produzir  um  fulminante  fogo  cruzado  contra  as  tropas  atacantes.  Uma  crescente resistência  na  defesa  foi  calculada  para  infligir  aos  atacantes  perdas  tais  que  um  contra-ataque  apropriado lhes  completaria  a  destruição.

Parecia  que  uma  brecha  preliminar  fôra  aberta,  na  última  parte  de  janeiro,  onde  o  principal  peso  do  ataque russo  estava  então  concentrado:  ao  longo  da  estrada  de  Viipuri  a  Leningrado  antes  de  Summa,  no  centro direito  da  linha  entre  Muolaa  e  Koivisto.  Atrás  do  ataque  havia  uma  concentração  de  artilharia  remanescente das  batalhas  do  Somme  e  de  Verdun,  durante  a  Grande  Guerra.  Assestados  quase  lado  a  lado,  os  canhões russos  martelavam  incessantemente  as  fortificações,  atirando,  segundo  cálculos,  umas  300.000  granadas diariamente.  Os  efeitos  desse  canhoneio  foram  a  erradicação  das  peças  defensoras  e  o  desvio  de  sua  linha  de fogo,  ficando  assim  a  infantaria  atacante,  coberta  por  tanques,  capacitada  de  avançar  sobre  cada  posição sucessiva.  Depois  de  uma  batalha  de  quinze  dias,  Summa  foi  capturada  e  a  primeira  linha  defensiva  estava penetrada.

Os  finlandeses  tinham  obtido  suas  vitórias  iniciais  ao  permitirem  que  as  forças  russas,  avançassem  para depois  isolá-las,  por  meio  de  ataques  às  suas  comunicações.  Isto  exigia  uma  flexibilidade  de  manobra  que não  era  possível  na  defesa  de  posições  fortificadas.  O  equivalente  dessa  tática  na  Linha  Mannerheim  teria sido  um  contra-ataque  antes  que  o  saliente  criado  pelos  russos  no  ataque  contra  Summa  se  tivesse transformado  numa  ruptura  das  linhas  finlandesas.  Mas  fortes  ataques  russos  na  extremidade  oriental  da  linha e  ao  norte  do  lago  Ladoga  mantiveram  engajadas  substanciais  forças  finlandesas  e  impediram  os  finlandeses de  reforçar  os  defensores  de  Summa.  Eles  não  tinham  reservas  frescas  disponíveis  para  contra-ataques, apesar  da  convocação  de  homens  de  45  e  46  anos.  Com  a  ruptura  da  frente  finlandesa,  os  russos  estavam capacitados  a  alargar  a  sua  frente  e  a  voltar  a  atenção  aos  fortes  de  Koivisto  que  ameaçavam  seu  flanco.

A  26  de  fevereiro.  os  finlandeses  finalmente  admitiram  a  perda  de  Koivisto.  A  cidade-chave  de  Viipuri encontrava-se  então  sob  um  bombardeio  a  curta  distância.  Tropas  russas  penetraram  em  seus  subúrbios  nos primeiros  dias  de  março;  outras  forças  russas  foram  empregadas  num  movimento  de  flanco  em  torno  da  baía de  Viipuri.  Apesar  da  barragem  de  artilharia  e  do  fogo  de  metralhadoras  que  as  acolheu  no  avanço  aberto  por sobre  o  gelo,  elas  dominaram  as  ilhas  e  a  baía  e  puderam  fixar-se  no  continente.  A  11  de  março,  Viipuri estava  envolvida  e  seus  dias  visivelmente  contados.

Mas  quatro  dias  antes,  a  7  de  março,  o  mundo  ficara  atônito  ao  ter  conhecimento  da  notícia  de  que negociações  de  paz  já  estavam  em  andamento  entre  a  Rússia  e  a  Finlândia.

A  oferta  russa  de  paz

Os  passos  que  conduziram  a  esse  acontecimento  foram  um  segredo  cuidadosamente  guardado;  e  os  vários documentos  disponíveis  ao  tempo  de  ter  sido  este  trabalho  escrito  haviam  levantado  apenas  uma  parte  muito pequena  do  véu.  Mas  parecia  claro  que,  mesmo  depois  de  declarada  a  guerra,  ambas  as  facções  continuavam a  acalentar  na  mente  a  possibilidade  de  um  acordo.  A  15  de  dezembro,  o  Ministro  dos  Estrangeiros  da Finlândia  irradiou  uma  mensagem  pessoal  ao  premier  Molotov  oferecendo  negociações  para  uma  paz honrosa.  Oferta  semelhante  foi  feita  pelo  presidente  Kallio,  numa  reunião  da  Dieta  de  Guerra,  a  1 o  de fevereiro.  Nesse  ínterim,  os  russos  haviam,  segundo  parece,  informado  à  Suécia,  a  29  de  janeiro,  que estavam  desejosos  de  receber  sugestões  dos  finlandeses,  uma  vez  que  as  primitivas  reivindicações  russas fossem  satisfeitas  e  garantias  subseqüentes  lhes  fossem  dadas.  Mas  a  resposta  finlandesa,  e  a  base  sugerida no  discurso  do  presidente  Kallio,  não  iam  de  encontro  a  essas  condições.  Moscou  decaiu  na  atitude  de  que  o regime  de  títeres  de  Terijoki,  e  não  "os  bandidos  finlandeses"  de  Helsingfors,  constituía  o  governo  legal  da Finlândia;  e  novas  iniciativas  finlandesas,  por  intermédio  da  Suécia,  a  12  de  fevereiro,  não  receberam resposta.

Na  parte  final  de  fevereiro,  entretanto,  essa  atitude  mudou.  Novos  perigos  de  um  choque  com  o  Japão,  sobre a  fronteira  da  Mongólia,  negociações  que  haviam  sido  interrompidas,  e  um  certo  nervosismo  devido  à situação  interna,  podem  ter  tido  algo  a  ver  com  isso.  De  qualquer  forma,  o  embaixador  soviético  em  Londres achegou-se  ao  governo  britânico  a  22  de  fevereiro  com  uma  série  de  propostas  que  pedia  à  Grã-Bretanha encaminhasse  à  Finlândia.

As  propostas  russas  eram  mais  duras  que  as  exigências  originais  que  tinham  conduzido  à  guerra  com  a Finlândia.  Elas  incluíam  todo  o  território  que  cobre  o  lago  Ladoga  e  o  total  do  istmo  de  Carélia,  bem  como concessões  na  região  de  Petsamo  e  um  longo  arrendamento  da  base  naval  de  Hangoe.  O  governo  britânico estudou-as  durante  cinco  dias  e  depois  achou  que  eram  ultrajantes  demais  para  serem  encaminhadas.  Assim, tendo  falhado  na  obtenção  dos  bons  ofícios  britânicos,  o  governo  soviético  voltou-se  de  novo  para  a  Suécia.

A  posição  da  Suécia

Os  suecos  tinham  boas  razões  para  procurar  a  oportunidade  de  paz  com  mais  empenho  que  os  ingleses.  Sua posição  era  a  de  uma  crescente  inquietude.  A  guerra  entre  a  Alemanha  e  os  aliados  tornara  a  sua  neutralidade bastante  precária.  Os  interesses  da  Alemanha  em  manter  acesso  aos  suprimentos  suecos,  particularmente  o minério  de  ferro,  acentuaram  a  sua  pressão  política,  dirigida  especialmente  em  favor  da  supressão  na imprensa  sueca  de  quaisquer  comentários  menos  favoráveis  à  Alemanha.  Em  vista  do  que  o  comércio  e  a navegação  suecos  sofriam  com  os  indiscriminados  métodos  alemães  de  guerra  naval,  tais  comentários  eram naturalmente  de  certa  freqüência.  E,  do  mesmo  modo  naturalmente,  os  aliados,  conquanto  simpatizassem com  os  suecos  por  sua  tão  difícil  situação,  eram  obrigados  a  efetuar  todos  os  esforços  para  impedir  a  sua manutenção  técnica  de  neutralidade,  utilizada,  de  fato,  numa  forma  favorável  à  Alemanha.

O  início  da  guerra  russo-finlandesa  complicou  enormemente  a  situação.  Pôs  a  Escandinávia,  particularmente a  Suécia,  entre  três  fogos.  Havia  a  sensação  geral  de  que  a  Finlândia  era  um  baluarte  essencial  cuja  queda tornaria  a  Suécia  a  próxima  vítima  da  agressão  russa;  e  um  sentimento  "ativista"  muito  considerável manifestou-se  no  país,  exigindo  não  somente  assistência  voluntária  aos  finlandeses,  mas  também  intervenção militar  direta  a  seu  favor.  E  mesmo  que  os  aliados  não  tenham  até  então  exercido  pressão  para  o  mesmo  fim, manifestações  como  o  discurso  de  Mr.  Churchill  a  20  de  janeiro,  solicitando  aos  neutros  que  apoiassem  os aliados  contra  a  Alemanha,  eram  sinais  bastante  claros  de  que  isso  poderia  por  fim  acontecer.

Contra  essa  possibilidade  erguia-se  o  perigo  muito  mais  iminente  de  uma  ação  direta  alemã,  se  a  Suécia desse  um  passo  em  falso.  Não  que  a  Alemanha  fosse  necessariamente  hostil  aos  finlandeses,  apesar  de  sua ligação  com  a  Rússia.  Ela  cedeu  à  pressão  russa,  retendo  aviões  italianos  que  eram  mandados  à  Finlândia,  via Alemanha,  no  começo  da  guerra.  Mas  não  mostrou  entusiasmo  algum  pela  aventura  russa.  Negou peremptoriamente  o  boato  de  que  dera  assistência  militar  ou  técnica  contra  os  finlandeses.  E  era  significante o  não  ter,  aparentemente,  oposto  objeções  ao  auxílio  sueco  à  Finlândia  ou  ao  trânsito  de  abastecimentos  e  de voluntários  dos  países  aliados  através  de  solo  escandinavo.

Uma  intervenção  militar  aliada  direta,  entretanto,  teria  sido  um  caso  decididamente  diferente.  A  Alemanha nutria  a  viva  suspeita  de  que  o  objetivo  de  tal  intervenção  não  seria  apenas  o  de  libertar  a  Finlândia,  mas também  o  de  desfechar  um  golpe  no  Reich.  Na  Grã-Bretanha  e  França  havia  apoio  considerável  à  política  de ser  utilizada  a  intervenção  na  Finlândia  para  a  criação  de  uma  frente  norte  contra  a  Alemanha  e  assim  privar esta  do  acesso  às  minas  de  ferro  da  Suécia.  Esta  política  foi  vivamente  defendida  por  Mr.  Hore-Belisha  num discurso  aos  seus  eleitores,  a  23  de  fevereiro.  A  Alemanha,  por  sua  vez,  tornou  claro  à  Suécia  e  à  Noruega que  a  presença  de  tropas  aliadas  em  seu  território  constituiria  o  sinal  para  uma  invasão  alemã.

Os  aliados  e  a  Finlândia

Em  fevereiro,  os  aliados  estavam  definitivamente  estudando  uma  expedição  à  Finlândia.  As  primeiras solicitações  finlandesas,  que  se  tornaram  freqüentes  de  30  de  novembro  em  diante,  eram  de  suprimentos militares.  A  essas,  os  aliados  responderam  com  a  melhor  de  sua  capacidade,  e  uma  relação  impressionante  de suprimentos,  incluindo  artilharia  e  aviões  como  também  grande  variedade  de  armamento  leve,  foi  mais  tarde revelada  pelos  governos  francês  e  britânico.  Mas  não  foi  senão  em  meados  de  janeiro  que  o  barão Mannerheim  disse  que  se  sentiria  satisfeito  em  ter  30.000  soldados  bem  treinados  pelos  meados  de  maio.

A  5  de  fevereiro,  o  Supremo  Conselho  de  Guerra  reuniu-se  e  se  decidiu  a  mandar  uma  expedição.  Percebeu- se,  entretanto,  que  isso  provocaria  um  ataque  alemão  à  Suécia  e  que  parte  da  força  seria  requerida  para auxiliar  os  suecos.  Assim,  embora  o  efetivo  da  expedição  fosse  estabelecido  em  100.000,  apenas  30.000 iriam  realmente  para  a  Finlândia.  Foi  sugerido  aos  finlandeses  na  segunda  metade  de  fevereiro  que  fizessem um  apelo  público  por  uma  expedição  que  não  chegasse  depois  de  5  de  março,  o  que  permitiria  aos  aliados ajustar  com  a  Noruega  e  a  Suécia  a  questão  da  passagem.

A  esse  tempo,  com  a  Rússia  a  martelar  a  Linha  Mannerheim,  a  situação  finlandesa  se  tornara  muito  mais desesperadora.  A  13  de  fevereiro,  mais  ou  menos,  a  Finlândia  procurou  os  países  escandinavos  com  um pedido  oficial  de  auxílio  militar,  estabelecendo  que  a  alternativa  era  para  ela  solicitar  intervenção  aliada,  e deixando  compreendido  que  os  aliados  tinham  feito  uma  promessa  concreta  de  assistência  militar.  A  16  de fevereiro  foi  anunciado  que  a  Suécia  recusou  a  solicitação  finlandesa.  A  notícia  conduziu  a  um  estourar  de protestos  "ativistas"  tão  sério  que  dois  dias  depois  o  rei  Gustavo  teve  que  convocar  o  Conselho  da  Coroa  a fim  de  fazer  uma  declaração  pública  apoiando  a  ação  de  seus  ministros.  A  25  de  fevereiro,  uma  reunião  dos ministros  do  Exterior  da  Noruega,  Suécia  e  Dinamarca  resultou  na  declaração  de  que  estes  países  estavam unanimemente  decididos  a  manter  sua  neutralidade,  e  que  "receberiam  com  satisfação  quaisquer  propostas para  o  início  de  negociações  entre  os  beligerantes."

Entrementes,  parece  que  os  finlandeses  tinham  começado  a  fazer  pressão  por  um  auxílio  aliado  mais imediato.  Uma  declaração  de  M.  Daladier,  a  12  de  março,  revelou  que  no  começo  da  segunda  metade  de fevereiro,  fôra  feito  um  apelo  e  que  a  16  de  fevereiro  os  finlandeses  haviam  sido  informados  de  que  os transportes  necessários  tinham  sido  reunidos  e  que  os  franceses  dispunham  de  50.000  soldados  prontos  para embarcar.  Reconheceu-se,  não  oficialmente,  haver  a  Inglaterra  tomado  medidas  semelhantes.

Enquanto  esperavam  um  pedido  formal  da  Finlândia,  os  aliados  trataram  de  limpar  o  caminho  na Escandinávia.  A  2  de  março,  de  conformidade  com  uma  declaração  do  ministro  dos  Estrangeiros  da Noruega,  os  aliados  pediram  a  este  país  e  à  Suécia  permissão  para  o  transporte  de  tropas  através  de  seu território.  A  Suécia  recusou  a  3  de  março;  a  Noruega  a  4  de  março.  A  esse  tempo,  conversações  preliminares de  paz  estavam  em  andamento  em  Estocolmo,  e  os  próprios  finlandeses  se  mostravam  hesitantes.  Pediram aos  aliados  permissão  para  suspender  a  sua  decisão  de  uma  solicitação  formal  de  ajuda,  e  ao  mesmo  tempo inquiriam  se  podiam  contar  com  50.000  homens  no  prazo  de  um  mês.  Os  aliados,  de  conformidade  com  Mr. Chamberlain,  responderam  que  a  sua  proposta  anterior  representava  a  maior  força  materialmente  capaz  de ser  transportada.  Este  era  o  significado,  aparentemente,  de  "todos  os  recursos  disponíveis"  que,  conforme disse  Mr.  Chamberlain  na  Câmara  dos  Comuns  a  11  de  março,  os  aliados  tinham  prometido  oferecer  à Finlândia,  se  esta  lhes  pedisse.  Mas  o  pedido  jamais  veio,  pois  que  os  finlandeses  já  estavam  negociando  os termos  finais  da  paz  em  Moscou.  Um  pedido  formal  dos  aliados,  a  12  de  março,  de  passagem  pela Escandinávia  não  deu  em  nada,  pois  que  algumas  horas  mais  tarde  os  representantes  finlandeses  firmaram  o tratado  de  paz  com  a  Rússia.

O  tratado  de  paz  russo-finlandês

Os  termos  impostos  pelo  tratado  à  Finlândia  eram  muito  mais  severos  que  os  que  ela  havia  rejeitado  em novembro.  Ao  norte,  ela  obteve  a  volta  de  Petsamo,  que  os  russos  tinham  ocupado  ao  começo  da  guerra;  mas as  restrições  do  tratado  de  paz  de  1920  a  respeito  de  forças  navais  naquela  região  foram  renovadas,  e  um território  na  península  de  Rybachi  devia  ser  cedido.  Na  fronteira  oriental,  ao  invés  de  obterem  uma  faixa  da Carélia  Russa,  de  conformidade  com  as  propostas  anteriores,  os  finlandeses  cederam  uma  faixa  na  região  de Salla,  incluindo  a  cidade  de  Kuolajaervi.  Além  disso,  houve  importantes  concessões  de  trânsito  em  ambas estas  regiões.  Haveria  livre  trânsito  entre  a  Rússia  e  a  Noruega  através  da  região  de  Petsamo,  e  entre  a  Rússia e  a  Suécia  pela  rota  ferroviária  mais  curta.  Para  este  propósito,  os  finlandeses  prometeram  que  a  linha  que corria  do  interior  do  golfo  de  Bothnia  até  Kemiajervi  iria  nesse  mesmo  ano  estender-se  até  atingir  a  fronteira e  estabelecer  ligação  com  uma  linha  russa  de  Kandalaksha.  Isto  completaria  uma  rápida  rota  de  trânsito  da extremidade  do  golfo  de  Bothnia  ao  mar  Branco,  o  que  poderia  ser  de  primeira  importância  para  o desenvolvimento  da  região  de  Murmansk.

Mas  foi  no  sul  que  a  Finlândia  sofreu  as  perdas  realmente  importantes  As  negociações  anteriores  tinham fracassado  em  conseqüência  da  relutância  finlandesa  em  ceder  as  ilhas  estratégicas  do  golfo  da  Finlândìa  e vender  ou  arrendar  a  base  naval  de  Hangoe.  Agora,  os  finlandeses  tiveram  que  atender  a  ambas  as exigências.  Todas  as  ilhas  na  baía  de  Viipuri  e  um  certo  número  no  golfo  da  Finlândia  foram  entregues. Hangoe  foi  arrendada  à  Rússia  por  trinta  anos,  a  uma  renda  anual  de  8  milhões  de  marcos  finlandeses,  e  a península  e  ilhas  adjacentes  passaram  para  administração  russa  até  a  duração  do  prazo  de  arrendamento.

Os  termos  relativos  ao  istmo  de  Carélia  foram  os  mais  drásticos  de  todos.  As  exigências  originais  da  Rússia baseavam-se  apenas  num  reajustamento  fronteiriço  sem  importância,  que  faria  recuar  a  fronteira  de  modo  a deixar  Leningrado  fora  do  alcance  de  artilharia.  Ao  invés,  o  istmo  todo,  inclusive  Viipuri,  foi  cedido juntamente,  com  uma  faixa  para  o  norte  do  lago  Ladoga,  colocando-o  completamente  em  território  russo. Economicamente,  esta  foi  a  perda  mais  grave  sofrida  pela  Finlândia.  Viipuri,  ou  Viborg,  a  terceira  cidade  da Finlândia  em  tamanho,  era  o  porto  de  mar  de  uma  área  que  continha  grande  parte  da  indústria  finlandesa. Agora  metade  dessa  área,  com  importantes  serrarias  e  fábricas  de  pasta  para  papel  e  uma  população  de  cerca de  400.000  pessoas,  era  entregue  à  Rússia,  enquanto  a  área  remanescente  ficava  privada  de  um  acesso  direto ao  seu  escoadouro  natural.

Mas,  embora  essa  perda  econômica  significasse  um  golpe  severo  à  Finlândia,  o  aspecto  estratégico  era  mais importante,  particularmente  sob  o  ponto  de  vista  da  Rússia.  Suas  finalidades  nas  primitivas  negociações tinham  sido  o  assegurar  do  domínio  sobre  o  golfo  da  Finlândia,  a  garantia  da  segurança  de  Leningrado  e  a remoção  da  possibilidade  de  uma  ameaça  a  Murmansk  pela  península  de  Rybachi.  Elas  estavam  agora alcançadas  plenamente;  e,  além  disso,  a  possibilidade  da  Finlândia  poder  novamente  oferecer  séria resistência  militar  foi  reduzida  a  uma  fração  quase  desprezível.  A  Rússia  podia,  agora,  dominar  Petsamo.  A cessão  de  Kuolajaervi  reduziu  a  distância  do  golfo  de  Bothnia,  e  a  projetada  estrada  de  ferro  proveria  uma linha  de  comunicação  capaz  de  permitir  um  avanço  russo  para  isolar  a  Finlândia  da  Suécia.  Hangoe  e  as  ilhas adjacentes  tornaram  a  Rússia  suprema  no  golfo  da  Finlândia.  E,  mais  importante  que  tudo,  as  cessões  em torno  do  lago  Ladoga  significavam  a  perda  pela  Finlândia  das  principais  posições  defensivas.  Uma  nova linha  fortificada  poderia  ser  construída  mais  atrás;  mas  um  ataque  russo  não  mais  seria  dividido  pelo  lago Ladoga,  e  a  cessão  de  Viipuri  e  da  faixa  ao  norte  do  lago  Ladoga  envolvia  o  rompimento  das  ligações ferroviárias  em  que  a  Finlândia  baseara  a  defesa  de  sua  fronteira  oriental.

A  perspectiva  de  que  a  Rússia  tivesse  assim  a  Finlândia  à  sua  mercê  constituía  motivo  de  grave  preocupação para  a  Suécia.  A  garantia  russa  de  que  não  tinha  mais  aspirações  territoriais  na  Escandinávia  foi  aceita  com alguma  reserva,  que  não  foi  mitigada  pela  informação  de  que,  na  comissão  designada  para  assentar  os detalhes  da  nova  fronteira,  os  delegados  russos  tinham  traçado  um  mapa  que  estendia  suas  reivindicações  a vários  pontos.  E  quando  a  proposta  de  um  pacto  de  defesa  mútua  entre  a  Suécia,  Noruega  e  Finlândia  foi vetada  pela  Rússia,  como  sendo  contrária  à  cláusula  do  tratado  que  proibia  alianças  hostis,  parecia  claro  que a  Rússia  estava  determinada  a  manter  a  Finlândia  dentro  da  sua  própria  órbita  política.

Desta  forma,  a  paz,  embora  tivesse  apaziguado  as  apreensões  imediatas  da  Suécia,  de  forma  nenhuma  as removeu  inteiramente.  Em  certos  círculos  manifestava-se  a  tendência  de  criticar  a  Suécia  pelas  suas argumentações,  e  particularmente  pelo  seu  bloqueio  da  intervenção  aliada.  Mas  o  seu  problema  era  de  caráter desesperadamente  difícil,  e  a  sua  simpatia  pelos  finlandeses  tinha  sido  demonstrada  de  uma  forma  a  mais tangível.  Calcula-se  que  nove  mil  voluntários  suecos  tinham  sido  enviados  à  Finlândia  -  indubitavelmente muito  mais  que  os  que  tinham  vindo  de  todos  os  outros  países  juntos.  Cinco  mil  mais  tinham  oferecido  seus serviços.  Dinheiro  e  suprimentos  no  valor  de  125.000.000  de  marcos  filandeses  lhes  tinham  sido  mandados. Para  uma  nação  de  6.000.000  de  habitantes  esse  esforço  não  era  de  modo  algum  pequeno.  O  balanço  de  toda a  questão  foi  muito  bem  resumido  pelo  barão  Mannerheim  nas  suas  despedidas  às  exaustas  forças finlandesas:

"Sem  o  auxílio  pronto,  em  armas  e  equipamentos,  que  nos  foi  dado  pela  Suécia  e  as  potências  ocidentais,  a nossa  luta  até  esta  data  teria  sido  concebível...  Somos  orgulhosamente  cônscios  do  dever  histórico,  que continuaremos  a  cumprir  -  a  defesa  daquela  civilização  ocidental  que  tem  sido  nossa  herança  por  séculos; mas  também  sabemos  que  pagamos  até  o  último  níquel  qualquer  dívida  que  porventura  tenhamos  contraído com  o  Ocidente."

O  Oriente  Próximo  e  os  Bálcãs

O  fim  da  guerra  finlandesa  removeu,  temporariamente,  qualquer  imediata  perspectiva  de  criação  de  uma frente  norte  contra  a  Alemanha.  Era  esta  uma  perspectiva  que  tinha  sido  abertamente  discutida  por  certo número  de  comentadores,  tanto  na  Inglaterra  como  na  França,  os  quais  achavam  que  a  existência  da  linha Siegfried  tornava  necessário  o  encontro  de  outro  ponto  mais  promissor  por  onde  a  Alemanha  pudesse  ser atacada.  Mas  uma  frente  norte  não  era  a  única  possibilidade;  e  enquanto  alguns  olhos  estavam  voltados  para a  Escandinávia  e  a  Finlândia,  outros  perscrutavam,  especulantes,  os  Bálcãs  e  o  Oriente  Próximo.

Essa  especulação  foi  alimentada  pela  revelação  de  que  mui  consideráveis  preparativos  militares  aliados estavam  a  caminho  na  extremidade  oriental  do  Mediterrâneo.  O  desembarque  em  Suez,  a  12  de  fevereiro,  de um  contingente  de  tropas  australianas  e  neozelandesas,  estimado  em  30.000  homens,  chamou  a  atenção  sobre as  forças  muito  consideráveis  que  estavam  sendo  concentradas  naquela  região.  Tropas  britânicas  no  Egito  e na  Palestina  e  tropas  francesas  na  Síria,  calculava-se  com  justeza,  tinham  atingido  um  total  de  bem  acima  de meio  milhão  de  homens.  A  Turquia  tinha  cerca  de  350.000  homens  em  armas;  e  na  segunda  parte  de  março  a realização  de  uma  conferência  em  Aleppo  entre  os  Estados-Maiores  aliados  e  turco  sugeriram  que  essas forças  estavam  se  preparando  para  agir  de  acordo  quando  a  ocasião  se  apresentasse.

Isto  descortinou  várias  possibilidades.  Um  dos  pontos  em  torno  dos  quais  as  discussões  freqüentemente  se concentravam  era  o  de  um  ataque  aos  campos  petrolíferos  russos  de  Baku.  Se  a  Rússia  tencionava  prover  a Alemanha  de  considerável  quantidade  do  óleo  de  que  ela  tão  desesperadamente  necessitava,  era  de  Baku  que esse  óleo  tinha  que  vir.  Lá  se  encontravam  os  mais  antigos  e  produtivos  campos  da  Rússia,  fornecendo  vinte e  três  milhões  de  toneladas,  ou  três  quartas  partes  da  produção  total  da  Rússia.  Sua  tomada  seria  um  golpe severo  na  economia  soviética,  bem  como  em  quaisquer  esperanças  alemães  de  obter  substanciais  fontes  de petróleo.

Um  ataque  aos  próprios  poços  de  Baku  teria  que  ser  conduzido  através  do  difícil  terreno  montanhoso  do Cáucaso  meridional.  Séria  falta  de  comunicações  agravaria  essa  dificuldade;  é  que,  embora  fosse  informado que  a  Turquia  tinha  completado  uma  nova  linha  ferroviária  para  Erzerum,  parte  dessa  linha  não  passava ainda  de  bitola  estreita,  e  o  próprio  sistema  ferroviário  turco  tinha  sofrido  considerável  dano  em  resultado  do tremor  de  terra  da  Anatólia  setentrional,  em  princípios  do  ano.  Se,  contudo,  o  principal  objetivo  era  cortar  os suprimentos  para  a  Alemanha,  algo  poderia  ser  feito  pela  tomada  de  Baku.  Esse  porto,  terminal,  no  mar Negro,  do  oleoduto  de  Baku,  ficava  a  apenas  32  km.  da  fronteira  turca,  e  seria  vulnerável  a  um  ataque  ou bloqueio  pelo  mar.  Um  incentivo  para  tal  ação  foi  fornecido  pela  notícia,  em  fevereiro,  de  que  navios-tanque russos  estavam  começando  a  transportar  petróleo  de  Batum  para  o  porto  romeno  de  Constança,  onde  este ficaria  armazenado  para  depois  ser  reembarcado  para  a  Alemanha.  Afirmou-se  mesmo  que  os  aliados,  na conferência  de  Aleppo,  tinham  aplanado  o  caminho  para  a  obtenção  do  consentimento  da  Turquia  de passagem  de  vasos  de  guerra  aliados  através  dos  Dardanelos  para  o  mar  Negro  -  informe  este  que,  entretanto, os  aliados  logo  desmentiram.

Por  outro  lado,  foi  sugerida  a  possibilidade  da  Rússia  mesma  desferir  um  ataque,  não  tanto  à  Turquia,  como  à Pérsia  ou  ao  Iraque.  A  finalidade  seria  os  campos  de  petróleo  de  Mosul  ou  as  comunicações  aliadas  com  a Índia,  através  do  golfo  Pérsico.  Certo  esforço  foi  feito  para  o  encontro  de  um  significado  agressivo  nas misteriosas  manobras  navais  russas  no  mar  Negro,  manobras  que  tiveram  lugar  na  última  fase  de  fevereiro. Mas,  conquanto  um  certo  nervosismo  fosse  informado  como  existente  entre  as  nações  do  Oriente  Médio, nenhuma  prova  tangível  surgiu  de  que  a  Rússia  estivesse  alimentando  quaisquer  desígnios  agressivos naquela  direção.

Uma  terceira  possibilidade  de  ação  existia  sobre  os  Bálcãs.  Se  um  ou  mais  Estados  balcânicos  se  resolvessem afinal  a  entrar  para  o  campo  dos  aliados,  ficaria  aberta  a  possibilidade  da  criação  de  uma  frente  oriental contra  a  Alemanha.  Se  um  desses  Estados  fosse  atacado  pela  Alemanha  ou  pela  Rússia,  semelhante perspectiva  se  apresentaria.  E  em  vista  da  intensa  luta  diplomática  que  vinha  sendo  travada  nessa  região  era bastante  possível  que  algo  semelhante  pudesse  verificar-se.

Ao  mesmo  tempo,  era  improvável  que  a  Alemanha  atacasse  nos  Bálcãs  até  que  todas  as  outras  formas  de pressão  estivessem  esgotadas.  O  que  a  Alemanha  queria  no  momento  era  não  tanto  a  posse  das  terras  daquela região  como  a  garantia  de  que  os  produtos  dessas  terras  lhe  ficariam  à  plena  disposição.  Uma  invasão  militar também  mui  provavelmente  interviria  na  produção,  frustrando,  pelo  menos  temporariamente,  o  propósito  que se  destinaria  a  servir.  Enquanto  os  países  balcânicos  continuassem  a  comerciar  com  ela,  a  Alemanha  teria todo  o  interesse  em  apoiar-lhes  a  neutralidade,  tentando,  simultaneamente,  por  todos  os  meios  de  pacífica pressão  colocar  suas  economias  a  serviço  do  Reich.

A  Romênia  e  a  Alemanha

O  foco  principal  de  tal  pressão  -  e  não  somente  do  lado  alemão  mas  também  do  aliado  -  era  a  Romênia.  Os produtos  romenos  eram  de  primeira  necessidade  para  a  Alemanha,  e  o  mais  importante  deles  era  o  petróleo. Pelo  acordo  de  dezembro,  supunha-se  que  a  Alemanha  tinha  assegurado  um  mínimo  de  130.000  toneladas por  mês.  Na  verdade,  entretanto,  os  fornecimentos  de  janeiro  não  chegaram  a  mais  de  26.000  toneladas. Ampla  variedade  de  obstáculos  erguia-se  a  caminho.  O  transporte  por  si  mesmo  apresentava  um  problema formidável.  O  Danúbio  gelado  impedia  o  transporte  por  água,  e  os  aliados  se  preparavam  para  a  primavera fretando  todos  os  barcos  disponíveis,  a  fim  de  deixá-los  fora  do  alcance  dos  alemães.  O  funcionamento  dos transportes  por  estradas  de  ferro,  através  da  Galícia,  agora  em  poder  da  Rússia,  era  tão  pouco  satisfatório que,  pelo  fim  de  janeiro,  a  Alemanha  arranjou  permissão  para  colocar  em  serviço  as  seus  próprios  técnicos  e guardas  de  ferrovia,  a  fim  de  tentar  remediar  a  situação:  A  concorrência  aliada  nas  compras  elevou  o  preço de  17  para  44  dólares  por  tonelada.  A  pressão  alemã  em  favor  do  aumento  dos  embarques  foi  respondida  pela contra-pressão  aliada.  Oitenta  por  cento  da  indústria  petrolífera  romena  pertencia  a  estrangeiros;  e  quando,  a 17  de  janeiro,  uma  comissão  de  petróleo  foi  nomeada  para  regulamentar  a  indústria,  a  Romênia  foi  advertida pelos  aliados  de  que  não  deveria  forçar  as  companhias  francesas  e  britânicas  a  fornecerem  petróleo  à Alemanha.  Em  fevereiro,  com  o  estrangulamento  do  comércio  da  România  e  corte  dos  embarques  de  metais e  borracha,  os  aliados  extraíram  do  governo  do  rei  Carol  a  promessa  de  que  as  exigências  alemães  de aumento  das  cotas  não  seriam  aceitas  e  de  que  seriam  sustados  os  embarques  de  gasolina  de  aviação  para  o Reich.  Pelo  menos  durante  o  inverno,  as  esperanças  nazistas  de  receber  substanciais  fornecimentos  de petróleo  da  Romênia  pareciam  destinadas  a  sofrer  um  desapontamento

Houve  ainda  medidas  a  interferir  também  nos  fornecimentos  de  outros  produtos.  A  12  de  fevereiro  foram impostas  aos  cereais  e  óleos  vegetais  fortes  taxas  de  exportação.  A  22  do  mesmo  mês,  um  interdito  de exportação  foi  imposto  a  uma  longa  relação  de  artigos  empregados  na  manufatura  de  munições.  A  26  de fevereiro,  foram  aumentados  os  fretes  de  exportação,  em  alguns  casos  até  em  40  por  cento.  Além  disso,  a Romênia,  no  começo  de  março,  tinha  1.600.000  homens  em  armas  -  circunstância  que  empobrecia  a agricultura  romena  e  reduzia  o  total  da  produção  agro-pecuária  disponível  para  a  Alemanha.  Uma  tentativa alemã  de  obter  a  redução  desse  efetivo  com  o  oferecimento  de  garantia  das  fronteiras  da  Romênia  foi acompanhada  pela  exigência  de,  praticamente,  um  monopólio  do  comércio  romeno  e  da  inclusão  dos simpatizantes  dos  nazistas  no  ministério  -  exigências  essas  que  foram  firmemente  rejeitadas.  No  fim  de março,  uma  missão  alemã  chegou  para  negociar  novas  concessões  comerciais,  particularmente  em  torno  de produtos  agrícolas  e  cotas  de  petróleo;  mas  até  o  fim  do  mês  não  parecia  haver  obtido  qualquer  êxito  digno de  menção.

A  Turquia  e  a  Aliança  Balcânica

Por  trás  desse  equilíbrio  bem  sucedido  da  Romênia  entre  os  beligerantes  estava  o  esforço  de  todo  o  grupo dos  Estados  balcânicos  de  permanecer  alheio  ao  conflito.  Esta  atitude  foi  indubitavelmente  fortalecida  pela posição  da  Turquia.  Era  verdade  que  a  Turquia  mesma  estava  francamente  a  favor  dos  aliados.  Os  termos  de sua  aliança,  suas  estreitas  relações  econômicas  com  a  Grã-Bretanha  e  a  França,  e  episódios  como  a  ocupação das  fábricas  Krupp  em  Estambul  e  a  expulsão  de  mais  de  cem  técnicos  alemães  eram  expressões  claras  de sua  simpatia.  Conforme  o  ministro  turco  das  Relações  Exteriores  declarara  no  começo  de  fevereiro:  "A Turquia  não  é  neutra,  mas  apenas  não-beligerante  no  momento."  Mas  a  sua  influência  sobre  os  países balcânicos  era  dirigida  menos  para  impeli-los  para  o  lado  dos  aliados  do  que  para  mantê-los  fora  do  controle da  Alemanha.  E  a  sua  influência  não  ficou  diminuída  com  a  sua  posição  firme  em  favor  da  independência balcânica.  Como  um  jornal  turco  dissera  a  20  de  fevereiro:  "Se  a  Alemanha  atacar  os  Bálcãs  encontrar-nos-á para  enfrentá-la  ao  lado  dos  aliados.  Nosso  país  não  esperará  a  sua  vez  de  braços  cruzados,  enquanto  os Bálcãs  forem  esmagados.  Este  é  um  erro  que  nós  não  cometeremos.''

Houve  alguns  sinais  no  começo  do  ano  de  uma  tendência  turca  para  encorajar  a  formação  de  um  bloco balcânico  mais  forte  como  barreira  eficaz  à  penetração  alemã  ou  russa,  e  por  algum  tempo  parecia  que  os Estados  balcânicos  concordariam  com  essa  idéia.  Mas  qualquer  frente  comum  envolveria  o  ajuste  das dificuldades  existentes  entre  esses  mesmos  Estados,  e  ficou  demonstrado  que  isto  constituía  um  grande embaraço.  Neste  caso,  novamente,  a  Romênia  foi  o  foco.  Ela  tinha  obtido  territórios  tanto  da  Hungria  como da  Bulgária  no  fim  da  guerra  passada,  e  não  estava  disposta  a  desistir  deles  para  ganhar  a  amizade  desses dois  vizinhos  seus.  A  Bulgária,  segundo  parecia,  não  tencionava  criar  dificuldades  sérias,  e  a  própria  Hungria não  oferecia  qualquer  ameaça  imediata;  mas  nenhum  desses  países  estava  disposto  a  renunciar  às  suas ambições  territoriais,  que  somente  poderiam  ser  satisfeitas  às  custas  da  Romênia.  Havia  alguma  perspectiva de  que  se  fizesse  algum  esforço  para  encontrar  uma  solução,  quando  a  conferência  da  Aliança  Balcânica  -  a que  nem  a  Hungria,  nem  a  Bulgária  pertenciam  -  reuniu-se  em  Belgrado,  a  2  de  fevereiro.  Mas  a  conferência, de  três  dias  de  duração,  findou  sem  qualquer  outro  resultado,  além  de  um  comunicado  ligeiro  expressando  o interesse  comum  pela  manutenção  da  neutralidade  e  da  paz.

Isto  deixou  claro  que  os  outros  membros  da  Aliança  não  estavam  dispostos  a  exercer  pressão  efetiva  sobre  a Romênia  no  interesse  de  uma  solidariedade  mais  ampla.  Mais  significativo  ainda  era  que  nenhum  passo pareceu  ter  sido  dado  em  favor  de  um  acordo  de  apoio  mútuo  contra  a  agressão.  De  fato,  o  ministro  das Relações  Exteriores  da  Iugoslávia,  ao  encerramento  da  conferência,  asseverou  com  considerável  otimismo que  "Os  Bálcãs  não  estão  ameaçados  por  lado  algum".  Mas  pelo  menos  era  verdade  que  a  sensação  de  perigo imediato  que  se  alastrara  ao  começo  do  ano  dera  lugar  a  um  maior  grau  de  confiança  na  segurança  dos Bálcãs.  Isto  queria  dizer  que  a  unidade  não  era,  no  momento  suficientemente  importante  para  impelir  os diversos  Estados  a  fazer  concessões  sérias  ou  firmar  compromissos  de  apoio  mútuo.  E  a  razão  desse  modo  de pensar  era  menos  a  fé  nas  intenções  reais  da  Alemanha  do  que  a  sensação  de  maior  desafogo  em  relação  às atitudes  da  Itália  e  da  Rússia.

A  Política  da  Itália

A  atitude  de  encorajamento  em  favor  da  idéia  de  um  bloco  balcânico,  que  a  Itália,  numa  fase,  pareceu  ter adotado,  diminuía  de  força  à  medida  que  o  ano  se  escoava.  Ela  tinha  sido  motivada  em  primeiro  lugar  pelo receio  da  penetração  russa  nos  Bálcãs,  talvez  mesmo  de  um  ataque  russo  naquela  região.  Mas  esse  receio  se desfez  quando  a  Rússia  ficou  com  a  Finlândia,  e  com  isto  também  diminuiu  o  desejo  de  solidariedade  nos Bálcãs.  Afinal  de  contas,  havia  ao  menos  a  possibilidade  de  que  a  influência  da  Turquia  sobre  um agrupamento  dessa  espécie  pudesse  tornar-se  forte  bastante  para  atraí-lo  à  órbita  aliada,  e  isto  não  seria  de modo  algum  vantajoso  para  a  Itália.  Seus  propósitos  seriam  melhor  servidos  se  os  Estados  balcânicos pudessem  continuar  suspeitando  de  todos  os  beligerantes,  inclusive  da  Rússia.  Então,  movidos  pelo  desejo  de manter  sua  neutralidade,  poderiam  mostrar-se  inclinados  a  procurar  o  apoio  da  Itália,  e  a  aceitar  uma benévola  orientação  política  deste  país  em  troca  da  perspectiva  de  sua  proteção.

Isto  significava  que  a  Itália,  como  as  outras  Grandes  Potências,  tinha  um  interesse,  bem  definido  quanto  à situação  da  Romênia.  Se  a  Rússia  tinha  alguma  intenção  de  expandir-se  nos  Bálcãs,  a  Romênia  é  que  deveria formar  a  primeira  linha  de  defesa.  E  se  a  Itália  obtivesse  garantias  de  que  a  Romênia  estava  firmemente resolvida  opor-se  ao  avanço  do  bolchevismo,  verse-ia  obrigada  neste  caso  a  ir  em  socorro  da  Romênia.  Foi, de  fato,  assegurado  no  Senado  romeno  que  Mussolini  tinha  prometido  vir  em  auxílio  desse  país  em  caso  de ataque,  não  importa  de  onde  partisse.

Havia  razão  para  dúvidas,  entretanto,  sobre  se  a  Itália  faria  uma  promessa  de  tal  natureza,  inteiramente  sem reservas.  Embora  ela  reconhecesse  a  posição  crucial  da  Romênia,  tinha  um  interesse  tradicional  muito  mais vivo  pela  Hungria;  e  a  Hungria,  embora  mantivesse  uma  atitude  moderada,  de  modo  nenhum  tinha abandonado  o  desejo  de  reaver  o  território  perdido  para  a  Romênia.  A  Hungria  também  estava  numa  posição de  certo  modo  exposta.  Ela  também  tinha  a  Rússia  por  vizinha;  e,  o  que  ainda  é  mais  importante,  estava obstruindo  grandemente  o  caminho  de  qualquer  projetada  expansão  alemã  pelo  Danúbio.

Para  a  Hungria,  pois,  havia  boas  razões  em  fortalecer  os  laços  com  a  Itália,  e  para  a  Itália  em  apoiar  a Hungria  como  um  baluarte  de  uma  zona  balcânica  neutra.  Nos  começos  de  janeiro,  os  dois  ministros  das Relações  Exteriores,  conde  Ciano  e  conde  Csaky,  tiveram  uma  conferência  na  Itália.  A  declaração  de  que tinham  estabelecido  "uma  perfeita  identidade  de  vistas"  foi  interpretada  como  significando  quase  tudo  para uma  aliança  militar  definitiva.  Foi  desmentido  em  Roma  que  qualquer  novo  acordo  formal  tivesse  sido negociado;  mas  pareceu  provável  que  os  dois  estadistas  tinham  acordado  a  resistência  comum  à  Rússia,  e  que Ciano,  enquanto,  possivelmente,  tivesse  renovado  a  promessa  de  apoio  italiano  às  reivindicações  territoriais da  Hungria,  usara  de  sua  influência  para  persuadir  este  país  a  não  exercer  pressão  em  tal  sentido  no momento.

A  carência  de  qualquer  acordo  preciso  foi  sugerida  pelas  circunstância  que  cercaram  a  visita  do  primeiro ministro  Teleki  a  Roma  na  última  semana  de  março.  Os  rumores  de  que  o  encontro  de  Hitler  com  Mussolini no  Brenner  era  o  prelúdio  de  uma  reaproximação  ítalo-russa  deixaram  naturalmente  a  Hungria  nervosa  a respeito  de  sua  posição.  Aparentemente,  o  conde  Telek  foi  tranqüilizado  quanto  a  este  ponto  particular  pela informação  de  que  a  Itália  não  encarava  transformação  fundamental  alguma  de  sua  atitude  em  relação  a Moscou.  Ao  mesmo  tempo,  entretanto,  foi-lhe  dado  perceber  que  as  próprias  ambições  da  Hungria  não poderiam  complicar  uma  situação  extremamente  delicada.  "A  Hungria",  disse  ele  numa  entrevista, "plenamente  cônscia  da  dificuldade  do  momento,  adotou  uma  atitude  que  harmonizava  com  as  necessidades superiores  da  Europa.  Meu  país  é  paciente.  Ele  tem  uma  história  milenar,  e  portanto  pode  esperar."  Era  uma clara  demonstração  de  que  as  reivindicações  particulares  da  Hungria  iriam  ser  protelada:  para  quando  o resultado  da  guerra  européia  se  mostrasse  mais  certo  do  que  parecia  no  momento.

O  que  não  era  tão  claro  era  fazer  com  que  tudo  isso  ficasse  dentro  da  influência  alemã  na  bacia  do  Danúbio. Embora  a  Itália  naturalmente  desejasse  uma  posição  predominante,  poucos  sinais  havia  de  que  ela  estivesse disposta  a  oferecer  qualquer  forte  resistência  à  penetração  alemã  na  Hungria  e  nos  Bálcãs.  Sua  atitude  era  a de  que  a  Itália  não  era  neutra,  mas  sim  um  país  não-beligerante  cujos  laços  com  a  Alemanha  permaneciam firme;  como  nunca.  A  conclusão  de  um  acordo  comercial  a  24  de  fevereiro,  após  um  mês  de  negociações,  foi transformada  na  oportunidade  para  a  reafirmação  da  colaboração  política  entre  a  Alemanha  e  a  Itália;  e  a imprensa  controlada  continuava  a  manifestar  uma  contínua  hostilidade  em  relação  à  Grã-Bretanha  e  à França.

Era  essa  uma  atitude  que  poderia  ter  graves  complicações.  A  Itália  estava  numa  posição  de  poder  causar sérios  incômodos  aos  aliados,  se  assim  o  quisesse.  Poderia  instigar  revoltas  nas  colônias  africanas  da  França, como  também  no  Egito  e  na  Arábia.  Poderia  fazer  muito  para  tornar  difícil  a  situação  aliada  no Mediterrâneo,  difícil  e  mesmo  incerta.  E  se  os  aliados  viessem  a  ficar  seriamente  envolvidos  nos  Bálcãs  ou no  Oriente  Próximo,  então  a  Itália,  ocupando-lhes  as  comunicações  marítimas,  também  estaria  capacitada para  mantê-las  em  cheque.

A  disputa  do  carvão

Foi  talvez  com  a  intenção  de  esclarecer  a  atitude  italiana  por  um  exemplo  que  a  advertisse  sobre  as conseqüências  de  qualquer  real  hostilidade  que  a  Grã-Bretanha,  no  fim  de  fevereiro,  sufocou  os fornecimentos  de  carvão  alemão.  A  ocasião  era  a  da  suspensão  das  negociações  comerciais  anglo-italianas.  A Grã-Bretanha,  acreditava-se,  tinha  oferecido  suprir  a  Itália  de  certas  matérias-primas  industriais  em  troca  de armas  e  munições.  A  Itália  esquivou-se  a  fornecer  armas  à  inimiga  da  Alemanha  e  ofereceu  pagar  com produtos  tais  como  frutas  e  téxteis.  (Foi  notado,  entretanto,  que  os  fornecimentos  de  armas  italianas  à  França continuavam  sem  interrupção;  e  a  6  de  março  um  novo  acordo  comercial  foi  firmado  entre  os  dois  países). Pelos  meados  de  fevereiro,  as  negociações  com  a  Inglaterra  foram  suspensas;  após  mais  algumas escaramuças,  foi  anunciado  que  todos  os  carregamentos  de  carvão  da  Alemanha  para  a  Itália  seriam interceptados  a  contar  da  meia  noite  de  1 o  de  março.

Essa  ordem  feriu  a  Itália  num  ponto  particularmente  sensível.  Ela  importava  cerca  de  doze  milhões  de toneladas  de  carvão  por  ano,  e,  destas,  sete  milhões  vinham  da  Grande  Alemanha.  Normalmente,  dez milhões  chegavam  por  mar;  e,  embora  parte  desse  carvão  pudesse  ser  transportada  por  terra,  calculava-se  que as  super-ocupadas  estradas  de  ferro  alemães  possivelmente  não  poderiam  transportar  mais  que  cinco  milhões de  toneladas.  Se  a  Itália  quisesse  obter  o  combustível  tão  vital  às  suas  indústrias,  tinha  que  entrar  em  acordo com  os  aliados.

A  Grã-Bretanha  já  tinha  demonstrado  o  desejo  de  lidar  brandamente  com  a  Itália  ao  permitir  que  o  carvão alemão  continuasse  a  fazer  parte  das  exportações  da  Alemanha  mesmo  depois  da  interdição  de  dezembro. Parece  que  a  Itália  estava  incerta  sobre  se  a  nova  medida  iria  realmente  ser  reforçada  e  se  decidiu  a  tirar  uma prova  disso  com  o  desafiar  da  ordem  britânica.  Treze  transportes  italianos  de  carvão  que  deixaram  os  portos alemães  ao  começo  de  março  foram  prontamente  capturados  pela  frota  britânica.  Com  uma  falta  de  carvão  já existente  e  os  preços  a  subirem  rapidamente,  a  Itália,  apesar  de  protestos  irados,  decidiu-se  a  procurar  um acordo.  A  Grã-Bretanha,  por  sua  vez,  estava  pronta  a  aceitar  uma  transigência,  particularmente  em  vista  da projetada  visita  de  Ribbentrop  a  Roma.  A  9  de  março  ficou  decidido  o  reinício  das  negociações  comerciais, tendo  a  Grã-Bretanha  desistido  de  insistir  sobre  os  armamentos,  mas  obtido  uma  promessa  de  fornecimento de  materiais  como  caminhões  e  motores  para  avião,  e  a  Itália  prometido  não  importar  mais  carvão  alemão por  mar.  Para  assinalar  a  lição,  a  nota  britânica  de  20  de  março,  em  resposta  aos  anteriores  protestos italianos,  afirmou  que  os  navios  italianos,  bem  como  os  de  outros  países  neutros,  tinham  sofrido  as conseqüências  do  completo  desrespeito  alemão  às  leia  de  guerra,  assegurando  a  intenção  de,  no  futuro,  usar todas  as  armas  legais  contra  o  Reich.

Esse  acordo  chegou  justamente  no  momento  em  que  a  Alemanha  estava  empenhada  em  novos  esforços  para arrastar  sua  parceira  do  Eixo  a  uma  cooperação  mais  eficiente.  Sua  ansiedade  em  torno  das  possíveis complicações  que  poderiam  resultar  da  guerra  finlandesa  desvanecera-se  agora  com  a  perspectiva  da  paz entre  a  Rússia  e  a  Finlândia.  Seu  desejo  de  melhorar  e  consolidar  a  posição  na  Europa  sul-oriental  podia agora  prosseguir  com  mais  vigor  e  liberdade.  A  possibilidade  de  que  a  derrota  da  Finlândia  fosse  considerada como  um  revés  dos  aliados,  capaz  de  ferir  o  seu  prestígio  nos  Estados  balcânicos,  era  uma  razão  adicional para  tirar  vantagem  desse  momento  particular.  E  a  Itália,  cuja  cooperação  era  essencial  numa  empresa  de  tal espécie  poderia,  impelida  pelo  ressentimento  ficado  da  disputa  do  carvão  com  a  Grã-Bretanha,  oferecer auxílio  à  Alemanha.

Hitler  e  Mussolini

A  10  de  março,  o  ministro  alemão  dos  Negócios  Estrangeiros,  von  Ribbentrop,  chegou  a  Roma  em  missão diplomática  de  exploração.  Além  das  conversações  com  o  rei  e  Mussolini,  fez  uma  visita  ao  Vaticano,  no desejo  de  suavizar  as  relações  tensas  entre  o  Papado  e  o  Reich.  Aí,  foi  friamente  correta  a  recepção  de  que  o fizeram  alvo.  O  Papa  tinha  estado  durante  algum  tempo  gravemente  ressentido  com  a  cruel  brutalidade  do tratamento  alemão  aos  poloneses  derrotados,  e  ele  deixou  claro,  como  o  fizera  no  programa  de  paz  de  cinco ítens  apresentado  no  Natal,  que  a  reparação  de  tais  injustiças  era,  a  seu  modo  de  ver,  condição  essencial  à paz.

Parecia  certo  que  von  Ribbentrop  falhara  em  quaisquer  tentativas  que  pudesse  ter  feito  para  obter  o  apoio  do Pontífice  em  favor  de  uma  cruzada  de  paz.  Suas  conversações  com  os  líderes  italianos,  embora possivelmente  mais  cordiais,  não  pareciam  ter  conseguido  nenhum  resultado  mais  tangível.  Um  acordo  sobre os  fornecimentos  de  carvão  alemão  sugeriu  que  a  influência  de  von  Ribbentrop  tinha  sido  utilizada  para apoiar  as  negociações  comerciais  que  o  dr.  Clodius  estava  na  ocasião  realizando  em  Roma.  Mas  embora  o comunicado  final  dissesse  que  as  conversações  haviam  sido  levadas  a  efeito  dentro  do  espírito  e  da  estrutura do  pacto  de  aliança  e  dos  acordos  existentes  entre  a  Itália  e  a  Alemanha,  não  pareceu  que  se  tivesse concordado  sobre  qualquer  medida  positiva.  Foi  significativo  o  fato  de  nem  bem  havia  von  Ribbentrop cruzado  os  Alpes,  ter  sido  anunciado  oficialmente  que  as  novas  fortificações  italianas  cobriam  as  fronteiras tanto  da  Alemanha  como  da  França  -  declaração  essa  saudada  com  entusiásticos  aplausos  pela  Câmara italiana.

Nessa  situação,  Hitler  se  decidiu  a  tratar  ele  próprio  do  problema.  Numa  declaração  de  surpresa  a  17  de março,  foi  revelado  que  os  dois  ditadores  tinham  combinado  um  encontro  para  o  dia  seguinte  na  fronteira italiana.

O  encontro  de  Brennero  de  18  de  março  foi  oficialmente  descrito  como  um  "colóquio  cordial".  Além  desta, nenhuma  informação  positiva  foi  concedida.  Mas  embora  quaisquer  conclusões  fossem,  portanto,  algo especulativas,  era  ainda  possível  divisar  entre  essas  várias  atividades  diplomáticas  os  contornos  da  política que  a  Alemanha  tinha  em  mente.

O  primeiro  elemento  nessa  política  era  o  desejo  de  se  impedir  que  as  hostilidades  se  estendessem.  Fossem quais  fossem  os  planos  militares  da  Alemanha,  ela  parecia  inclinada  a  confinar  a  guerra  ao  ocidente  e  a impedir  a  criação  de  uma  nova  frente  na  qual  os  aliados  pudessem  atacar.  Isto  envolvia  a  manutenção  da neutralidade  balcânica  -  uma  área  resistente  que  guardaria  as  portas  de  fundo  da  Alemanha.  Para  plena segurança,  era  desejável  que  a  influência  política  predominante  nos  Bálcãs  fosse  a  da  Alemanha  e  seus amigos.  Isto  aplanaria  o  caminho  ao  incremento  da  influência  econômica  que  traria  os  Estados  balcânicos  de modo  efetivo  sob  dominação  alemã  e  permitiria  a  plena  exploração  de  seus  recursos  agrícolas  e  outros.  A criação  de  um  forte  bloco  econômico  nessa  região,  firmemente  ligado  à  Alemanha,  pelas  relações comerciais,  representaria  longo  caminho  percorrido  em  favor  da  frustração  do  bloqueio  aliado;  e  se  o  xeque- mate  resultante  não  convencesse  os  aliados  da  desesperança  em  continuar  a  luta,  poderia  aplainar  o  caminho para  um  golpe  esmagador  e  possivelmente  decisivo  da  Alemanha  no  ocidente.

Um  plano  desta  ordem,  entretanto,  requereria  a  cooperação  tanto  da  Rússia  como  da  Itália  com  a  Alemanha. A  concorrência  dessas  três  potências  pela  influência  nos  Bálcãs,  e  os  receios  que  ela  provocou,  tornaram possível  à  Turquia  e  aos  aliados  manter  viva  a  sua  influência  naquela  região.  Uma  frente  comum,  por  outro lado,  poderia  estabelecer  tal  pressão  sobre  os  Bálcãs  que  eles  não  teriam  outra  escolha  a  fazer,  senão  a  de aceitar  o  domínio  e  de  adaptar  as  respectivas  políticas  para  servir  as  necessidades  bélicas  da  Alemanha.

Esse  era  o  ponto  crítico  de  todo  o  plano,  e,  sob  quaisquer  aparências,  constituía  um  obstáculo  que  não  era fácil  de  transpor.  A  hostilidade  italiana  ao  bolchevismo,  que  aumentou  rapidamente  depois  do  tratado germano-soviético  de  agosto,  tinha-se  inflamado  com  o  rebentar  da  guerra  finlandesa.  A  possibilidade  de  um avanço  russo  nos  Bálcãs  fez  com  que  a  Itália  encarasse  a  Rússia  como  a  inimiga  mais  imediata.  A  Alemanha parecia  esperar  que  o  fim  da  guerra  finlandesa  diminuísse  essa  hostilidade,  e  que  a  garantia  de  que  a  Rússia estava  pronta  para  proteger  as  fronteiras  romenas  e  turca  aquietaria  o  temor  italiano.  Mas  a  Itália  mostrava-se céptica;  e  a  anunciada  alegação  de  Ciano  a  Ribbentrop  de  que  a  Itália  não  tinha  intenção  alguma  de  mudar sua  política  era  relativa  tanto  à  sua  atitude  para  com  a  Rússia  como  à  sua  manutenção  da  neutralidade.

A  Rússia  e  o  Eixo

A  Rússia,  por  sua  vez,  parecia  igualmente  fria  relativamente  a  idéia  de  uma  cooperação  mais  estreita. Embora  Berlim  persistentemente  informasse  que  o  premier  Molotov  estava  para  visitar  a  capital  alemã,  não havia  quaisquer  indício  de  que  tal  se  realizasse.  Ao  invés,  a  conclusão  da  paz  com  a  Finlândia  parecia  ter sido  aproveitada  como  oportunidade  para  a  volta  a  uma  atitude  de  vigilante  e  defensiva  neutralidade.

A  guerra  finlandesa,  de  fato,  já  influenciara  de  modo  importante  as  relações  da  Rússia  com  a  Turquia  e  os Bálcãs.  Os  reveses  iniciais  das  tropas  russas  tinham  encorajado  esses  países,  e  particularmente  a  Romênia,  a tomar  uma  atitude  mais  audaz  em  relação  à  perspectiva  de  ataques  russos.  Havia,  mesmo,  surgido  na  Turquia indícios  de  uma  crescente  hostilidade,  que,  juntamente  com  os  preparativos  militares  dos  aliados,  tinham despertado  certa  preocupação  da  Rússia  pela  segurança  de  sua  fronteira  no  Cáucaso.  Essa  sensação  chegou ao  clímax  na  parte  final  de  fevereiro,  quando  uma  retirada  de  peritos  russos  da  Turquia  foi  seguida  de informes  sobre  choques  de  fronteira  e  a  declaração  pela  Turquia  do  estado  de  emergência.  Mas  isto  desfez-se quando  a  Rússia  deu  garantias  de  que  não  tinha  em  mira  qualquer  ataque,  e  ambos  os  países  concordaram  em retirar  suas  tropas  da  fronteira,  com  a  finalidade  de  evitar  novos  encontros.  Pelos  meados  de  março,  essa mesma  atitude  conciliatória  foi  mostrada  com  o  desejo  de  se  dar  à  Romênia  garantias  contra  ataques;  e  se  a Romênia  ainda  não  sentisse  confiança  bastante  nas  promessas  da  Rússia  de  reduzir  suas  preocupações militares,  ao  menos  estas  contribuíram  para  a  diminuição  das  possibilidades  de  quaisquer  hostilidades imediatas.

A  atitude  da  Rússia  foi  resumida  pelo  premier  Molotov  num  discurso  perante  o  Soviete  Supremo  a  29  de março.  Reiterando  sua  promessa  de  não  reaver  a  Bessarábia  da  Romênia  pela  força,  e  relembrando  a existência  de  pactos  de  não-agressão  com  a  Turquia  e  o  Irã,  expressou  ele  suspeitas  em  torno  dos preparativos  dos  aliados  no  Oriente  Próximo  e  advertiu-os  de  que  estavam  brincando  com  fogo.  Seu  tom  foi saturado  de  hostilidade  clara  aos  aliados  -  hostilidade  aumentada  pela  ação  francesa  de  exigir  o  regresso  do embaixador  soviético  depois  de  seu  telegrama  demasiado  antidiplomático  sobre  a  conclusão  da  paz finlandesa.  Foi  tornado  abundantemente  claro  por  essas  passagens,  como  também  pelas  referências  de Molotov  à  América,  que  a  Rússia  continuava  a  não  sentir  amizade  às  potências  ocidentais.

Os  aliados,  contudo,  acharam  que  um  certo  conforto  podia  ser  extraído  da  carência  de  qualquer  cordialidade fora  do  comum  nas  referências  de  Molotov  ao  Eixo.  A  julgar  por  esse  discurso,  a  relutância  da  Itália  em entrar  em  relações  amigáveis  com  a  Rússia  parecia  ser  retribuída  por  Moscou.  Houve  um  relancear  à  atitude da  Itália  em  relação  à  guerra  finlandesa,  e  uma  referência  cheia  de  ressentimento  aos  embarques  italianos  de aviões  para  os  finlandeses.  Quanto  à  Alemanha,  a  linguagem  de  Molotov  podia  ser  simpática.  Estabeleceu ele  contraste  entre  os  vínculos  amigáveis  de  Moscou  e  Berlim  com  "a  política  hostil  dos  imperialistas  em relação  a  um  Estado  socialista",  e  predisse  outras  conseqüências  nas  relações  econômicas  entre  os  dois países.  Mas  essas  referências,  embora  sem  dúvida  cordiais,  dificilmente  chegaram  à  altura  do  entusiasmo;  e  a acompanhá-las  havia  a  clara  indicação  de  que  a  Rússia  não  tinha  a  menor  intenção  de  transformar  essas relações  amigáveis  numa  aliança  militar.  "A  União  Soviética",  disse  Molotov,  "nunca  foi  nem  será instrumento  da  política  de  outrem.  Somos  pela  neutralidade  e  não  participaremos  da  guerra  entre  as  Grandes Potências."

Assim,  embora  os  aliados  nada  esperassem,  no  momento,  da  Itália  e  da  Rússia,  viam  ao  menos  a  perspectiva de  que  nenhum  desses  dois  neutros  teria  pressa  em  lançar  seu  peso  para  o  lado  da  Alemanha.  Havia  ainda para  a  Grã-Bretanha  e  a  França  a  possibilidade  de  exercer  pressão  sobre  eles  por  meio  de  apelos,  se  não  à  sua mais  alta  emotividade,  ao  menos  à  sua  cupidez  ou  receios.  E,  enquanto  tentassem  por  meios  diplomáticos diminuir  a  hostilidade  que  essas  potências  continuavam  a  exibir,  os  aliados  podiam  contar  em  seu  ativo  com a  constante  amizade  continuada  dos  Estados  Unidos.

As  Américas  e  a  Guerra

As  repúblicas  americanas,  contemplando  através  do  oceano  as  condições  dos  países  neutros  da  Europa, tinham  certa  razão  de  se  sentirem  gratas  à  enorme  distância  que  as  separava  da  cena  do  conflito.  Era  um conflito  cujo  desenrolar  deveria  ter  efeito  importante  sobre  seus  interesses  e  cujo  resultado  poderia  ser  de vital  significado  para  o  seu  destino.  Mas  ao  menos  não  estavam  expostas  a  pressões  imediatas  como  as sofridas  pelos  pequenos  Estados  da  Europa.  Nenhum  dos  principais  beligerantes  olhava  com  olhos calculadores  para  as  suas  fronteiras.  A  perspectiva  de  alastramento  da  guerra  não  ameaçava  envolvê-las  a qualquer  momento  em  hostilidades  de  que  elas  desejavam  permanecer  alheias.  Algumas  poderiam  acabar  por participar  do  conflito,  como  fizeram  na  Grande  Guerra;  mas  essa  decisão  seria  tomada  por  sua  livre  vontade à  luz  das  circunstâncias,  e  não  forçada  por  uma  pressão  contra  a  qual  seria  vã  qualquer  resistência.

A  situação  do  Canadá

O  contraste  foi  evidenciado  pela  situação  do  Canadá  no  continente  americano.  A  proclamação  de  10  de setembro,  pela  autoridade  do  Parlamento  do  Canadá,  de  um  estado  de  guerra  com  a  Alemanha,  colocou  o Domínio,  sem  reservas,  na  relação  dos  beligerantes.  Contudo,  nenhuma  outra  nação  americana  -  apesar  das observações  alarmistas  do  coronel  Lindbergh  achou  que  com  esse  passo  a  ameaça  da  guerra  tinha  sido trazida  para  mais  perto  de  suas  portas.  No  continente  europeu,  se  a  Holanda  fosse  invadida,  a  Bélgica dificilmente  poderia  esperar  permanecer  à  margem;  se  a  Romênia  entrasse  na  guerra,  a  posição  de neutralidade  de  todos  os  outros  Estados  balcânicos  estaria  conseqüentemente  periclitante.  E  o  risco  de  que esses  Estados  fossem  envolvidos  era  aumentado  pelo  fato  de  estarem  eles  ocupando  uma  posição  estratégica que  poderia  ser  de  primeira  importância  a  uma  ou  outra  das  nações  em  guerra.  Mas  não  era  provável  que  o Canadá  se  tornasse  o  foco  de  tais  considerações  estratégicas;  nem  também,  no  referente  à  frente  ocidental, seria  a  sua  participação  na  guerra  capaz  de  provocar  uma  invasão  ameaçadora  da  segurança  de  qualquer outro  Estado  americano.

Isto  não  quis  dizer  que  o  seu  valor  estratégico,  à  parte  outros  fatores,  fosse  de  qualquer  modo  desprezível. Sem  contar  a  possível  importância  de  sua  posição  no  Pacífico,  possuía  ele  em  Halifax  uma  base  naval  que era  a  chave  do  Atlântico  norte.  Desse  porto,  completado  com  bases  nas  Índias  Ocidentais  Britânicas,  divisões navais  poderiam  operar  no  trabalho  de  comboios  e  na  busca  de  submarinos  e  corsários  inimigos.  Em  teoria, tal  coisa  traria  a  possibilidade  de  operações  bélicas  inquietadoramente  perto  do  hemisfério  americano.  Mas na  prática  pouco  mais  fazia  do  que  fornecer  certas  facilidades  valiosas  àquele  controle  marítimo  que  as armadas  britânica  e  francesa  de  qualquer  maneira  teriam  que  procurar  impor  nas  áreas  em  que  fossem encontrados  navios  mercantes  ou  de  guerra  beligerantes.

As  atividades  do  Canadá  mesmo  podiam,  portanto,  ser  olhadas  sem  perturbação  séria  pelos  seus  vizinhos  do continente.  Nem  o  aumento  de  suas  forças  militares,  nem  a  criação  de  sua  parte  de  indústrias  de  guerra ameaçavam-nos  com  embaraços.  Sem  dúvida,  os  planos  de  utilização  dos  recursos  industriais  do  Canadá para  a  manufatura  extensiva  de  munições  poderiam,  afinal,  reduzir  em  algo  a  dependência  em  que  os  aliados se  encontravam  dos  Estados  Unidos.  Mas,  entrementes,  o  esquema  de  treinamento  aéreo,  que  visava  a produção  de  15.000  pilotos  treinados  anualmente,  provavelmente  exigiria  a  utilização  em  larga  escala  do equipamento  americano;  e  o  uso  dos  recursos  financeiros  do  Canadá  para  a  causa  aliada  dificilmente  poderia provocar  qualquer  sério  ressentimento  da  parte  dos  países  a  que  as  compras  aliadas  iriam  ser  feitas.

Efeitos  na  América  Latina

Foi  a  questão  do  provável  efeito  da  guerra  sobre  os  seus  interesses  econômicos  que  se  tornou  a  preocupação mais  imediata  das  várias  repúblicas  americanas.  Peritos  observadores  advertiam  que  os  tempos  de  bloqueio da  última  guerra  dificilmente  se  repetiriam,  e  que  não  era  absolutamente  desejável  que  se  repetissem.  Mas era  claro  que,  para  bem  ou  mal,  sérias  mudanças  iriam  ter  lugar  no  comércio  das  nações  americanas.  Os canais  normais  do  comércio  exterior  estavam  irremediavelmente  desfeitos,  e  a  questão  era  a  de  que  lucros poderiam  ser  adiantados  para  se  contrabalançar  as  perdas  inevitáveis.

No  caso  da  América  Latina,  havia  ao  irromper  a  guerra  um  ponto  especial  a  considerar-se.  Era  o  da existência  de  acordos  comerciais  de  troca  com  vários  países  europeus,  e  particularmente  com  a  Alemanha. Com  eles,  muitos  desses  países  da  América  Central  e  do  Sul  tinham  obtido  créditos  comerciais  em  Berlim, créditos  que  somente  podiam  utilizar  para  a  aquisição  de  mercadorias  alemães.  No  período  que  se  seguira  ao Munique,  a  incerteza  da  situação  levou  esses  países  a  procurar  liquidar  seus  saldos  com  o  aumento  de  suas importações  da  Alemanha.  Ainda  não  se  conhece  ao  certo  até  que  ponto,  com  o  início  da  guerra,  a  política teve  êxito.  O  Uruguai  desmentiu  os  boatos  de  que  tivesse  fortes  créditos  congelados,  e  assegurou  que  suas contas  com  a  Alemanha  estavam  saldadas  até  essa  data.  O  México,  por  outro  lado,  tinha  ainda  créditos pendentes,  em  resultado  de  vendas  de  petróleo  à  Alemanha  e  à  Itália.  Um  observador  calculou  que  uma  soma de  75.000.000  de  dólares  estavam  presos;  mas,  no  conjunto,  a  maioria  dos  países  parecia  ter  os  saldos reduzidos  a  somas  comparativamente  pequenas.

Era  claro  que  se  estava,  contudo,  tornando  difícil  para  a  Alemanha  manter  esses  acordos  de  troca,  em  vista do  bloqueio  e  da  captura  de  suas  exportações  pelos  aliados.  No  caso  de  países  como  a  Argentina  e  o  Chile,  o comércio  com  a  Alemanha  mostrou  uma  queda  violenta.  Havia  indícios  de  que  algumas  exportações  seguiam ainda  caminhos  indiretos.  Suspeitou-se  que  as  crescentes  exportações  de  algodão  brasileiro  para  a  Itália  não se  destinavam  à  Itália  somente.  O  Brasil  perdeu  o  seu  melhor  mercado  europeu  de  café  quando  a  Alemanha foi  eliminada,  mas  em  compensação  passou  a  aumentar  suas  vendas  aos  vizinhos  do  Reich.  Mas  ao  sinal  de que  os  aliados  pretendiam  exercer  uma  supervisão  mais  estrita  sobre  as  compras  neutras,  a  América  Latina precisava  enfrentar  a  perspectiva  de  um  considerável  reajustamento  das  relações  comerciais.

Isto  foi  acentuado  pela  política  dos  aliados.  Seus  esforços  para  conservar  o  câmbio  estrangeiro  levaram  em muitos  casos  a  restringir  as  compras.  As  importações  britânicas  do  Chile,  por  exemplo,  caíram  nos  últimos três  meses  de  1939  a  seis  por  cento  do  que  tinham  sido  no  mesmo  período  do  ano  anterior.  Mas  havia  sinais de  que  isto  era  apenas  a  fase  preliminar  de  um  reajustamento  de  acordos  que  atrairiam  as  importações  para mais  perto  das  exportações.  A  estreita  ligação  da  Argentina  à  Grã-Bretanha,  que  continuava  a  ser  seu  melhor freguês,  colocou  aquele  país  praticamente  em  condições  de  Domínio,  no  tocante  ao  comércio.  Mas  mesmo com  as  melhores  perspectivas  nesse  sentido,  a  maioria  dos  países  latino-americanos  teriam  de  voltar-se  para os  Estados  Unidos  a  fim  de  efetuar  as  vendas  que  estavam  perdendo  na  Europa.

O  comércio  de  guerra  e  os  Estados  Unidos

As  relações  comerciais  entre  os  aliados  e  os  Estados  Unidos  eram  mesmo  em  tempos  de  paz  de  importância capital.  A  Grã-Bretanha  e  o  Canadá  havia  muito  eram  os  fregueses  mais  importantes  dos  Estados  Unidos.  Os países  juntos  compraram  em  1939  mercadorias  americanas  no  valor  total  de  um  bilhão  de  dólares  -  cifra  que representa  a  terça  parte  do  total  das  exportações  americanas,  excedendo  consideravelmente  as  compras  de toda  a  América  Latina.  As  vendas  à  Alemanha  no  mesmo  ano  somaram  apenas  47.000.000  de  dólares.  A França,  com  aquisição  no  valor  de  182.000.000  de  dólares,  comprou  mais  que  a  Alemanha,  Rússia  e  Itália combinadas.

Essa  disparidade  foi  acentuada  pela  guerra,  que  trouxe  um  grande  aumento  do  total  das  compras  aliadas. Estatísticas  de  dezembro  mostraram  que,  enquanto  as  exportações  para  a  Grã-Bretanha  tinham  ultrapassado em  modestos  três  milhões  de  dólares  às  do  mesmo  mês  do  ano  anterior,  as  exportações  para  a  França  tinham triplicado,  e  as  compras  pelo  Canadá  tinham  aumentado  em  15.000.000  de  dólares  -  aumento  esse  de  mais  de quarenta  por  cento.  Em  contraste,  nos  cinco  meses  decorrentes  de  setembro  a  janeiro  inclusive,  toda  a Grande  Alemanha,  inclusive  a  Polônia,  comprou  menos  que  um  milhão  de  dólares  de  mercadorias,  em comparação  com  os  66.000.000  de  dólares  a  que  chegaram  as  suas  compras  no  mesmo  período  do  ano anterior.  O  aumento  de  47  por  cento  nas  compras  neutras  -  a  de  70  por  cento  no  caso  da  Escandinávia  - sugeriu  que  a  Alemanha  podia  estar  obtendo  mais  do  que  esses  números  mostravam;  mas  este  era  um  caso que  os  aliados  não  tardariam  a  examinar.

Fosse  qual  fosse  o  prejuízo  líquido  do  comércio  americano  com  a  Europa  central,  ele  era  mais  que contrabalançado  pelas  vendas  crescentes  aos  aliados  e  à  América  Latina.  As  exportações  de  janeiro  foram  as mais  altas  em  dez  anos;  75  por  cento  mais  que  em  janeiro  de  1939.  Nem  todos  os  setores  da  produção americana,  entretanto,  partilharam  desse  aumento.  Os  materiais  de  guerra  foram  beneficiados  às  custas  de algumas  das  mais  vendíveis  indústrias  de  exportação.  As  aquisições  britânicas  de  trigo  nos  Domínios  e  na Argentina  reduziram  as  exportações  de  trigo  americanas.  O  fumo  americano  sofreu  em  resultado  das compras  britânicas  na  Turquia.  A  exportação  de  automóveis  ficou  reduzida  em  dez  por  cento.  O  algodão,  por outro  lado,  beneficiou-se  com  as  crescentes  compras  britânicas  e  canadenses,  que  em  fevereiro  de  1940 triplicaram  de  exportação,  comparadas  com  1939;  e  os  metais,  maquinaria,  produtos  químicos,  e especialmente  aviões;  pareciam  ter  de  enfrentar  o  fechamento  dos  portos.

No  caso  dos  fornecimentos  bélicos,  entretanto,  havia  sinais  de  grande  dose  de  prudência  de  parte  tanto  dos compradores  como  dos  vendedores.  O  acordo  franco-britânico  de  coordenação  das  respectivas  políticas  de compra  significava  que  suas  comissões  de  compra  nos  Estados  Unidos  evitavam  a  concorrência  uma  com  a outra;  capacitando-as  a  seguir  uma  política  de  forte  pechincha  pelos  suprimentos  que  desejavam.  Os fabricantes  americanos,  por  sua  vez,  mostravam  muita  cautela  na  aceitação  de  pedidos  excedentes  à  sua capacidade,  a  menos  que  lhes  fosse  assegurado  um  preço  alto  bastante  para  quaisquer  necessidade  de  suas instalações  e  equipamento.

Isto  era  ilustrado  particularmente  pela  situação  que  dizia  respeito  aos  aviões.  Os  aliados,  e  a  França  em especial,  estavam  contando  com  fornecimentos  substanciais  dos  Estados  Unidos,  e  ofereciam  uma perspectiva  de  pedidos  no  total  de  um  bilhão  de  dólares.  Naturalmente,  eles  queriam  os  últimos  tipos  de aviões,  que  deveriam  ser  fabricados  com  a  maior  rapidez  possível.  Pedidos  desse  volume  exigiriam  a expansão  das  instalações  fabris  existentes;  e  os  fabricantes  exigiam  a  garantia  de  que  o  custo  das  novas construções  seria  coberto,  e  que  um  acordo  a  esse  respeito  não  seria  anulado  pelas  regulamentações  do Tesouro  sobre  o  fisco.  Ao  mesmo  tempo,  tanto  a  opinião  pública  como  os  círculos  militares  ficavam  algo perturbados  ao  pensamento  de  que  a  venda  dos  aviões  mais  modernos  poderia  deixar  certos  segredos militares  à  disposição  de  potências  estrangeiras.  Durante  todo  o  mês  de  março,  tiveram  lugar,  intensivas negociações  com  um  comitê  do  Congresso  a  perscrutar  o  ângulo  militar  da  situação.  Mas  pelo  fim  do  mês, essas  várias  dificuldades  pareciam  ter  sido  sanadas,  e  havia  toda  a  probabilidade  de  que  fornecimentos  em grande  escala  estariam  à  disposição  dos  aliados  durante  o  ano  vindouro.

Os  direitos  dos  neutros

Essas  realizações  econômicas  indicavam  algumas  das  vantagens  de  uma  neutralidade  benevolente.  Por  outro lado,  as  desvantagens  imediatas  eram  relativamente  pequenas.  Os  neutros  europeus  tinham  a  preocupação permanente  de  que  direitos  de  diversas  espécies  seriam  violados  -  suas  águas  penetradas  por  vasos  de  guerra beligerantes,  seu  território  sobrevoado  por  aviões  beligerantes.  As  repúblicas  americanas  tinham  poucas preocupações  dessa  natureza.  Mesmo  a  questão  dos  direitos  de  comércio  neutro,  que  nas  guerras  passadas fôra  tão  considerada,  ficou  reduzida  de  importância  quando  os  navios  dos  Estados  Unidos  foram  proibidos  de entrar  na  zona  de  guerra.  E  embora  certas  dificuldades  houvessem  surgido  de  quando  em  vez,  em conseqüência  do  bloqueio  e  de  outros  incidentes  da  guerra  marítima,  elas  eram  comparativamente  menores na  importância  e  no  efeito.

Uma  controvérsia,  na  verdade,  surgia  diretamente  da  tentativa  de  se  criar  uma  situação  que  evitasse  o aparecimento  de  tais  controvérsias.  Ao  iniciar  a  guerra,  uma  conferência  pan-americana  foi  chamada  a considerar  a  adoção  de  uma  política  comum  em  relação  aos  problemas  que  a  guerra  provavelmente apresentaria.  A  idéia  mais  notável  surgida  na  conferência,  que  teve  lugar  mo  Panamá,  de  23  de  setembro  a  3 de  outubro,  era  a  da  criação  de  uma  "zona  de  segurança  americana"  da  largura  média  de  300  milhas  em  torno do  continente,  e  do  tratamento  dessa  faixa  como  sendo  de  águas  territoriais  dentro  das  quais  as  atividades beligerantes  fossem  barradas.  Embora  ela  não  incluísse  as  águas  canadenses,  abrangia  as  possessões britânicas  nas  Caraíbas,  e  levantou  a  questão  de  utilizá-las  como  bases  navais  e  a  da  imunidade  do  comércio beligerante  dentro  de  seus  limites.  A  efetivação  dessa  proposta  dependeria  inteiramente  da  boa  vontade  dos países  em  guerra  de  aceitá-la  e  submeter-se  à  mesma,  pois  que  nenhum  Estado  americano  tinha  realmente  em vista  medidas  navais  de  garantia.  Um  almirante  americano  pôs  o  dedo  no  ponto  vital.  "É  uma  bela  idéia", comentou,  "mas  que  faremos  se  alguém  meter  o  nariz  nessa  zona?"

Em  dezembro,  alguém  o  fez.  A  batalha  do  rio  da  Prata  entre  os  cruzadores  britânicos  e  o  Graf  Spee  projetou a  questão  para  a  frente,  complicando-a  com  a  alegação  uruguaia  de  que  o  encontro  tinha  tido  lugar  dentro  do limite  das  três  milhas.  A  23  de  dezembro,  foi  apresentado  um  protesto  aos  beligerantes  por  esse  e  outros episódios,  inclusive  ataques  à  navegação  beligerante.  A  resposta  britânica  de  15  de  janeiro  implicou  o  desejo de  aceitar  a  declaração  do  Panamá,  se  a  sua  garantia  pudesse  ser  assegurada,  mas  assegurou  que,  enquanto disto  se  carecesse,  "as  legítimas  atividades  dos  navios  de  Sua  majestade  não  podem  de  modo  algum  pôr  em perigo,  mas  muito  pelo  contrário  contribuir  para  a  segurança  do  continente  americano".  A  Alemanha,  a  14  de fevereiro,  rejeitou  toda  a  idéia,  assegurando  que  ela  favorecia  a  Inglaterra  e  a  França  e  mostrando  que  o Canadá  era  um  Estado  beligerante  que  diretamente  confinava  com  essa  zona.  Embora  a  3  de  fevereiro  novas propostas  para  o  controle  da  navegação  beligerante  fossem  delineadas  pelo  Comitê  Inter-Americano  de Neutralidade,  estava  claro  que  tão  ampla  inovação  no  direito  internacional  tinha  pouca  probabilidade imediata  de  aceitação  prática.

Em  torno  de  questões  mais  assentadas  havia  também  rusgas  ocasionais.  Uma  nota  americana  protestando contra  o  interceptar  das  exportações  alemães  foi  publicada  a  8  de  dezembro,  mas  na  prática  tal  medida  criou sérios  agravos;  e  a  Grã-Bretanha,  em  resposta  a  22  de  fevereiro,  defendeu  a  sua  legalidade  justificada  pelo direito  às  represálias,  e  apontando  para  as  violações  alemães  do  direito  e  dos  tratados  por  seus  métodos  de lançamento  de  minas  e  de  guerra  submarina.  Mas  certos  outros  aspectos  do  bloqueio  criaram  considerável,  se bem  que  passageiro,  aborrecimento  na  América.  A  detenção  de  navios  americanos  em  portos  de  controle, particularmente  em  Gibraltar,  era  considerada  como  envolvendo  injustificável  distinção.  Um  memorial  de protesto  a  22  de  janeiro  acentuou  o  fato  de  que  embora  os  navios  italianos  fossem  soltos  após  uma  detenção média  de  quatro  dias,  os  navios  americanos  eram  retidos  por  uma  média  de  12  dias  e  10  horas.  Um  protesto ainda  mais  ríspido  foi  enviado  relativamente  à  retenção  pelos  britânicos  das  malas  destinadas  à  Alemanha  a bordo  dos  navios  americanos  -  prática  que  foi  estendida  até  ao  Clipper  transatlântico  durante  a  sua aterrissagem  nas  Bermudas  a  18  de  janeiro.  As  discussões  em  torno  da  legalidade  dessa  prática concentraram-se  na  Convenção  de  Haia  de  1907.  Os  Estados  Unidos  reivindicavam  o  artigo  I,  que assegurava  que  a  inviolabilidade  de  toda  a  correspondência  postal  era  claramente  estabelecida.  Mas  a  Grã- Bretanha  e  a  França,  indicando  o  artigo  II  que  dizia  que  essa  inviolabilidade  não  excluía  um  navio  neutro  das leis  da  guerra  marítima,  achavam  que  isso  as  justificava  no  interceptar  de  dinheiro  e  outros  valores  que  a mala  apreendida  continha,  no  valor  de  8.000.000  de  dólares,  como  em  outras  questões,  as  discussões terminaram  sem  se  chegar  a  um  acordo.

A  missão  de  Sumner  Welles

Mas,  embora  tais  incidentes  mostrassem  a  possibilidade  de  surgir  um  atrito  entre  os  Estados  Unidos  e  os aliados,  não  era  provável  que  deles  resultasse  qualquer  ruptura  séria.  A  administração  Roosevelt  estava interessada  pelos  aspectos  mais  amplos  do  conflito.  O  presidente  se  mostrava  plenamente  cônscio  de  seu significado  para  a  América  e  dos  perigos  inerentes  a  uma  possível  derrota  dos  aliados.  Ele  estava  impaciente por  usar  de  sua  influência  onde  fosse  possível  em  favor  de  uma  oportunidade  para  a  restauração  da  paz.  Mas, como  demonstrou  em  seu  discurso  de  16  de  março,  percebeu  que  era  necessária  uma  base  moral  para  que  a paz  fosse  real  e  duradoura;  e  durante  esse  período  parecia  haver  pouca  possibilidade  de  que  a  Alemanha aceitasse  qualquer  ajuste  que  ao  menos  se  aproximasse  dessa  condição.

Foi,  segundo  parece,  com  a  intenção  de  descobrir  se  existia  mesmo  alguma  perspectiva  que  o  presidente Roosevelt  anunciou,  a  9  de  fevereiro,  a  nomeação  de  Mr.  Sumner  Welles  para  a  realização  de  uma  tournée  de sondagens  pelos  capitais  beligerantes.  "Essa  visita",  disse  o  comunicado  da  Casa  Branca,  "é  somente destinada  a  servir  o  propósito  de  esclarecer  o  presidente  e  o  secretário  de  Estado  a  respeito  da  atual  situação da  Europa.  Mr.  Welles  não  estará,  naturalmente,  autorizado  a  fazer  propostas  ou  tomar  compromissos  em nome  do  governo  dos  Estados  Unidos."

Essa  explicação  pareceu  simples  demais  para  satisfazer  as  tendências  especuladoras  de  um  grande  número  de observadores.  Mas  na  busca  dos  propósitos  mais  fundos  e  sutis  que  se  escondessem  atrás  dessa  missão,  eles não  obtinham  ajuda  alguma  de  Mr.  Welles.  O  subsecretário  de  Estado  seguiu  o  caminho  que  lhe  foi  traçado, alto  e  de  lábios  cerrados,  de  uma  capital  a  outra.  No  decurso  de  quatro  semanas,  ele  se  avistou  com  os  mais altos  funcionários  de  Roma  e  Berlim,  conversou  com  os  líderes  dos  diversos  partidos  em  Paris  e  Londres  e  se encontrou  com  representantes  do  governo  polonês  no  exílio.  Ao  fim  dessa  excursão,  o  único  esclarecimento que  ofereceu  foi  o  comunicado:  "Desejo  declarar  categoricamente  que  não  recebi  nenhum  plano  ou  proposta de  paz  de  beligerante  algum  ou  de  qualquer  outro  governo;  que  não  apresentei  nenhuma  proposta  nesse sentido  a  governos  beligerantes  ou  outros  quaisquer;  que  nem  estou  trazendo  ao  presidente  quaisquer propostas  dessa  natureza".

O  que,  entretanto  parecia  claro,  é  que,  em  suas  conversações  com  Mr.  Welles  os  estadistas  europeus  haviam insistido  em  que  nenhuma  paz  seria  virtualmente  conseguida  com  vitória.  Tanto  a  Grã-Bretanha  como  a França  insistiram  em  que  a  sombra  nazista  tinha  de  ser  varrida  da  Europa.  Do  lado  alemão  houve  declarações ainda  mais  peremptórias,  se  é  que  pudessem  ser  aceitas  as  explicações  semi-oficiais  de  Berlim.  Von Ribbentrop  assinalou  a  firme  intenção  alemã  de  romper  o  poder  da  "plutocracia"  britânica.  Interpretou  isto como  significando  o  fim  do  controle  britânico  dos  mares,  a  entrega  de  Gibraltar  e  do  canal  de  Suez  e  a exclusão  da  influência  britânica  do  continente,  para  que  pudesse  ser  assegurado  o  domínio  alemão  em  favor de  seu  "espaço  vital".  Hitler  elaborou  essas  exigências  e  acrescentou-lhes  a  devolução  das  colônias  à Alemanha  e  o  reconhecimento  do  direito  da  Alemanha  de  estabelecer  a  sua  própria  Doutrina  de  Monroe  na Europa  central  e  oriental.  A  isto,  o  "New  York  Times"  comentou:  "A  Doutrina  de  Monroe,  segundo  essa interpretação,  dá-nos  o  direito  de  ocupar  a  Argentina  e  o  Brasil,  de  fuzilar  seus  principais  cidadãos,  fechar- lhes  as  universidades,  estabelecer  o  seu  trabalho  obrigatório,  arrancar  milhares  de  mulheres  e  crianças  de seus  lares  e  impor  nossas  idéias  à  América  Latina  a  ponta  de  baioneta."

A  declaração  do  presidente  Roosevelt,  por  ocasião  da  volta  de  Mr.  Welles,  revelou  o  quanto  este  enviado especial  se  sentia  pouco  à  vontade  ao  regressar  de  suas  explorações  pela  Europa.  "Ele  não  recebeu,  nem  me trouxe  nenhuma  proposta  de  paz,  de  nenhuma  fonte",  disse  Mr.  Roosevelt,  acrescentando  que  a  sua informação  seria  valiosa  "mesmo  que  ela  delimite  as  perspectivas  imediatas  do  estabelecimento  de  qualquer paz  justa,  estável  e  duradoura  na  Europa."  Ao  mesmo  tempo,  um  episódio  curioso  sugeria  que  Mr.  Welles tinha  deixado  atrás  certa  soma  de  descontentamento  em,  pelo  menos,  um  país  europeu.  Mal  tinha  ele  chegado em  casa  quando  os  nazis  publicaram  o  que  era  inculcado  como  uma  série  de  documentos  dos  arquivos poloneses  tendentes  a  provar  que  enviados  diplomáticos  americanos  tinham  contribuído,  com  o encorajamento  da  Polônia  e  dos  aliados,  para  o  atiçamento  das  disputas  que  acabaram  por  conduzir  à  guerra. Fosse  qual  fosse  o  valor  histórico  que  essa  publicação  pudesse  chegar  a  ter,  era  difícil  ver-se  que  valor propagandístico  poderia  ter  no  momento  para  a  causa  nazista,  ou  de  que  modo  esta  tiraria  vantagens  de  tão curiosa  manifestação  de  ressentimento  para  com  a  América.

O  anel  que  se  aperta

No  começo  de  abril,  portanto,  notava-se  um  aumento  de  resolução  de  ambos  os  contendores,  e  o  incremento dos  preparativos  para  uma  fase  nova  e  mais  tensa  da  luta.  As  novas  ameaças  nazistas  de  ação  devastadora chegaram  ao  auge  com  a  alegação  de  Goering  de  que  Hitler  tinha  preparado  um  golpe  decisivo  no  ocidente. Os  aliados,  por  sua  vez,  recusavam-se  a  dar  atenção  ao  clamor  que  se  erguia  em  certos  círculos  para  que  se decidissem  a  tomar  a  ofensiva,  mas  deixaram  claro  que  estavam  resolvidos  a  incentivar  a  luta  à  procura  de uma  decisão.  Sua  solidariedade  econômica  tinha  sido  mais  incrementada  por  um  novo  tratado  entre  a  Grã- Bretanha  e  a  França  a  16  de  fevereiro.  Sua  união  política  e  militar  foi  fortalecida  numa  reunião  do  Supremo Conselho  de  Guerra  a  28  de  março,  onde  ficou  estabelecido  que  nenhuma  paz  seria  buscada  a  não  ser  por acordo  mútuo,  e  que  a  concordância  de  ação  iria  continuar  por  muito  depois  da  paz,  como  era  necessário  para a  segurança  e  a  reconstrução  da  Europa.  E  em  seu  discurso  de  3  de  abril,  o  premier  Reynaud  referiu-se  a  seu novo  gabinete  de  guerra  com  uma  frase  que  parecia  antecipar  mais  vigorosas  medidas:  "Nós  forjamos  esta arma,  e,  agora  vamos  usá-la".

Pelo  menos  uma  forma  de  seu  uso  estava  claramente  indicada  -  o  aumento  da  pressão  econômica  sobre  a Alemanha.  Os  aliados  não  mais  estavam  contentes  em  ver  a  manutenção  da  neutralidade  legal  das  pequenas nações  resultar  da  prática  em  vantagem  para  o  inimigo.  Estavam  utilizando  meios  legais  para  diminuir  essa vantagem.  Uma  política  de  compras  mais  extensiva  foi  elaborada  para  afastar  os  produtos  neutros  das  mãos dos  alemães.  Novos  tratados  comerciais  prescreviam  que  os  países  em  questão  racionariam  voluntariamente as  suas  importações,  a  fim  de  evitar  que  elas  servissem  de  canais  de  suprimento  ao  Reich.  Mas  foi  tornado claro  que  se  os  neutros  não  o  fizessem  voluntariamente,  isso  lhes  seria  imposto  pelo  bloqueio  aliado;  e  foi também  previsto  que,  de  um  modo  ou  de  outro,  se  encontraria  meio  de  se  lidar  com  questões  tão  importantes como  os  embarques  de  minério  de  ferro  sueco  para  a  Alemanha.  Com  o  bloqueio  a  estreitar-se  no  Báltico,  no Adriático  e  no  Pacífico,  os  aliados  estavam  visivelmente  ficando  prontos  para  a  aplicação  de  uma  nova intensidade  de  pressão.  Restava  ver-se  se  isso,  que  em  nada  contribuiria  para  o  bem-estar  dos  neutros, também  conduziria  à  extensão  das  hostilidades  às  suas  custas  quando  a  Alemanha  procurasse  romper  o  anel que  se  apertava.

 

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