10 a 18 de Maio de 1940
O Drama de Sedan
Tópicos do capítulo:
7 de maio: Chamberlain afastado, surge Churchill
9 de maio: ordem de ataque alemão
10 de maio: Holanda e Bélgica invadidas
As pontes do canal Alberto não são dinamitadas
Churchill forma Ministério, Reynaud o apoia
Corap e Huntziger, o 9 o e o 2 o Exércitos
12 de maio: Guderian aproxima-se de Sedan
As desventuras da 55 a DI
13 de maio, 15 horas: o Mosa é atingido
Os 40 alemães de Wadelincourt
Pânico nas estradas
Rommel acorre a Dinant
Ameaça à Linha Maginot
Acaba-se a luta na Holanda
Triunfo para Guderian
O 9 o Exército se esboroa - Corap em desgraça
Fim da batalha do Mosa
A estrada de Paris está aberta
18 de maio: Pétain ministro, Weygand generalíssimo
Blitzkrieg
A primeira vítima de maio de 1940 é Chamberlain. No dia 7, abre-se, na
Câmara dos Comuns, um debate sobre a derrota na Noruega. A Câmara
vibra de humilhação e cólera. Keyes, Amery, Duff Cooper, Lloyd George
e um deputado quase anônimo que serve - e que perecerá - como
metralhador de cauda num bombardeiro, Arnold Wilson, arrasam o
Primeiro-Ministro.
Ele, o velho homem de Munique, defende-se com obstinação quase
inconsistente. Mas seu apelo à solidariedade dos tories soa mal na
atmosfera de uma pátria em perigo. Através do voto de moção de censura,
30 conservadores reúnem-se à oposição e 60 abstêm-se. A maioria decai
de 200 para 80 votos. Leo Amery terminara seu ardente discurso com a
apóstrofe de Cromwell ao Longo Parlamento: “Ficastes aqui tempo
demais pelo bem que fizestes. Parti, eu vos digo! Pelo amor de Deus, ide
embora”. Chamberlain obedece a esse apelo dramático. Sai tropeçando
nos pés de seus ministros e, antes de deixar a sala, volta-se para envolver a
Assembléia com um último olhar encolerizado e amargo.
Lá fora, ele se recobra e ainda se obstina. Impossível como Primeiro-
Ministro conservador, tenta sobreviver como Primeiro-Ministro unionista,
solicitando apoio aos trabalhistas. Estes o recusam. Chamberlain procura
então designar seu sucessor, a fim de, uma vez mais, eliminar Churchill.
Seu candidato favorito é Halifax, mas Halifax é um lorde a quem a
Constituição do Reino Unido proíbe o acesso à Câmara dos Comuns. A
contragosto, Chamberlain concorda que é impossível dirigir a guerra da
Câmara Alta. Terá de conformar-se com Churchill?
Muitos ainda se recusam a isso, continuando a ver em Churchill o
incorrigível franco-atirador, o impulsivo dos Dardanelos, o desastroso
ministro das Finanças de 1923 e, ainda há pouco, verdadeiro responsável
pelo desastre na Noruega. O primeiro culpado é seu Almirantado, cuja
negligência permitiu a dez comboios alemães aparecerem
simultaneamente em todos os portos, de Oslo a Narvik. Churchill, durante
o debate, reivindicara essa responsabilidade, mas o velho Lloyd George
ergueu sua cabeça branca: “Este muito honrado gentleman não tem o
direito de se converter em abrigo antiaéreo para proteger dos estilhaços os
seus colegas...” Um grupo ardente lança o homem em quem a opinião
pública vê, cada vez mais, a energia de que
necessita a Inglaterra. Um outro grupo se esforça para impedir-lhe o
acesso a Downing Street. Ele, devorado pelo nervosismo, aguarda.
Em Paris, desenvolve-se uma crise paralela, mais grave ainda, pois
implica ao mesmo tempo o Governo e o Comando. Paul Reynaud
definitivamente não quer mais saber de Gamelin. É estimulado a isso por
uma carta ousada que o coronel De Gaulle, passando por cima de uma
cascata hierárquica, acabou de lhe escrever. “O corpo militar, pelo
conformismo inerente à sua natureza não se reformará por si só... Sua
reforma é obra de um homem de Estado, que Vossa Excelência deve
realizar. Não ambiciono outra honra maior senão a de servi-lo nessa
empresa capital...” Mas Daladier continua solidário com o Generalíssimo a
quem nomeou e no qual ainda vê brilhar a calma centelha do gênio. No
Conselho do Gabinete do dia 9 de maio ele recusa a retirar Gamelin de seu
comando. Reynaud responde a essa recusa declarando demissionário o
Ministério. Só pede a seus colegas que guardem segredo dessa decisão até
o dia seguinte. Até o dia seguinte, sexta-feira, 10 de maio de 1940...
A Manobra da Bigorna e do Martelo
Absorvido pela sua campanha na Noruega, Hitler só voltou a falar do
Plano Amarelo em 27 de abril. Anunciou a Keitel e Jodl que tinha a
intenção de desencadear a ofensiva contra a França entre 1 e 7 de maio.
Tudo está pronto. A ordem geral assinada em 24 de fevereiro não mais foi
modificada. Acabou por estabelecer-se uma unidade de intenção e de
idéias entre o OKW e o OKH, ente Hitler e seus generais. Aliás, o
documento é notável pela sobriedade e clareza. O Grupo de Exércitos C
(Von Leeb, 19 divisões) guardaria a frente passiva entre a Suiça e o
Luxemburgo. Os outros dois grupos de exércitos, B (Von Bock) e A (Von
Rundstedt), dividiriam entre si o papel ativo.
Cabe ao grupo B aquilo que o Comando alemão denominou ofensiva de
fixação. “Ele deverá - diz a ordem - ocupar rapidamente a Holanda, opor-
se à junção das forças holandesas e anglo-belgas, quebrar com ação rápida
e violenta as defesas da fronteira belga”. Vinte e nove divisões, dois
exércitos, o 18° (Von Kuchler) e o 6° (Von Reichenau), são destinados a
essa missão. Relativamente pobres em grandes unidades blindadas, têm,
em compensação, à sua disposição, a maior novidade militar da época, a
infantaria aérea. Os pára- quedistas do General Student e os planadores do
General Conde Sponeck cairão do céu, pousarão nos aeródromos e nas
auto-estradas, apossar-se-ão das grandes pontes do Mosa e do Reno,
atacarão as fortificações pelos métodos revolucionários imaginados pelo
Fuhrer. Espera-se que essa ação inédita, que esses golpes retumbantes
canalizem a atenção do Comando inimigo para o norte da batalha e que
orientem para essa direção a maior parte de suas forças. Posteriormente, o
grupo de exércitos desembocará na Bélgica e pressionará a frente aliada.
Bock é, portanto, a bigorna. Rundstedt, o martelo. A ordem lhe confia a
ofensiva principal. Consequentemente, esta o favoreceu: 45 divisões,
dentre as quais 7 blindadas. Sua missão consiste em: forçar o mais
rapidamente possível a passagem do Mosa, entre Dinant e Sedan, e depois
avançar com o máximo de meios e de velocidade em direção à
desembocadura do Somme, a fim de tomar pela retaguarda a zona
fortificada do Norte da França. Três exércitos dividem entre si essa tarefa:
o 4° (Von Kluge), que atacará numa larga frente entre Eupen e o Norte de
Luxemburgo; o 12° (List), que atacará numa frente bem estreita em
direção a Sedan; enfim, o 16° (Busch), que bloqueará o avanço contra
qualquer reação francesa vinda do Sul.
Uma característica extraordinária do grupo Rundstedt é a concentração
dos meios de ruptura. Kluge conserva, sozinho, o comando direto de seus
carros blindados: a 5ª e a 7ª divisões Panzer formando o 15° Corpo
Blindado, sob o comando do General Hoth. Todos os outros veículos
rápidos do grupo de exércitos ficariam reunidos num Panzerkeil, um
“ponto blindado” que, em três escalões, por causa da insuficiência das
estradas, se precipitará em direção a Sedan. Esse grupamento compõe-se
do 19° Corpo, de Guderian (1ª, 2ª e 10ª Panzer), do 41° Corpo, de
Reinhardt (6ª e 8ª Panzer, 2ª Divisão de Infantaria motorizada) e do 14°
Corpo, de Wietersheim (13ª e 29ª divisões motorizadas). O comando dessa
ponta de ferro foi confiado ao Coronel- General Von Kleist. A tendência
que se esboçou na Polônia, a divisão do Exército alemão num exército rápido
e num exército lento, entre um exército revolucionário e um
exército convencional, encontrou sua expressão sistemática na manobra de Sedan.
Em quatro meses, graças a uma excelente técnica do estado-maior, a
intuição de Hitler torna-se um plano de uma magnífica simplicidade e de
um grandioso desafio, uma das combinações estratégicas mais magistrais
de todos os tempos.
Mas Hitler tripudia. Os atrasos continuam acumulando-se. A 3 de maio, as
previsões meteorológicas são más: o ataque é adiado para o dia 8. No dia 7
à noite, um último exame do mapa do tempo acarreta, a pedido de
Brauchitsch, novo adiamento... “Cedo - disse Hitler - contra minha
intuição e pela última vez. Não haverá mais adiamento...”.
A ordem que saiu do OKW na manhã de 9 de maio é, contudo, idêntica às
quinze que a precederam, provocando ao final a incredulidade e a troça.
Mas, desta vez, não é a expressão significando “ataque adiado” que será
transmitido. Eis seu texto literal: Berlim 9-5-40. O Fuhrer e Comandante
Supremo decidiu: Dia A: 10-5. Hora Z: 5h35 min. As palavras
convencionais “Dantzig” ou “Augsburg” serão dadas às diferentes frações
da Wehrmacht a 9-5 antes das 21h30 min. O Chefe do Oberkommando da
Wehrmacht: Keitel.
No dia 9, às 16:48h, o trem especial do Fuhrer deixa Berlim-Finkenburg.
Chega a Euskirchen antes do amanhecer. Há escuridão, umidade e frio.
Algumas colunas de infantaria atravessam silenciosamente a pequena
cidade. A subida ao Felsennnest, perto de Munstereifel, um dos quatro
postos de comando dispostos para o Senhor da Guerra, demorou uma meia
hora. Quando Hitler e seus 14 oficiais do OKW chegam ao grupo de
bunkers disseminados na floresta, o sol se levanta acima dos bosques
negros envoltos em bruma. Há alguns minutos que a ofensiva do Oeste
começou.
Invadida a Fortaleza Holanda e perdido o Canal Alberto desde a primeira
manhã
Surpresa na Holanda... Desde o alvorecer, os pára-quedistas caem sobre
Roterdã, Haia e a ilha de Dordrecht, perto da ponte de Moerdijke. Vestring
Holand, a Fortaleza Holanda, é invadida desde o primeiro minuto de
combate.
Por várias vezes durante o inverno tinham sido feitas tentativas para
organizar uma defesa comum da Bélgica e da Holanda. Não tiveram êxito.
Reduzidos a suas próprias forças, os holandeses tiveram que renunciar a
defender suas fronteiras. Limitaram sua ambição à conservação do
triângulo Amsterdã-Haia-Roterdã, lançando mão de sua aliada histórica, a
inundação. A ilha artificial que contam fazer surgir diante do invasor
poderá ser socorrida pela Inglaterra e, eventualmente, ser ligada às
posições gerais da coligação feita por um exército francês que saia de
Antuérpia.
Para provocar essa inundação é necessário um prazo de 4 dias. Os
holandeses dispõem suas 10 divisões para consegui-lo. Ao norte, o 4° e o
2° CE girarão o mais lentamente possível em torno de Arnhem. Ao leste, o
3° CE, e uma divisão especializada disputarão passo a passo uma posição
organizada ao longo dos pântanos do Peel. O 1° CE, disposto do Reno ao
Zuiderzee, recolherá os elementos em retirada e assegurará a
inviolabilidade do redito nacional... Mas não se havia imaginado que os
invasores cairiam do céu.
Os holandeses lutam energicamente. Mantêm-se no Grebbe e no Peel. Mas
não chegam a reconquistar seus aeródromos nem a limpar o centro do
país. São inúteis os gritos de socorro que lançam à aviação inglesa e
francesa. As esquadrilhas de Kesselring dominam o céu. Depois de lançar
4.000 homens da 7ª Divisão de Flieger, elas os abastecem, reforçam-nos,
apoiam-nos, provocam a confusão entre o inimigo com bombardeios
ininterruptos. Por duas ou três vezes, os holandeses iriam assinalar que se
recobravam; algumas horas mais tarde, novas informações revelariam que
a mancha alemã se estendia...
Surpresa na Bélgica... A alguns quilômetros a oeste de Maestricht, o canal
Alberto é uma superfície de água de 60m de largura entre a margens
verticais. A melhor vala antitanque da Europa. As duas pontes que o
atravessam, a de Veldwezelt e a de Vroenhoven, são cuidadosamente
minadas. Dois blockhaus defendem as pontes. Trinta quilômetros da
Holanda interpõem-se entre o território alemão e as defesas belgas.
Quando é dado o alarma, ao amanhecer de 10 de maio, o 18° RI está
convencido de que tem o tempo suficiente para se preparar para receber o
ataque... Quatro horas depois, os primeiros inimigos estão atravessando o
mais depressa possível as pontes intactas.
Que se passara? O seguinte: um violento bombardeio aéreo batera os
defensores, e em seguida algumas seções aerotransportadas, colocadas
além do canal, atacaram as pontes por trás. Mortos, capturados ou
aterrorizados, os guarda-fronteira não tinham posto em funcionamento os
dispositivos de “abrir fogo”. Os infantes aerotransportados tinham
liquidado rapidamente as resistências e mantido a posição até a chegada da
cabeças de coluna vindas de Maestricht.
Para disputar as passagens do canal resta um recurso: o canhão de Eben
Emael. O forte, que cobre 65 ha, tem 8 peças de 75 e 2 peças de 120 em
sua cúpula, podendo atirar em todas as direções. No entanto, o Forte de
Eben Emael se cala. Não foi tomado, já que uma guarnição de 1.000
homens ainda resiste nas casamatas. Não foi tomado, mas destruído.
Desembarcados sobre as superestruturas do forte, os sapadores pára-
quedistas do tenente-coronel Mikosch gastaram exatamente 16 minutos
para fazer explodir, por meio de cargas ocas, todos os órgãos de
observação e de tiro. O plano de ataque foi assinado por Hitler: foi ele,
esse amador, que o desejou, concebeu e montou.
Esses acontecimentos são testemunhos da visão alemã. O que acaba de
explodir em poucas horas é o ponto de articulação da defesa belga. A vala
antitanque onde esta queria manter-se por uma semana é atravessada numa
manhã.
O Exército belga conta 23 divisões. O traçado sobre o qual ele pretende
travar a sua primeira batalha seguia o Mosa, de Givet a Liege, e depois o
canal Alberto, de Liege ao Escalda. Balizam-no três praças fortes: Namur,
Liege e Antuérpia. A concentração é feita principalmente em frente à
Holanda, como se se visse o perigo surgir de Triburg e de Breda, e não de
Aachen (Aix-la-Chapelle) e de Maestricht. Onze divisões são alinhadas no
canal, separado da fronteira por distancias que vão de 40 km até alguns
metros. O dispositivo expõe o flanco e, no entanto, é a leste que a
ocupação se revela menos densa. Enquanto as 10 outras divisões
defendem setores de uma dezena de quilômetros, a 7ª, a de Vroenhoven e
Veldwezelt, ocupa o dobro. Considera-se que ela está coberta pela posição
de Liége, flanqueada por Eben Emael, precedida pelo Mosa, favorecida
pela trincheira particularmente escarpada do canal. Não se considera que é
tentador, para um inimigo inteligente, fazer explodir, de um só golpe, a
articulação da frente adversária. A manobra de Sedan tem uma irmã
gêmea em Eben Emael. Todos os contra-ataques para livrar o forte
fracassam. Às 17h, embora atrasada de Maestricht, a 4ª DP, do Major-
General Stever, começa a atravessar a melhor vala antitanque da Europa.
Três intervenções aéreas - uma belga, uma segunda francesa, a terceira
inglesa - são inúteis. Eben Emael capitula. A brecha alarga-se. Às 11h da
manhã de 11 de maio, numa morna casamata do velho Forte de
Breendonck, entre Antuérpia e Bruxelas, o comandante-chefe, Leopoldo
III, seu novo chefe do Estado-Maior, o General Michiels, e seu chefe de
gabinete, o General Van Overstraeten, verificam que a posição de
cobertura do canal Alberto está cercada. Nada mais resta senão ordenar
um recuo precipitado, na posição principal de resistência, chamada linha
KW. Conta-se fazê-lo numa semana; têm-se que realizá-lo na manhã do
segundo dia.
“K” quer dizer Koningshoyckt, pequena localidade no Escalda inferior;
“W” significa Wavre, célebre pela indecisão de Grouchy. É lá, na frente de
sua capital, que os belgas decidem fazer a sua frente. Constróem alguns
blockhaus e erguem um obstáculo contínuo antitanque formado de
elementos Cointet justapostos. Os exércitos franco-britânicos devem vir
alinhar-se ao seu lado dessa grade. Chegarão a tempo?
Como os Exércitos franco-britânicos marcham para o combate
Na Inglaterra, a ofensiva alemã resolve a crise governamental. Na França,
ela a detém. Churchill forma em algumas horas, na manhã de 10 de maio,
o Ministério histórico que, com algumas modificações, será o da vitória:
Attlee, Halifax, Bevin, Eden, Beaverbrook, etc. Reynaud retira o pedido
de demissão que havia feito na véspera e troca com seu inimigo Gamelin
algumas fases empoladas: “Daqui por diante, só importa uma única coisa:
vencer. - Só vejo uma resposta: a França”. A derrocada começa com
discursos enfáticos.
Às 7:30h, as vanguardas francesas entram na Bélgica. A manobra que se
realiza é a “Dyle”. Os executantes ainda se sentem tão pouco convencidos
de sua adequação, que os dois principais; Prioux, que comanda o Corpo de
Cavalaria, e Blanchard, que comanda o 1° Exército, pedem que se volte à
manobra “Escalda”. Billotte e Gamelin opõem-se a isso. É tarde demais!
O exército franco-britânico volteia. O ponto de junção é a velha e pequena
fortaleza de Givet-sur-Meuse. Uma rede de um milhão de homens varre as
planícies que já contam tantos nomes de batalha em sua
toponímia. Desde o rochedos das Ardenas até os pôlderes da Zelândia, o
exército franco-britânico marcha para o seu destino.
A ala esquerda é o 7° Exército, que ficaria de reserva, pronto para o
contra-ataque, se Gamelin não se tivesse obstinado a ir procurar longe sua
batalha. Seus movimentos cuidadosamente preparados pelo General
Giraud cumprem-se com grande celeridade. Desde o dia 10 à noite, a 1ª
DLM e a 25ª DIM entram na Holanda, atingem Berg-op-Zoom,
aproximam-se de Breda. À direita de Giraud, precipitam-se as 9 divisões
de Lorde Gort. Elas vão estabelecer-se de Louvain a Wavre, emoldurando
os belgas, cuja frente deve estender-se até Antuérpia. À direita dos
ingleses marcha o melhor exército francês, o 1°, 8 divisões de infantaria e
2 DIM. Estas últimas, que constituem o Corpo de Cavalaria, batalham na
região de Saint-Trond, enquanto o resto do exército vai estabelecer-se de
través na estrada clássica das invasões que é a brecha de Gembloux. A
prova de que o Comando espera aí o choque principal reside na qualidade
das tropas que escolheu e na estreiteza das frentes que designa. Bem
provida de artilharia e de armas antitanques, tendo diante de si as
excelentes DLM e atrás de si as poderosas DCR, cada divisão do 1°
Exército deve defender uma frente média de 5 a 6 km somente. O
comandante do exército, General Blanchard, é um oficial prudente e culto,
em quem certos críticos vêem o Lanrezac de 1940. “Inteligente, mas
pessimista”, pensa-se no GQG.
O vizinho de Blanchard é Corap. Ao general douto sucede o general
militar. O título de glória do soldado Corap é ter capturado Abd el-Krim,
encurralando-o passo a passo nas montanhas do Rif. Mas o exército que
ele comanda é, no inicio da guerra, somente o destacamento do exército
das Ardenas, e os reforços que ele recebe continuam parcimoniosos. Suas
5 divisões de primeira linha devem guardar o Mosa, de Namur às
vizinhanças de Sedan, duas delas resistindo no local, nas fortificações que
construíram, e as três outras estabelecendo-se no território belga.
Em relação a essas forças as frentes são enormes. Cada divisão deve
defender de 15 a 20 km em linha reta, e até mais, se contarmos os
meandros do Mosa. Nem mesmo o material está completo. Exemplos: a
61ª DI, dispõe de 12 canhões de 25, em vez de 48; a 102ª DIF, numa frente
que atinge 45 km, deveria ter 72; faltam- lhe 29. É preciso fazer justiça a
Corap: ele reclamou. Por várias vezes assinalou a insuficiência e a
mediocridade de suas tropas. Queixas que quase lhe custaram o comando.
Esse general do Rif não parecia compreender que lhe fora confiada uma
frente passiva por destinação. Profundos cortes, falésias, florestas densas,
fracas redes de comunicações... Não é certamente impossível que o
inimigo tente alguma coisa naquele setor, especialmente em direção de
Dinant, onde ele passou em 1914, ou do lado de Mézières, ponto de
convergência de várias estradas. Mas toda a operação importante deve ser
precedida de uma concentração de meios, de uma acumulação de artilharia
que não poderão ser feitas em menos de 15 dias e passar despercebidas.
Com duas divisões reservadas e a cavalaria que ele iria recuperar, quando
tivesse cumprido sua missão retardadora, Corap tem como fazer frente a
um incidente local. O Comando fará o necessário, se, contra toda a
expectativa, uma ameaça séria se esboce nesse sentido.
Corap... Huntziger... o 3° Exército dá seqüência ao 9°. Sua frente começa
no canal das Ardenas e se estende até o Longuyon. Em Sedan, esboça uma
cabeça-de-ponte, “bem coberta - dizem os documentos do Estado- Maior -
pelo bosque de Marfée que a domina”.
Os tanques inimigos vindos da floresta de Sedan só podem descer para o
vale pelos caminhos expostos aos fogos das alturas da margem esquerda.
Casas fortes, blockhaus e casamatas asseguram a defesa próxima e o
flanco do rio. É bem verdade que uma missão parlamentar dirigida por um
chefe de seção da outra guerra, o tenente Pierre Taittinger, assinalou o
estado “rudimentar, para não dizer embrionário, das organizações
defensivas em torno de Sedan”, acrescentando que se conta talvez demais
com os obstáculos naturais que são as Ardenas e o Mosa. Mas o
comandante do 2° Exército determinou a seu estado-maior que preparasse
“um resposta de um modo ligeiramente irônico”. “Há - dizia Taittinger -
terras de infortúnio para nossas armas. Para conjurar as tristes lembranças
que a visita de Sedan faz reviver, impõem-se medidas urgentes”. “Penso -
respondeu Huntziger - que não há qualquer medida urgente a tomar para
reforçar o setor de Sedan. Não esperamos Monsieur Taittinger para
trabalhar”.
Huntziger está coberto: Gamelin inspecionou seu exército, e declarou-se
satisfeito. Huntziger está coberto também pela repartição que fez de seus
meios: o GQG a conhece a aprova. Sua instrução pessoal e secreta,
breviário dos comandantes de exército, prescreve-lhe como missão
principal assegurar a inviolabilidade e impedir o “envolvimento” da Linha
Maginot. Assim, ele pôs à sua ala direita, na cabeça-de-ponte de
Montmédy, o que tinha de mais sólido, suas 4 melhores divisões: a 4ª DI,
3ª DIC, 3ª DINA e, em segunda linha, 1ª DIC. Restam-lhe apenas duas
divisões, ambas da série B, 55ª e 71ª DI - duas divisões compostas de
velhos reservistas, cujo armamento é incompleto e cujo treinamento e
espírito são de má qualidade. Colocou- as à sua esquerda, à saída de
Sedan.
Chega-se ao cúmulo do absurdo. A Linha Maginot eclipsa a França. Já não
é uma fortificação que economiza os efetivos; é uma esponja que os
absorve. Tirou do Exército francês seus melhores elementos, para deles
fazer divisões paralíticas. E fez algo ainda pior: destruiu o sentido
estratégico e mesmo o simples bom censo. Deveria saltar aos olhos que a
coisa primordial é ligar solidamente os exércitos que vão marchar aos
exércitos que permanecem imóveis, a fim de que, justificado ou não, o
movimento na Bélgica tenha ao menos um sólido ponto de junção. Mas a
obsessão Maginot ofusca as inteligências. A atenção de Huntziger deveria
ter-se voltado para a esquerda, para a manobra difícil e decisiva cujo
flanco ele cobre. Mas ficou, ao contrário, concentrada na sua direita. Ele
desfalca seu exército em favor deste lado, põe mais concreto no setor
fortificado do Montmédy do que no setor não fortificado de Sedan, só
pensa em reforçar o que está forte. E em Georges nem Gamelin intervêm
para corrigir sua disposições! Nem Georges nem Gamelin parecem
lembrar-se de que eles próprios haviam dirigido, alguns meses antes da
guerra, um Kriegspiel estabelecendo que a Ardena não é intransponível
aos carros blindados e que 8 divisões inimigas podem atingir o Mosa em
três dias. Georges e Gamelin parecem crer que haverá duas batalhas
distintas, uma nas planícies belgas, outra na Linha Maginot e, que entre as
duas, uma zona neutralizada que algumas divisões medíocres e diluídas
bastam para guardar.
E o absurdo continua. Na Lorena e na Alsácia, atrás do escudo da Linha
Maginot, a densidade das tropas aumenta. De Longuyon até a Suiça
alinham-se quatro exércitos, (3°, 5° e 8°), 40 divisões, uma artilharia
formidável, centenas de carros. O Comando francês não ignora que tem à
sua frente somente uma vintena de divisões alemães, todas de segunda
ordem, sem um único carro blindado. Nem por isso deixa de conservar
uma superioridade numérica de dois e meio contra um - enquanto está
numa situação de inferioridade em todos os outros setores.
A chegada de Guderian diante de Sedan
O dia 12 de maio é um adorável domingo de Pentecostes. Na França e na
Alemanha, as cidades e as aldeias estão cheias de comungantes de vestido
de organdi. Na Holanda e na Bélgica, as tochas da guerra enegrecem o
céu.
Daí para a frente um ponto é alcançado: a quebra do bloqueio da Fortaleza
Holanda é impossível. Giraud, depois de sua arrancada fulminante, evita
aventurar o grosso de suas tropas ao norte do Escalda, contentando-se em
avançar para Breda a 1ª DLM e os grupos de reconhecimento de suas duas
divisões motorizadas. A aviação alemã deixou que as colunas francesas
subissem para o norte, sem intervir durante os dias 10 e 11; depois, entra
bruscamente em ação. Modificação à vista: na véspera, uma marcha
triunfal debaixo das flores; no dia seguinte, um ataque cerrado, caminhões
em chamas, riachos de sangue civil e militar nas estradas crivadas de
crateras. O 7° Exercito recebe na cabeça o batismo de fogo, mas a
inutilidade de seu destacamento avançado é por demais evidente: à noite, é
dada a ordem de atravessar de novo o Escalda.
No mesmo 12 de maio, realiza-se uma conferência anglo-franco-belga no
pequeno castelo de Casteau, perto de Mons. As imagens concretas da
guerra haviam escoltado os grandes chefes que seguiam para o encontro.
Tanto na Bélgica quanto na Holanda, a entrada da aviação alemã
transformara em tragédia a florida ascensão ao fogo da véspera. Aldeias
ardem, as estradas são metralhadas, pânicos causados pelo medo aos pára-
quedistas provocavam fuzilamentos cruéis. A França está representada por
um Daladier de botas e pelos generais Georges, Billotte e Champon; a
Inglaterra, por um delegado de Lorde Gort; e a Bélgica, pelo seu rei. As
recriminações já pairam. Os franceses não acharam a posição da Dyle
preparada como gostariam e não podem deixar de demonstrar uma
surpresa polida diante da rapidez com que os belgas abandonaram o canal
Alberto. Eles próprios, no entanto, estão impressionados com o poderio
aéreo alemão. No carro que o leva de volta a seu PC, Leopoldo diz a
Overstraeten: “A confiança no sucesso parece limitada...”O rei aceita,
todavia, a autoridade do General Billotte, encarregado de coordenar a ação
dos exércitos aliados na ala direita. A unidade de comando está
estabelecida; ela não resistirá aos reveses.
Marchando a toda velocidade, o corpo de cavalaria se coloca na frente de
Gembloux. A missão de suas duas DLM é de conter o inimigo durante
quatro dias. A tomada de contato é difícil, mas as primeiras informações
que chegam ao QG de La Ferté-sous-Jouarre são satisfatórias. A batalha
anuncia-se como o Comando
francês a vira: choque de vanguardas ao sul de Liege, que certamente será
seguido por uma estabilidade na posição Antuérpia-Namur. Somente o
ritmo está mais precipitado, mais brutal do que se havia imaginado.
Todos os pensamentos estão orientados em direção de Gembloux. Na
Lorena e no Reno, a calma nem sequer se rompeu. Nas Ardenas, as 5
divisões ligeiras de cavalaria conduzidas para a frente do 9° e do 2°
exércitos tinham sido violentamente impelidas para trás, e algumas
unidades blindadas alemães foram identificadas no corte do Semois. Mas
não se tiraram conclusões alarmantes deste fato. Huntziger está
firmemente estabelecido em suas posições preparadas de antemão e a ala
esquerda de Corap atingiu o Mosa em Givet e Namur. A convicção sobre a
qual o dispositivo francês se fundou continua completa: não é na região
difícil das Ardenas que o inimigo fará seu principal esforço.
Acima de Bouillon, no dia 12 à noite, aparece uma formação de aviões
aliados. Chovem bombas. As janelas do Hotel Panorama voam em
estilhaços. O hotel domina soberbamente o vale do Semois, encaixado
entre suas falésias tortuosas. Algumas gerações de caçadores o encheram
com troféus que foram arrancados pelo furioso deslocamento de ar
provocado pelas bombas. Os obuses explodem em cadeia e os ecos do
estreito vale amalgamam suas detonações num retumbante troar de
tambor.
O general que quase foi morto por um defunto javali é Guderian. Ele se
sacode e ri. Há uma meia hora chegou ao Hotel Panorama, onde seu chefe
de estado-maior, o coronel Nehring, instalou friamente o PC do corpo
blindado, sem se preocupar com a proximidade de uma ponte que atira
bombas. “Afinal, Nehring - diz Guderian - nós devíamos mudar-nos. Não
é o dia de nos fazermos matar...” Bouillon, última cidadezinha do território
belga, está somente a 5 km da fronteira francesa. Esta fora atravessada de
manhã, às 9:30h pelos elementos de frente da 1ª Divisão Panzer, carros
leves tendo como insígnia uma folha de carvalho. Logo em seguida
penetraram na floresta de Sedan. Agora, chegam ao famoso campo de
batalha pelo calvário de Illy, de onde, a 1° de setembro de 1870, o Rei
Guilherme da Prússia assistira às missão desesperada dos caçadores da
África de Gallifett. De suas posições da margem esquerda, a artilharia
francesa atira com precisão, mas Sedan, em chamas, não parece defendida.
Os alemães chegam, pois, ao Mosa, 60 horas depois de haverem
abandonado seus acantonamentos de Eifel.
Isso não foi fácil. Os belgas fizeram entrar em jogo destruições que
entravaram seriamente a progressão. A cavalaria francesa bateu-se com
vigor, embora, conformando-se à sua simples missão retardadora, não se
tenha em momento algum prendido ao terreno sem o espírito de recuar.
Essa tática teria complicado seriamente a situação, uma vez que, nesse
instante, somente uma das três divisões blindadas do 19° Corpo, a 1ª,
estava plenamente dentro do horário. A 10ª chegaria com dificuldade a
Bazeilles durante a noite. A 2ª, francamente em atraso, estava ainda no
Semois.
Um Fieseler-Storch coloca-se ao lado do novo PC na aldeia de
Noirefontaine. O comandante do grupamento blindado, o Coronel-General
Von Kleist, manda chamar, para as ordens do dia seguinte, o seu
subordinado Guderian. Meia hora depois, este o ouve, estupefato de ser
pela primeira vez ultrapassado em audácia. Às 16h do dia seguinte, 13 de
maio de 1940, ele atravessará o Mosa de ambos os lados de Sedan.
Estabelecerá uma cabeça-de-ponte, apoderando-se da cota 247, da aldeia
de Wadelincourt e do bosque de Marfée. Guderian brada que suas forças
não estão reunidas, que uma das suas divisões está na retaguarda, que seu
regimento de assalto Grossdeutschland ainda não passou por Bouillon.
Kleist nada pode fazer. A ordem não partiu dele. Não veio sequer do
comandante de grupo de exércitos Von Rundstedt, nem do comandante-
chefe Von Brauchitsch. Veio do supremo impaciente Adolf Hitler. Sua
batalha se desenrola a contento. As operações de detalhe que ele organizou
pessoalmente para a Holanda e a Bélgica tiveram sucesso admirável.
Além das vantagens propriamente militares, aqueles golpes brilhantes
realizaram um dos objetivos procurados pelo Fuhrer: atrair a atenção para
Liege e Roterdã, para desviá-la de Dinant e de Sedan. Ele ordena que isso
seja alardeado nos comunicados e, ao contrário, que se faça silêncio da
marcha dos blindados através da Ardena. É preciso que os franceses
continuem a concentrar suas tropas na Bélgica o que, aliás, eles fazem
como se também obedecessem as ordens de Hitler. “O inimigo - verificou
o Fuhrer - ainda não alcançou a idéia fundamental de nossas operações: a
penetração do Corpo de Exércitos A. Continua deslocando grandes
efetivos para a linha Antuérpia-Namur e negligencia o setor em frente do
Grupo A...”. No entanto, no dia 12 à noite, as condições razoáveis de uma
penetração de ambos os lados de Sedan não estão reunidas. Guderian pede
que se espere um pouco, mesmo que seja por algumas horas, para que lhe
seja possível reagrupar seu corpo de exército. Seus superiores imediatos
lhe dão razão, mas não podem assumir a responsabilidade de modificar o
horário de Hitler.
Depois do calor do dia, a noite de maio, de uma pureza de diamante,
parece glacial. O pequeno aparelho que conduz Guderian de volta ao seu
PC perde-se por um momento acima das linhas francesas. A artilharia
continua a atirar. Todos os balanços do dia tinha frisado a sua precisão e
eficiência. Forçar uma posição como a de Sedan contra canhões tão hábeis
exige que estes sejam vigorosamente rebatidos. Não será a artilharia de
que disporá Guderian no dia seguinte às 16h que lho permitirá.
Uma só coisa o tranqüiliza um pouco: o comandante da 3ª Frota Aérea,
Sperrle, assistiu à sua entrevista com Kleist, e prometeu-lhe o maior apoio
que um exército já recebeu.
A Aviação Conquista, a Infantaria Ocupa
A promessa de Sperrle começa a realizar-se às 11 horas. Um pouco antes,
o General Grandsard, comandante do 10° Corpo, dizia ao General-de-
Divisão Lafontaine, que comandava a 55ª DI: “Não me canso de repetir-
lhe, Lafontaine, que os alemães precisarão de semanas, senão de meses,
para organizar um ataque. Continuamos na fase de contato antes do inicio
do combate. Pode ficar tranqüilo pelo menos por oito dias”.
De fato, nada pode justificar o pessimismo de um guerreiro da velha
escola. É um pouco desconcertante, que os alemães tenha atingido o Mosa
tão rapidamente, mas a doutrina francesa ensina que só se luta de verdade
numa única posição, chamada posição principal de resistência, e tudo
aquilo que se passou nos postos de vanguarda durante os três últimos dias
não foi mais do que hors-d’oeuvre. Os alemães chegaram com tanques,
mas os tanques não nadam e, depois das pontes de Bouillonnais, de Fabert,
de Torcy, da Praça Turenne, da Estação, a última ponte do Mosa, a da
Represa, explodiu como previsto, na véspera, às 21h. Aliás a marcha
rápida do inimigo alertou o Comando, que deu ordens para concentrar na
direção de Sedan as unidades de reserva geral. O 10° Corpo já recebera o
314° e o 369° regimentos de artilharia. Duzentas bocas de canhão, cujos
calibres vão do 75 ao 155 longo, guarnecem as partes altas a oeste de
Sedan. É bem verdade que uma certa desordem reina na zona do corpo do
exército. Para reforçar a defesa, o Comando toma a decisão de fazer
imediatamente formar a 71ª DI, em vez de conservá-la como reserva. Ela
veio de muito longe, sua instalação foi trabalhosa e a confusão propagou-
se nas divisões vizinhas, que tiveram que estreitar seu dispositivo para lhe
abrir passagem. O movimento não terminará antes da noite de 14 para 15,
mas terá como benefício a redução da frente que afeta à 55ª DI. Quanto a
esta, ela é o que é, com suas fraquezas evidentes das grandes unidades da
série B, mas urge que se bata tal qual é, e é uma vantagem receber o
choque num terreno que vem sendo organizado há meses. O PC de
combate da divisão se encontra em Font- Dagot, na estrada de Bulson a
Maisoncelles, a 10 km das primeiras linhas. Seu chefe, o General-de-
Brigada Henri Jean Lafontaine, é um velho gaulês de densos bigodes,
relativamente jovem para os eu posto: 58 anos. Contrariamente a
Grandsard, ele acredita que os alemães não perderão tempo em atacar.
Lafontaine conhece o General Musse, antigo adido militar em Varsóvia,
que lhe contara a campanha na Polônia, e avalia que o Mosa não é
obstáculo para um exército que atravessou brincando o Bug e o Vístula.
Ele dissera isso a Huntziger, ao assumir o comando de sua divisão. Mas
Huntziger dera de ombros. A Polônia é a Polônia. Aqui, estamos na
França, general!...
Reforçada com um batalhão de metralhadoras e com elementos de
infantaria de fortaleza, porém amputada de uns e seus regimentos, o 213°,
que ficara de reserva de corpo de exército, a 55ª DI guarda o Mosa desde o
canal das Ardenas até Pont-Maugis. À sua esquerda começa o 9° Exército,
do General Corap, e, à direita, a 71ª DI, comandada pelo General Baudet.
O rio corre num fundo de vale bastante largo, fluindo rente às alturas de
sua margem esquerda, sobre as quais a 55ª DI se entrincheirou. De seus
observatórios, ela vê a floresta ardendense, de onde o inimigo desce, pelas
estradas tortuosas, por Saint-Menges e Givonne. Mais próximo, ela vê as
grandes planícies pantanosas que circundam Bazeilles e Donchery, assim
como a longa península de Iges, desenhada pelo Mosa depois que
atravessa Sedan. Vê a cidade em chamas, abandonada sem combate. Com
mais razão fora abandonada a península de Iges, indefensável por causa de
seu contorno, transferindo-se a posição de resistência para o canal, de
1.500 m de comprimento, que a corta em sua base. Fora esta exceção, a
instrução é defender o próprio curso do Mosa, aplicando a este uma
barragem de fogo contínuo. Mais de 50 blocos de concreto, armados com
metralhadora, com um canhão de 25 ou com um de 47, se haviam
estabelecido de tal forma que nem uma polegada de superfície da água não
fosse batida.
Em linhas gerais, o setor desenha um arco. O pequeno maciço do bosque
da Marfée forma a corda, entre o Mosa e o Bar. Seu acesso era difícil e sua
vertente norte fornece belos campos de tiro no meandro de Sedan. A linha
de limite está fixada ali. Alguns lamentam que aí não se houvesse
colocado a posição principal de resistência, abandonando o meandro, mais
dificilmente defensável ainda do que a cidade a que se renunciara. Mas a
doutrina exige que a defesa se fixe às linhas de água, valas antitanques do
Bom Deus.
Este é o campo de batalha da desventurada 55ª DI (série B). Dir-se-ia que
a aviação alemã a escolhera entre todas as divisões do Exército francês,
para cortá-la inteiramente naquela tarde de 13 de maio. A preparação aérea
prometida por Sperrle cobre exatamente seu setor. Esmaga as localidades
das primeiras linhas, Hannogne, Villiers-sur-Bar, Croix-Piot, Frenois,
Claire-et-Villette, o subúrbio de Torcy, Wadelincourt, Pont- Maugis,
Noyers-Pont-Maugis... Destroi as retaguardas, as encruzilhadas, as
posições de artilharia, as aldeias de Bolson, de Stonne, de Raucourt-et-
Flaba... Ataca as casamatas, dentre as quais umas foram desventradas por
bombas de mergulho e outras ficaram cegas pelos géiseres de terra que
obstruem as aberturas. As formações inimigas trabalham metodicamente,
em grupos de uma trintena de aparelhos, descrevendo uma grande roda de
onde jorram verticalmente as flechas uivantes dos Stukas. Até os alemães,
concentrando-se em direção ao Mosa, sob o vento de suas próprias
bombas, ficam impressionados, quase compadecidos. “O efeito moral -
anota o comandante Von Kielmansegg no seu caderno de comando - deve
ser apavorante. A artilharia francesa calou-se...”E a aviação francesa? Nos
dias 10 e 11 de maio, sua caça tinha conseguido algum êxito. Manifestou-
se ainda, abateu três aviões acima do Mosa, na manhã do dia 13. Última
oportunidade deixada ao artesanato contra a grande indústria. Quando uma
patrulha tripla do grupo Murtin reaparece algumas horas depois, encontra
diante de si 80 Messerschmitt escoltando 50 bombardeiros. A patrulha
perde um aparelho, e abate dois. A intervenção da aviação francesa está
terminada neste dia.
Entrementes, os atacantes se amontoam. As estradas das Ardenas
despejam ondas de homens e de máquinas em direção à bacia de Sedan.
Reina um calor ardente, uma poeira causticante, uma sede abrasadora.
Ataque geral às 16 horas. Ordem do Fuhrer - mas é preciso rastejar
depressa para se conformar com aquela precipitação impiedosa. O
regimento Grossdeutschland, que devia desempenhar o principal papel no
ataque, está ainda, no início da manhã, em território belga, a 40 km de seu
local de assalto. Seus caminhões o deixam na fronteira da floresta de
Sedan, de onde lhes restam 7 km a fazer a pé, transportando balsas
pneumáticas e enorme aparato. Conduz a companhia da testa o primeiro-
tenente Von Courbiere, que estaria ao lado dos franceses se Luís XIV não
houvesse revogado o edito de Nantes. Marcha inaudita, de fazer correr
suor - mas a artilharia francesa que, antes, matraqueava as colinas
expostas, já não atira. Floing está em chamas e é preciso atravessá-lo
debaixo das línguas de incêndio... Finalmente o Mosa está lá, correndo
negro sob os muros de uma fábrica de tecidos em ruínas. São 15 horas.
Resta uma hora para preparar uma das operações mais difíceis da arte
militar: a travessia de um rio em face de um inimigo entrincheirado.
“Nós, os velhos de 14-18 - diz o capitão Lothar Gittermann - sabemos de
que o espírito de sacrifício e de que a habilidade tática o Exército francês é
capaz. Só em parte estamos tranqüilos. Mas nossos jovens oficiais e
soldados têm uma confiança cega na sua superioridade”.
O que eles vêem pode assegura-lhes essa convicção orgulhosa. Guderian,
tendo poucos recursos concentra- os ao máximo. Sobre uma extensão de 2
km, desde as fronteiras de Sedan até a península de Iges, comprimiu tudo
o que atira contra a 1ª Divisão Panzer: a artilharia dos tanques, a artilharia
motorizada, a FLAK, ou artilharia de defesa contra avião, a PAK, ou
artilharia de defesa contra máquinas blindadas. As disposições tomadas ao
sul de Sedan, diante de Bazeilles, pela 10ª Panzer, são as mesmas. O que
importa é atirar. A tempestade aérea, o mergulho ressoante dos Stukas, que
parecem visar cada homem individualmente, haviam atacado duramente
os defensores. Acontece que estes não encontravam o reflexo dos
combatentes da primeira guerra, que reerguiam a cabeça depois das mais
violentas borrascas de artilharia e reencontravam armas para quebrar o
assalto...
Dizia-se em 1916: a artilharia conquista, a infantaria ocupa. Agora, cabe
ao avião conquistar.
O resto é quase detalhe. O ataque impossível parte na hora. A travessia do
Mosa dura alguns instantes. Nem todos os defensores estão paralisados.
Alguns resistem energicamente em Frenois. Perto do Castelo Belleuve,
uma casamata bem comandada detém os assaltantes. Estes se infiltram e
envolvem a resistência, e uma peça de 88 triunfa. Às 19h, o sol ainda está
no céu. Sem que um só blindado houvesse atravessado o Mosa, o
Regimento Grossdeutschland atinge a cota 247, seu objetivo do dia.
Ultrapassa-o e, infatigável, infiltra-se no bosque de Marfée.
Diante da 10ª Panzer, ao sul de Sedan, a resistência é a princípio um pouco
mais firme. Só depois das 5 horas, 40 minutos após os soldados de elite do
Grossdeutschland, é que o tenente Hanbauer e o sargento Ruberth, do 86°
Regimento de Fuzileiros, chegaram à margem esquerda. De um
observatório do 10° CE, os homens que os seguem são contados: 40. Pelo
milagre de uma linha telefônica poupada, a informação sobe até os
escalões superiores: 40 alemães haviam conseguido cruzar o Mosa em
Wadelincourt...
Do lado alemão, o General Guderian atira-se a uma das primeiras balsas
pneumáticas. Atinge a margem esquerda, onde o tenente-coronel Balck o
acolhe gritando: “A navegação de recreio está proibida no Mosa...” Do
lado francês, o General Huntziger transporta-se de seu PC de Senuc, a 50
km da frente, para o PC do 10° CE, na Berliére, distante 25 km; depois,
volta a Senuc, onde está de retorno às 19 horas, para se fazer servir por
ordenanças de luvas brancas... Um abismo separa os dois conceitos de
comando. Para os alemães, cuja doutrina de guerra foi refeita sob a
influência de Hitler, o chefe deve estar nos postos avançados; num avião,
quando é preciso observar; num caminhão de rádio, quando precisa dar
ordens; intervindo pessoalmente no combate, quando vê necessidade
disso. No conceito francês, herdado de 14-18, o chefe dirige a distância
uma guerra quase abstrata, com o recuo de tempo e de espírito para que
suas decisões não fiquem sujeitas à emoção do combate. Em Senuc, a
única informação chegada à noite - “40 alemães atravessaram o Mosa” -
parece pintar um incidente local. “isso vai nos dar 40 prisioneiros” - diz-se
a Huntziger.
De Uma Surpresa, Um Pânico Faz Um Desastre
Na mesma ocasião, toda a ala esquerda do 2° Exército desmorona. A
travessia do Mosa poderia não ter passado de um incidente local, como
todos os exércitos conhecem em todas as guerras. Mas um pânico, nascido
de um longo abatimento moral, irá fazer dela um desastre irremediável, o
começo da ruína de uma nação.
Tanto quanto nos é possível julgar, é de Bulson que parte este vento de
derrota. Bulson, medíocre e pequena aldeia, no bosque da Merfée. Uma
centena de habitantes, uma igreja sem padre, uma dezena de fazendas
ardenenses de pórticos arredondados e de montões de estrume
transbordando nos caminhos. Durante nove meses de espera, os artilheiros
se haviam instalado nos celeiros. A região estava lamacenta e sombria, o
clima úmido e frio. Malsão para os homens e ainda mais para os cavalos
que morriam em massa sem que se soubesse bem por quê. O tédio e a
preguiça roíam uma tropa na qual os oficiais não tinham mais o gosto de
comandar, nem os homens o hábito de obedecer. As peças, alguns 105
longos, tinham suas instalações na proximidade do acantonamento e suas
bocas apontadas para as clareiras da floresta de Sedan. Mas há muito
tempo que aqueles que serviam nesse grupo de artilharia pesada de corpo
de exército haviam deixado de acreditar que atirariam algum dia um obus
contra o inimigo.
Essa inverosimilhança produz-se no dia 12 de maio. Os artilheiros a
acolhem quase como uma diversão para sua existência monótona. O moral
está bom e continua assim durante a manhã do dia 13 - até o momento em
que os Stukas se põem a mergulhar sobre as baterias. As perdas são
insignificantes, nenhum canhão é posto fora de serviço, mas os soldados
abandonam as armas e dispersam-se nos bosques. É o momento em que os
alemães fazem pressão em direção ao Mosa; momento em que, de seu PC,
o General Lafontaine vê uma multidão de tanques atravessar a larga colina
que precede o rio. Alvo sonhado! Mas a artilharia francesa já não tem
braços para servi-la.
No entanto, a tempestade aérea decresce. Algumas baterias se recuperam.
Cinco tanques alemães, que se deixam ver nos limites da Balan, são
destruídos pelo 155 curto.
Talvez baste pouca coisa para que os homens dispersos e amedrontados
voltem para perto de seus canhões, sintam a embriaguez do combate,
reencontrem na oficina que é uma peça de fogo a consciência profissional
que está na base da bravura legendária dos artilheiros. Afinal de contas,
foram alguns elementos de infantaria que atravessaram o Mosa, e nada
mais. Nenhum tanque passou e nenhum tanque passará antes do dia
seguinte. Se a artilharia se refizer, o punhado de infantes perdidos, atirados
de um lado ao outro do rio, poderia ser interceptado e capturado.
Mas a artilharia não se refaz; foge! Enche a estrada de Bulson a
Maisoncelles e a estrada de Bulson a Chemery. Artilheiros dos regimentos
45, 99, 110, 145, 310, arrastando consigo os soldados das retaguardas,
soldados rasos, enfermeiros, telefonistas. Lá embaixo, no vale, ainda sem
luta.
Algumas casamatas resistem, alguns oficiais se defendem em seu PC, mas
o pânico se propaga como fogo em capim, no meio de homens que nem
sequer viram uma silhueta inimiga. “Os tanques alemães em Bulson”-
grito tolo que, no entanto, ganha os estados-maiores, cujas últimas
comunicações intactas servem para propagá-lo. Alguns postos de comando
se mudam precipitadamente. Regimentos que não foram atingidos por uma
bomba sequer, como os da 71ª DI, abandonam suas posições e retiram-se
em desordem. Oficiais experimentados da última guerra, coronéis - um
deles iria suicidar-se de vergonha - assumem o
comando desse “salve-se quem puder”. Unidades disciplinadas, como a
artilharia da 5ª DLC, seguem a onda, levando o seu material, convencidos
de que obedecem a uma ordem de retirada. O fim do dia é de uma
serenidade mágica. Os Stukas desapareceram. O ruído do combate, nas
encostas do bosque da Marfée, mal é ouvido. O Exército francês está
intacto, com centenas de batalhões, milhares de canhões e de tanques, uma
tradição de glória que atravessa os séculos e faz bater o coração de um
povo orgulhoso. Que importa! O Exército francês está batido. Todos os
esforços que ele fará daí por diante, durante seis semanas, não serão mais
que gestos convulsivos. Um único elo se soltou e toda a cadeia se desfaz.
Na derrocada, algumas energias sobrenadam. Ao primeiro boato de
pânico, um homem fora de si, o coronel da gendarmaria Serin, precipita-se
pelas estradas. Ele mede o perigo. Durante a última guerra, havia, no
limite da retaguarda, barreiras de gendarmes, piquetes de cavalaria, que
teriam detido aquela turba de fugitivos e que, à sombra do conselho de
guerra, a teriam trazido de volta à luta. Os tempos mudaram. O espectro
do conselho de guerra se dissipou, embora a necessidade nunca haja sido
maior nem o perigo mais iminente.
Com a motorização do Exército, a estrada torna-se um instrumento militar
primordial. Deveria ser requisitada, cercada, guardada, reservada à
circulação militar, mantida aberta por todos os meios, inclusive, em caso
de necessidade, pelo terror e pela crueldade. Ora, desde o dia 10 de maio,
essa estrada da salvação pública está entregue à fuga civil, às longas
carroças ardenenses puxadas por enormes cavalos de patas cobertas de
pêlos, às vagas de automóveis estofados com colchões, aos carrinhos de
bebê e aos carrinhos de mãos carregados de roupa velha e por vezes de
pessoas idosas, e até mesmo de rebanhos que os camponeses inconscientes
pretendem levar consigo em seu auxílio. Quando o pânico militar,
desencadeado de Sedan, se atirar nessa torrente civil, aí então qualquer
movimento de tropa, qualquer chegada de reforço se tornará impossível. O
Comando pode ser paralisado, o Exército vencido, a França destruída,
porque o sistema arterial das estradas se encontrará obstruído por um
coágulo humano.
Serin e seu punhado de gendarmes nada podem fazer. O pânico virou
avalanche. Nutre-se a si mesmo. Os homens e as formações fogem nem
sequer ouvem, ao longe, o rumor de uma batalha. O 13 de maio é para eles
um dia como qualquer outro, ligeiramente modificado no seu ritmo por
aquela ofensiva alemã na qual ainda não se acredita muito...
Mais tarde, de uma só vez, um imenso clamor de desastre enche a planície,
adiantando-se ao desfalecimento secreto e vergonhoso que enche os
corações desde o início de uma guerra cuja necessidade a nação não sente.
O que se passou em Sedan todo mundo ignora. Mas todo mundo sabe que
a França foi atacada pelas costas, que foi traída, que está perdida!
Rommel em Dinant
Um homem foi mais rápido que Guderian: Rommel. Desde as 16h, no dia
12, os veículos da frente de sua 7ª DP haviam atingido o Mosa em Dinant.
Abrigada numa abertura das falésias da margem direita, a pequena cidade
foi tomada sem combate. A ponte, conquistada quase intacta, explodiu
diante dos primeiros blindados.
A 5 km a jusante de Dinant, no leito do Mosa, uma faixa de terra
arborizada - 1.100 m de comprimento por 50 m de largura - a ilha de
Houx, aproxima-se da margem esquerda. Desse lado, as falésias se
afastam, desenhando uma bacia ocupada em parte pela grande localidade
de Anhée. A margem oriental, ao contrário, precipita-se em declives
abruptos, escarpas cobertas de capim e rochedos a pique. A represa n° 5
barra o rio. Não a fazem explodir, a fim de não diminuir, com uma baixa
das águas, o valor defensivo do Mosa a montante. Mas tampouco foi
fortificada. Deixou-se mesmo de destruir o passadiço que o atravessa.
Algumas grades Cointet batidas por um FM foram dispostas para impedir
o acesso à passagem.
Em frente da 7ª Panzer, chega a ala esquerda do exército de Corap: 5ª DIM
e 18ª DI. A primeira, motorizada, está mais ou menos colocada ao sul de
Namur. A segunda, de infantes, geme pelos caminhos. Os homens,
Angevisn, Tourangeaux, Berrichon, estão longe de ser maus soldados.
Desprovidos de entusiasmo por essa guerra incompreensível, são
descritos, no entanto, por um relatório oficial, como “polidos e
disciplinados”. Mas a abominável mochila, de que todos os motores do
século XX não conseguiram livrar a infantaria, os estafa, esmaga, sufoca.
Tendo partido da região de Hirson, eles percorrem 100 km para alcançar
os seus locais de combate - isto é, tanto quanto Rommel, que não tinha um
só infante em sua divisão. Além disso, Rommel entrou na Bélgica ao
amanhecer. A 18ª DI, cujas unidades blindadas tinham sido dispersadas
por
necessidade de instrução, só começou a atravessar a fronteira ao fim da
tarde. Vinte por cento dos homens faltam nas fileiras, pois a cadência das
licenças foi acelerada para compensar o atraso corrido durante os falsos
alarmes do inverno. O próprio general, chamado Duffet, está em casa, em
Besançon. Ele se reunirá à tropa no dia seguinte.
Na verdade, o contraste é trágico. O Exército francês marcha para um
combate a respeito do qual tudo o que se sabe do inimigo promete que será
rápido e brutal. No GQG, o chefe do Estado-Maior, Doumenc, é o oficial
que, durante a guerra precedente, improvisou o abastecimento de Verdun
com os caminhões da Via Sacra. No entanto, não parece que, durante o
longo inverno, isso se houvesse refletido sobre os meios pelos quais se
poderia dar a essa temerária expedição da Bélgica uma rapidez menos
desproporcional à sua época. “A 18ª DI fará seu deslocamento por via
terrestre...” Fórmula de Estado-maior. O que queria dizer que, marchando
sobre as bolhas dos pés, a razão de 30 a 40 km por dia, ela precisará de
três dias para alcançar seu campo de honra.
A aviação entra em jogo. Abalou pouco as colunas, mas destruiu a estação
de abastecimento de Hirson. As munições não mais chegarão. Os trens de
víveres voltavam vazios, obrigando a tropa a mendigar ou a pilhar para
comer. Descobre-se bruscamente que já não se concebe uma marcha em
campo raso sem cobertura aérea e uma DCA apropriada. Descobre-se isso
no momento em que se acaba de lançar numa guerra de movimento um
exército organizado para a guerra estacionária - no momento em que é
tarde demais.
Como no 2° Exército, duas divisões ligeiras de cavalaria, unidades
complexas e frágeis, tinham sido deslocadas para frente para disputar ao
inimigo o tempo necessário para a instalação da infantaria no Mosa. Atrás
delas, dois batalhões, um do 66°, outro do 77° RI, tinham sido
transportados em caminhões, para estabelecer um escalão de cobertura. O
General Duffet chega atrás deles e convence-se da extrema dificuldade de
sua missão. Se ele se instalasse a meia colina, o fundo muito encaixado do
vale escaparia às vistas de seus observatórios e o tiro tenso de suas armas
automáticas não lhes permitiria bater o plano da água. Foi-lhe, portanto,
necessário descer até às margens, isto é, aceitar ser dominado pelo
inimigo. Na realidade, para conservar o setor, para atacar os
deslocamentos da margem direita e, ao mesmo tempo, para engastar com
uma faixa de fogo contínuo os inúmeros meandros, seriam precisos meios
muito mais consideráveis do que os de uma simples divisão de infantaria.
No mapa, o barranco do Mosa parecia uma posição defensiva formidável.
No local, as coisas mudam de aspecto. Aquelas florestas profundas e
aquelas escarpas favorecem mais ao atacante do que ao defensor.
Além disso, o inimigo está ali! Chega adiantado quatro dias em relação ao
calendário francês. O comandante da 18ª DI acredita que terá tempo de
fazer repousar a sua gente e estabelecer seus planos de fogo. Entendera- se
que as destruições belgas, o combate em retirada dos caçadores
ardenenses, a ação retardadora das 1ª e 4ª divisões ligeiras de cavalaria
proporcionariam o atraso.
Subentendera-se, principalmente, que a ação inimiga seria pouco incisiva
naquela região difícil, naquela região não estratégica. Mas as destruições
belgas não foram efetivas, os caçadores ardenenses estavam em outros
locais, e as divisões leves se retiraram precipitadamente. Com seus dois
batalhões incompletos, o pobre General Duffet vê-se na necessidade de
manter 20 km de frente, até o momento em que seus 7 outros batalhões,
extenuados, atinjam por sua vez o Mosa. Duffet pede auxílio. Consegue.
Em vez de ir recompor- se na retaguarda, a 1ª DLC, atravessando o Mosa,
cooperará com a defesa do setor. A 5ª DIM emprestará um batalhão à sua
vizinha. Na noite do dia 12, atrás das pontes destruídas, um arremedo de
organização se esboça no papel. Ao sul, em ligação com a 22ª DI, alguns
esquadrões de dragões e caçadores. No centro, em frente a Dinant, os dois
batalhões do 77° e do 66°. Ao norte, o batalhão cedido pela 5ª DIM, o 2°
do 39° RI. Em seu PC de Falaem, a 15 km das linhas, o General-de-
Divisão Duffet pode adormecer dizendo para si mesmo que providenciou
o mais urgente.
Quanto a Rommel, fechou os olhos aos postos avançados. Às 4h da
manhã, no dia 13 de maio, desce à pé um atalho escarpado e, com um
núcleo oficial, atocaia-se num pequeno bosque, para assistir aos esforços
dos fuzileiros do 7° Regimento tentando atravessar o Mosa em balsas
pneumáticas. O fogo francês está bem ajustado. Algumas balsas
naufragam. Um ferido alemão pedindo socorro passa dentro do rio e
afoga-se sob as vistas de seu general. Rommel dá ordem de incendiar
algumas casas, para tentar erguer uma cortina de fumaça e, depois,
subindo num Pz Kw 4, circula pela margem, para apressar o ataque. Em
Leffe, atulhada de feridos, uma companhia conseguiu manter-se na
margem esquerda, mas está pregada ao chão, com pesadas baixas. O dia
começaria bastante mal se não existisse a ilha de Houx. Mas existe a ilha
de Houx. A posição francesa já não está mais estanque; o dique faz água e
a infiltração cresce.
O que se passou foi simples: a barragem n° 5 não estava guardada e o
batalhão do 39° RI não ocupara suas posições de combate. Ninguém
percebera aquela brecha, exceto o 7° batalhão alemão de motociclistas.
Desde o cair da noite, seus homens começaram, um a um, a atravessar o
Mosa, por cima da crista da barragem. Alguém deve ter percebido isso (os
relatos são muito confusos), uma vez que um tiro de alto foi pedido e a
artilharia gastou 1.200 obuses no sul da ilha. Os atacantes não pareceram
emocionar-se com o fato. Ao amanhecer, subiram as encostas arborizadas
da bacia, dispersaram algumas seções isoladas, tomaram a aldeia de
Grange, penetraram no bosque de Surinvaux. Estávamos longe de uma
reedição da caldeira de Sedan: a ação aérea era fraca e os motociclistas
eram poucos. No entanto, a resistência que lhes opôs foi quase nula.
Reforçados por alguns grupos de fuzileiros, eles ganharam terreno em
direção ao oeste.
Para limpar a margem esquerda, o General Duffet ordena três ataques, um
depois do outro. Os elementos dos dois primeiros não chegam a se
agrupar. O terceiro parte muito tarde, às 20 horas. Fortalecido por um
batalhão do 39° RI, precedido de uma companhia de tanques, apoiado por
três grupos de artilharia, ele deverá ser decisivo contra um adversário que
ainda não tem blindados nem peças antitanques. Rommel, que, por sua
vez, passou a barragem de Houx, está lá no meio de seus atiradores.
Manda aplicar sobre os tanques um fogo de artifício de todas as suas
peças, inclusive seus foguetes de sinalização. Os tanques continuam a
avançar, atingem o Mosa, mas por uma razão inexplicável os soldados não
os seguem. Os tanques retrocedem. O contra-ataque fracassa. A cabeça-
de-ponte de Houx permanece com o inimigo.
Simultaneamente, a terceira cabeça-de-ponte foi feita em Monthermé,
entre Givet e Mézières, pela 6ª DP, do Corpo Reinhardt. Em nenhuma
parte o Mosa é mais selvagem, o vale mais encaixado, os bosques mais
densos. Os motociclistas alemães seguidos de alguns carros com
metralhadoras, chegam pela grande estrada de Givet. Sofrem fogos de
artilharia longínquos ao atravessar a clareira das Hautes-Buttes, e depois,
descendo o vale, ocupam a pequena cidade industrial de Monthermé. Do
outro lado do rio, um escudo de 7 km de contorno está ocupado por uma
única companhia, meio malgaxe, meio francesa, da 42ª Semibrigada de
Metralhadores Coloniais. Violento bombardeamento aéreo a neutraliza.
Ao atravessar o rio sobre a ponte mal destruída, os soldados alemães
apoderam-se do escudo cujos defensores haviam aniquilado.
... Até chegarem aos QGs serenos e longínquos, as notícias desastrosas do
dia atenuam-se. Em Vervins, no comando de Corap, há indignação porque
o contra-ataque de Houx não foi executado. Em Senuc, na chefia de
Huntziger, não há “exagerada inquietação”. Em Ferté, no comando de
Georges, é preciso esperar até 23:45h para se ter confirmação “de um
acidente bastante sério do lado de Sedan”. A informação é transmitida de
Vincennes, PC de Gamelin, nesta forma ingênua, com um acréscimo
lenitivo: “Aqui, estamos calmos...”. Há um pouco menos de tranqüilidade,
um momento mais tarde, quando parece que algumas tropas debandaram e
que a posição de defesa foi rompida em alguns pontos. Georges, para
aliviar a tarefa de Billotte, decide por Huntziger sob seu comando direto.
A inquietação que ele manifesta não é pelo 1° Grupo de Exércitos, que vê
surgir uma ameaça a suas comunicações; é pela querida Linha Maginot.
Ordena a Huntziger que impeça, a qualquer preço, a sua tomada pela
retaguarda, o “enrolamento”, constituindo um gancho defensivo e detendo
o inimigo, custe o que custar, na correia Inor-Montmédy. “A sorte da
guerra - diz ele - depende disso”.
Obsessão de um perigo inexistente. O “enrolamento” viria certamente,
porém num outro momento e de outra maneira. No momento, a Linha
Maginot interessa tão pouco ao Comando alemão quanto Ruanda-Urundi.
A única ação possível do comandante-chefe reside na manobra das
reservas. Estas são fracas, pois o movimento para a Dyle absorveu o 7°
Exército e a maioria das divisões rápidas. Restam à disposição de Georges
17 divisões de infantaria e as 3 divisões couraçadas. É com tais recursos
insuficientes que ele tem que tentar uma reparação contra uma tripla
surpresa, tática, técnica e estratégica. Nenhum general poderia consegui-
lo.
Falta, pelo menos, que as medidas tomadas na noite de 13 para 14 sejam
adaptadas à natureza do perigo. O incidente de Sedan afigura-se grave e a
ameaça que parece provocar na Linha Maginot causa viva emoção. Em
compensação, a fragilidade do 9° Exército e o poderio das forças que se
concentram contra ela ainda não causam alarme sério. Em conseqüência, é
para Huntziger que se dirigem todas as grandes unidades - 21ª CE, 6ª DI,
3ª DIM, 3ª DCR - acionadas pelo Alto-Comando. Corap, observa-se só foi
fracamente atacado e ainda possui em reserva duas divisões, a 53ª DI e a
4ª DINA, uma das melhores do Exército francês. “Não estou inquieto pelo
senhor - diz-lhe Billotte -, estou inquieto por Huntziger...”.
O núcleo de aço das reservas gerais foi constituído pelas três divisões
couraçadas, cuja razão de ser, segundo a doutrina francesa, é o
restabelecimento da continuidade das frentes. As duas primeiras já estão à
disposição do 1° Exército, a fim de assegurar a impenetrabilidade da
brecha de Gembloux, Uma, a 1ª DCR, em marcha desde a véspera, atinge
sua zona de reunião, a região de Charleroi. A outra, a 2ª DCR, começa a
deslocar-se na região de Châlons. Mas os singulares princípios de
transporte em vigor a dissociam antes que ela se ponha em movimento. Os
veículos sobre esteiras locomovem-se por via férrea. As viaturas de rodas -
inclusive os caminhões-cisterna - deslocam-se por estrada de rodagem.
Quem imaginou essa dualidade revive 14-18, época em que a aviação de
bombardeio estava embrionária e em que as frentes contínuas e a lentidão
das ofensivas garantiam a segurança das retaguardas. Enquanto que em
1940 cada linha de vagões lançada numa via férrea, cada comboio posto
numa estrada é um desafio para a Luftwaffe...
No dia 13 à noite, nada ainda mudou quanto à afetação das 1ª e 2ª DCR. a
3ª, que não tem 50 dias de existência, recebe ordem de contra-atacar para
fechar a brecha de Sedan.
Estão completas, preparadas, essas grandes unidades blindadas criadas tão
dolorosamente e tão recentemente? Cada uma compreende dois batalhões
de B. 1 e B. 1 bis (66 tanques) e dois batalhões de H 39 (120 tanques).
Não é exato dizer-se que elas só se eqüivalem a um terço de uma Panzer,
cujo, efetivo em tanques, geralmente mais leves, vão de 324 a 218. Por
outro lado, é verdade que muitos H 39 só tem canhões da última guerra,
sendo que as armas de grande poder de perfuração que devem permitir-
lhes lutar tanque contra tanque não foram entregues pela indústria. É
verdade que os aparelhos de transmissão estão defeituosos e que a
estúpida proibição de comunicar-se por fonia torna o rádio quase
inutilizável. É verdade que a DCA é insuficiente, e o sistema de
reabastecimento, execrável. É verdade que nenhuma cooperação foi
organizada entre as DCR e a aviação. É verdade que elas estão servilmente
subordinadas a chefes que não têm a menor idéia da batalha dos blindados
e que seus próprios generais, Bruneau, Bruché, Brocard, não têm a visão, a
experiência, o ardor, a sã disciplina de um Rommel ou de um Guderian.
Quando Estienne, Hering e De Gaulle reclamam um corpo couraçado,
entendem por isso uma força autônoma de ação maciça, com velocidade
própria, sob um comando particular. As DCR francesas não tem tais
características. Depois do erro que se cometeu repelindo essa
reivindicação, comete-se provavelmente um segundo erro, criando esse
corpo couraçado tão tarde e tão mal. Seus batalhões de tanques não teriam
pior rendimento permanecendo no quadro da infantaria, como em 1918.
... Transcorre a noite de 13 para 14 de maio. Do lado alemão longas
colunas motorizadas atravessam a Ardena, com todos os faróis acesos. À
margem do Mosa, os infatigáveis generais Guderian, Rommel, Stever,
Schaal, supervisionam pessoalmente a construção das pontes que, ao
amanhecer, colocarão seus tanques na outra margem. No campo francês, o
medo e a confusão começam a fazer estragos. Na Bélgica, a 4ª DINA,
subindo para a batalha, realiza uma marcha forçada em meio a uma
multidão de fugitivos. Em direção a Reims, o pânico de Sedan corre como
uma torrente dentro da noite. As equipagens da 3ª DCR, constituídas por
soldados a toda prova, abrem caminho com grande esforço. Na Ponte
Montgon, no canal das Ardenas, a polícia militar da divisão organiza de
revólver em punho, uma barreira para deter os soldados debandados.
Abre-a diante de uma formação de artilharia que avança em boa ordem, os
oficiais à frente, e verifica que os cavalos não puxam canhões e que os
tirantes dos jogos dianteiros foram cortados... Durante muito tempo a
França terá vergonha daquela noite.
No escalão do GQG, a síntese do dia 13 estabelece-se assim: “De Namur a
Mézières (9° Exército), o inimigo conseguiu estabelecer duas pequenas
cabeças-de-ponte, uma em Houx, ao norte de Dinant, outra em
Monthermé. Instalou uma terceira, mais importante, no bosque da Marfée,
perto de Sedan (2° Exército). Foram ordenados contra-ataques, para atirá-
las ao Mosa...”
Os Tanques Tornam-se Guarda-Estradas
Na manhã de 14 de maio, finda a luta na Holanda: o exército holandês
deporá as armas no dia seguinte, depois de um cruel bombardeio de
Roterdã, por Kesselring. Procura-se salvar Antuérpia, mas o General
Georges já tomou a decisão de requisitar divisões rápidas do 7° Exército.
Diante dos belgas e dos ingleses, a luta não está muito intensa. Está mais
encarniçada na brecha de Gembloux, onde as DLM, duramente açoitadas,
passam de novo aquém da frente do 1° Exército. Mas a posição de
resistência se organiza e, em linhas gerais, a situação é satisfatória naquele
setor.
Na outra extremidade da frente, a esquisita guerra continua. O 8°, o 5° e o
4° exércitos permanecem completamente inertes, abstêm-se até de atirar
sobre o território inimigo, pelo menos para fazer conhecer a
alguns habitantes de Baden a sorte das populações belgas e holandesas. O
3° Exército resiste sem esforço a um fraco ataque, mas nem por isso retira
maior número de atacantes de Longwy para encurtar sua frente.
Poderosamente coberta pela cabeça-de-ponte de Montmédy, a ala esquerda
do 2° Exército conhece horas sem emoção. O drama só se desenrola no
Mosa, de um riacho chamado Emmenance, ao pé das velhas muralhas de
Namur.
Diante de Sedan - ou melhor, atrás da cidade - as medidas ordenadas pelo
Comando francês são três. Primeira: constituir-se-á uma frente defensiva,
voltada para leste, no canal das Ardenas e sobre o rio Bar; segunda: far-se-
á um contra-ataque, em direção ao norte, partindo-se de um pequeno
maciço chamado bosque do Mont-Dieu; terceira: destruir-se-ão com
violentos bombardeios aéreos as passagens que o inimigo se esforça por
estabelecer no Mosa. As três medidas formam um todo. Como a primeira,
contém-se o avanço inimigo. Com a segunda, fecha-se a brecha aberta na
véspera. Com a terceira, impede-se que os alemães se fortaleçam na
margem esquerda, e condena-se ao aniquilamento os veículos que
atravessaram o rio. A manobra é incensurável. Resta executá-la.
Quanto a Guderian, ele sabe que seu sucesso ainda é frágil. Agora, seu
problema consiste em desdobrar-se rapidamente além-Mosa, para quebrar
a reação dos franceses e empreender sem mais demora sua marcha sobre
Amiens. É por isso que pressiona ao extremo a passagem da 1ª Panzer,
ordenando a seu chefe, o General Kirchner, que ataque imediatamente, de
verdade e em linha reta na direção oeste. A 10ª DP, cujos blindados
atravessam o rio a montante de Sedan, tem que se orientar para sul, em
face do Mont-Dieu e de Stonne, para cobrir o flanco de sua vizinha. Resta
a 2ª DP, que na véspera, permaneceu para trás no Semois. Ela chega, por
sua vez e se apresenta para atravessar o Mosa em Donchery. Guderian se
desloca para lá. Ele ainda não sabe que missão reservará para sua terceira
grande unidade.
Heroicamente a aviação franco-britânica ataca as pontes. As formações
sucedem-se em ondas obstinadas, mas a FLAK do coronel Von Hippel
conhece seu dia de glória: abate 100 aparelhos, impede qualquer
bombardeio preciso. Em meio de uma formidável tempestade de aço, um
velho homem, o comandante do Grupo de Exércitos Rundstedt, que viera
respirar o cheiro de pólvora, alcança Guderian na entrada da ponte de
Donchery. “Como é, Guderian, é assim todos os dias?”.
Depois da partida do grande chefe, Guderian ainda hesita. Ao seu lado, o
comandante da 2ª DP, Veiel, aguarda ordens. Como empregar sua divisão
blindada? Na direção oeste, para acelerar o sucesso da 1ª DP que acaba de
tomar Chemery e que ataca o canal? Ou para sul, reforçar a 10ª DP contra
as fortes concentrações de tanques franceses assinalados perto de Mont-
Dieu? Vacilante entre a astúcia e a prudência. Guderian consulta seus
oficiais. O major Wenck, que este relato encontrará na agonia de Berlim,
responde- lhe rindo com a sua própria divisa: “Ataque com rigidez, não dê
“pancadinhas”. Esta frase vence a causa da astúcia. É para oeste que Veiel
faz orientarem-se seus tanques.
No entanto, por um golpe de sorte, a 3ª DCR chegou desde as 6h da
manhã, e sem ter perdido um só veículo, na sua zona de intervenção. Suas
viaturas de reconhecimento deslocam-se até as fronteiras do Mont-Dieu.
Diante deles se estende uma bacia algo pantanosa, cortada por um riacho,
e, mais à frente, um movimento de terreno que esconde a aldeia de
Chemery, a que 1ª Panzer ataca dando as costas à 3ª DCR. O inimigo não
é numeroso e sua atividade é fraca. Qualquer general que tenha o mínimo
de visão de homem de guerra aproveitará, diante desse quadro, a
oportunidade que se lhe oferece para cair sobre o adversário ainda esparso
enquanto, na sua retaguarda, as unidades descansadas da 3ª DIM, chegam
em auxílio. Mas os generais franceses não estão na frente, como os
generais alemães, para tomar inspiração do momento e do terreno. O da 3ª
DCR, Brocard, está nas Petites Armoises, a 12 km do Mont-Dieu, a
discutir com o superior hierárquico que lhe deram, o General Flavigny,
comandante do 21° CE. Flavigny pede a Brocard que ataque
imediatamente. Brocard responde que precisa de 10 horas para organizar a
manobra e reabastecer seus tanques. As ordens e as ameaças não o abalam.
São quase 14 horas quando ele inicia a marcha de aproximação. Há muito
tempo que os blindados alemães passam o Mosa em grandes ondas.
Perde-se a ocasião. Flavigny, com razão ou sem ela, detém o movimento
da dianteira da 3ª DCR e estabelece-se em cordão defensivo, sobre
extensão de 20 km, do lago de Bairon a Stonne. Fracionada em seções
mistas, dois H e um B, a divisão barra os caminhos da floresta. As
soberbas máquinas feitas para a guerra épica, as retiradas em massa, as
grandes evoluções renovadas da cavalaria de outrora, acabam sua breve
carreira no papel dos territoriais de 1914: GVC - guardas de vias de vias
de comunicação.
Ao mesmo tempo, o papel do 2° Exército na batalha do Mosa está
terminado. Estando a pressão dos tanques inimigos a exercer-se numa
outra direção, ele poderia sem muita dificuldade continuar até junho em
sua missão de dar cobertura à Linha Maginot. Por pouco, diante de uma
comissão de inquérito de pós-guerra, seu chefe de estado-maior não
reivindicou para ele a palma dos vencedores. “Se não tivesse havido o
nome de Sedan - disse esse inconsciente - estou convencido de que o
recuo do 2° Exército teria parecido algo de insignificante...”.
“No rio Bar, a luta é mais séria. Procura-se desesperadamente erguer uma
linha de limite de lado a lado da brecha aberta pela volatilização da 55ª e
da 71ª DI. Estirado numa frente absurda, o 148° RIF mantém o angulo
formado pelo Mosa e o Bar. Os cavaleiros da 5ª DLC, da 3ª BC e da 3ª
Brigada do Corpo de Spahis encarregam-se da defesa do canal e tentam
restabelecer, para o lado da aldeia de la Cassine, a ligação com o 2°
Exército. Tendo chegado a pé do campo de Sissone, onde ela está em
instrução, a última reserva do 9° Exército, a 53ª DI, do General
Etcheberrigaray, é atirada como reforço na zona arborizada que se estende
entre o Bar e um pequeno rio paralelo, o Vence. Grande unidade de série
B, irmã gêmea da 55ª, ela chega extenuada e logo se vê enrolada num
turbilhão de ordens e contra-ordens que refletem a ignorância e a
precipitação dos escalões superiores. Finalmente, os batalhões se deixam
cair lá onde estão, numa zona de 400 m², em plena noite, no meio dos
bosques. Alguns lutarão até certo ponto. Outros se dissociarão ao primeiro
embate.
Durante todo o dia 14, uma poeira de unidades enfrenta a 1ª e a 2ª Panzer.
A defesa escalona-se em profundidade, nas clareiras e nos corredores do
maciço florestal, no planalto Carlos Magno, nas aldeias de Malmy, de
Vendresse, de Omicourt. À noite, nova linha de resistência se constitui no
rio Vence. A estrada de Amiens ainda não está completamente aberta para
Guderian!
Mas é preciso poder auxiliar aquela frente frágil sobre a qual agora pesa o
ataque frontal vindo de Sedan. Ora, as unidades de reserva geral foram
orientadas para outras direções, e o 6° Exército Touchon, encarregado de
restabelecer a ligação ente o 9° e o 2°, ainda é apenas um organismo de
comando. Sozinha, vindo por Rethel, a 14ª DI, comandada pelo enérgico
De Lattre de Tassigny, leva um batalhão do 152° RI até o Vence. Mas é
uma gota no oceano.
Um reforço mais importante, um poderoso elemento de manobra, foi a 2ª
DCR. Uma ordem do GQG, transmitida em 14 de maio às 9 horas, retira-a
do 1° Exército para colocá-la à disposição do 9°. Uma segunda ordem
dirige-a para Signy-l’Abbaye. Ela fica, portanto, no papel, com a
possibilidade de surgir no meio das Panzer de Guderian, para uma
daquelas disputas de tanques em função das quais foram construídas as
divisões couraçadas. O mínimo que se pode esperar dela é que dê um
golpe de parada ao avanço alemão, que ela proporcione ao Comando uma
demora que lhe permita recolocar em ordem uma batalha mal conduzida.
Em outras palavras: que ela se sacrifique até o último ataque.
Mas o absurdo sistema de transporte tudo sabota. Por falta de estações
ferroviárias, os tanques são desembarcados em Hirson, a 60 km da zona de
reunião prescrita para a divisão. Os veículos de rodas, compreendendo
especialmente o reabastecimento e o conserto, perdem-se no mundo de
estradas e, tendo chegado, bem ou mal, a Signy, encontra-se mais perto do
inimigo do que das formações combatentes a que deviam servir. Onde há
gasolina, não há tanques. Onde há tanques, não há gasolina. “No dia 14 ao
meio dia - reconhece o comandante da DCR, Bruché -, podemos dizer que
não existe mais divisão couraçada, mas unicamente veículos dispersos que
os comandantes locais disputam entre si...”. Um outro fator quase dá
tempo aos franceses: o inimigo. Kleist, comandante do grupamento
blindado, ordena a Guderian que pare na cabeça-de-ponte de Sedan e se
entrincheire, para permitir que as divisões de infantaria se unam às Panzer.
Guderian voa ao PC de seu chefe, protesta, demonstra que os frutos da
surpresa vão perder-se, mas Kleist responde-lhe dogmaticamente que ele
irá correr para um desastre e que suas divisões blindadas arriscadas nas
planícies do Norte da França serão assaltadas pela retaguarda, decepadas e
feitas em pedaços. Tendo voltado ao seu corpo de exército, Guderian
desobedece e prossegue sua marcha para frente. Kleist o afasta do
comando. Imediatamente prevenido por Rundstedt, Hitler o readmite. Não
foram necessárias três horas para decidir o conflito.
Abandonados a si mesmos, os defensores do Vence lutam ainda durante
todo o dia 15. As Panzer devem entregar-se completamente à luta, pedindo
incessantemente o apoio dos Stukas para quebrar os ninhos de resistência.
O Horgne é defendido até as 17h pelo 2° Corpo de Cavalaria argelino e
pelo 2° Corpo de Cavalaria marroquino, que não tem mais que um único
canhão de 25. Chagny, inteiramente em chamas, é defendida até as 19h
pelo 8° Corpo de Caçadores. Baalons e Bouvellemont resistem até a meia-
noite; depois,
os restos do 152° RI furam o círculo inimigo e vão alcançar o 11° Corpo
de Couraceiros, que ainda luta em Jouvel. Contraste extraordinário: tanto
heroísmo no Vence, depois de tanta covardia no Mosa. Mas são, por uma
justa severidade, as imagens da covardia que subsistirão.
No dia 16 de manhã, Guderian está de novo nas estradas. A abertura está
feita. Cessou toda resistência organizada. Os homens alcançam, a 80 km
por hora, longas colunas de fugitivos. Manda-se que eles atirem à estrada
as armas que lhes restam; os tanques as esmagam. Indica-se aos homens o
local da prisão para onde devem seguir. Depois, o turismo militar
recomeça, com os homens de boina preta, peito nu, em cima das
superestruturas dos tanques, bronzeando-se ao sol, tocando gaita,
anestesiando sua fadiga com a embriaguez da vitória. Um quarto de século
mais tarde, restarão inúmeros alemães grisalhos para dizer que jamais
conheceram plenitude de vida comparável àquela de maio de 1940... Ma
eles pagarão caro por isso.
O Desmoronamento do 9° Exército
No Mosa, ao norte de Sedan, a situação não deixa de ser estranha durante
todo o dia. As colunas blindadas lançadas em todas as estradas das
Ardenas atingem o rio em momentos variáveis, segundo a importância dos
obstáculos que encontram. Como Rommel vigia, cada divisão ataca ao
chegar, onde pode, como pode, atirando seus homens à água, em balsas
pneumáticas, em tábuas, em feixes de palha, e mesmo a nado. Várias
zonas ainda estão calmas, especialmente o setor da 6ª DI francesa, em
posição recíproca com Fumay. Em outros lugares, os ataques alemães são
brutais incursões em faixas estreitas, passagens de ardente energia
sucedendo a preparações aéreas ensurdecedoras. No setor da 5ª DIM o
Mosa é atravessado na altura de Yvoir, pela 5ª Panzer; no setor da 22ª DI,
na altura de Chooz, perto de Givet, pela 6ª Panzer. O Comando francês
imaginara uma tentativa de investida sob a forma de uma grande operação
“organizada”. Mas o inimigo não respeita os precedentes de 1918. A
frente desmorona debaixo de uma sucessão de golpes improvisados. Na
sua cabeça-de-ponte, Rommel recomeça o combate desde o amanhecer.
Mas não consegue fazer passar para a margem esquerda mais que uma
quinzena de tanques e o máximo que pode realizar logo de início é manter
escaramuças na bacia de Houx, esperando a lenta chegada dos reforços.
Para a sua felicidade, as reações francesas são fracas e desordenadas.
Chegando ao campo de batalha depois de fatigante marcha noturna, várias
unidades se deixam dispersar sem resistência. Enviadas para executar o
contra-ataque cuja ordem fora reiterada na véspera, duas companhias de H
35 não encontram, mais uma vez, a infantaria a quem deveriam
acompanhar. Os tanques retrocedem, e ainda GVC são dispostos em
cordão defensivo ao longo da estrada de Philippeville a Dinant.
A pressão de Rommel acentua-se à medida que novos meios lhe chegam.
O coronel Von Bismarck, comandante do 7° Regimento de Fuzileiros,
toma Onhaye. O coronel Rothenburg, comandante do 25° Regimento de
Panzer, chega em auxílio. Rommel está montado num Pz K3 quando um
golpe direto, vindo de um angulo do bosque fê-lo precipitar-se num
barranco. E ele sai “de quatro” do seu tanque, com o rosto lacerado por
uma explosão, como um general do Império livrando-se de um cavalo
morto sob seu corpo. No mesmo instante, uma carga da aviação alemã
varre a estrada de Dinant a Philippeville, atravancada de parelhas de
artilharia: os cavalos atrelados rompem as trelas e, misturados aos cavalos
de montaria, de um regimento de cavalaria, galopam em todas as direções,
loucos de pavor. E, no entanto, contra o arrojado Rommel, forma-se uma
ameaça: a 1ª Divisão Couraçada acudiu... À noite, uma ordem preparatória
a alertou: considerar uma transformação de missão e uma intervenção em
favor do 9° Exército. Ao meio dia, a ordem preparatória torna-se ordem de
execução. Ponto de direção: Florennes, com a determinação de atirar ao
Mosa os blindados que o atravessaram. A distância não é grande: 30 km.
Se Brineau fosse um verdadeiro general de tanques, subiria num de seus
B1 e atiraria sua divisão diretamente na contenda. A batalha ainda está em
equilíbrio instável. Quem sabe a reviravolta material e psicológica que
poderá provocar o aparecimento súbito de 200 mastondontes de aço?
Mas Brineau não é Rommel. Brineau é um general da escola francesa,
para quem um contra-ataque “se organiza” num quadro de comando claro
e rígido. Bruneau procura o General Martin, que comanda o 11° Corpo,
para se opor às suas ordens; depois, busca um telefone, para pedir ao
General Corap que modifique as ordens do General Martin; em seguida,
volta a procurar o General Martin, que, tendo escapado de seu PC de
Florennes, continua desaparecido. Nesse meio-tempo, seus batalhões de
tanques chegam à base de partida, em perfeito estado material e moral.
Mas a gasolina é escassa nos reservatórios e ninguém sabe onde se
encontravam os caminhões-tanque. Jamais alguém chegará a descobri-los,
apesar dos inquéritos que serão feitos depois da guerra. Jamais alguém
chegará a explicar como a melhor divisão blindada do Exército francês se
lançou para frente sem que seu chefe se tivesse preocupado com a idéia de
fazer seguir seu
combustível. Para compreender isso, é preciso penetrar nas idéias que
quatro dias de Blitzkrieg não bastaram para dissipar: frente contínua,
retaguardas organizadas, circulação livre, margem de tempo...
A noite chegou. Brineau procura de novo Martin ainda desaparecido. As
equipagens, sempre confiantes, vigiam ou dormem junto de seus tanques
bem camuflados nos bosques. Flavion, Corenne, Florennes são grandes
auréolas rutilantes. Cessou o ruído da batalha. Alguns comandantes de
unidades conseguem encher o tanque de seus veículos desencavando
gasolina comum em desafio às regras sagradas para as quais os tanques só
andem com gasolina de aviação. Mas os oficiais enviados em busca dos
caminhões-tanque voltam, desesperados - ou não voltam... E no entanto,
às 5h da manhã, vem-se dizer ainda uma vez ao general que sua divisão
está completamente intacta, com um tanque apenas fora de serviço, devido
a um enguiço. Rommel atacou, Rommel venceu apresentando o flanco a
7.000 homens de elite e a 5.000 toneladas de aço. É agradável ser um
general alemão em 1940!
Enquanto a 1ª DCR espera, o 9° Exército se desmorona. A batalha do
Mosa atinge o fim.
Às 19h, os nervos do comandante do 11° Corpo baqueiam. As notícias que
lhe chegaram são terríveis. Por toda parte as brechas estão alargadas. A
18ª DI desagrega-se. A 22ª põe-se em fuga, precedida por seu chefe. As
retaguardas assumem aspecto de derrota: carretas de artilharia,
ambulâncias, veículos de parque isolados, voltando as costas para o leste.
O General Martin só vê um único meio de salvar o Corpo de Exército:
fazer um recuo estratégico. Ordena um retrocesso na linha Florennes-
Philippeville-Marienbourg. E, enquanto outras ordens não chegam nunca
aos seus destinatários, aquela voa.
Erro fatal. A única oportunidade de salvar alguma coisa do 11° Corpo é
fixar as tropas dentre a quais algumas lutavam com coragem. a ordem de
retirada desfaz todos os nós que ainda se mantêm. Como a 55ª e a 71ª DI
em Sedam, na véspera, a 18ª e a 22ª deixam de existir. Nenhum elemento
se deteria na posição de recuo, uma simples estrada, prescrita por Martin.
O comandante da 18ª DI procurará em vão um retalho de sua divisão, e
depois prosseguirá sua inútil busca em todas as estradas da derrocada e,
finalmente, tomará a decisão de retornar a Paris, para informar ao Ministro
que, tendo partido com 15.000 homens para a guerra, ficou sozinho.
Outros generais julgarão mais honrado fazer-se matar: Bouffet, que
comanda o 2° CE, Thierry d’Argenlieu, irmão do futuro monge-almirante,
Augereau, chefe das forças aéreas do Exército. Destruído seu último
avião, ele irá reunir-se aos combatentes e morrerá, com o fuzil na mão,
defendendo a Prefeitura do Catelet.
Em Vervins, QG do 9° Exército, a ordem de retirada do 11° CE provoca
viva surpresa e violenta cólera. Cólera e surpresa sobem de tom ao se
elevarem até o escalão do Grupo de Exércitos. Corap mantém com Billotte
uma estridente conversa telefônica, em que responde de maneira
soldadesca à reprimenda por ter perdido a linha do Mosa. No dia seguinte,
ele será substituído na chefia de seu exército pelo General Giraud. Depois,
com uma injustiça que as circunstâncias desculpam em parte, Paul
Reynaud o considerará o bode expiatório do desastre.
Depois de terem censurado Martin, Corap e Billotte o imitam. No dia 15,
às 2:30h da manhã, todo o 9° Exército recebe ordem de se movimentar,
para instalar-se na linha Marcinelle (nos arredores de Charleroi),
Clerfontaine, Marienbourg, Rocroi, Signy-l’Abbye. Ali irá bater-se com
derradeira determinação, sem espírito de recuo.
Vãs palavras sonoras! Para as tropas tão enfraquecidas, é muito mais
difícil retirar-se em ordem do que morrer no mesmo lugar. Tudo se
desarticula, tudo desmorona. A 5ª DIM, toma seus caminhões e volta para
a França. A 1ª DCR, pregada ao chão pela falta de gasolina, é totalmente
destruída.
A 61ª DI pulveriza-se. A 4ª DINA refaz em sentido inverso a marcha
forçada da véspera e desaba de fadiga. Philippeville e Clerfontaine não
fazem mais que um simulacro de resistência. Rommel ataca as duas
localidades e apodera-se delas ele próprio. Em Philippeville, manda reunir
alguns oficiais franceses que acabam de render-se, mas lhes dá as costas
quando eles lhe pedem permissão para conservar suas ordenanças e
recuperar suas cantinas. Às vezes, trava-se um combate contra tanques ou
carros antitanques, mas termina rapidamente com o aniquilamento dos
focos de resistência.
Postos pela primeira vez à disposição da 7ª Panzer, os Stukas caem do céu
sobre o inimigo, depois tornam a subir, uivantes, seguidos pela detonação
ininterrupta de suas bombas. Imensas colunas de poeira
materializam a marcha dos destacamentos blindados que desenvolvem
velocidade de 60 km/hora no meio de um inimigo em debandada. A
batalha torna-se uma caçada.
O mais estranho é que aquele 15 de maio de derrota é um dia de otimismo
nos QGs franceses. Do gabinete de Georges, um telefonema ao gabinete
de Gamelin faz balanço cor-de-rosa: “Nada de importante... Pequena
infiltrações em Mézières-Charleville... Obstrução em Sedan... O ataque
parece bloqueado... Todos os prisioneiros assinalam a fadiga das tropas
alemães...”. Em Vervins, no gabinete de Corap, as notícias da frente ainda
são consideradas “bastante tranquilizadoras”: o 2° e o 11° CE retiram-se
“em boa ordem” e se instalam na linha de resistência. Uma síntese feita
durante a noite em La Ferté-sous-Jouarre deixa transparecer a confiança:
“O dia 15 parece marcar uma calmaria. Nossa frente abalada se
restabelece pouco a pouco...”. Para os espíritos militares franceses, um
esforço como o que o inimigo fez desde o dia 10, um avanço como o que
ele realizou são necessariamente seguidos de um tempo de interrupção
para reorganizar as unidades, restabelecer as comunicações, fazer seguir a
artilharia, etc. Os analistas dos QG descreveram a batalha como Corneille
descrevia os homens: como ela deveria ser, e não como é.
Na verdade, os sublimes escalões do Comando não sabem de nada. Todos
os testemunhos o atestam. “Nós sofríamos - diz o subchefe do Estado-
Maior do 9° Exército - de uma falta total de informações. O diário de
marcha do Exército nada menciona na data de 15 de maio”. “Dia vazio...”,
relata um dos oficiais de Gamelin em Vincennes. O rompimento definitivo
da frente só será conhecido, nesse Alto-Comando da França militar, em 16
de maio às 11 horas, 24 horas depois do acontecido - e, ainda assim,
graças a um oficial da 2ª Região que toma a iniciativa insólita de telefonar
para GQG dizendo que o inimigo está de todos os lados. Outro informe
vindo de Vincennes atribui o enorme refluxo do Exército francês a uma
ordem proveniente de um capitão Foulonge, que é procurado para ser
fuzilado - e que não existe. Os grandes chefes e seus assistentes não tem
uma idéia concreta da batalha nem os elementos de informação
necessários para conduzi-la. As decisões se aplicam regularmente a
situações ultrapassadas. O fracasso do Comando é total. Foi preparado
para uma guerra de trincheiras. E não tem sequer a destreza e a rapidez das
duas extremidades móveis da guerra precedente: 14 e 18.
Em Vervins, na tarde de 15, Giraud substitui Corap. Suas primeiras ordens
são draconianas: resistir em toda a parte sem se mover, inclusive nos
postos de comando dos generais, que não devem ser evacuados sob
nenhum pretexto. Ele próprio, general-de-exército, conta transportar-se ao
nível dos chefes de batalhão, onde, diz, “uma batalha como essa que se
trava deve ser dirigida”. Ele o fará, de quepe bordado, com sua bandeira
esvoaçante no carro, até o momento em que, com o revólver no peito,
deverá se render como um soldado de linha.
Mas um boato se propaga no QG consternado. É o subchefe do Estado-
Maior, Véron, quem o traz ao novo comandante do 9° Exército: os
blindados alemães estão em Montcornet (Aisne), a 20 km de Vervins, a
meio caminho entre o Mosa e o Oise, na estrada de Laon e Paris! Giraud
se aborrece. É absurdo! É impossível! É um boato de quinta-coluna!
Proíbe que lhe falem isso. Manda acabar com essas mentiras derrotistas.
Luta-se no Bar, a 15 km de Sedan, onde, sob as ordens do General
Touchon, um novo exército, o 6°, acaba de entrar em linha. E vem dizer-se
que os blindados alemães estão em Montcornet...
Infelizmente, estão... Contida por um instante numa região de Monthermé,
a 6ª Panzer abriu finalmente uma brecha e avança até a pequena cidade
cuja tomada marca a derrocada definitiva da frente do Mosa. Vindo de
Sedan, Guderian chega lá um pouco mais tarde, sendo acolhido na praça
principal pelo General Kempf, que se adiantou a ele. Das casas vizinhas
saem centenas de prisioneiros estupefatos.
A Decisão que se Toma a 16 de Maio
O dia 15 de maio é decisivo. Marca a primeira grande virada da guerra.
Condiciona o que será, por muitos anos, o drama francês.
Não se permite nenhuma ilusão. Fica demonstrado aquilo que alguns
espíritos suspeitavam, a diferença da natureza entre o Exército alemão e o
Exército francês. Quando dois exércitos são de natureza idêntica, a
inspiração do Comando, a energia da tropa e até a sorte podem decidir
sobre o desfecho de uma batalha. Quando dois exércitos são de natureza
diferente, já é difícil modificar-se o desenrolar dos combates; bem mais
ainda, o seu resultado. Em 1940, nada podia salvar o Exército francês. Se
Gamelin não houvesse entrado na Bélgica, se Georges tivesse defendido
melhor as Ardenas, as condições e a duração da luta teriam sido diferentes,
a dificuldade e as perdas alemães teriam sido mais pesadas, mas o
resultado teria sido o
mesmo. Se Bruneau e Brocard houvessem sido chefes inspirados, as
ocasiões perdidas de Sedan e Dinant ter- se-iam tornado brilhantes
episódios da história militar, mas está fora de dúvida que a capacidade de
manobra das Panzer e a superioridade da Luftwaffe teriam restabelecido a
situação em favor da Wehrmacht. Esta poderia ser atropelada, perturbada,
forçada a entregar-se completamente à luta; mas não poderia deixar de
vencer.
Na noite de 15 de maio, depois de seis dias de batalha, fica decidido que o
Exército francês não pode resistir numa frente contínua nem replicar
bastante rapidamente para contrapor-se à prodigiosa mobilidade alemã.
Em outras palavras, sua destruição é inevitável e fatal a invasão da
totalidade do território nacional.
Contra tal evidência, insurge-se o romantismo de 1914. Os alemães
chegaram a Luzarches. Os lanceiros viram o Sacré-Coeur. O 15° Corpo
fraqueja em Morhange, como o 10° Corpo acabara de fazê-lo em Sedan.
Os combatentes de calça vermelha foram surpreendidos pela artilharia
pesada, como os soldados de 1940 acabavam de sê-lo pelos Stukas. Joffre
dispensou dezenas de generais, como dispensados foram Corap, Martin,
Brocard, etc. Nem com isso a França se reergueu. Os alemães chegaram a
Laon? Ficaram lá durante quatro anos. Atingiram o Somme? Lá eles
encontrarão os campos de batalha da tenacidade francesa. A França não
desesperou no Marne. Por que se desesperará quando seus exércitos ainda
estão no Escalda?
Sentimentalmente, as razões são fortes. Militarmente, são nulas. O
Exército francês e o Exército alemão de 1914 estavam conforme a velha
expressão militar, no mesmo pé de igualdade. Joffre, em dificuldades,
tinha atrás de si o espaço necessário para livrar-se e recobrar-se. Mas o
motor reduziu as dimensões dos campos de batalha, assim como o resto. A
estratégia defensiva consiste sempre em trocar espaço por tempo, mas o
espaço está enfaticamente desvalorizado. É preciso ser a Rússia para poder
alcançar total revide em seu próprio território. Um país de pequena
dimensão, feito sob medida para a guerra dos blindados, como a França,
não pode pensar nisso.
A conclusão que se tirava, dessas evidências era a impossibilidade de
prosseguir no território metropolitano outra coisa senão uma luta de
duração estritamente limitada.
O único dilema realista era o seguinte: tentar chegar a um acordo,
enquanto se estava com a armas; ou decidir que não se discutiria nunca - e,
consequentemente, sem perder um minuto, tomar todas as medidas
concebíveis para prolongar a guerra além mar. A batalha da França
assumia então uma significação como um combate de retaguarda
permitindo evacuar para a Inglaterra e para a África do Norte o máximo de
homens de meios.
Talvez não fosse possível. Talvez um povo apegado à terra não pudesse
fazer o que fizeram os atenienses atacados por Xerxes e o que teriam feito
com toda certeza os ingleses se Hitler houvesse conseguido invadir a sua
ilha. Talvez a idéia de começar a evacuação da França enquanto seus
exércitos estavam ainda de pé fosse impraticável, inadmissível ou mesmo
um sacrilégio. Se é assim, a fatalidade do armistício de junho foi crida em
maio, ou, falando de modo mais geral, resultou da natureza de um povo
que não foi feito para transportar seus altares em barcos.
Os alemães se encontravam em Montcornet. A estrada de Paris está aberta.
O GQG não tem sequer uma divisão para atirar de través na estrada de
invasão. O Governo foi prevenido de que em algumas horas os blindados
alemães podem estar à porta da Villette. A partida dos ministros é
ordenada para o dia 16, à meia- noite. Grandes fogueiras acesas no pátio
do Quai d’Orsay fazem chover na Avenida Saint-Germain segredos
diplomáticos mal consumidos... Entretanto, nem o General Nogués,
ditador militar da África do Norte, nem qualquer dos procônsules
coloniais são informados da gravidade da situação, da possibilidade que
surge para eles de estar no dia seguinte na primeira linha. Os grandes
chefes do Exército não são melhor preparados, como o atestará o General
Georges dizendo que só na segunda quinzena de junho ouviu falar de uma
continuação da luta na África do Norte.
No dia 16 à noite, o 41° Corpo Blindado está em Aubenton, entre
Mézières e Guisa e o 19° em Marle, a 20 km de Lens. Rommel dá um
prodigioso salto noturno, atravessa a posição fronteiriça sob o luar, perto
de Soldre-le-Château, circunda Maubeuge, precipita-se nas estradas
fantasticamente atravancada, desperta e captura regimentos que se
acreditavam a vinte léguas do inimigo, toma Avesnes, Landrecies, Le
Cateau, provoca mortal confusão nas retaguardas do 1° Exército francês.
Quando se detém, na manhã de 17, sua divisão fez 120 km, perdeu 35
mortos e 59 feridos, capturou 10.000 prisioneiros e 100 tanques.
Nessa mesma ocasião, Guderian atravessa o Oise e chega a Saint-Quentin.
Do lado francês, o dia 16 deve ser a grande manobra montada
pessoalmente pelo estrategista Georges. Trata-se de fechar uma pinça
mecânica atrás das Panzer. Ao norte, Giraud assume o comando das 1ª e
da 2ª DCR, reforçadas por esquadrões de carros Somua, e atacará em
direção ao sul. No sul, a 4ª DCR atacará em direção ao norte. O
comandante- chefe da frente nordeste ignora que a 1ª DCR está
completamente destruída, que a 2ª se encontra completamente
desmembrada e que o comandante de exército Giraud já não comandava
coisa alguma.
Quanto à 4ª DCR, esta existe. Parcialmente e há pouco. Seu ato
constitutivo data apenas de 11 de maio. Quando seu chefe, o coronel De
Gaulle, chega ao seu PC, de Laon, no dia 15, ele está sozinho. A primeira
tropa que encontra é um grupo químico que só tem como armamento
alguns mosquetes. Ele o anexa, dispõe- no em linha de segurança atrás do
canal de Sissone e, durante o dia 16, procura e organiza os elementos
postos à sua disposição para constituir sua divisão. O Plano Georges não
lhe foi comunicado, a vaga missão que recebeu é de ordem defensiva e,
em seu lugar, qualquer outro militar francês esperaria para esboçar uma
ação de reunião de seus meios. Mas De Gaulle “arde com seu furor sem
limites” desde que ouviu contar que os alemães estão quebrando as armas
dos soldados franceses e prosseguem sua marcha gritando que não têm
tempo para fazê-los prisioneiros. À noite, ele faz seu discurso: “Se eu
viver, bater-me-ei onde for necessário, quanto for necessário, até que o
inimigo esteja derrotado e a mancha nacional lavada”. Portanto, ele
atacará ao amanhecer, com as forças, sejam quais forem, que lhe tenham
chegado. Aliás, seu instinto militar lhe diz que o inimigo se reforça mais
depressa do que ele e que, esperando-o, perderá.
Ao amanhecer, a 4ª DCR, ainda nada mais é que um batalhão de carros B,
dois batalhões de R 35 e um grupo de artilharia, sem tropa de infantaria,
sem uma só peça antitanque nem uma metralhadora antiaérea. De Gaulle
dirige este embrião até Montcornet, incursão de 30 km nas retaguardas
inimigas, limpa a localidade, destrói os comboios e volta à noite com 120
prisioneiros, no meio de um carrossel de Stukas. No dia seguinte,
recomeça em direção de Marle, e, dois dias depois, na região de Fismes,
de onde Georges o chamará para, confiar-lhe outra missão. Esses ataques,
fracos demais, não detém o avanço dos Panzer nem perturbam gravemente
a manobra inimiga. Mas mostram qual teria sido o efeito de um corpo
blindado vindo no flanco do avanço alemão e mesmo que resultados
parciais teriam alcançado as divisões couraçadas sob o comando de chefes
vitoriosos.
Nos dias 17 e 18, Paris tranqüiliza-se: a investida blindada não se dirige
para lá. A transferência do Governo é contra-ordenada. Ouve-se falar de
falso alerta e dizer que Hitler perdeu a oportunidade. Paul Reynaud
assume a pasta da Guerra. Chama o Marechal Pétain de sua embaixada de
Madri e o General Weygand de seu comando no Levante, um para reforçar
seu gabinete como vice-presidente do Conselho e o outro para assumir o
Comando Supremo. Em La Ferté, o General Georges estabelece uma
frente no Aisne e no canal Crozat; prolonga o 6° Exército Touchon, ainda
embrionário, por um 7° Exército Frère, ainda fictício; dá ao 9° Exército -
que ele ainda acredita existir! - ordem de manter o Sambre canalizado e o
canal do Sambre em Oise; esboça uma posição Sambre-Oise-Aisne diante
da qual os blindados sem fôlego iriam necessariamente parar. O mapa de
guerra que resulta desse plano é mais satisfatório do que o de 1914. A
direita francesa fica apoiada no Reno e algumas frações mais importantes
da Bélgica e do Norte da França são subtraídas à invasão. Mas Georges
ignora que o Sambre já foi abandonado e que o Oise já foi atravessado.
No dia 19, o 19° Corpo Blindado alemão toma Peronne. O 41° captura
Busigny. O 15° apodera-se de Cambrai. Na agreste casa de campo dos
Bondons, encantadora residência do General Georges, surge um fantasma:
Gamelin. Com a mesma mão que escreveu a ordem do dia do Marne, ele
redige num canto de mesa uma instrução pela qual recomenda (não
ordena, pois é Georges quem comanda o Nordeste) uma ofensiva nas
retaguardas dos Panzer. Poderia também mandar tomar Berlim, a manobra
que ele indica como aquela que se esforça em vão para organizar há três
dias. Gamelin sustentará até a morte que a França teria sido salva se
Georges se tivesse conformado à sua ordem do dia 19. No dia seguinte, 20
de maio, é Weygand que aparece em Vincennes, alerta, apesar de seus 73
anos e de uma viagem movimentada de dois dias. Respondendo à
convocação de Reynaud, ele deixara Beirute na antevéspera, a bordo de
um bombardeio Glen Martin, mas teve que fazer meia-volta acima de
Tripolitânia, perder a noite em Túnis, sobrevoar o Morvan a baixa altura.
Finalmente, ao chegar a Etampes, o trem de aterragem de seu avião se
quebrou e os passageiros ficaram por um momento prisioneiros na
carlinga. À noite mesmo, depois de breve visita a Georges, Weygand
aceita o comando. Gamelin, informado de sua desgraça quando se põe à
mesa, não esconde sua surpresa. Depois de uma noite em claro, e com uma
dignidade de circunstância, ele transmite seus poderes ao sucessor.
O General-de-Exército Máximo Weygand está em pleno vigor físico e
intelectual. Sua lealdade, sua energia, seu caráter, sua maneira pessoal de
agir, sua autoridade, seu ardente patriotismo são indiscutíveis. Todavia,
coronel dos Hussardos em 1914, chefe do Estado-Maior de Foch durante
toda a Primeira Guerra, ele pertence a uma outra época. Antes da guerra,
em dois artigos na “Revue des Deux Mondes”, ele condenara as teses
degaullistas a respeito do corpo couraçado, e, falando num concurso
hípico, alguma semanas antes das hostilidades, ele assegurara à França que
seu Exército nunca estivera mais bem equipado e melhor comandado. Está
consciente de que o chamaram para enfrentar uma grave crise, para
reerguer uma situação perigosamente comprometida, e aceita nobremente,
sem discussões e sem condições, a responsabilidade que se coloca sobre os
seus velhos ombros. Mas ele está longe de ter medido o caráter
desesperado que a batalha assumiu. E mais longe está ainda de imaginar -
e Paul Reynaud não lhe fala disso - que seja possível transportar para um
quadro extra-europeu uma guerra perdida na França. Para esta tarefa, para
esta visão, não é Weygand, mas De Gaulle que é preciso.
Exatamente no momento em que Weygand assume o comando, levam a
Hitler a notícia decisiva: Abbeville foi tomada, a Mancha atingida, 45
divisões foram cercadas nas Flandres. “O Fuhrer - observa Jodl - está
louco de alegria. Diz ele que o armistício será assinado na clareira de
Rethondes e que a França terá que devolver à Alemanha todos os território
que lhe roubou há 400 anos”.
