A probabilidade de que a vinda da primavera traria uma ofensiva em
grande escala foi ampliada pelas novas medidas de bloqueio adotadas
pelos aliados. Para essas medidas havia, pelo menos, dois motivos
discerníveis. O primeiro, naturalmente, era privar a Alemanha dos meios
para a condução da guerra. Mas o segundo era baseado na esperança de
que o perigo de ser lentamente sufocado forçaria a Alemanha a abandonar
sua tática defensiva. Julgava-se em muitos círculos que o
desencadeamento de um ataque pela Alemanha, que a forçaria a deixar sua
posição preparada, seria de real vantagem para os aliados. Obrigá-la-ia a
efetuar esforços mais desmedidos, que rapidamente absorveriam suas
reservas de material; e ao mesmo tempo era esperado que as forças
nazistas, martelando as posições aliadas, extenuar-se-iam de tal maneira
que os aliados, no momento apropriado, poderiam lançar o contra-ataque
que lhes traria a vitória a um custo mínimo.
grande escala foi ampliada pelas novas medidas de bloqueio adotadas
pelos aliados. Para essas medidas havia, pelo menos, dois motivos
discerníveis. O primeiro, naturalmente, era privar a Alemanha dos meios
para a condução da guerra. Mas o segundo era baseado na esperança de
que o perigo de ser lentamente sufocado forçaria a Alemanha a abandonar
sua tática defensiva. Julgava-se em muitos círculos que o
desencadeamento de um ataque pela Alemanha, que a forçaria a deixar sua
posição preparada, seria de real vantagem para os aliados. Obrigá-la-ia a
efetuar esforços mais desmedidos, que rapidamente absorveriam suas
reservas de material; e ao mesmo tempo era esperado que as forças
nazistas, martelando as posições aliadas, extenuar-se-iam de tal maneira
que os aliados, no momento apropriado, poderiam lançar o contra-ataque
que lhes traria a vitória a um custo mínimo.
Essa concepção de guerra defensiva, uma guerra de responsabilidade
limitada, tinha o sucesso dependente de um cálculo acurado do poder
dessa defensiva. Mas quando a Alemanha tomou a iniciativa e desfechou
um golpe de sucesso contra a Escandinávia com uma arremetida
arrasadora através dos Países Baixos, rapidamente se percebeu que os
cálculos baseados na experiência passada tinham de ser lançados aos
ventos. A guerra "real", quando estalou, foi uma espécie inteiramente nova
de guerra. Os elementos básicos talvez fossem os mesmos apresentados
nos livros militares, mas o desenrolar da tática baseava-se em novas
armas, e o novo uso dessas armas tornava-a inteiramente sem precedentes.
Para essa espécie de guerra, os aliados descobriram que ainda não estavam
preparados. Tinham que definir a sua natureza e descobrir uma resposta
aos novos métodos de ataque em meio aos desesperados esforços de
suportar esse ataque com êxito suficiente para evitar o completo
aniquilamento. E, entrementes, eram os nazistas que, com a sua nova
técnica, mantinham a iniciativa. Eles foram capazes de escolher o seu
próprio terreno e campo e de impor ao inimigo, submetido a forte pressão,
as condições de batalha que melhor convinham aos seus propósitos. Em
dois meses de luta, o tamanho do sucesso que obtiveram era em si uma
prova de quão diferente esta guerra era daquela que havia vinte e cinco
anos se travara em grande parte desse mesmo território.
Essa diferença não era inerente, não somente em métodos militares, mas
às amplas conseqüências da luta. Já não eram mais apenas os beligerantes,
e mesmo sequer os pequenos estados pára-choques, aqueles que haveriam
de sofrer as conseqüências do desfecho. Mesmo as nações que estavam de
fora, sem nenhum receio imediato de ataque, despertaram com um choque
à percepção de que isso era algo mais que uma guerra comum por
objetivos limitados. Era uma luta entre duas concepções totalmente
diferentes de vida; e enquanto era certo que o mundo seria transformado
pelo fato da própria guerra, a natureza da transformação que se seguiria a
uma vitória nazista estava começando a tornar-se clara. Seria o fim de um
tipo de sociedade para cuja evolução o mundo ocidental tinha gasto
séculos, e a criação de uma ordem inteiramente nova que imporia seu
cunho não apenas às nações conquistadas mas ao mundo em geral. E
quando o mundo enfrentou essa perspectiva, tornou-se consciente de que
estava diante da ameaça de uma revolução mundial iminente, - ameaça
que não mais partia de Moscou e sim de Roma e Berlim.
A Invasão da Escandinávia
A decisão a que chegaram os aliados, no fim de março, de apertar de modo
mais eficiente o bloqueio da Alemanha foi vista com especial apreensão
na Escandinávia. Havia naturalmente muitas aberturas que os aliados
pretendiam tapar - o petróleo e metais que a Alemanha estava obtendo dos
Bálcãs, os gêneros alimentícios que recebia dos Estados danubianos, a
ampla quantidade de produtos de além-mar que lhe chegavam através dos
Países Baixos. Importantes porém como eram, havia razão para se
acreditar que as questões de interesse mais imediato dos aliados fossem as
relacionadas com o minério de ferro que a Alemanha estava recebendo da
Suécia e o qual era transportado através das águas territoriais norueguesas.
Para essas duas nações, os problemas de neutralidade tinham-se tornado
gradualmente mais difíceis desde que a guerra começara. Ao mais leve
indício de que não estavam completamente subordinadas à Alemanha, a
imprensa e o governo nazistas rompiam em grita ameaçadora. Ao mesmo
tempo, a Alemanha na sua guerra aérea e submarina não fazia esforços
para distinguir os navios suecos e noruegueses dos barcos beligerantes.
Até o dia 6 de abril, 52 navios noruegueses, 33 suecos e 28 dinamarqueses
tinham sido afundados, com uma perda de perto de mil vidas. Quando os
protestos desses neutros à Alemanha foram respondidos apenas com novas
recriminações, os aliados naturalmente começaram a achar que tal
neutralidade deixava algo a desejar.
A guerra finlandesa tinha por um tempo acrescentado nova complicação a
esse estado de coisas. Com o fim das hostilidades, os Estados
escandinavos ficaram livres dos perigos inerentes dos planos aliados de
intervenção em favor dos finlandeses. Mas o problema geral permaneceu,
acentuado por uma crescente impaciência aliada pelo continuado acesso
da Alemanha aos suprimentos escandinavos; e isto foi expresso pela
irradiação de Churchill a 30 de março, a qual acentuava que os neutros
estavam sendo forçados a suprir uma potência cuja vitória significaria a
sua escravidão. Qualquer dúvida sobre o que essa atitude significava para
a Escandinávia foi removida pela declaração de Chamberlain a 2 de abril,
a qual atacava esse "duplo padrão de neutralidade" e insinuava fortemente
que os esforços que estavam sendo realizados para bloquear a rota
escandinava eram apenas a fase preliminar de operações mais efetivas. E
dois dias mais tarde, falando à União Nacional dos Conservadores e
Associações Unionistas, o primeiro ministro disse: "Embora jamais
procuremos infligir danos ou perdas aos neutros, e embora estejamos
ansiosos por guardar todas as regras, não se pode esperar que permitamos
que a Alemanha tire vantagens indefinidamente dos nossos escrúpulos
com o arrancar assistência e conforto aos neutros.
A esse ponto de vista foi dada expressão oficial nas notas aliadas
apresentadas à Noruega e à Suécia a 5 de abril. Essas notas, de
conformidade com a declaração do sr. Koht a 8 de abril, alegaram que os
acontecimentos dos últimos três meses tinham mostrado a recusa da
Alemanha de permitir que os estados escandinavos dirigissem livremente
sua própria política externa. O resultado foi que a Alemanha, por seu
acesso a importantes matérias-primas, beneficiava-se de vantagens nesses
países para desvantagem e perigo das Potências Aliadas. Isto era algo que
os aliados não mais podiam tolerar. Eles estavam lutando tanto por si
próprios como pela causa das pequenas nações, e não podiam permitir que
fossem prejudicados pelas vantagens que tal situação dava à Alemanha.
Tinham, portanto, que se reservar o direito de tomar medidas que
pusessem fim a todas as práticas que ajudavam a Alemanha ou feriam a
causa aliada.
As medidas que tinham em mente referiam-se particularmente à rota do
minério de ferro. Os navios alemães acharam possível viajar de Narvik à
costa norueguesa sem deixar as águas territoriais até chegarem ao
Skaggerak e à guarida dos campos de mina alemães. "Não tem havido",
disse Churchill a 11 de abril, "nenhum impedimento maior ao bloqueio da
Alemanha do que esse corredor norueguês. Foi assim na guerra passada, e
tem sido assim nesta guerra." Durante a guerra passada, os aliados tinham
induzido a Noruega a colocar campos de mina nessas águas; e quando a
atual guerra iniciou, eles procuraram obter da Noruega permissão para
colocar suas próprias minas ali. Mas a Noruega resistiu firmemente a essa
exigência; e a sua virtual rejeição ao pedido aliado, consignada nas notas
de 5 de abril, mostrava que nenhuma ação efetiva poder-se-ia esperar de
sua parte. A 8 de abril, os aliados passaram das palavras aos atos. Na
manhã daquele dia, os aliados anunciaram que tinham resolvido "impedir
o uso continuado pelo inimigo de trechos de águas territoriais que lhe
eram de especial valor", e que em conseqüência tinham colocado campos
de mina em três pontos das águas norueguesas.
O governo norueguês protestou imediatamente e exigiu a remoção das
minas. Parecia bem possível que uma grave situação resultasse daí entre a
Noruega e os aliados. Mas antes que isso ocorresse, todo o quadro foi
mudado pela ação da Alemanha.
Os Preparativos Alemães
Desde o estalar da guerra, a Alemanha se esforçara em manter os Estados
escandinavos firmemente dentro de sua órbita. Devido a razões tanto
econômicas como estratégicas, era-lhe da máxima importância preservar o
acesso a esses países, bem como o evitar que seus adversários
conquistassem tanto uma ascendência diplomática como um ponto de
apoio militar na península. Esse esforço tinha sido aumentado pela guerra
finlandesa e possibilidade de intervenção aliada. Não havia ilusões de que
os aliados usariam tal intervenção para criar uma nova frente contra a
Alemanha; e mesmo antes que os aliados chegassem à decisão de prestar
auxílio armado à Finlândia já a Alemanha tinha iniciado seus preparativos
para fazer abortar uma ação dessa natureza no norte.
Quando chegou a vez de proteger seus próprios interesses às custas dos
neutros, os nazistas pela sua própria natureza gozaram de uma liberdade
de ação que fôra negada aos aliados. Estes tinham baseado sua causa
moral na manutenção da legalidade internacional e na preservação dos
direitos de todas as nações, grandes ou pequenas. Essa posição
efetivamente os impedia de cometer qualquer séria infração da soberania
das países neutros. Podiam invocar a doutrina das represálias para
justificar certos atos extraordinários, como por exemplo a apreensão das
exportações alemães ou o lançar dos campos de mina ao largo da Noruega.
Podiam arriscar-se a uma violação técnica de direitos teóricos num caso
extremo, como o do Altmark. Mas somente uma necessidade premente os
faria sacrificar sua vantagem moral em benefício de exigências militares.
A Alemanha, entretanto, não tinha tais vantagens a perder. Na doutrina
nazista, o bem-estar do Reich era o único padrão moral a ser considerado;
e enquanto a Alemanha podia procurar utilizar contra os aliados os
conceitos morais de democracia que estes alimentavam, sempre que
servissem aos propósitos do Reich, não tinha intenção de deixar-se
dominar por tais escrúpulos.
No começo do ano, portanto, a Alemanha se decidiu a impor seu domínio
à Escandinávia, tanto para proteger sua posição como para estender a
frente marítima contra a Inglaterra. Em fevereiro, as medidas preliminares
estavam em pleno andamento e eram reunidos navios para transporte ao
mesmo tempo em que se exercitavam tropas ao longo do Báltico em
operações de desembarque. A anunciada intenção aliada de apertar o
bloqueio estimulou essas medidas e provocou notas de sinistra advertência
na imprensa alemã. Já a 16 de março, o Voelkischer Beobachter acentuara:
"Os exemplos da Polônia e Finlândia mostram com ênfase esmagadora o
que acontece aos pequenos povos quando desafiam as leis de seu espaço
vital... A generosa atitude da Alemanha apresenta-se em flagrante
contraste com o sórdido egoísmo com que a Inglaterra e a França
procuram obrigar pequenos povos a servir os fins de sua estratégia." Ao
fim do mês, comentando um discurso de Churchill, um jornal berlinense
inquiria: "Que é a perda de algumas vidas neutras em comparação com a
cínica tentativa de fazer morrer de fome as mulheres e crianças de toda
uma nação? A Alemanha não esquecerá daqueles que compartilham este
assassínio em massa, privando o povo alemão dos meios legais de defesa."
E a 5 de abril, depois de uma conferência com Goebbels, os diretores dos
jornais alemães começaram a prever uma nova fase da guerra e a
aproximação da hora fatal dos neutros.
Essa campanha da imprensa foi sincronizada com a partida de uma
expedição completa contra a Noruega. Embora o lançamento das minas
aliadas tivesse dado ao ataque alemão a aparência de um contra-golpe, a
coincidência era puramente fortuita, já que os navios alemães em alguns
casos tinham partido para o seu destino pelo menos três dias antes. As
indicações de que algo estava acontecendo tornaram-se aparentes a 8 de
abril, quando um transporte alemão apinhado de soldados, o Rio de
Janeiro, foi afundado por um submarino britânico ao largo de Lillesand, e
uma flotilha alemã, informava-se, estava navegando com rumo norte
através do Grande Belt. Mas enquanto o público ainda especulava em
torno do significado desses acontecimentos, a Alemanha desfechava seu
golpe. Ao alvorecer de 9 de abril, numa faixa de mil milhas, suas forças
assaltavam a Noruega e a Dinamarca.
A Ocupação da Dinamarca
Quando cruzaram a fronteira dinamarquesa em Flensburg, as tropas
alemães transpuseram o que era quase a última fronteira não-fortificada da
Europa. A Dinamarca, mais ainda do que seus vizinhos escandinavos,
sentia-se compelida, em virtude de seu tamanho e posição estratégica, a
depender mais da boa fé internacional do que de força armada para a sua
possível defesa. Nação de menos de quatro milhões de habitantes, cuja
única fronteira terrestre confinava com o Reich alemão, havia muito ela
tinha reconhecido que não poderia oferecer resistência eficaz a uma
invasão; e mesmo suas recentes confiscações para a defesa aérea eram
mais um gesto significando o desejo de manter sua independência do que
uma garantia real contra a conquista. Como o seu premier tinha dito na
irradiação do Ano Novo: "O povo dinamarquês só tem um caminho a
seguir. Temos de prosseguir no caminho da neutralidade e confiar no valor
das promessas e acordos que conosco foram firmados."
O principal desses acordos era o pacto de não-agressão com a Alemanha.
Em abril de 1939, em resultado da mensagem do presidente Roosevelt
pedindo penhores de paz, Hitler tinha convocado os pequenos vizinhos da
Alemanha para perguntar se eles se sentiam ameaçados, e oferecera-lhes a
conclusão de tratados que pretensamente removeriam quaisquer receios
que porventura alimentassem. Nem a Suécia, nem a Noruega tinham
aceito a oferta, em vista dos exemplos de quão perigoso era para um país
pequeno aceitar qualquer garantia alemã. A Dinamarca, entretanto, julgou
que não podia; de modo algum, arriscar-se a ofender sua despótica
vizinha; e a 31 de maio firmou com a Alemanha um tratado por meio do
qual ambas prometiam
que "em nenhuma circunstância recorreriam à guerra ou a qualquer outra
forma de violência uma contra a outra."
Era essa uma garantia débil bastante, em vista dos antecedentes da
Alemanha; contudo, era a única garantia que a Dinamarca possuía. Ela não
tinha aliança e não recebera garantia alguma de qualquer outra nação.
Com os restantes neutros ocidentais, durante anos tinha depositado suas
esperanças na Liga das Nações e na perspectiva de um desarmamento
geral; e quando tudo isso ruiu, somente lhe restou a esperança de que, num
novo conflito, não oferecesse nem ofensas, nem tentações a qualquer
facção que lhe pudesse pôr em perigo a neutralidade. Estava ela ligada
com frouxos laços de cooperação econômica e política ao Grupo de Oslo,
que consistia nas nações escandinavas e nos Países Baixos; mas esses
Estados tinham evitado toda a idéia de aliança militar, por consentimento
mútuo. Quando, em março, a Finlândia obteve da Suécia e da Noruega a
promessa de que um pacto de assistência mútua se seguiria à sua paz com
a Rússia, a Dinamarca foi deixada fora desse projeto, como sendo mais um
passivo do que um ativo; e o próprio projeto desfez-se quando a Rússia lhe
interpôs o veto decisivo. Em resultado, os Estados escandinavos todos
ficaram sozinhos e isolados diante da nova acometida alemã.
A força que a Dinamarca poderia opor a tal acometida era insignificante.
Em teoria, ela podia colocar cerca de 150.000 homens em pé de guerra;
mas a maioria desses homens era deficientemente treinada, e os efetivos
de paz disponíveis não passavam de 11.000 homens. Dificilmente,
portanto, poderia causar surpresa o não ter o invasor encontrado
resistência real alguma. As forças que se lançaram ao assalto em meia
dúzia de pontos, por terra e mar, eram calculadas na ocasião em cerca de
40.000 a 50.000 homens. Apenas a Guarda Real, em Copenhague ofereceu
breve resistência, que foi prontamente dominada. Pelas quatro horas da
tarde, o país estava sob controle alemão.
Esse controle, de acordo com o governo alemão, não era o de um
conquistador, mas sim de um protetor. Numa nota aos governos dos países
invadidos, o Reich alegou que as medidas aliadas de bloqueio constituíam
"um golpe destruidor na concepção de neutralidade". O Reich estava de
posse de provas de que a Inglaterra e a França estavam planejando a
invasão dos países nórdicos, e era claro que esses países não poderiam
oferecer resistência eficaz. A Alemanha interviera portanto "para proteger
a paz do norte contra todo o ataque anglo-francês e obter a sua garantia
definitiva." Em vista desse altruísmo sem exemplos, a Alemanha esperava
que os países em questão compreendessem seus motivos e não lhe
oferecessem oposição. "Toda a resistência", - advertiu-lhes a Alemanha, -
"teria de ser e seria quebrada por todos os meios disponíveis pelas forças
armadas alemães que aqui aportaram, e levaria portanto a uma efusão de
sangue absolutamente inútil."
Em face dessa perspectiva, a Dinamarca não tinha outro recurso senão
ceder. Depois de conferenciar com o seu gabinete, o rei Cristiano deu à
publicidade uma proclamação, também assinada pelo primeiro ministro,
aceitando a situação sob protesto. A população foi solicitado evitar a
resistência afim de se salvar o país dos desastres da guerra. Numa sessão
especial do Parlamento, à tarde, o primeiro ministro fez uma declaração
em que disse: "A Alemanha assegurou-nos que não tinha intenção alguma
de violar a independência e integridade territorial da Dinamarca... Nosso
povo sem dúvida perceberá a necessidade da atitude do governo... Só a
Dinamarca, nada senão a Dinamarca importa agora."
Mas se o reino dinamarquês se mostrou, assim, uma presa fácil, com a
Noruega a coisa foi muito diferente.
A Invasão do Noruega
As forças navais alemães que se movimentavam simultaneamente contra
seis portos noruegueses, assim procediam com o conhecimento de que o
sucesso de sua empresa não dependia somente delas próprias. Reforços
aguardavam-nas em vários pontos nos bojos de navios alemães que,
chegando à Noruega ostensivamente com lastro, na realidade ocultavam as
tropas e equipamentos mecanizados destinados à invasão. O elemento de
surpresa, acentuado por essa tática, era uma grande vantagem inicial,
permitindo a um punhado de homens tomar posições essenciais enquanto
os noruegueses os olhavam atônitos. E, como toque final, havia os agentes
que esperavam os nazistas dentro da Noruega e os quais, ao tempo
marcado, realizaram as missões mais importantes que lhes tinham sido
confiadas, assegurando assim a vitória.
O ministro do Exterior da Noruega reduziu mais tarde o alcance deste
auxílio interno e alegou a 6 de maio que ainda estava para descobrir um
autêntico caso de traição. "Pode custar a ser acreditado", disse ele, "mas
fomos tomados de surpresa. Eles vieram sobre nós à noite, enquanto
dormíamos." Há pouca dúvida de que
grande parte das conversas sobre quinta-coluna e cavalos de Tróia era
exagerada, e que em muitos casos a surpresa foi obtida não em
conseqüência da deserção norueguesa, mas em resultado de falsas ordens
expedidas pelos próprios nazistas. A cooperação interna, contudo, de
qualquer fonte que partisse, permaneceu como sendo o aspecto vital de
todo o quadro. A confiança mesma com que os navios de guerra alemães
atravessaram os fiordes estreitos e sinuosos, sem se preocupar com
barreiras de minas protetoras ou com o perigo das baterias de costa,
demonstrava a completa certeza que tinham de que o seu caminho já fôra
eficazmente preparado.
Em Narvik, por exemplo, os nazistas foram auxiliados tanto pelas
atividades do cônsul alemão como pela ação do comandante militar
norueguês. O primeiro manejou os fios dos preparativos, inclusive a
presença de cargueiros com o seu carregamento oculto de tropas. O último
deixou de tomar as providências e de emitir as ordens que pudessem tornar
a resistência possível. Dois vasos de guerra noruegueses, surpreendidos no
porto de Narvik, abriram fogo conta os navios alemães quando surgiram à
vista através de forte temporal de neve; mas foram quase que
imediatamente torpedeados, e a própria cidade estava ocupada dentro de
meia hora sem que um só tiro fosse disparado de terra. Em Trondheim, de
conformidade com um comunicado norueguês, os vasos de guerra alemães
tinham-se rodeado de uma flotilha de pequenos barcos noruegueses que
impediu os fortes de Agdenes de abrir fogo. Também neste caso, a cidade
foi ocupada sem resistência; mas o forte de Hegre, ao leste, ofereceu uma
resistência que prosseguiu por toda a campanha subseqüente. Bergen,
Stavanger e Kristiansand foram da mesma forma capturados após uma
resistência relativamente pequena.
Era em Oslo, contudo, que estava a chave de toda a operação. Neste caso
também, uma combinação de surpresa e de falsas ordens reduziu a
resistência ao mínimo. Houve breve luta no aeroporto, e os fortes de
Oskaraorg impuseram curta resistência. Mas mesmo a perda de dois vasos
de guerra na passagem pelos estreitos deixou de paralisar a expedição
alemã, que, efetivamente, ocupou a capital durante a manhã de 9 de abril.
As autoridades norueguesas souberam à meia-noite que navios alemães
tinham entrado no fiorde, e o gabinete se reuniu no ministério do Exterior,
às 5 da madrugada, com as hostilidades já se desenvolvendo, chegou o
ministro alemão para apresentar a nota que informava a Noruega de que
estava sendo tomada sob a proteção benevolente do Reich e exigia a
completa rendição do país ao controle alemão. Com certa relutância, o
enviado alemão permitiu ao ministro das Relações Exteriores, Koht,
consultasse seus colegas antes de receber uma resposta. A resposta foi
uma rejeição imediata, que envolvia a certeza de hostilidade. O governo se
transferiu imediatamente para Hamar e convocou o Storting (Parlamento
da Noruega) para informá-lo dos últimos acontecimentos e receber sua
aprovação. A tarde, já na iminência de um ataque alemão a Hamar, o
governo transferiu-se de novo, dessa vez para Elverum.
Nem todas as possibilidades de acordo, entretanto, haviam sido
desvanecidas. Em Elverum, foi recebido um pedido do ministro alemão,
dr. Brauer, para uma audiência com o rei Haakon. O dr. Brauer era um
homem em que o professor Koht tinha considerável confiança, e parecia
possível que novas e mais aceitáveis propostas fossem apresentadas. O
Storting, portanto, concordou em associar três de seus próprios
componentes com o professor Koht, e o dr. Brauer foi informado de que
seria recebido no dia seguinte.
Havia certa dificuldade em torno da audiência, já que os alemães, de modo
mais sem tato, assaltaram Elverum antes que ela se pudesse realizar. Foi
somente a sua recusa em mãos dos noruegueses que capacitou o ministro
alemão a obter a entrevista que tinha solicitado. Ficou demonstrado,
entretanto, que a mesma era inútil. O dr. Brauer informou o rei, e depois a
delegação, de que a mudança de situação obrigava a novas exigências. A
principal destas era a da resignação do atual ministério e do
estabelecimento de um novo governo sob a chefia do major Vidkun
Quisling, líder do Partido Nazista da Noruega. Conquanto o sr. Koht
parecesse pronto a considerar uma mudança governamental que tomasse
possível a colaboração com a Alemanha, essa submissão a um títere
desacreditado era uma exigência que ia longe demais. O rei insistiu em
que não poderia nomear um governo que não gozasse da confiança do
povo, e o regime Quisling estaria em pé de igualdade com o que os russos
haviam colocado na região da Carélia após a invasão da Finlândia.
Consentiu em reservar a resposta para depois de consultar seu governo
legal, mas este concordou com a sua decisão, que foi comunicada ao dr.
Brauer na noite de 10 de abril. A pergunta do ministro alemão sobre se
isso significava que a resistência norueguesa continuaria, a resposta foi:
"Sim, o mais demoradamente possível".
Havia, de fato, limites muito sérios à extensão do tempo que a Noruega
poderia esperar manter-se por si própria. Mesmo em condições favoráveis
ela dificilmente poderia reunir mais que 100.000 soldados numa
população de escassos três milhões de habitantes. Tomada de surpresa
como fôra, parecia improvável que mais do que a metade desse número
estivesse à sua disposição. Os alemães, a 11 de abril, tinham talvez 50.000
homens na Noruega, bem equipados com armas mais leves, ainda que não
providos plenamente de tanques e artilharia pesada. A tarefa imediata dos
noruegueses era opor a maior barreira possível a essas forças modernas e
particularmente evitar que seu corpo principal, em Oslo, estabelecesse
junção efetiva com as guarnições muito mais fracas que tinham ocupado
os outros portos noruegueses.
Isso significava, com efeito, evitar um avanço sobre o norte ou leste do
fiorde de Oslo. A marcha alemã para o oeste pouco mais poderia fazer do
que reforçar o controle de um breve trecho costeiro. A marcha para o leste
entretanto, abriria as comunicações com a fronteira sueca; e um avanço
bem sucedido para o norte logo colocaria os invasores em posição de
cortar o país em dois e consolidar o seu domínio em toda a Noruega
meridional.
O imediato esforço norueguês constituiu, portanto, no traçar de um anel
em torno dos alemães que se lançavam nessas duas direções. A marcha
para o norte seguia pelo vale de Glommen, conduzindo às junções
ferroviárias da Hamar e Elverum e guardado a leste pela fortaleza de
Kongsvinger. A sudeste de Oslo, os alemães desembarcaram tropas à
margem oriental do fiorde e abriram caminho para o interior. Essas eram
forças aparentemente pequenas mas tinham diante de si pouco mais que
improvisados destacamentos noruegueses. A 15 de abril, os alemães
proclamaram ter atingido a fronteira sueca e estar no comando das defesas
de ambas as margens do fiorde de Oslo; e no dia 18, a resistência
norueguesa nessa zona parecia ter chegado ao fim.
Entrementes, os alemães pareciam ter-se ocupado da regularização de seus
instrumentos de autoridade na Noruega. A completa ineficácia do major
Quisling mesmo como títere ficou revelada quando, a 15 de abril, ele foi
substituído por um antigo governador provincial e ministro da Justiça,
Ingolf Christensen. Isto indicava ainda a esperança de que o Reich seria
capaz de manter a ficção de um governo independente a exercer
autoridade efetiva e aceitar a proteção alemã, mas essa esperança
rapidamente se desfez. A 19 de abril, ele recebeu novo golpe quando
Hitler ordenou a expulsão do ministro norueguês de Berlim. E a 24 de
abril, a Alemanha anunciou sua soberania irrestrita sobre os distritos
ocupados da Noruega e nomeou um comissário responsável apenas
perante o próprio Hitler.
A área que ela governava, entretanto, era distintamente limitada. As
guarnições nazistas obtiveram pouco sucesso na extensão de seu controle
em torno dos portos ocidentais. Ao norte de Oslo, os alemães exerciam
pressão sobre os vales de montanhas com unidades avançadas, mas o seu
controle além de Hamar era ainda precário. Os noruegueses continuavam a
opor encarniçada resistência, e começava a chegar-lhes socorros de parte
dos aliados. O curso futuro dos acontecimentos dependeria agora do êxito
que a marinha britânica tivesse em cortar as comunicações alemães com a
Noruega e em abrir o caminho para o desembarque de uma força aliada
considerável.
As Operações Navais
As vésperas da campanha norueguesa, o corpo principal da Home Fleet
encontrava-se em Scapa Flow. Desde a perda do Royal Oak, as defesas
desse ancoradouro tinham sido reforçadas, e a frota havia estado operando
daquela base durante as últimas cinco ou seis semanas. Periodicamente
durante esse lapso os alemães lançavam ataques aéreos contra Scapa, e
dois deles tiveram lugar na semana que precedeu a invasão, além de um
reide fracassado para atingir as Orcades. Mas na última dessas visitas, a 8
de abril, a frota não mais estava lá.
A razão era a presença no mar de unidades navais alemães. No domingo, 7
de abril, aviões britânicos de reconhecimento avistaram uma divisão naval
alemã, incluindo cruzadores de batalha, rumando para norte ao largo de
Heligoland. Logo que essa informação foi recebida, a frota pôs-se ao mar
em busca do inimigo. Havia todas as perspectivas de que os navios
alemães, mesmo que não fossem alcançados, seriam impelidos para uma
armadilha; é que ao largo da Noruega setentrional se encontrava no
momento poderosa força britânica preparando-se para o cumprimento da
tarefa de espalhar novos campos de mina ao alvorecer do dia seguinte.
O fato dos alemães terem escapado foi devido a uma combinação de boa
sorte e mau tempo. A sorte do destróier britânico Glowworm mostrou
quão limitada eram as possibilidades da frota alemã. Esse navio perdera
um homem, caído ao mar, no domingo, dia 7 de abril, e retardou-se por
algum tempo à sua procura.
No dia seguinte estava rumando para norte a fim de unir-se ao resto da
força quando se encontrou com dois destróieres alemães. Mal se tinha
engajado na luta e outro navio surgiu pelo lado norte - o novo cruzados
alemão Admiral Hipper. Antes de poder perceber e informar que tinha
topado com a principal frota alemã, o Glowworm foi posto a pique, com a
perda do grosso de sua tripulação.
Novamente, no dia seguinte, a esquadra britânica roçou as bordas da força
inimiga. Ao romper do dia de 9 de abril, terça-feira, à hora marcada para o
ataque da expedição alemã, o cruzador de batalha Renown avistou através
da tempestade de neve que então caíra ao largo de Narvik o navio de
guerra alemão Scharnhorst, acompanhado do Admiral Hipper. De uma
distância de 16.000 m, o Renown atingiu o Scharnhorst com dois
impactos, um dos quais pôs fora de ação o fire control da belonave alemã;
mas o Scharnhorst, auxiliado pela tempestade e por uma cortina de fumaça
lançada pelo cruzador que o acompanhava, conseguiu escapar-lhe de vista,
embora o Renown estivesse fazendo vinte e quatro nós no mar forte e se
tivesse distanciado bastante de seus destróieres. No decurso da ação, ele
foi atingido por uma granada que o perfurou na altura da linha d'água, mas
não explodiu e não causou baixas a bordo.
Contudo, apesar desses exemplos de boa sorte, os alemães pagaram um
preço substancial em perdas navais pelo sucesso de sua empresa. O saldo
final não pôde ser calculado com precisão. A afirmativa norueguesa de ter
afundado o navio de guerra Gneisenau no fiorde de Oslo era encarada
pelos observadores com certa cautela. Um submarino britânico disputou
com as baterias de costa norueguesas a glória do afundamento do cruzador
Karlsruhe. O cruzador que aviadores britânicos acreditavam ter posto a
pique no porto de Bergen era, de acordo com testemunhas oculares, o
Köln, que já tinha sido avariado por um torpedo. Os alemães admitiram a
perda do Blücher e do Karlsruhe, e parecia certo que o Emden tinha sido
afundado por um lança-minas norueguês e que o Admiral Scheer tinha
sido posto fora de ação por um submarino britânico. Uma autoridade naval
britânica calculou as perdas navais nazistas ao fim da primeira semana em
50% de sua força em navios de guerra de primeira classe, 33% dos
cruzadores pesados, 83% dos cruzadores leves e 43% dos destróieres.
Mesmo se permitindo uma razoável margem de erros, era certo que a frota
alemã tinha sido anulada como força ofensiva eficiente.
O significado disso, entretanto, poderia ser facilmente superestimado. A
frota alemã de superfície, mesmo na plenitude de sua força, jamais esteve
em condições de desafiar a marinha britânica. Na melhor das hipóteses,
poderia ser uma força de corsários; e mesmo sob esta forma de atividade,
seus sucessos tinham sido tão pequenos que podiam ser considerados
desprezíveis. Se, entretanto, pôde ser utilizada para assegurar a conquista
da Noruega pelos alemães, com as suas perspectivas de bases aéreas e de
submarinos dentro de pequeno raio de alcance da Inglaterra, a perda de um
terço ou mesmo da metade de seus efetivos podia não parecer um preço
alto demais a pagar. Uma vez estabelecidos nessas posições, os alemães
podiam confiar mais na sua força aérea e submarina do que nas belonaves
de superfície para proteger suas comunicações e anular todos os esforços
da potência marítima britânica para desalojá-los.
Ficou demonstrado que os cálculos alemães em ambos os casos, haviam
sido feitos sobre bases bastante razoáveis. Os golpes aliados nas
comunicações inimigas no Skaggerak eram rápidos e vigorosos e suas
fases iniciais foram tão eficazes, que os alemães na Noruega ficaram
dependendo em grande parte do transporte aéreo para a obtenção de
reforços. Mas a natureza das operações aliadas era seriamente limitada
pelas circunstâncias. Conforme Churchill explicou mais tarde, a
potencialidade aérea alemã significava que uma continuada patrulha de
superfície naquela zona teria resultado em perdas capazes de conduzir a
um desastre naval. A confiança foi, portanto, posta num bloqueio
submarino completado por minas. Os submarinos britânicos receberam
ordens de afundar todos os navios alemães que se lhes apresentassem.
Foram lançadas minas, não somente no Skaggerak e no Kattegat, mas
também ao longo da costa báltica da Alemanha. Essas diversas atividades
resultaram na perda para os alemães, no decorrer de três semanas, de pelo
menos vinte e oito navios de transporte e abastecimento e sérias avarias
em uma dúzia de outros. Mas mesmo ao preço de tais perdas, os navios
alemães continuavam a circular, e a relativa segurança de suas
comunicações, abalada pelos assaltos iniciais, foi gradualmente
restabelecida.
A possibilidade de desalojar imediatamente os alemães por meio de um
ataque direto também acarretava graves riscos. Embora as guarnições
alemães dos portos fora de Oslo raramente se compusessem no começo de
mais que dois mil soldados, o avanço inicial lhes dera uma vantagem real.
Navios invasores teriam de enfrentar não somente ataques aéreos em
águas apertadas em que havia pouco espaço para manobras, mas também o
perigo adicional representado pelas baterias da costa e pela força naval
inimiga emboscada nos fiordes profundamente recortados. Um ataque a
Oslo, como os nazistas estavam no comando dos fortes, teria sido suicídio.
O ataque a Trondheim foi tomado em consideração, e uma força que
incluía tropas canadenses
foi aprontada para a expedição, marcada para o dia 25 de abril. Mas os
êxitos iniciais no desembarque de tropas em Andalsne e Trondheim
decidiram os peritos militares a se concentrarem nesses pontos, de
preferência a um ataque direto a Trondheim, que oferecia riscos de sérias
perdas.
No caso de Narvik, a situação se desenvolveu de modo diferente, graças
em grande parte à iniciativa do comandante da flotilha britânica de
destróieres naquela região. A 9 de abril, essa flotilha de cinco navios, sob
o comando do capitão Warburton-Lee, estava patrulhando o fiorde
Ocidental, entre as ilhas de Lofoten e o continente. Fazendo
reconhecimentos, o comandante soube que Narvik já estava firmemente
dominada e que sendo os destróieres nazistas dos maiores e mais
modernos - força que teria quase o dobro da potência de fogo da divisão
britânica - se encontravam no porto. Ao saber dessa situação, o
Almirantado, se bem que particularmente ansioso por destruir os navios de
abastecimento que acompanhavam a expedição alemã, hesitava em
ordenar um ataque. Mas quando foi dito ao capitão Warburton-Lee que ele
próprio deveria ser o único juiz, e que o Almirantado o apoiaria fosse qual
fosse a sua atitude, pouca dúvida poderia haver sobre o que sucederia.
Às primeiras horas de 10 de abril, a flotilha iniciou a penetração do fiorde.
Esperava com certeza encontrar o canal minado e o porto defendido pelas
baterias de terra. Nevava tão fortemente que, como um oficial informou,
"Jamais vimos nenhum dos lados do fiorde, exceto no começo, quando
quase o abalroamos uma vez". Sua entrada aparentemente pegou as forças
alemães completamente de surpresa, pois que foram capazes de afundar os
navios de abastecimento no porto antes de terem sido forçados a retirar
pelo fogo do inimigo mais forte. O destróier Hunter foi afundado; o Hardy
foi atingido tão seriamente que teve de ser encalhado e abandonado (seus
sobreviventes meteram-se terra a dentro e foram libertados quatro dias
mais tarde); o Hotspur ficou avariado, mas conseguiu sair com os restantes
dois navios. Na retirada, coroaram o feito com o afundamento de um
transporte alemão de munições. Deixaram atrás de si um destróier alemão
afundado e três em chamas.
Essa façanha aplainou o caminho para a eliminação da força naval alemã
três dias mais tarde. A 13 de abril, nove destróieres britânicos,
acompanhados pelo couraçado Warspite cuja tarefa era silenciar as
baterias de costa, penetraram em Narvik, onde se encontravam então sete
destróieres alemães. Três destes foram destruídos no decurso de um
encontro que durou duas horas e meia. Os restantes escaparam pela
estreita entrada de 16 km do fiorde de Rombaks rumo ao leste de Narvik,
sempre perseguidos pelos destróieres britânicos. Um dos navios alemães,
já gravemente danificado, foi incendiado; os restantes três foram
encalhados e perfurados pelos respectivos tripulantes, que fugiram para
terra. Três dos destróieres britânicos ficaram danificados durante a ação;
mas a força alemã tinha sido varrida, e com ela desaparecera toda a
esperança alemã de reforçar sua guarnição por mar.
Mas Narvik mesma ainda não estava em mãos aliadas; e embora estivesse,
sua situação longínqua e a carência de comunicações terrestres tê-la-ia
tornado quase inútil como base de operações militares contra as principais
forças alemães. O patrulhamento naval ao largo da costa ocidental evitava
que quaisquer reforços substanciais alcançassem as guarnições de Bergen
e Trondheim. Mas expulsá-las dali exigia a realização de operações
militares; e agora restava a marinha tornar possível o desembarque eficaz
de uma força de efetivo considerável e bem equipada, se se quisesse
expulsar os invasores da Noruega.
A Expedição Aliada
A própria natureza da situação exigia uma expedição de tal ordem.
Teoricamente, os aliados não tinham mais obrigações diretas para com a
Dinamarca e a Noruega do que tiveram com a Finlândia. A coisa mais
aproximada a uma garantia era a referência de Chamberlain à Suécia e
Noruega no decurso dos debates finlandeses a 19 de março: "Nada irá ou
poderá salvá-las a não ser a determinação de se defenderem e de se unirem
com outros que estão prontos a auxiliá-los na sua defesa." Mas por seus
próprios interesses, os aliados não poderiam manter-se alheios à invasão
alemã da Escandinávia. Foi imediatamente anunciado que os aliados
tinham decidido estender daí em diante sua completa assistência à
Noruega e conduzir a guerra lado a lado com eles. Esta garantia foi
repetida por Chamberlain a 9 de abril. A 11 de abril, Churchill disse a
respeito. dos noruegueses: "Nós os auxiliaremos da melhor forma que
pudermos. Conduziremos a guerra em comum com eles, e somente
faremos a paz quando os seus direitos e liberdade estiverem restaurados".
E a 13 de abril, o rei George enviou uma mensagem pessoal ao rei
Haakon, assegurando-lhe que os aliados estavam dando à Noruega todo o
auxílio que lhes era possível.
Quando os primeiros dias penosos se arrastavam, esse auxílio pareceu
custar muito a chegar. Os alemães tinham alegado que a sua ocupação da
Noruega e Dinamarca visava apenas antecipar uma iminente invasão
aliada. A 27 de abril, com a apresentação teatral mas inconvincente, pelo
sr. Ribbentrop, de "provas documentárias", esta lenda avolumou-se até o
ponto em que os nazis asseguravam que uma expedição aliada tinha-se
feito ao mar para logo retroceder à notícia da ação alemã. Para tais
fantasias, a carência de imediata ação aliada era a única resposta
convincente, e servia para colorir a hipótese de que a Grã-Bretanha e a
França tinham sido de fato escolhidos em sono pelo golpe alemão.
Churchill deu algum apoio a isso quando a 11 de abril, depois de admitir
que sabiam há meses dos preparativos alemães, insistiu em que os aliados
não tinham meios para saber qual era a verdadeira finalidade desses
preparativos. Isso sem dúvida significava subestimar a perspicácia sua e
de seus colegas. A verdadeira natureza dos erros de previsão aliados foi
talvez melhor expressa numa nota do correspondente militar do Times:
"Quando a campanha da Finlândia chegou ao fim, o corpo principal da
força reunida para ir em auxílio daquele país foi transferido para outra
parte, juntamente com a sua artilharia anti-aérea. A divisão 49 e certas
outras tropas foram mantidas, entretanto, estacionárias, com o objetivo de
serem desembarcadas nos principais portos noruegueses na eventualidade
de uma invasão alemã vinda do sul. A captura desses portos pelos alemães
não foi prevista, e era considerado que os destacamentos relativamente
pequenos designados para esse propósito seriam suficientes para mantê-los
até que outras forças pudessem ser desembarcadas sob a sua cobertura... A
invasão alemã não foi, portanto, uma surpresa completa em si mesma; mas
o seu alcance e o seu êxito invalidaram completamente o plano original".
Os aliados, em conseqüência, viram-se à frente de uma operação que é
tradicionalmente uma das que oferecem sérias dificuldades - o
desembarque de tropas numa costa hostil enfrentando a resistência
inimiga. As recordações pouco confortadoras da frustrada tentativa de
forçar os Dardanelos, que começaram a avivar- se a essa perspectiva, de
modo nenhum se tranqüilizaram à contemplação do terreno norueguês.
Essa costa montanhosa, guardada por numerosas ilhas e sulcada por
enseadas profundas e sinuosas, oferecia um problema formidável. Os
estrategistas ingleses, como se vê pela citação acima, haviam
compreendido perfeitamente as vantagens que essa costa oferecia para a
defesa. Eles tinham agora de encontrar um meio de levar de vencida a
resistência que aí seria oposta pelo inimigo.
A chave de toda a operação, estava claro, era o porto de Trondheim. Oslo,
para o momento, estava fora de cogitações; e um porto como Bergen,
circundado por montanhas que quase o isolavam do interior, oferecia
vantagens relativamente menores sob o ponto de vista estratégico. De
Trondheim, por outro lado, o acesso seria possível - se bem que de forma
alguma fácil - ao principal sistema de comunicações da Noruega
meridional. Um exército que obtivesse um forte ponto de apoio nessa
região poderia ter esperança de estabelecer uma linha que cortasse o sul do
norte e oferecesse uma base de que as forças aliadas pudessem varrer,
vindas do planalto central, as posições alemães ao longo da costa.
A primeira tentativa, entretanto, não foi um assalto frontal, mas um
movimento para tomar a posição de Trondheim pela retaguarda. Nos dias
14 e 17, foram desembarcados destacamentos navais em Namsos e
Andalsnes, respectivamente; nos dias 16 e l8, eles foram seguidos pelos
primeiros contingentes de tropa. Seu imediato objetivo era obter o
domínio da estrada de ferro e assim evitar uma junção entre as forças de
Trondheim e o grosso das forças alemães e ao mesmo tempo, obter
comunicações que lhes permitissem entrar rapidamente em contacto com
as forças norueguesas e tomar posições avançadas, na esperança de mantê-
las contra os alemães até que chegasse o grosso das forças aliadas.
A essa data havia uma corrida contra o tempo, uma corrida que
possivelmente já fôra perdida. Era verdade que os alemães, apesar de uma
semana de lutas, não tinham ainda estabelecido comunicações entre o
grosso de suas tropas e as guarnições da costa. Esse era um tributo notável
à qualidade da resistência norueguesa, mas os defensores estavam sendo
fortemente comprimidos pelas forças alemães que exerciam pressão ao
norte de Oslo e a leste de Trondheim. A 16 de abril, o ministro norueguês
em Londres lançou um apelo no sentido de que os aliados agissem
rapidamente e assinalou a necessidade urgente de auxílio contra os
alemães no sul da Noruega meridional.
O fato era que a força alemã estava então crescendo com uma rapidez que
fazia com que a conservação das posições inicialmente ocupadas pelos
aliados fosse uma possibilidade. O processo de restabelecer o controle
sobre o Skaggerak tinha evoluído o bastante para fazer que suas
comunicações desfrutassem de uma segurança razoável. Os alemães
estavam agora recebendo, não somente reforços, mas o equipamento
mecanizado que permitia às forças avançadas fazer rápidos progressos
para tomar importantes posições, e os
noruegueses podiam ver a perspectiva de que a tática que tinha sido tão
bem sucedida na Polônia seria repetida às custas suas.
Contra isso, as primeiras forças britânicas podiam oferecer pouco, no
tocante ao equipamento pesado. Destacamentos leves eram mandados às
pressas para o interior a fim de se juntarem aos noruegueses e ajudá- los a
barrar o avanço alemão de Hamar a Lillehammer, mas sua inferioridade
em número e equipamento tornou impossível consolidassem suas
posições. Ao mesmo tempo, as unidades navais alemães no fiorde de
Trondheim puderam manter sob o fogo de sua artilharia pesada as forças
aliadas que avançavam para o sul, vindas de Namsos, e forçaram-nas a
recuar para Steikjer. E a perspectiva de que tais desvantagens fossem em
breve levadas de vencida era seriamente ameaçada pela superioridade
alemã no ar.
O início da campanha mostrou o domínio do poder aéreo sobre o poder
marítimo de forma mais direta que a registrada antes. Os pesados ataques
aéreos às forças navais britânicas ao largo de Bergen, a 9 de abril,
representaram a primeira batalha real entre navios e aviões em número
considerável e em alto mar. Fazendo- se a comparação, em vista dessa
batalha, entre bombardeiros e navios de guerra, o resultado penderia
decisivamente favorável a estes últimos.
Sob esse aspecto, a bomba mais poderosa lançada durante a guerra foi
uma de 1.000 libras, que alcançou Rodney com um impacto direto. A
pesada armadura da coberta do vaso de guerra resistiu completamente ao
choque, e o único dano causado pela explosão foi ferimentos em três
oficiais e sete marinheiros. Dois outros cruzadores foram atingidos, mas
ficaram apenas levemente danificados por estilhaços, e permaneceram em
seus postos junto à frota.
As unidades menores e mais levemente blindadas não podiam esperar
escapar tão facilmente. Contra impactos diretos, que eram apenas os
considerados fatais, tinham a proteção da velocidade, principalmente.
Nesse mesmo encontro, cinco ataques foram desfechados diretamente
contra o destróier Aurora, em face do pesado ataque anti-aéreo, mas
nenhum deles alcançou seu objetivo. O destróier Ghurka, por outro lado,
foi fortemente atingido e teve de ser abandonado. Foi contra unidades
dessa classe que os aviadores alemães obtiveram seus raros êxitos durante
a campanha subseqüente. Tudo o que conseguiram foi infligir certas
avarias a um cruzador durante o bombardeio de Stavanger, a 17 de abril,
mas assim mesmo esse navio foi capaz de chegar a um porto. Os pilotos
alemães pareciam ter pendor para superestimar as vitórias sobre os navios
que atacavam, e suas afirmações de vitórias acabaram por incluir o
afundamento dum vaso de guerra da classe do Queen Elizabeth, o de um
cruzador da classe do York e um porta-aviões. Mas o Almirantado
desmentiu a perda de navios dessa classe durante a campanha; e em vista
da fantástica qualidade das anteriores afirmações alemãs desse caráter, sua
ulterior exuberância deixava pouca impressão nos observadores
destacados.
O poderio aéreo, portanto, mostrou-se incapaz de disputar eficazmente o
domínio dos mares. A frota britânica podia manter abertas as
comunicações marítimas, o que era essencial para a expedição aliada. Mas
o seu poder estacava diante dos portos; e era nos portos, pontos de junção
das operações marítimas e terrestres, que a força aérea alemã agia com o
máximo de sua eficiência.
Esses portos estavam longe de serem adequados, mesmo sob as melhores
condições. Um ataque bem sucedido a Trondheim teria assegurado um
bom ancoradouro com modernas instalações portuárias. A decisão dos
aliados de confinar seus esforços iniciais a Namsos e Andalsnes deixou-os
dependentes de simples aldeias de pesca, cujas poucas docas não
passavam de toscas construções de pedra ou mesmo de madeira,
carecendo completamente de guindastes mecânicos e de outras necessárias
facilidades de descarga. Sua vulnerabilidade a ataques aéreos era
acentuada pela incapacidade de enviar material anti-aéreo com os
primeiros destacamentos aliados. Eram esses os pontos que os alemães
golpeavam com plena fúria. A 19 de abril, eles desfecharam contra
Namsos um ataque que durou sete horas, e que foi seguido de outros que
continuaram durante os três dias seguintes. "Vi Chapei, Madrid, Abo e
Rovaniemi" escreveu um correspondente francês, "depois de ataques
aéreos. Sei o que um bombardeio é, mas o arrasador da destruição de
Namsos excedia tudo que tinha visto." Os Ataques a Andalsnes, se bem
que menos espetaculares, eram quase da mesma eficácia. Quando o
equipamento antiaéreo foi posto à disposição, os dois portos estavam em
ruínas.
As tropas aliadas que tinham avançado para o interior foram expostas a
assaltos igualmente terríveis. Elas receberam os ataques coordenados de
tropas, tanques e bombardeiros de mergulho; e em Steinkjer enfrentaram,
além disso, o fogo dos navios de guerra alemães que se encontravam no
fiorde de Trondheim.
O último fator, juntamente com o desembarque de forças navais alemães
que ameaçavam cortar os primeiros destacamentos e avançar com rumo
sul em direção a Levanger, praticamente cortaram o braço setentrional da
pinça aliada que se movia contra Trondheim. Foi deixado aos
destacamentos meridionais capturar primeiro as vitais junções ferroviárias
de Dombaas e de Stoeren, para então investir para o sul com a maior
rapidez possível a fim de evitar um avanço alemão sobre os principais
vales em direção a Trondheim.
Essas forças aliadas estavam mal equipadas para semelhante tarefa.
Careciam de equipamentos mecanizados e de artilharia pesada.
Encontravam-se sem uma dotação adequada de canhões antitanques e anti-
aéreos. Na melhor das hipóteses, elas podiam esperar agir como força
retardadora contra o inimigo. E a possibilidade de receberem reforços de
pendia mais uma vez da situação no ar.
Isto significava o estabelecimento de bases aéreas aliadas na Noruega.
Houve desde o princípio tentativas de anular o poderio aéreo alemão com
ataques às suas principais bases. Stavanger esteve sob quase constante
bombardeio, e houve reides freqüentes contra campos como Fornebu,
perto de Oslo, e Aalborg, ao norte da Dinamarca. Mas apesar dos danos
extensos causados a esses campos, os aviões nazistas continuavam a
operar, e tornou-se claro que se os bombardeiros não podiam controlar as
vias marítimas, muito menos podiam impedir a atividade inimiga. Nem era
possível a caças operar com eficiência de bases britânicas distantes 500
km. Os caças bi-motores que eram utilizados desempenhavam bem a
tarefa quando em encontros com o inimigo. Mas não podiam permanecer
no ar por muito tempo, e eram provavelmente menos rápidos que os
bombardeiros alemães, como por exemplo os Junkers Ju.88. Podiam
operar patrulhas limitadas ou atacar objetivos definidos. Mas para a
defesa, era necessário aviões de caça que pudessem permanecer por mais
tempo no ar e erguer vôo assim que o inimigo surgisse. Mas tal força não
podia operar sem bases, e os alemães tinham capturado todas as bases
importantes da Noruega. Algumas tentativas foram feitas pelos aliados
para o uso de lagos gelados, mas se mostraram insatisfatórias; e uma base
improvisada na área de Dombaas foi descoberta e bombardeada até que
ficou quase inútil. Por fim, tornou-se absoluta a superioridade aérea
nazista na Noruega.
Tal fato selou o destino da expedição aliada. A superioridade alemã tanto
em efetivos como em potência de fogo foi aumentada sem cessar e à
medida que as forças nazistas avançavam. A 25 de abril, elas investiram
pelo Osterdal - o oriental dos dois vales principais - contra Tynset e
estavam a distância de ataque de Roeros; e no Gudbrandsdal, o vale
paralelo a leste, os aliados foram obrigados a recuar de Otta a Dombaas.
Lá então conseguiram deter o inimigo; mas os alemães no Osterdal
lançaram duas colunas mecanizadas através de caminhos montanhosos em
direção a um ponto da estrada de ferro entre Dombaas e Stoeren. Era um
movimento que ameaçava efetuar ligações entre a força atacante e os
alemães de Trondheim e cortar as forças aliadas em duas. Somente
reforços imediatos poderiam salvar a expedição aliada, agora numa
inferioridade de quase dez para um. Mas o Alto Comando chegou à
conclusão de que a remessa de reforços era impossível, em vista da
supremacia aérea dos alemães; e embora fosse informado que o general de
Wiart, a 29 de abril, tinha assegurado que "as tropas britânicas têm tudo
que precisam" a decisão tomada foi, entretanto, a de retirar as tropas a fim
de salvá-las da destruição. Na noite de 1 para 2 de maio, a retirada foi
efetuada de Andalsnes, e na noite seguinte de Namsos. Com exceção de
grupos esparsos de noruegueses que ainda resistiam, a totalidade da
Noruega meridional foi deixada nas mãos dos nazistas. Com uma chuva
final de bombas sobre a expedição em retirada, os alemães afundaram três
destróieres - um britânico, um francês e um polonês, - mas, de acordo com
o comunicado do Almirantado, os transportes de tropa não foram
atingidos.
O comunicado do Almirantado sobre a retirada sugeria, entretanto, que a
luta não tinha sido completamente abandonada, e que seriam realizados
esforços noutros pontos da Noruega. Isto significava claramente que se
concentrariam em Narvik. Aqui, a batalha naval de 13 de abril tinha
resultado na perda do controle alemão sobre o porto, mas não sobre a
cidade propriamente dita. Não foi senão dois dias mais tarde que os
aliados começaram a desembarcar tropas, e a protelação deu aos alemães
tempo não somente para consolidar suas posições, como também para
capturar as elevações de Rombak, a leste das pequenas forças norueguesas
lá fixadas, e estender o seu controle ao longo da estrada de ferro que
conduzia à fronteira sueca. Quando, portanto, as forças militares aliadas
chegaram, encontraram a posição forte danais para um assalto frontal. Ao
invés disso, desembarcaram tropas nos dois lados do fiorde das cercanias
da cidade, e iniciaram o vagaroso processo de envolvimento da guarnição
nazista.
Ficou demonstrado que essa operação nada tinha de fácil. A guarnição
alemã não tinha perspectiva imediata de ser substituída, pois que todas as
tentativas de remessa de reforços por mar foram interceptadas, e os
esforços germânicos para avançar de Namsos por terra eram retardados
pelas forças norueguesas e aliadas
que operavam de Mo e Bodoe. Mas a posse pelos alemães das elevações
de Rombak tornou possível um desembarque ocasional de aviões de
transporte, e outros reforços chegaram de pára-quedas. Suprimentos,
incluindo artilharia anti-aérea, eram também deixados cair de pára-quedas;
e o bombardeio alemão, juntamente com a posse alemã dos fortes da costa,
envolviam um vagaroso processo de redução, antes que as forças navais
aliadas pudessem entrar no porto em segurança. A perda do pequeno
cruzador Curlew, equipado com peças anti-aéreas, mostrou o quão
arriscado era para os navios operarem nessas águas estreitas e difíceis.
Apesar de tudo, as forças aliadas, que haviam crescido até chegarem a um
número orçado em 15.000, gradualmente se concentraram. A 28 de maio,
foi lançado um ataque que durou vinte e quatro horas; e no dia seguinte, os
aliados puderam anunciar que a cidade de Narvik estava enfim em seu
poder.
Mas esse não foi, de modo algum, o fim da história. O grosso das forças
alemães tinha deixado a cidade antes da mesma ser capturada e recuado ao
longo da ferrovia para as suas posições em torno de Bjoernfjell. Era claro
que elas não estavam ainda dispostas a entregar esses meios de acesso às
minas de ferro suecas sem uma luta que, devido a natureza do terreno,
poderia muito bem prolongar-se indefinidamente. Com todo o resultado do
conflito - um resultado que incluía o destino da própria Noruega - em jogo
na frente ocidental, os aliados se decidiram a evitar mais desgastes de
força e a evacuar toda a Noruega. "A dura necessidade da guerra", disse o
rei Haakon na sua proclamação de 10 de junho, "forçou os governos
aliados a conjugar todas as suas forças para a luta em outras frentes, e eles
precisam de todos os homens e de todo o material nessas frentes." Avisou,
portanto, o seu povo de que era inútil continuar a resistência e ao mesmo
tempo lhe garantiu que o seu rei e governo continuariam a luta fora do
país, expressando a confiança em que "o povo norueguês, juntamente com
outros povos que agora estão sofrendo sob o jugo alemão, reaverão uma
vez mais os seus direitos e liberdade." Como toque final trágico à
evacuação, o Almirantado foi obrigado a anunciar a perda de um navio-
tanque, um navio de abastecimento, dois destróieres e o porta-aviões
Glorius - afundado, de conformidade com informes alemães, pelos vasos
de guerra Scharnhorst e Gneisenau.
As Aquisições da Alemanha
Nestas operações, intensamente criticadas, foi engajada apenas uma
pequena parte das forças adversárias de cada lado. Não se considerava,
aliás, a Noruega como um alvo que justificasse o risco de maiores perdas.
Hitler podia arriscar navios de guerra, que lhe eram de pequena utilidade
em qualquer parte, mas o Almirantado se recusou a enfrentar quaisquer
aventuras sérias com a armada britânica. A expedição aliada à Noruega
meridional, constante de 12.000 homens, formava menos que uma simples
divisão; e embora os alemães tivessem mandado oito ou dez divisões, esta
continuava sendo uma pequena porção das duzentas divisões que, ao que
se calculava, o Reich tinha em armas. Importante como era a posse da
Noruega, sob numerosos aspectos, nenhum dos lados estava desejoso,
contudo, de jogar alto a ponto de enfraquecer seriamente a sua posição no
caso de um movimento do inimigo nos Bálcãs, no Mediterrâneo ou nos
Países Baixos.
Havia contudo definitivas conseqüências econômicas e estratégicas que
representavam um ganho real para a Alemanha e perda nítida para os
aliados. O espólio imediato obtido pelos nazistas era em si substancial.
Metade das reservas de ouro dos bancos centrais de Oslo e Copenhague,
somando cerca de 75.000.000 de dólares, juntamente com quantidade
ignorada de valores estrangeiros, caiu em mãos alemães. No porto livre de
Copenhague, os armazéns foram completamente atulhados de artigos
importados, desde os gêneros alimentícios até peças de motor. Somente na
Dinamarca foram encontradas de 300.000 a 500.000 toneladas de óleo e
petróleo. Estes eram manás que a economia estritamente racionada do
Reich tinha todas as razões para bem receber.
Os recursos naturais da Noruega e Dinamarca eram de maior importância
ainda. A Dinamarca era rico país agricultor e produtor de laticínios, no
qual um terço da população vivia exclusivamente do cultivo da terra. Uma
nação como a Alemanha, que ficou sem manteiga afim de fabricar
canhões, podia bem receber a aquisição do maior exportador de manteiga
do mundo, e também um dos maiores produtores de toucinho. Tanto a
Dinamarca como a Noruega eram grandes exportadoras de peixe, e os
produtos florestais e minerais da Noruega eram importantes para
propósitos bélicos. Um aspecto complementar dessas aquisições era o de
que elas privavam os aliados, particularmente a Grã-Bretanha, de
suprimentos que até então recebiam. A Grã-Bretanha absorvia metade das
exportações dinamarquesas e mais que uma quarta parte das da Noruega.
Ela estava agora sem o seu maior fornecedor de manteiga, toucinho e
ovos. Com a conquista da Noruega, ela perdia o grosso de seu
abastecimento normal de madeira e mais de noventa por cento de sua
polpa de madeira - materiais importantes na manufatura de aviões e na provisão de
celulose para explosivos, como também ao fabrico de papel para jornais.
Da Noruega também vinham ligas de ferro e produtos de acetileno,
importantes para o preparo de aço e construções navais. Tais produtos,
agora à disposição da Alemanha, teriam de ser substituídos pelos aliados
por abastecimentos de fontes menos adequadas.
Havia, é verdade, outras considerações que até certo ponto perturbavam
esse equilíbrio. Para começar, a Dinamarca tinha uma balança comercial
favorável com a Inglaterra, enquanto da Alemanha comprava mais do que
lhe vendia. Isto significava que a Dinamarca obtinha fundos da Grã-
Bretanha e os empregava na Alemanha, obtendo assim uma certa soma de
câmbio estrangeiro que não mais estaria à disposição do Reich. Também,
embora a nova conquista pudesse facilitar a situação alimentar no Reich,
essa vantagem poderia, a certos respeitos, ser temporária. Nenhum país
bastava a si mesmo em matéria de gêneros alimentícios. A Noruega em
particular, com apenas três por cento de suas terras aráveis, dependia de
importações de cereais; e a Dinamarca era uma produtora especializada
para o mercado mundial e dependia a muitos aspectos de abastecimentos
de fora. Isto era particularmente verdadeiro no caso dos adubos e
forragens, ambos os quais provinham de além-mar; e estes,
particularmente as forragens concentradas como a torta oleosa, eram
justamente os de que a Alemanha carecia. Isto queria dizer que, embora a
Dinamarca fosse uma abastecedora por curto prazo de gêneros
alimentícios, surgia a possibilidade de que a carência de forragens
conduziria no inverno a uma considerável matança de gado; e,
entrementes, o problema de abastecer a Noruega de gêneros alimentícios
devia ser resolvido pela Alemanha. Mas essas eram dificuldades que
podiam ser facilmente exageradas. A Alemanha tinha mostrado, no caso
de outras conquistas suas, que podia lidar com essa espécie de situação,
reduzindo o padrão de vida dos povos que mantivesse submissos; e a
imediata instituição de um racionamento rígido na Dinamarca mostrou a
determinação de conservar essa nova conquista por métodos semelhantes.
Um fator importante, contudo, escapava-lhe em grande parte ao controle.
Esse era a navegação dinamarquesa. Era um fator particularmente
importante no caso da Noruega, cuja navegação de quatro e meio milhões
de toneladas era a quarta frota mercante do mundo em tamanho,
ligeiramente superior à frota alemã. Considerável parte dessa frota,
incluindo cerca de cinqüenta por cento dos 272 navios-tanques
noruegueses, já estava fretada pelo governo britânico. Somente pequena
porção dessa frota estava em portos noruegueses quando se verificou a
invasão, e aos navios em alto mar foi ordenado pelo rádio arribassem a
portos neutros ou aliados. Por meio de disposições subseqüentes, um
comitê norueguês com sede em Londres tomou sob controle unificado essa
frota agindo em colaboração com o controle naval anglo-francês
estabelecido logo no começo da guerra. A navegação dinamarquesa,
entretanto, era um problema mais complicado. O governo norueguês podia
agir com os aliados; mas o governo dinamarquês estava sob proteção
alemã e não podia adotar uma atitude hostil ao Reich. Isto significava que
a navegação dinamarquesa, do ponto de vista aliado, era tecnicamente de
um caráter inimigo. Ao mesmo tempo, os aliados não tinham desejo algum
de tratar a Dinamarca como uma potência hostil, e tinham todas as razões
para adquirir e não destruir os navios dinamarqueses. Ao invés de os
apreender ou afundar, os aliados se ofereceram para arrendá-los, sob a
condição de serem transferidos para a bandeira britânica ou francesa e de
que a renda correspondente não passasse para a Alemanha. Essas
condições, entretanto, mostraram-se de difícil aceitação, e durante abril e
maio a maior parte dos 700 navios pertencentes à Dinamarca, dois terços
dos quais em portos neutros ou aliados, permaneceram imóveis. Um
comitê dinamarquês de navegação, organizado pelo ministro da
Dinamarca nos Estados Unidos, negociava com os aliados; e a 23 de maio
foi firmado um acordo permitindo aos navios deixarem os portos neutros
com qualquer destino, a exceção da Alemanha e países sob seu controle.
Mas isto acabou por ser apenas uma concessão temporária, e o destino
final dos navios que continuavam a ostentar o pavilhão dinamarquês
parecia ser provavelmente sua apreensão pelos aliados.
Sob o aspecto estratégico, a conquista da Noruega meridional, em
particular, significava uma vantagem bem definida para a Alemanha. Os
portos noruegueses se prestavam admiravelmente à atividade submarina.
As bases aéreas norueguesas diminuíam para a metade a antiga distância
pelo ar à Inglaterra setentrional, especialmente à base naval de Scapa
Flow. A Alemanha estava, pelo menos potencialmente, numa posição
muito mais favorável para martelar as principais rotas marítimas
britânicas, incluindo as rotas norte e oeste das Ilhas Britânicas, e para
obrigar as forças navais de bloqueio que antes patrulhavam a área entre a
Escócia e a Noruega a estender suas atividades por um raio muito maior. A
importância da nova situação foi demonstrada a 17 de abril com o informe
de que a Grã-Bretanha estava colocando minas ao longo de sua costa
ocidental, principalmente para proteger o estuário do Clyde. A ameaça
ainda era mais potencial do que imediata, pois que o êxito dos submarinos
contra a navegação mercante continuava em declínio, e parecia que as
bases aéreas norueguesas ainda não estavam sendo utilizadas para reides
de longa distância. Mas a
Alemanha, apesar de tudo, estendeu grandemente o alcance de seu poder
ofensivo contra o flanco oriental britânico.
Do ponto de vista negativo, havia também vantagens reais para a
Alemanha. Mesmo que não tivesse usado essas novas posições como
bases para ação agressiva, a ocupação removera o receio de que pudessem
ser tomadas e utilizadas contra ela pelo inimigo. O controle da Dinamarca
e da Noruega era uma proteção para a frente setentrional da Alemanha,
cuja importância ficou grandemente aumentada. porque significava
também o controle sobre o Báltico. E tinha a outra e positiva vantagem de
quase automaticamente significar o controle da Suécia.
A invasão da Noruega alarmara naturalmente a Suécia, receosa pela
própria segurança. E, por mais irônico que pareça, foi o veto russo ao
proposto pacto escandinavo de defesa que livrou a Suécia da obrigação de
entrar na guerra em favor da Noruega. Mas havia sempre a perspectiva de
que, se as forças alemães fossem mal sucedidas, os nazistas exigissem
passagem através da Suécia para homens e abastecimentos. A Suécia
rejeitara de antemão qualquer idéia dessa natureza e alegara firmemente a
intenção de defender sua neutralidade contra qualquer violação. Apoiou
esta alegação com ataques a aviões que lhe sobrevoaram o território e com
protestos enérgicos junto ao Reich contra tais atos. Uma troca de cartas
entre o rei Gustavo e Hitler parece ter levado a Alemanha a dar garantias;
mas o fato decisivo foi o êxito da consolidação do controle alemão na
Noruega. Isto significava, com efeito, que a Suécia caíra
irremediavelmente na órbita alemã, tanto política, como economicamente;
e o começo de negociações comerciais com a Alemanha em fins de abril
indicava o fato da Suécia ter percebido que, com a Alemanha controlando
a entrada do Báltico, o acesso sueco ao mundo exterior era dependente da
boa vontade alemã.
Significava também que os recursos da Suécia estavam mais
completamente do que nunca à disposição da Alemanha, e especialmente
que a Alemanha tinha agora garantido um fornecimento contínuo de
minério de ferro sueco. Isto era de importância capital, pois que das
importações alemães de minério de ferro no total de 24.000.000 de
toneladas em 1938 quase 11.000.000 de toneladas provinham da Suécia, e
a sua alta qualidade tornava-a indispensável à indústria alemã de
armamentos. Normalmente, o grosso dessa importação seguia o caminho
de Narvik, e esse porto no momento não mais era utilizável. Mas as
importações alemães por essa rota vinham mostrando forte declínio desde
o início do ano; e com a abertura da rota do Báltico acreditava-se que
Lulea e outros portos suecos, embora mais limitados em capacidade que o
de Narvik, podiam encarregar-se do grosso das exportações necessárias.
Por outro lado, os aliados estavam agora grandemente privados do acesso
ao minério sueco. A Grã-Bretanha, em fevereiro, recebera, em realidade,
mais minério de Narvik que o recebido pela Alemanha. Os dois milhões
de toneladas de minério que ela normalmente importava da Noruega e
Suécia representavam apenas uma terça parte de suas importações, mas
sua alta qualidade tornavam-no de grande importância, e a indústria
britânica de aço estava provavelmente destinada a enfrentar certa
dificuldade antes de poder conseguir uma fonte substituta de
abastecimentos.
A Queda de Chamberlain
O colapso da campanha norueguesa levou ao auge uma crise política que
havia muito se vinha desenvolvendo. Nas primeiras etapas da invasão
nazista, o público tinha sido encorajado a acreditar que Hitler tinha dado
um passo descuidado, cujas conseqüências cedo sentiria. Com o passar do
tempo sem que essas conseqüências surgissem, crescente obstinação se
tornou aparente; e com a revelação da completa falta de habilidade dos
aliados na realização de um contra-golpe decisivo, o sentimento de
decepção achou vasas numa explosão de ira contra o governo, e
especialmente contra o primeiro ministro.
Mas o responsável não era apenas o fracasso norueguês. Como Attlee
disse durante debates subseqüentes: "Reina grande ansiedade entre o povo
deste país, que não está convencido de que a guerra está sendo conduzida
com suficiente energia, capacidade, força e resolução. e isto não somente
na Noruega. A campanha norueguesa é o auge de outros
descontentamentos". Isto ficou delimitado pela diferença na atitude geral
em relação a Chamberlain e Churchill. Este era responsável pelo
Almirantado, cuja política foi alvo de considerável crítica sob a acusação
de falta de audácia crítica orientada pelo almirante Keyes, que se mostrava
ressentido com a rejeição de sua oferta de dirigir um ataque a Trondheim.
Churchill falara de modo otimista a respeito da ação de Hitler,
classificando-a de "erro estratégico e político tão grande como o cometido
por Napoleão ao invadir a Espanha." Prometera que os exércitos aliados
iriam "limpar o solo dos Vikings da imunda mácula da tirania nazista".
Mas Churchill, fossem quais fossem os seus enganos, teve pequena parte
na responsabilidade pelas grandes deficiências que tinham condenado a
campanha ao fracasso. Logo que Hitler começara a rearmar-se, ele tinha
estado a martelar o governo, num esforço para persuadi-lo
da necessidade de se preparar para a luta vindoura. E agora apontava para
antecedentes de que não teve culpa quando dizia: "A razão da séria
desvantagem decorrente da falta de iniciativa nossa é daquelas que não
podem ser rapidamente removidas. Foi falha nossa não termos nos últimos
cinco anos mantido ou reconquistado a paridade com a Alemanha no ar.
Esta é uma velha e comprida história."
Por outro lado, Chamberlain não podia deixar de compartilhar uma parte,
ao menos, de tal situação. E à luz do fracasso norueguês, toda a política do
governo chamberlainiano começou a assumir uma perspectiva diferente
aos próprios olhos dos que o apoiavam. A lembrança de tentativas inúteis
para apaziguar os ditadores, a exclusão inexorável de seu conselho de
homens que advogavam uma orientação mais briosa, a carência de vigor
mesmo depois de iniciada a guerra e o otimismo frívolo de alegações
como que "Hitler tomou o bonde errado" - tudo isso agora refluiu sobre
ele. Qualquer possibilidade que tivesse de recuperar a posição era desfeita
pela sua arrogante impenitência. A desculpa implícita em seu discurso de
7 de maio visava menos o fracasso da expedição do que o fato mesmo de
tal expedição ter sido enviada. Recusava-se a estudar quaisquer mudanças
sérias de pessoal ou a criação de algum gabinete de guerra realmente
eficiente. Reiterou a convicção de que "a balança das vantagens até o
presente pende para o lado das forças aliadas". Era claro que sob sua
chefia não se poderia esperar um novo impulso de vigor ou imaginação.
O resultado foi uma revolta dentro do próprio Partido Conservador contra
a continuação dessa inexorável falta de habilidade. Este foi o fato vital em
torno da votação de 8 de maio na Câmara dos Comuns. O governo estava
à superfície, sustentado por uma votação de 281 contra 200. Mas o Partido
Conservador na Câmara somava 365 membros, e destes apenas 252
votaram pelo governo. Entre os 65 conservadores que não tinham votado
pode ter havido algumas abstenções normais, mas o grosso se abstivera
deliberadamente de votar como expressão de sua desaprovação. Os 33
conservadores que votaram contra o governo incluíam figuras
proeminentes tais como Duff Cooper, L.S. Amery, Leslie Hore-Belisha e
Lord Winterton todos eles antigos ministros conservadores. Todos os
membros conservadores dos serviços de guerra presentes à sessão votaram
contra o ministério.
Apesar da maioria de Chamberlain, portanto, a votação era uma clara
condenação de sua chefia. Ele tentou ainda endireitar a situação, alargando
as bases do ministério. Mas os líderes trabalhistas se recusaram a unir- se a
uma administração de que Chamberlain fosse o chefe, e essa recusa
resolveu o caso. A 10 de maio, Chamberlain renunciou, e Churchill teve
coroada a sua movimentada carreira com a obtenção, afinal, da pasta de
primeiro ministro.
Mas a esta altura os aliados se defrontaram com uma nova crise, muito
mais grave, pois Hitler lançou todo o poderio de seus exércitos contra os
Países Baixos.
A Invasão dos Países Baixos
A confiante inocência da Dinamarca e da Noruega, que se deixaram
apanhar completamente de surpresa, estava longe de ser partilhada pelos
pequenos países à fronteira ocidental da Alemanha. Logo desde o
renascimento da Alemanha como potência militar, eles vinham tendo
plena consciência dos perigos com que se iriam defrontar no caso de uma
nova guerra no oeste. A topografia dos Países Baixos, que oferecia menos
obstáculos naturais que o terreno mais para o leste, tomava-os o caminho
mais adequado para um exército de invasão que partisse quer da França
quer da Alemanha. A tentação era aumentada pela sua relativa carência de
obras artificiais de defesa, quando contrastadas com as pesadas
fortificações de ambos os lados da fronteira franco-alemã. Uma investida
através da Holanda e da Bélgica era algo que os chefes militares tanto da
Alemanha como dos aliados tinham que ter em vista como uma
possibilidade sempre presente.
Os Países Baixos, por sua vez, estavam completamente alertas quanto a
essa perspectiva. Nos primeiros dias da guerra, ela chegou muito perto da
realização durante a crise de novembro; e novamente em janeiro um
ataque alemão pareceu iminente. O irromper das hostilidades na
Escandinávia mostrou o quanto as pequenas nações neutras estavam
expostas à cruel agressão nazista e prenunciou ações alemães mais vastas
no oeste. A Bélgica, a 10 de abril, cancelou as licenças no exército. A
Holanda também começou a tomar precauções, que a levaram a reforçar
suas tropas nas áreas fronteiriças de Limburg e Bradant a 12 de abril e a
inundar a região em torno de Utrecht. A lei marcial já estava em vigor em
certos distritos; e a 19 de abril o estado de sítio foi estendido a todo o país.
Com a lição das atividades quinta-colunistas da Noruega diante delas,
tanto a Holanda como a Bélgica começaram a deter pessoas suspeitas em
posições-chave - se bem que no caso da Holanda pelo menos tais medidas
se mostrassem por demais limitadas no seu intuito.
A 7 de maio estava claro que tais precauções tinham e muito bem - a uma
razão de ser. Nesta data, chegou aos Países Baixos a informação de que os
alemães estavam concentrando tropas rapidamente em pontos- chave ao
longo da fronteira. O governo imediatamente cancelou as licenças no
exército, convocou certas classes de reserva, fechou vários canais internos
e suspendeu todas as mensagens telefônicas e telegráficas para fora do
país. A imprensa semi-oficial alemã ensaiou uma surpresa compungida à
idéia de que os Países Baixos se considerassem ameaçados, e apontou
insistentemente os Bálcãs como sendo o real foco do perigo. Depois, com
todos os preparativos completos, o governo alemão entrou a vociferar
contra a falsidade aliada em utilizar a situação do Mediterrâneo como uma
cortina de fumaça destinada a mascarar suas intenções a respeito dos
Países Baixos, desígnios esses que a Alemanha tinha que neutralizar,
tomando sob sua proteção aqueles países. Na madrugada de 10 de maio, os
exércitos alemães invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo.
As Defesas dos Países Baixos
O poder defensivo dessas novas vítimas da ofensiva nazista, se bem que
limitado em extensão e recursos, não era de modo algum desprezível. O
pequeno Grão Ducado de Luxemburgo, com a sua população de 600.000
habitantes, não poderia naturalmente oferecer nenhuma resistência eficaz.
Mas a Holanda e a Bélgica, ambas a esse tempo plenamente mobilizadas,
tinham em armas cerca de 400.000 e 600.000 homens respectivamente; e
possuíam sistemas de defesa que, esperava-se, compensariam, em certos
aspectos, a falta de defesas naturais.
Entretanto havia também sérias omissões que, por algum tempo, tinham
preocupado seriamente os peritos militares. Até certo ponto, essas
omissões eram o resultado inevitável da atitude política dos dois países.
Em sua insistência por uma rígida política de neutralidade, tanto a Bélgica
como a Holanda haviam recusado todas as sugestões para entrarem em
planos específicos destinados a dar-lhes o auxílio aliado de que agora
necessitavam de modo tão premente. A Holanda permanecia
orgulhosamente isolada, sem garantia alguma de assistência exterior em
caso de invasão. A 19 de abril ainda, o premier de Geer tinha anunciado
numa irradiação: "Até onde o auxílio humano alcance, contamos somente
com nós mesmos. Além disso, temos de ambos os lados a promessa de que
a nossa neutralidade será respeitada até que a mantenhamos, e sobre isto
não pode haver dúvida alguma. Portanto, não queremos arranjos e mesmo
os evitamos." Se por fim os holandeses mostraram certo ressentimento
pelo fato de um eficaz auxílio aliado não ter chegado a tempo, esse atraso
era, em grande parte, conseqüência da atitude que aqueles países haviam
adotado.
A atitude da Bélgica foi semelhante. Até 1936, a Bélgica mantivera uma
aliança militar com a França. Mas com a ascenção de Hitler e a
perspectiva de nova luta, o rei Leopoldo achou que a volta a uma posição
de neutralidade era preferível a uma situação que significava a certeza de
nova invasão, no caso da guerra rebentar. Em 1937, portanto, ela foi
libertada de seus compromissos. Mas tanto a Grã-Bretanha como a França
reafirmaram a garantia dada em Locarno de socorrer a Bélgica em caso de
invasão, e o governo alemão assegurou a determinação "de respeitar
sempre o território belga", desde que a Bélgica deixasse de se envolver em
atividade militar contra o Reich.
Em resultado dessa nova posição, Leopoldo achou-se obrigado a abster-se
mesmo de conferências militares com os aliados. "As alianças", disse,
"mesmo as defensivas, não nos serviriam, porque, por mais pronto que
fosse, o auxílio não nos poderia alcançar antes do primeiro choque do
invasor, que poderia ser sobrepujante e contra o qual devemos preparar-
nos a lutar sozinhos." Todos os esforços aliados para chegar a um acordo
que lhes facilitasse o auxílio mais rápido possível foram inúteis em face
dessa atitude. Leopoldo acreditava que poderia manter a neutralidade
permanecendo à parte, e que qualquer cooperação com os aliados
convidaria certamente a um ataque. Em dezembro, seguindo-se ao medo à
guerra do mês anterior, houve certo contato entre os estados maiores
militares, mas o rei rejeitou tanto a unidade de comando como um plano
combinado de campanha. A Bélgica, acreditava, era dez vezes mais forte
defensivamente do que em 1914, e havia menos risco em ficar sozinha do
que em planejar a aceitação de um auxílio definitivo; e mesmo a lição da
Noruega não o induziu a aceder aos apelos dos aliados.
O acontecimento iria provar que seus cálculos eram otimistas demais. A
Bélgica podia ter sido mais forte que em 1914, mas agora tinha de
enfrentar os métodos novos e muito mais devastadores de 1940. e para
essa tarefa não estava de modo algum equipada. O custo do rearmamento
significava que ela tinha sido incapaz de adquirir alguns dos mais
dispendiosos armamentos, inclusive artilharia pesada e equipamento
mecanizado. Estava com falta tanto de tanques como de canhões anti-
aéreos; e, o que era ainda mais sério,
era fraca em aviões de primeira linha e defesa anti-aérea. Dado o caráter
da blitzkrieg hitleriana, eram essas deficiências de primeira grandeza.
Mais ainda, a atitude da Bélgica em relação aos aliados era paralela à
atitude da Holanda em relação à Bélgica. Os holandeses se recusaram a
considerar não apenas planos de defesa coordenada com a Bélgica, mas
mesmo a eficiente continuidade de fortificações fronteiriças. Sua primeira
real linha defensiva, ao longo do Ijssel, era uma continuação da linha
belga do Mosa. Mas ela não oferecia nenhuma grande barreira; e a posse
pelos holandeses da fortaleza de Maastricht significava que eles
mantinham um ponto de vital importância para o sistema defensivo belga,
mas que os próprios holandeses, em parte devido a dificuldades de ordem
geográfica, dificilmente poderiam esperar defender por mais de um
período muito breve.
Atrás dessa linha de pouca profundidade, as defesas belgas e holandesas
deixavam de ter qualquer ligação. Conforme declarou o presidente da
comissão de defesa nacional do Senado belga a 26 de dezembro, havia
entre os dois sistemas um corredor desguarnecido de 65 km. de largura.
Uma penetração inimiga nessa área, vinda de leste, dividiria os dois países
e ameaçaria a posição belga no flanco mais fraco. A posição holandesa,
consistente principalmente de defesas resultantes do aproveitamento de
canais e zonas inundáveis, era a linha Grebbe, cerca de 30 km. a leste de
Utrecht, estendendo-se à fronteira belga, mas não fazendo ligação alguma
com a linha do canal Alberto. E na região de Utrecht ficava a principal
linha protegendo a parte rica e populosa do país, a Holanda ocidental - de
novo uma linha de que as defesas aquáticas formavam os principais
esteios. Era um sistema tanto tradicional como não dispendioso que
convinha à frugalidade holandesa; mas por mais eficaz que pudesse ter
sido no século XVII era dificilmente adequado a uma guerra do século
XX.
As defesas belgas eram mais modernas e mais lógicas. Ao sul, o difícil
terreno das Ardennes era uma defesa avançada a proteger a principal linha
ao longo do Mosa. Ao norte, o Canal Alberto oferecia uma defesa
reforçada por uma cadeia de casamatas que, toscamente, faziam paralelo
com a fronteira holandesa desde Antuérpia até o Mosa. E ao centro, a
proteger as Ardennes e a fronteira holandesa, estavam os fortes de Liège,
modernizados e aumentados desde 1914 e acrescentados à junção do Mosa
e do Canal Alberto com o novo forte de Eben Emael. Onde o sistema
holandês podia, na melhor das hipóteses, conseguir uma ação retardadora,
os belgas podiam esperar que suas defesas mantivessem a resistência até a
chegada de auxílio eficaz.
Mas eles precisavam de tal auxílio, e precisavam que viesse depressa.
Logo após ter sido iniciada a invasão, o governo belga apelou para a Grã-
Bretanha e França. "O governo belga", dizia a sua mensagem, "está
resolvido a resistir com todas as suas forças à agressão de que o país é
mais uma, vez objeto. Ele apela para os governos da República e do Reino
Unido no sentido de que o auxílio previsto em tratados e confirmado pela
declaração em comum de 24 de abril de 1937 lhe seja estendido com a
maior brevidade possível."
Apoio Aliado
Os aliados já haviam previsto as medidas a tomar em tal situação. Estavam
plenamente cônscios do perigo que seria oferecido ao seu flanco esquerdo
por uma investida alemã através dos Países Baixos, e suas representações
à Bélgica sobre a necessidade de medidas de defesa comum tinham sido
uma tentativa para enfrentar essa ameaça. Quando a Bélgica se recusou a
escutá-los, os aliados se decidiram a salvaguardar suas posições por outros
meios. A Linha Maginot, projetada ao tempo em que se esperava a Bélgica
se aliasse à França, não tinha sido construída ao longo da fronteira belga,
que ainda estava aberta quando a guerra começou. De setembro em diante,
portanto, os franceses diligenciaram a construção de um sistema
suplementar de fortificações naquela área. Essas construções não eram tão
completas e tão permanentes como a Linha Maginot, pois que tinham sido
baseadas ao princípio da defesa de profundidade, numa rede de fortins
isolados, entremeados de armadilhas para tanques e outras defesas
acessórias; mas, ao que parecia, os franceses tinham pouca dúvida de que,
devidamente guarnecida, essas defesas seriam perfeitamente adequadas
para repelir o invasor.
Havia, na verdade, uma corrente de opinião no Alto Comando Francês a
qual defendia a retenção das principais forças aliadas nessas posições
defensivas, mesmo que os Países Baixos tivessem de ser deixados
entregues ao seu destino. Mas essa atitude era combatida por outro grupo e
pelos britânicos, que achavam que a garantia dada aos belgas devia ser
cumprida e que a costa belga não tinha de ser entregue ao inimigo sem
luta. Também pode ter havido a impressão de que a invasão alemã abriria
oportunidade para um contra- golpe decisivo. Conforme pouco antes da
invasão afirmou um escritor militar belga. "A invasão dos Países
Baixos envolveria uma grande derrota diplomática alemã. Parece pouco
provável que a Alemanha se exponha a tal probabilidade."
Quando chegou o apelo do rei Leopoldo, portanto, os aliados já se tinham
decidido por um plano de ativa assistência. Duas horas depois, tropas
aliadas estavam em movimento. Seu destino principal era a parte da linha
ao sul de Louvain, embora pelo menos um batalhão tivesse sido enviado à
Holanda, na esperança de que chegasse a tempo de poder ajudar os
holandeses. Algumas unidades francesas tomaram posições em direção à
costa, mas a ala esquerda era mantida principalmente pelos belgas, com o
grosso da Força Expedicionária Britânica ao centro e os franceses ao sul,
particularmente ao longo do Mosa. As guardas avançadas dos aliados em
marcha estabeleceram contato com o inimigo a 13, e a 15 os seus corpos
principais estavam em posição.
A esse tempo, entretanto, já os alemães tinham conseguido êxitos tão
substanciais que tornou todos os planos aliados obsoletos e fez
desmoronar todo o conceito que estes faziam da natureza da guerra. A
tática empregada pelos alemães na sua investida ocidental já tinha sido
prenunciada na Polônia, mas a importância da lição polonesa, ao que
parece, não foi muito bem apanhada pelo Alto Comando Aliado. Em
conseqüência, conquanto a invasão dos Países Baixos não tenha sido em si
uma surpresa, o elemento de surpresa estava contudo presente, aqui como
na Noruega, como um resultado dos métodos táticos empregados pelo
inimigo.
Esses métodos foram possibilitados pelo motor a gasolina. Os resultados
obtidos com as unidades mecânicas combatentes em terra e no ar
ofereciam novas possibilidades de rapidez e poder ofensivo aproveitados
ao máximo pelos nazistas. O uso de bombardeiros de mergulho para
aplainar o caminho, de tanques para efetuar a ruptura inicial de linhas, de
infantaria motorizada para explorar ou consolidar o avanço, ofereciam um
novo espetáculo de coordenação precisa e efetiva. E outro elemento de
surpresa foi injetado pelos ataques, não somente às linhas aliadas como à
retaguarda. Até uma extensão considerável, esses ataques foram assistidos
por aqueles membros da quinta-coluna nazista, particularmente na
Holanda, que tinham sido preparados com instruções precisas para
desempenhar sua parte essencial.
Mas foi o lançamento de tropas em pára-quedas e o desembarque de outras
com botes a motor e aviões de transporte que tornaram possível a captura
de posições vitais e a conquista da Holanda em cinco dias.
A Conquista da Holanda
Esse foi o primeiro passo em torno do qual os alemães se concentraram.
Simultaneamente com o assalto à fronteira, que resultou na tomada de
Maastricht e na invasão da Holanda setentrional, um ataque foi desfechado
do ar contra Roterdã e as posições-chave ao longo do Mosa. Aviões de
transporte aterrissaram e capturaram o aeroporto de Waalhaven.
Hidroaviões com mais tropas desceram no rio Mosa. Residentes alemães,
que se tinham reunido durante a noite numa ilha sobre o rio, onde o
edifício de concreto que servia de sede aos escritórios de uma companhia
alemã de navegação formava um quartel-general ideal, contribuíram com a
tomada das pontes que davam acesso à cidade. Outros transportes aéreos
desceram no aeroporto durante o dia, até que um reide aéreo britânico pô-
lo parcialmente fora de ação. Embora os holandeses, depois de dura luta,
tivessem conseguido expulsar os alemães das posições obtidas na cidade,
estes continuaram a manter o aeroporto e a margem esquerda até serem
alcançados pelas principais forças alemães vindas do leste.
Foi, de novo, a força mecanizada que tornou possível esse avanço rápido.
As defesas holandesas não conseguiram resistir aos ataques em massa dos
bombardeiros ou de paralisar o assalto dos tanques alemães. As defesas
aquáticas com que se contava para deter os tanques foram transpostas
quando o assalto aéreo capacitou os destacamentos alemães a cruzar os
rios e canais e a manter um ponto de apoio até que os engenheiros
ergueram pontes para a passagem dos tanques. A tomada da ponte de
Moerdijk por tropas pára- quedistas evitou a demolição desta e permitiu
aos alemães flanquear o todo das principais defesas aquáticas holandesas
e, no quarto dia da campanha, isolar o grosso das tropas holandesas de
quaisquer reforços vindos do sul.
Entrementes, as principais cidades da Holanda eram submetidas a furiosos
ataques aéreos. Roterdã encontrava-se em chamas e parcialmente
destruída. Amsterdã era pesadamente bombardeada. Tanto em Amsterdã
como em Haia, elementos quinta-colunistas desfechavam ataques a
posições-chave, auxiliados por tropas pára-quedistas. A 13 de maio, a
rainha Guilhermina e o governo holandês partiram para a Inglaterra,
deixando no cargo o comandante-chefe, general Winkelinan. No dia
seguinte, já tomada Roterdã e Utrecht
ameaçada de completo aniquilamento, estava claro que a Holanda se
achava no fim de uma resistência efetiva. As autoridades holandesas
alegaram que ao fim de cinco dias de luta o exército tinha sofrido 100.000
baixas, isto é, uma quarta parte de seus efetivos. A 14 de maio, com a
finalidade de evitar mais destruição e carnificina, rendeu-se toda a
Holanda ao norte do Mosa, e no dia 17 a província de Zeeland que ainda
combatia cessou a resistência. Após uma quinzena de governo militar, a
nação que fôra subjugada em cinco dias foi posta sob o controle do dr.
Seyss-Inquart - nome que evocava calamitosas recordações da Áustria e
cobria de manto gelado a futura felicidade dos Países Baixos.
A Batalha de Flandres
A eliminação da Holanda do rol dos beligerantes abriu a possibilidade de
um movimento alemão de cerco através da Bélgica setentrional à maneira
do plano de 1914. Entretanto, evidenciou-se logo que se deviam esperar
dificuldades, tanto de caráter estratégico como tático. Da mesma forma
que na Polônia, os alemães seguiram o plano de romper as forças
adversárias e envolvê-las parceladamente. Tendo tomado conta da
Holanda, procuraram em seguida isolar as forças na Bélgica atacando, não
à sua ala esquerda, mas a sua junção com as principais linhas francesas.
O inicial golpe alemão, que rompeu as defesas holandesas, também varreu
a primeira linha belga com desconcertante rapidez. A pronta captura de
Maastricht deixou exposto o Canal Alberto; e a tomada, no segundo dia,
do novo forte de Eben Emael permitiu aos invasores cercar as defesas de
Liège quase no mesmo ponto que em 1914 e voltar-se contra o próprio
Canal Alberto. Os belgas recuaram para uma linha ao longo do rio Dyle,
onde as forças aliadas se lhes reuniram, mas não antes que Namur tivesse
sido envolvida (se bem que seus fortes, como os de Liège, continuassem a
resistir) e Louvain fosse alcançada pelos alemães. Mas, embora a pressão
continuasse nessa região, estava claro a 15 de maio que toda a força da
ponta de lança alemã estava sendo lançada contra as posições francesas do
Mosa.
Quando os aliados deixaram suas posições preparadas para penetrar na
Bélgica, eles realizaram aquilo que na realidade era uma conversão à
direita, cujo pião se fixava em Sedan. As posições resultantes ao longo do
Mosa formavam um ângulo reto com o prolongamento da Linha Maginot
de Montmedy a Mézières. Com isso, deslocaram numerosas unidades que
mantinham esse setor especial. Ele deixou aquela parte da linha
temporariamente fraca; mas os aliados contavam com as defesas das
Ardennes belgas para retardar o inimigo e impedir qualquer assalto sério.
Esse foi um erro sério, talvez mesmo fatal. As forças mecanizadas alemães
irromperam através do terreno difícil das Ardennes, com seus bosques e
elevações, com uma velocidade espantosa. Sua rapidez levou de vencida
as forças relativamente leves daquele setor e evitou a destruição de
estradas e
pontes, o que poderia retardar o avanço. Os invasores golpeavam a linha
do Mosa, enquanto as tropas destinadas a reforçar o setor de Sedan ainda
se deslocavam para tomar posições. De acordo com Reynaud, essas tropas
comandadas pelo general Corap eram de qualidade inferior, menos
solidamente treinadas e dispondo de oficialidade menos eficiente que as
que estavam substituindo. Haviam sido postadas ao longo do Mosa,
organizadas em pouca profundidade, e metade das divisões de infantaria
ainda não estavam em posição a 14 de maio. Quando os alemães
investiram contra o Mosa, entre Namur e Sedan, foram capazes, em parte
porque também aí algumas pontes não tinham sido destruídas, de efetuar
travessias em três lugares e de conseguir uma ruptura da linha entre Sedan
e Maubeuge, ameaçando assim com o envolvimento de todo o sistema
francês de fortificações. A 19 de maio, um corredor de 100 km. de largura
já tinha sido aberto entre os exércitos franceses a leste e as forças aliadas
na Bélgica. Não mais era simplesmente um "saliente", como tinha sido
dito a princípio. Estava sendo alargado e aprofundado por uma pressão
constante, que chegou ao auge quando, a 21 de maio, as colunas alemãs
abriram caminho para o oeste e atingiram a costa em Abbeville.
Esse êxito surpreendente tinha a explicação básica na simples máxima
enunciada por Frederico, o Grande: "As batalhas são ganhas pela
superioridade de fogo." Os alemães, nesses encontros, foram capazes de
lançar maior peso de metais que seus adversários. Isto era devido tanto à
superioridade alemã em equipamentos mecanizados como à eficiência
com que esse equipamento foi utilizado. Como na Polônia, a sua
superioridade no ar foi utilizada primeiro para destruir os aeroportos
franceses nos reides em massa contra Nancy e outros centros, a 10 de
maio, e depois para facilitar o assalto preliminar contra a infantaria
defensora, assalto que aplainou o caminho para o ataque terrestre. A força
aérea aliada retribuiu com eficácia dentro de seus limites, hostilizando as
colunas alemães de suprimentos e penetrando profundamente na Renânia e
na Alemanha meridional para atacar centros ferroviários e os depósitos de
combustível que
continham as reservas tão essenciais a uma guerra mecanizada. A 15 de
maio, a R.A.F. entrou em plena ação contra os alemães que estavam
transpondo o Mosa, e contribuiu para que fosse evitado um desastre
imediato, ao preço da perda de trinta e cinco aviões. No decorrer desses
dias de combate, ficou perfeitamente comprovada a superior qualidade dos
aviadores e aparelhos aliados. Mas isto não pôde contrabalançar a carência
em número; mesmo que as perdas alemãs registrassem uma proporção de
quatro para uma, conforme declaração britânica, a vantagem não era
grande bastante para manter o equilíbrio no ar.
Quanto aos tanques, a vantagem alemã ainda era maior. Os alemães
tinham pelo menos dez e possivelmente doze divisões blindadas, somando
cerca de cinco mil tanques. Contra estes, os franceses possuíam no
máximo quatro ou cinco divisões e os britânicos uma. Causava este fato
fraqueza na defesa e mais ainda nos contra-ataques. Os alemães revelaram
a posse de tanques lança-chamas (possivelmente a "nova arma secreta"
que dominou o forte de Eben Emael) e de tanques gigantes de setenta ou
oitenta toneladas, cuja armadura resistia ao fago dos canhões anti-tanques
e fez com que entrasse em ação os canhões 75 franceses, que atiravam
com alça zero. Foi realmente triste chegar-se à conclusão de que os mais
eficientes desses tanques, e os mais difíceis de deter-se por meios
ordinários, haviam sido provavelmente construídos na Tchecoslováquia.
A superioridade alemã nesses pontos essenciais era acentuada pela estreita
cooperação das duas armas. O choque inicial, efetuado pelos
bombardeiros de mergulho, que tomaram o lugar da barragem de artilharia
da guerra passada, foi imediatamente seguido por um assalto mecanizado,
enquanto os defensores ainda se encontravam confusos pelo primeiro
choque. Assim que os tanques pesados descobriram os pontos débeis da
linha, arremeteram por eles e, seguidos por veículos blindados mais leves,
abriram-se em leque e atacaram as zonas mais à retaguarda, forçando
assim uma precipitada reorganização da linha para enfrentar a ameaça
vinda de nova direção. Os defensores, desse modo desequilibrados, não
tinham oportunidade real de se recompor, já que os alemães mantinham a
iniciativa por meio de golpes sobre golpes. Os esforços dos aliados para
cortar o corredor por meio de contra-ataques obtiveram alguns êxitos
iniciais, mas não conseguiram de modo algum, nenhum resultado
permanente; e, através da brecha entre Bapaume e Peronne, os alemães
foram capazes de obter reforços que obrigaram os franceses a recuar para
trás do Somme e fizeram a volta pela costa para envolver as forças aliadas
ao norte.
Retirada da Bélgica
Os chefes aliados cedo perceberam o perigo que representava para essas
forças a rapidez do avanço alemão sobre o Mosa. A 12 de maio, já estava
claro que esse avanço oferecia séria ameaça às posições aliadas no rio
Dyle, e que a situação ao sul tornava desejável uma retirada. A insistência
do rei Leopoldo, entretanto, que protestou contra a rendição de Bruxelas e
Antuérpia, a ordem foi retardada até o dia 15. Com a ruptura pelos
alemães das linhas aliadas em Sedan, a retirada tornou-se inevitável e, a 17
de maio, as forças aliadas recuaram para trás de Bruxelas (de onde o
governo belga saíra para Ostende) e ocuparam uma linha que corria de
Lille, ao longo do Escalda em frente a Ghent, para um ponto a oeste de
Antuérpia, cidade que is alemães entraram no dia seguinte.
Com o irrompimento alemão para o Canal, a 21 de maio, a situação dos
exércitos setentrionais tornou-se extremamente precária. Eles agora
estavam cortados de socorros diretos do sul e dependentes, para efeito de
suprimentos e reforços dos portos do Canal. Mas o irrompimento alemão
para a costa, acompanhado de violentos ataques aéreos aos próprios
portos, ameaçava cortar essas vias finais de comunicação. A 23 de maio,
luta pesada se desenvolvia em torno de Boulogne, de onde a guarnição foi
evacuada dois dias mais tarde por destróieres que repeliram os tanques
alemães em avanço a uma distância quase do tiro com alça zero. A 26, os
alemães proclamaram a queda de Calais, embora a guarnição aliada,
isolada e dependente de provisões vindas do ar, mantivesse a cidadela por
mais quatro dias. Com Ostende já ameaçada, apenas um porto, o de
Dunquerque, permanecia aberto para os aliados.
Então, a 28 de maio, a última esperança de manutenção desse porto
pareceu desfazer-se com a decisão do rei Leopoldo de fazer com que as
tropas belgas se rendessem aos alemães.
"Em plena batalha", disse Reynaud numa irradiação no mesmo dia, "o rei
Leopoldo III, sem uma palavra aos soldados franceses e britânicos, que,
em resposta ao seu angustioso apelo, tinham acorrido em socorro ao seu
país, depôs as armas." A amargura dos aliados era compreensível. Mas se
de fato a rendição os apanhou de surpresa, a intenção do rei, se bem que
não a sua decisão final, parece que lhes foi comunicada alguns dias antes.
Com certeza houve uma sessão noturna que durou até às 5 da madrugada
no dia 25 de maio, sessão em
que seus ministros em vão procuraram demovê-lo de seus propósitos.
Quando ele persistiu, os ministros lhe denunciaram a ilegalidade da
medida sem uma sanção ministerial, e declararam que o governo belga
continuaria com novas forças ao lado dos aliados. O próprio Leopoldo
buscou uma saída solicitando aos alemães um armistício; mas quando este
foi recusado, optou pela rendição incondicional.
Não há dúvida alguma de que suas razões baseavam-se na convicção de
que a situação militar era sem esperança. Churchill, a 4 de junho, tinha
dito que desde a ruptura da linha do Mosa "somente uma rápida retirada
para Amiens e para o sul podia ter salvo os exércitos britânicos e francês";
mas acrescentou que o único motivo que evitou a efetivação dessa retirada
foi o fato de ter ela acarretado a destruição do exército belga e a rendição
de todo o país. Essa era a perspectiva com que o rei, que se recusara a
reconhecê-la uma quinzena antes, agora se defrontava. Enquanto as
colunas alemães avançavam rapidamente em direção à costa, as principais
forças alemães ao norte lançaram todo o seu peso contra as forças belgas.
Impeliram os aliados para além do Escalda, tomando Ghent e Courtrai, e
efetuaram em seguida uma arremetida que as levou através do Lys e
deixou Bruges sob seu fogo. Quando o caminho da retirada estreitou-se, a
destruição do exército belga tornou-se iminente, e com ela a perda de toda
a Bélgica. Na esperança de resguardar algo de seu país e de sua própria
autoridade, Leopoldo, por sua própria responsabilidade, fez a paz.
Pareceu a princípio que tal atitude acarretava a destruição certa dos aliados
que tinham vindo em seu socorro. Com a sua ala esquerda repentinamente
exposta, e os esforços para cortar o corredor do Somme repelidos com
mais perdas, pareceu difícil de se crer que pudessem abrir caminho para o
sul ou escapar através de Dunquerque antes que a armadilha se fechasse ao
todo. A 29 de maio, o comunicado oficial alemão anunciou que o destino
dos exércitos franceses e britânicos estava selado.
O que se seguiu foi um triunfo da disciplina e do moral. O flanco exposto
foi rapidamente reorganizado para formar uma frente contínua. A área em
torno de Dunquerque foi inundada para constituir uma barreira extra aos
ataques mecanizados. Os corpos de tanques franceses que lutavam ao
redor de Lille efetuaram uma heróica ação de retaguarda sob o comando
do general Prioux; e mesmo quando os alemães os separaram do grosso
das forças, parte dessas forças conseguiu romper caminho para a frente.
Vagarosamente e em boa ordem, diante de um inimigo que empregou todo
o seu poderio procurando esmagá-los, os exércitos franceses e ingleses
recuaram em direção a Dunquerque.
Ali, as forças navais dos dois países empreenderam uma das ações mais
difíceis que se pode imaginar, o embarque de um exército batido em face
de violenta perseguição. Muita gente se recorda das operações de Corunna
há mais de um século; mas Sir John Moore não teve nessa ocasião que
enfrentar uma força aérea inimiga. Os bombardeiros alemães atacaram
sem cessar tanto as tropas retirantes como os navios que as recolhiam, e
com particular selvageria a própria Dunquerque. A situação era agora o
reverso do que fôra, na Noruega, com os aviões inimigos a martelar
novamente o ponto de junção entre as forças de mar e terra. Dessa vez,
entretanto, a destruição das instalações portuárias não era tão decisiva.
Elas não mais eram imprescindíveis ao fornecimento de material, e as
circunstâncias tornaram possível embarcar os homens em praias abertas.
Uma vasta flotilha de pequenas embarcações tinha sido reunida para levar
os sobreviventes aos transportes e navios de guerra que os aguardavam ao
largo. Durou cinco dias a evacuação, favorecida por um mar calmo e
parcialmente protegida durante pelo menos dois dias por forte nevoeiro.
Quando a 4 de junho os alemães afinal entraram em Dunquerque, era este
um porto em ruínas de que sua presa escapara.
À vista da magnitude da operação, e da exposição a ataques não somente
da aviação como de submarinos e botes-rápidos munidos de lança-
torpedos, a perda anunciada pareceu surpreendentemente pequena. A Grã-
Bretanha admitiu a perda de seis destróieres e de vinte e quatro pequenas
embarcações, juntamente com 24.000 toneladas de navios mercantes, no
decurso da operação. A França perdera sete destróieres e um navio de
abastecimentos. Quão grande era a força salva da Bélgica, apenas as altas
autoridades o poderiam dizer com exatidão. Churchill anunciou que a
marinha, utilizando-se de quase mil navios de todos os tipos, tinha
carregado 335.000 homens através do Canal. Sua declaração sobre as
perdas, constante de "mais de 30.000" homens, pareceu, na sua deliberada
maneira vaga, ocultar uma certa reticência. Não houve, contudo, tentativa
alguma para reduzir a seriedade das perdas de material, que incluíam mais
de mil canhões e o grosso do equipamento mecanizado britânico, bem
como uma porção não declarada do pertencente aos franceses. Fosse qual
fosse a perda infligida aos alemães atacantes - que uma autoridade neutra
estimou em quarenta por cento de seu equipamento mecanizado - essa
perda era tal que, conforme Churchill advertiu, exigiria bastante tempo aos
aliados para ser reparada.
Um aspecto da evacuação ofereceu uma pequena parcela de conforto para
o futuro. E isso era devido às realizações da força aérea britânica. A
superioridade individual que tinha sido demonstrada de modo cada vez
mais impressionante, mesmo desde o começo da guerra, nunca esteve tão
em evidência como na batalha de Dunquerque. Dessa vez, os caças
britânicos dispunham de bases dentro de seu raio de ação; e se em sua
inferioridade numérica, não foram capazes de manter os bombardeiros
inteiramente afastados, anularam praticamente a sua eficácia durante a
maior parte da evacuação. Sem essa supremacia britânica no ar, toda a
majestade da marinha dificilmente teria podido evitar que a operação
degenerasse num matadouro. "Foi a primeira vez", escreveu um
observador americano, "que as forças de caça inglesas e alemãs entraram
em combate real durante um período tão extenso e em que tanta coisa se
jogava. A superioridade dos aviões ingleses ficou imediatamente
estabelecida."
Aquisições Alemãs
O cômputo dos lucros e perdas resultantes da conquista dos Países Baixos
e do norte da França era ainda de avaliação mais complexa que o da
Escandinávia. Todos esses países eram, até uma extensão considerável,
produtores especializados que estavam longe da auto-suficiência quanto às
necessidades da vida. A Holanda produzia gêneros alimentícios para
menos de três milhões dos seus oito milhões de habitantes. A Bélgica, o
país europeu de maior densidade de população, estava ainda mais
dependente da importação de gêneros alimentícios. Eram esses paises que,
como a Dinamarca e a Noruega, viviam de troca de gêneros com outros
países; e embora a Alemanha ocupasse um lugar importante nesse sistema
de trocas, o processo para ajustar os países conquistados dentro do sistema
econômico alemão iria certamente acarretar profundos reajustamentos,
particularmente para os conquistados.
Na aquisição de bens imediatos, a Alemanha podia provavelmente contar
com um forte saldo credor. Era verdade que ela obtivera relativamente
pouco em ouro ou moeda estrangeira, cuja maior parte havia sido
calmamente evacuada antes da invasão. Os créditos holandeses e belgas
nos Estados Unidos, como os da Dinamarca e Noruega, tinham sido
congelados ao romper das hostilidades por ordem do governo americano.
O grosso da marinha mercante holandesa escapara ao controle nazista. E
embora certos estoques de petróleo tivessem sido adquiridos, os grandes
depósitos, em portos como Flushing e Amsterdã, tinham sido destruídos
antes da rendição.
Mas a Holanda era um grande país mercante com fortes estoques de
gêneros em depósito e em trânsito, e os armazéns de seus portos, como
também cidades como Antuérpia e Dunquerque, representavam sem
dúvida bem-vindas aquisições. A Holanda também, como a Dinamarca,
oferecia um suprimento de gêneros para curto período, baseado nas
grandes indústrias de laticínios e no cultivo de legumes; se bem que, outra
vez como a Dinamarca, a manutenção da produção nesses terrenos
dependesse de forragens e fertilizantes vindos de fora, os quais havia
dúvida de que a Alemanha pudesse fornecer.
Havia, entretanto, aquisições mais permanentes de natureza industrial.
Apesar de haver capturado poucos navios, a Alemanha obteve os maiores
estaleiros da Europa. Essas aquisições nos quatro países conquistados
forneciam uma capacidade total igual à da própria Alemanha. Embora os
estaleiros não pudessem ser adaptados à construção de grandes unidades
navais sem considerável emprego de tempo e dinheiro, poderiam servir
para a construção de submarinos, particularmente desde que tanto a
Dinamarca como a Holanda tinham firmas produzindo motores Diesel.
Mais importantes ainda eram as indústrias pesadas da Bélgica e
Luxemburgo. A Bélgica tinha consideráveis depósitos de carvão, e estes
completados pela aquisição do norte da França, incluindo-se a grande
bacia do Lens, que produzia mais de 30.000.000 de toneladas anuais. O
Luxemburgo, situado à orla da bacia produtora de ferro do Lorena, tinha
uma produção de minério igual a três quartas partes da produção alemã e
fornecia oito por cento das importações pré-guerra da Alemanha. A
indústria pesada da Bélgica. Luxemburgo e norte da França seria uma
valiosa aquisição aos recursos da Alemanha e uma perda correspondente
para os aliados.
Dessas conquistas provinha uma possível desvantagem. A Alemanha, que
extraía trinta por cento de suas importações de pré-guerra desses países,
também os usava como via de suas importações de além-mar. Isto era
especialmente verdadeiro em relação à Holanda, cujo comércio de
trânsito, de um modo geral, era igual à metade de suas exportações e
importações combinadas. Isto se tornou particularmente importante depois
de iniciar a guerra e da instituição do bloqueio aliado. A Holanda, cujas
importações dos Estados Unidos em janeiro de 1940 eram o dobro das de
janeiro de 1939, representava claramente uma lacuna séria no sistema
aliado. Ela agora estaria sujeita aos seus plenos rigores, e a Alemanha
seria incapaz de usá-la como canal para o mundo exterior. Mas o
significado disto não devia ser exagerado. O controle aliado já estava
começando a apertar-se, conforme ficou demonstrado pela queda das
cifras de importação de fevereiro e março, em relação ao nível do ano
anterior. O tratado comercial firmado com a Inglaterra a 21 de março
estabelecia o racionamento das exportações numa base das estatísticas de
antes da guerra: e os comerciantes holandeses, que escaparam à lista negra
aliada, estavam cooperando para que suprimentos essenciais não
chegassem à Alemanha. O rombo já tinha sido reduzido a um orifício
antes da invasão alemã.
Para os países conquistados, o aspecto mais sério da nova situação
econômica consistia no fato de toda a sua economia ter sido baseada no
livre intercâmbio de gêneros no mercado mundial, e de ter sido agora essa
base destruída. Para os aliados, significava a perda tanto de fregueses
como de fontes de suprimento. Cerca de dez por cento do comércio
britânico, cerca de quinze por cento do da França, faziam-se com esses
países. Mas era o aspecto estratégico que oferecia o perigo mais iminente.
A extensão da fronteira alemã contra a Inglaterra, resultante da conquista
da Noruega, era agora ainda mais alongada e numa direção muito mais
perigosa. Pela primeira vez desde os dias de Napoleão, a Inglaterra via a
costa do Canal de posse dum inimigo poderoso. Se a Noruega trouxe os
nazistas a uma distância de ataque de Scapa Flow e às rotas comerciais do
norte, os Países Baixos lhes deram bases aéreas situadas a uma hora de
alcance de bombardeio do coração da Inglaterra industrial, e bases
submarinas cuja importância fôra perfeitamente evidenciada durante a
última guerra. Embora as instalações portuárias de Boulogne e
Dunquerque tivessem sido destruídas antes da evacuação, e embora
Zeebrugge estivesse uma vez mais bloqueada, seria apenas uma questão
de tempo para que fossem postos novamente em condições de utilização -
e possivelmente em condições de muito melhor utilização que as
existentes mesmo em 1918. E, entrementes, a sua posse permitiria
dificultar as comunicações aliadas e tornaria a Hitler mais fácil concentrar-
se contra a Inglaterra ou atacar com todas as suas forças o coração da
França.
A Tomada de Paris
Uma das características da prematura posição aliada de condescendência
tinha sido a afirmativa de que o tempo estava ao lado dos aliados. Mas o
tempo, como depois passaram a perceber, era um aliado inconstante.
Enquanto a França e a Inglaterra puderam permanecer atrás de suas
defesas e preparar-se despreocupadamente para uma luta prolongada,
podia se supor que elas repeliriam com firmeza a inicial investida alemã.
Mas mesmo isso exigia uma ação rápida e enérgica, se quisessem tirar
todas as vantagens dessa situação de calma; e mesmo quando tal situação
terminou, não compreenderam os aliados como havia sido breve este
período.
Com o fim do período de trégua, o tempo passou a favorecer o outro lado.
Tornou-se evidente que a Alemanha estava disposta a usar todo o peso de
sua vantagem para esmagar os aliados antes deles poderem obter
superioridade em organização e equipamento. O tempo, de que
desesperadamente necessitavam, era- lhes negado, pois Hitler lançava
agora golpes sobre golpes antes que seus adversários pudessem recobrar-
se do choque anterior. Mesmo enquanto a última das tropas derrotadas
estava chegando de Dunquerque, os nazistas tinham reunido suas forças
para uma nova arremetida, dessa vez diretamente contra Paris.
Novamente, a advertência preliminar veio em forma de reides aéreos. A 1
o de junho, o vale do Ródano. inclusive a importante área industrial em
torno de Lyon, foi atacado pela primeira vez. A 3 de junho, as primeiras
bombas caíam sobre Paris mesma. Até certo ponto, esses reides
aparentavam ter o agora clássico objetivo de martelar as bases aéreas e
destruir os aviões defensores no solo. E a 5 de junho a Inglaterra, até então
quase imune, experimentou o primeiro de três ataques aéreos sucessivos,
mas em grande parte ineficazes, dirigidos às bases situadas nas costas do
leste e do sul.
O avanço propriamente dito foi iniciado na madrugada de 5 de junho.
Numa frente de 190 km ao longo do Somme e do Aisne, os bombardeiros
de mergulho nazistas desciam sobre as linhas francesas, seguidos pela
infantaria alemã que se deslocava em formação em massa para o assalto.
Dessa vez, os tanques, ao invés de encabeçarem o avanço, foram, segundo
parece, mantidos em reserva, para explorar brechas porventura abertas
pela infantaria. Esse processo, possivelmente, foi motivado pela natureza
das novas defesas, organizadas às pressas, ao longo da linha do Somme e
destinadas especialmente a neutralizar a tática nazista de infiltração. As
tropas mantiveram a posição contra a infantaria atacante. Quando os
tanques surgiram, foram capazes de infiltrar-se entre os postos avançados,
para caírem na armadilha e serem destruídos mais tarde pelas defesas de
tanques da retaguarda.
Confiava-se que essas defesas, se bem que não fossem inexpugnáveis,
pudessem infligir ao inimigo perdas desastrosas. Mas ficou logo claro que
mesmo tais perdas não conseguiram deter o comando alemão, agora
determinado a ministrar um golpe esmagador antes que os remanescentes
do exército de Flandres pudessem ser reorganizados ou que a Linha
Weygand fosse tornada permanente. Os ataques principais, desfechados no
baixo Somme e ao longo do canal Ailette, entre o Aisne e o Oise,
conseguiram penetração durante o primeiro dia nas defesas externas.
Durante dias seguidos, a fúria dos ataques e o número dos atacantes, ao
invés de enfraquecer, crescia gradualmente. No começo, calculava-se que
os alemães estavam empregando quarenta divisões. No quinto dia, esse
número subiu para cem divisões o total das tropas alemães de primeira
linha disponíveis.
Sob essa tremenda pressão, os franceses, agora apoiados por tropas
britânicas à sua esquerda, eram obrigados a recuar continuamente. A 6 de
junho, os alemães anunciavam o rompimento da linha do Somme em três
pontos e o avanço de 27 km; e no leste o seu ataque atingia o Chemin-des-
Dames. No dia 9, chegaram ao Sena em Rouen e estenderam seu ataque,
mais para leste na direção de Argonne. O Aisne foi atravessado em dois
pontos e as forças avançadas alemães estavam a 55 km de Paris. No dia
seguinte, quando a ponta ocidental da pinça penetrou no Sena e a sua
ponta oriental, apoiada por um avanço sobre Reims, chegou até o Marne, o
governo francês deixou Paris e se dirigiu primeiro a Tours e depois, quatro
dias mais tarde, a Bordéus. No dia 12, tanto o Sena como o Marne tinham
sido atravessados, e uma força aliada, contendo pelo menos uma divisão
britânica, fôra cortada da costa do canal. Os alemães afirmavam que dois
exércitos franceses, com um total de cerca de meio milhão de homens,
tinham sido postos fora de ação eficaz.
Paris era agora uma cidade condenada. Num esforço para salvá-la da
destruição, o comando aliado decidiu não fazer tentativa alguma para
defendê-la, e sim fazer recuar suas forças para uma linha mais ao sul. A 14
de junho, ressoavam na silenciosa capital os passos das tropas nazistas em
marcha, e outra vez, após setenta anos, Paris era entregue aos alemães.
Com renovada fúria; o ataque nazista lançou seu peso contra a frente
francesa mais a leste, num esforço para esmagá-la no seu pivô, em
Montmedy, e flanquear a Linha Maginot.
Quando a 10 de maio foi iniciada a invasão da Holanda, Hitler a
descrevera com a batalha que iria "decidir o destino da nação alemã para
os próximos mil anos". No início do avanço sobre Paris, Weygand dissera
na sua ordem do dia: "Começou a batalha da França. O destino do nosso
país, a salvaguarda da nossa liberdade, o futuro de nossos filhos dependem
da vossa tenacidade". Era, assim, o destino de ambos os contendores que
estavam em jogo. Não mais era uma simples questão de vitória ou derrota,
mas sim de sobrevivência ou aniquilamento nacional. E quando a pressão
incessante continuou e a Itália lançou seu peso para o lado da Alemanha,
tornou-se claro que a Inglaterra e a França precisavam reunir todos os seus
recursos a fim de restabelecer a situação.
Os Governos de Guerra Aliados
A campanha norueguesa, que se mostrara fatal ao ministério Chamberlain,
teve, de modo significativo, efeito contrário sobre a posição de Reynaud.
Chamberlain representava os erros do passado. Reynaud representava uma
reação contra esses erros e a promessa de uma política nova e mais
eficiente. Os acontecimentos da Noruega pareciam confirmar a resolução
francesa de depor Daladier; e o ministério Reynaud, que a 22 de março
mal tinha obtido um voto de confiança da Câmara, recebia o apoio
unânime daquela Casa a 19 de abril.
A invasão dos Países Baixos deu mais firmeza ao apoio ao ministério.
Atenuaram-se temporariamente as divergências dentro da Câmara e a
oposição externa diminuiu ao ser reconhecida a necessidade de completa
união nacional para enfrentar a nova emergência.
Uma das razões de tal oposição fôra a inclusão de elementos socialistas no
ministério, numa tentativa para se lhe alargar a base - passo que fez os
partidos da Direita tomar a princípio uma atitude que era a expressão de
sua crítica. Agora, entretanto, o desejo por um esforço unido sobrepujou as
diferenças políticas. A 10 de maio, dois líderes da oposição conservadora
entraram no gabinete de guerra para lhe dar um caráter completamente
representativo de todos os matizes da opinião política.
A harmonia assim conseguida, entretanto, foi submetida a severas
provações durante os meses seguintes. Em particular, o espírito de
moderação e transigência, responsável por falhas anteriores, continuava a
dificultar a ação do governo sob diversas formas. Houve, mesmo, indícios
de que o antigo premier, Pierre Laval, tinha obtido, contra a oposição de
Daladier, a realização de novas tentativas de apaziguamento da Itália,
talvez mesmo a idéia de uma paz com a Alemanha por meio de
transigências. A responsabilidade direta de Daladier pela condução da
guerra terminou a 18 de maio, quando numa reorganização parcial do
ministério Reynaud
tomou conta da pasta da Guerra, entregando a Daladier, em troca, a dos
Negócios Exteriores. Ao mesmo tempo, o ministério do Interior era dado a
Georges Mandel, que fôra assistente de Clemenceau e o qual, acreditava-
se, dirigiria com mão forte os negócios internos, animando as autoridades
locais com um espírito resoluto e enérgico; e o idoso marechal Pétain foi
convidado para o cargo de vice-presidente do Conselho, com a tarefa
especial de aconselhar Reynaud sobre a condução da guerra.
Essas nomeações reavivaram a lembrança do Tigre e da bem sucedida
defesa da França, um quarto de século antes. Por isto mesmo, talvez, elas
localizaram o contraste com o espírito de Munique e dos homens que o
corporificavam. A 5 de junho, seguindo-se a crescentes atritos em torno de
questões da política futura, essa sensação chegou ao auge e resultou numa
nova revisão do ministério. Daladier foi deixado de lado definitivamente.
Albert Sarraut, seu associado mais íntimo, perdeu a pasta de ministro da
Educação. Várias outras mudanças com a mesma tendência geral foram
efetuadas. O resultado foi a eliminação final das principais figuras ligadas
a Munique - uma "transformação", como se expressou um comentador,
"que eliminou concepções gastas, espíritos fatigados e tendências em
conflito". Simultaneamente, outro passo em direção à eficiência era
evidenciado pela redução do gabinete de guerra de onze para oito
membros.
Essas transformações na esfera do governo civil foram o resultado da
necessidade de "novos métodos e novos homens" de que Reynaud falara
dois dias antes. Mais significantes ainda foram as transformações no
comando militar. Um dia depois de ter sido Pétain chamado ao serviço do
governo, o general Gamelin foi removido de seu posto de comandante-
chefe e substituído pelo general Weygand, a quem Gamelin sucedera em
1935. A 25 de maio, numa reviravolta drástica, quinze generais foram
demitidos de seus comandos. E em conexão com a reorganização de 5 de
junho, o general Charles de Gaulle foi levado, como colaborador especial
de Reynaud, ao ministério da Guerra.
Por trás dessas transformações estava o fato de ter Reynaud reconhecido, a
21 de maio, que a clássica concepção francesa da guerra tinha sido
completamente esmagada pelas novas realizações. Essa concepção
baseava-se na tática defensiva de uma guerra de posição e simbolizada
pelo general Gamelin e pela linha Maginot. Era, entretanto, uma
concepção da qual o próprio Reynaud duvidara durante algum tempo. Em
1935, ele apresentara um projeto de lei para a criação de uma considerável
força mecanizada que desse à França capacidade de ofensiva - proposta
essa rejeitada pelo governo de então. O general de Gaulle compartilhava
esta crença na necessidade da ofensiva por meio de material mecanizado;
e em Weygand, discípulo e sucessor espiritual de Foch, os franceses
esperavam estivesse corporificado o próprio espírito de ofensiva.
Na Grã-Bretanha também houve uma transformação em direção
semelhante. O salto do general Ironside, a 26 de maio, de chefe do Estado
Maior Imperial a comandante-chefe das forças metropolitanas talvez tenha
sido parcialmente motivado por uma crescente preocupação em torno da
possibilidade de invasão. Era, contudo, verdade que o seu sucessor, Sir
John Dill, era considerado muito mais que Ironside como o homem que
partilhava da preferência de Weygand pelo ataque em vez de defesa. Mas
o indício real de uma mudança de atitude por parte da Inglaterra foi
evidenciado, e de modo ainda mais claro do que no caso da França, pelas
mudanças no governo, que se seguiram à renúncia de Chamberlain.
O Ministério Churchill
O desejo de união nacional que animou a França em face do assalto de
Hitler, encontrou imediato paralelo na Grã-Bretanha. A falta de confiança
em Chamberlain tinha sido uma barreira para um verdadeiro governo
nacional, mas a sua substituição por Churchill abriu logo o caminho para a
união de todos os partidos em torno do comum esforço bélico.
O novo gabinete da guerra era um pequeno organismo interno composto
de cinco membros. Churchill, Halifax e Chamberlain representavam a
maioria conservadora, com Attlee e Greenwood como representantes dos
trabalhistas. A ausência da representação liberal nesse órgão indicava que
certas dificuldades políticas ainda permaneciam em suspenso, pois que
teria sido extremamente difícil a inclusão de Sinclair mediante a
eliminação de Simon, e a eliminação de Simon era quase um pré-requisito
para a colaboração trabalhista. Mas na prática o novo órgão oferecia geral
satisfação a todas as camadas da opinião pública. Era pequeno bastante
para prometer uma direção eficaz da política. Seus membros estavam
geralmente livres de deveres administrativos - princípio que em vão se
desejava impor a Chamberlain. Apenas Lord Halifax, no Ministério das
Relações Exteriores, estava chefiando um departamento específico. Os
outros quatro
membros ocupavam postos que obrigavam a tarefas nominais, e assim
estavam livres para dedicar toda a atenção à política geral.
Nem a mudança do Gabinete de Guerra nem a do Ministério
representavam. por si sós, uma transformação completa. O Partido
Trabalhista, em seus ataques a Chamberlain e seus associados, tinha
mostrado uma antipatia particular em relação a esses três fidalgos, Sir
John Simon, Sir Samuel Hoare e Sir Kingsley Wood. A eliminação desse
grupo, popularmente identificado com o espírito de Munique e do
apaziguamento, foi, entretanto, incompleta. Simon foi generosamente
elevado ao posto de Lorde-Conselheiro com a promoção a visconde.
Hoare achou tratamento menos digno de felicitações na sua nomeação a
enviado especial a Madrid, onde foi saudado com uma demonstração de
jovens nacionalistas, que exigiam desse notável apaziguador a entrega de
Gibraltar. Chamberlain, todavia, obteve um assento no Gabinete de
Guerra, e Wood ocupou na Fazenda Real um posto de máxima
importância. Mas isto podia ser contrabalançado pelo sangue novo nos
departamentos de serviços, em postos tais como o ministério dos
Abastecimentos, onde Herbert Morrison, um dos melhores
administradores dos trabalhistas, tomou conta da nova posição. Alexander
no Almirantado, Eden no Ministério da Guerra e Sinclair como ministro
do Ar formavam um trio prometedor que ficaria sob a direção do próprio
Churchill, pois que o novo primeiro ministro iria continuar a agir como
coordenador dos departamentos de serviço na qualidade de ministro da
Defesa. E para animar o ministério havia o novo espírito que Churchill
expressou ao definir o objetivo de seu governo: "É a vitória, a vitória a
todo o custo; vitória apesar de todos os terrores; vitória por mais longo e
duro que seja o caminho, pois que sem a vitória não há sobrevivência."
Dois departamentos, calculava-se, atrairiam atenção especial sob as
circunstâncias existentes. O primeiro era o ministério do Ar, e
particularmente a sua eficiência na questão do aumento da produção. Já
em março, Sir Kingsley Wood, então ministro do Ar, expressou a
confiança em que o número dos aviões fornecidos aos aliados excedesse a
produção mensal alemã. Os peritos neutros foram menos arrebatados,
mesmo quando os 770 aviões obtidos dos Estados Unidos durante os
primeiros seis meses foram incluídos nos cálculos. Os acontecimentos
subseqüentes iriam mostrar que o comunicado do ministro era
decididamente otimista. Era dessa sorte de condescendência que
despertava a ira dos críticos; mas embora isso resultasse na substituição de
Wood por Sir Samuel Hoare em abril, a transformação dificilmente
constituía uma garantia de nova energia ou deficiência. Em Sir Archibald
Sinclair, entretanto, o ministério tinha agora um chefe que prometia ambas
as coisas. E, como nova afirmação de vigor, um departamento especial de
produção aeronáutica foi criado, e Lord Beaverbrook nomeado para dirigi-
lo. Essa nomeação, embora possivelmente arriscada, constituía um
daqueles atos inspirados, tão condizentes com o caráter de Churchill.
Beaverbrook era um barão da imprensa, e os barões da imprensa
freqüentemente têm tido a tendência de agir sob impulsos dominadores de
preferência a cálculos sóbrios. (Lloyd George disse certa vez de sua
aliança com Northcliffe que ela era semelhante a ir a um passeio
acompanhado dum gafanhoto). Mas não havia dúvidas sobre as qualidades
dinâmicas do novo titular ou quanto às suas profundas convicções sobre a
necessidade de uma produção crescente, e ambas essas qualidades
significariam uma diferença entre as de seus predecessores.
O outro departamento era o de finanças. Por trás de todo o problema de
abastecimentos estava a questão da política financeira, e Sir John Simon
no Tesouro parecia partilhar da relutância de seus colegas em reconhecer a
insuficiência dos métodos ortodoxos e da moderação. O orçamento que
apresentou a 23 de abril sofreu severas críticas, baseadas no seu intuito
limitado e carência de imaginação. Se bem que concluísse uma despesa de
mais de dois e meio milhões de libras esterlinas, críticos competentes
sustentavam a tese de que estava muito aquém dos esforços que deviam
ser feitos; e nem os impostos crescentes sobre mercadorias de uso nem as
provisões para empréstimos - que acarretavam a rejeição do plano
largamente discutido do professor Keynes sobre economia compulsória -
pareciam adequados para a emergência. Havia certa dúvida sobre se Sir
Kingsley Wood no Tesouro faria algo mais ousado que o seu predecessor.
Mas uma indicação de possíveis novas receitas foi dada a 29 de maio,
quando o imposto sobre os lucros excessivos, que o governo impunha a
tudo acima de um limite fixo, foi tornado extensivo das indústrias de
guerra a todo o gênero de comércio e negócio; se bem que a sua recusa de
estudar novos gravames até que o país se adaptasse à carga existente,
pudesse ainda ser considerada como uma demonstração da carência da
percepção da necessidade de apressar a mobilização de todos os recursos
nacionais.
Mas o poder de efetuar tal mobilização já tinha sido considerado fora de
qualquer dúvida. Numa das mais drásticas medidas jamais votadas pelo
Parlamento Britânico, o governo, a 22 de maio, obteve por meio da Lei de
Defesa de Poderes de Emergência controle sobre toda a propriedade e
potencial humano do reino. Isto permitia ao ministro requisitar qualquer
indústria, "designar qualquer pessoa para executar qualquer serviço
exigido", resolver sobre salários e condições de trabalho, e em geral
convocar tanto a riqueza como a mão de
obra para o serviço do Estado. Seu propósito imediato foi permitir ao
Estado o controle e a reorganização do total da indústria bélica; e os
primeiros passos que tomou foram colocar todas as fábricas de munição
numa base de trabalho ininterrupto, dia e noite, e trazer essas indústrias
sob o controle de um novo Departamento de Munições, cuja tarefa seria a
de acelerar e organizar de modo mais eficiente a produção essencial.
O controle ao mesmo tempo reforçou os já amplos poderes do governo
sobre os elementos suspeitos no interior do país. A atenção despertada
pelas atividades subversivas na Noruega foi mais aguçada pela ameaça
presente de invasão, que se afigurava seguir-se à conquista dos Países
Baixos pela Alemanha. Precauções contra desembarques inimigos e
particularmente contra tropas pára-quedistas determinaram a construção
de barricadas e o recrutamento de um corpo de defensores locais
voluntários. Precauções contra a traição de elementos internos conduziram
a novas restrições em relação aos cidadãos dos países inimigos e à prisão
dos principais simpatizantes do fascismo, inclusive Sir Oswaldo Mosley e
o membro conservador do Parlamento capitão Archibald Ramsay. Uma lei
impondo a pena de morte por traição foi rapidamente aprovada pelo
Parlamento, a 23 de maio. Diante de um perigo maior do que qualquer
outro havia séculos, a Grã-Bretanha suspendeu suas liberdades
tradicionais, no interesse da segurança nacional.
Neutros e Não-Beligerantes
O avanço da máquina de guerra alemã despertou os sentimentos mais
diversos entre as nações que estavam fora do conflito. Algumas delas, a
Itália em particular, mostravam-se prontas para aclamar os sucessos
nazistas e esperavam lucrar com eles. Mas a maioria dos Estados ainda
não tocados pelas hostilidades percebia com crescente inquietação que o
resultado afetaria profundamente seus próprios destinos; e o seu despertar
à consciência achou expressão em importantes transformações políticas
que se adaptariam à nova situação criada pelas vitórias alemães.
A mais desconfiada, talvez dessas nações era a União Soviética. O
ressentimento contra os aliados e a amizade oficial em relação à
Alemanha, que caracterizaram as declarações de Molotov nos fins de
março, continuaram a constituir a atitude do governo soviético pelo menos
durante as semanas subseqüentes. Havia uma tendência para se enxergar a
invasão alemã da Escandinávia como o resultado compreensível do plano
aliado de intervenção em favor da Finlândia, e para se aceitá-la como uma
nova garantia contra ataques vindos de oeste. A Rússia, ocupada em
aplicar as lições da guerra finlandesa e em considerar os contínuos
problemas de sua situação interna, estava disposta a olhar, no momento,
com complacência a aventura alemã.
Com o correr do tempo, entretanto, surgiam sinais pálidos da diminuição
tanto da parcialidade russa em relação à Alemanha como de seu
descontentamento em relação aos aliados. Um dos sinais dos futuros
acontecimentos era constituído pela proposta russa, nos últimos dias de
abril, de renovação das negociações comerciais com a Grã-Bretanha.
Essas negociações tinham sido iniciadas na primavera de 1939, mas o seu
imperceptível progresso fôra completamente paralisado ao iniciar a guerra
finlandesa. Essa dificuldade especial estava agora fora do caminho, mas
ainda nenhum dos dois lados demonstrava desejo algum de entrar
diretamente num acordo. A Grã-Bretanha, embora disposta a negociar em
princípio, insistia em que qualquer tratado devia tomar uma forma capaz
de contribuir para o bloqueio da Alemanha, e parecia esperar um acordo
segundo o modelo dos tratados recentemente negociados com os neutros
ocidentais e pelos quais estes prometiam limitar as exportações à
Alemanha ao nível das de antes da guerra. A Rússia estava pronta a
discutir uma garantia de que nenhuma de suas importações passaria para a
Alemanha, mas se recusava a considerar qualquer limitação de seu direito
de dispor de seus produtos como bem entendesse. Isto constituía uma
barreira, mas não uma barreira intransponível, pois que nos fins de maio a
Grã-Bretanha cedeu em sua insistência ao ponto de tornar possível o envio
de uma missão comercial a Moscou. Havia ainda dificuldades em torno do
modo de condução das negociações, pois que o embaixador britânico
estava ausente, de licença, desde janeiro e os russos se mostravam
ansiosos pelo reatamento de relações diplomáticas completas. A própria
nomeação de uma persona grata, Sir Stafford Cripps. como chefe da
missão comercial deixou de satisfazer a exigência russa de negociações
por intermédio dum embaixador regulamentar. O resultado, entretanto, foi
simplesmente dar a Sir Stafford Cripps o cargo de embaixador, e as
formalidades preliminares pelo menos tinham sido assim preenchidas.
O controle alemão dos caminhos do Báltico, todavia, dificilmente poderia
ser bem recebido pela União Soviética; e a possibilidade da extensão desse
controle para dentro do próprio Báltico não podia ser ignorada. Havia
especial interesse em torno da posição da Suécia, conforme ficou
demonstrado pela conversação diplomática que resultou, a 3 de maio, no
comunicado de que a Rússia e a Alemanha tinham concordado quanto ao
seu mútuo interesse na preservação da neutralidade sueca. A Rússia
seguiu-se a isso com esforços
para melhorar a sua própria posição; e um dos resultados desses esforços
foi a aceitação pela Lituânia, a 15 de junho, de um ultimato soviético que
estendeu consideravelmente os direitos russos adquiridos pelo tratado de
outubro e tornou a Lituânia um completo protetorado militar. Era um
reforço da posição defensiva russa que mostrava certa dúvida sobre o
possível rumo da futura atividade alemã.
Nos Bálcãs, também, a Rússia demonstrava crescente interesse pela
tranqüilidade, como a melhor garantia de segurança. A 9 de maio,
anunciou ter advertido os beligerantes, como também a Itália, de que se
abstraíssem de aventuras nos Bálcãs; e a 17 de maio informou-se que
havia feito representações, dentro dessas mesmas linhas, junto aos
próprios Estados balcânicos. Parecendo constituir uma ameaça no começo
do ano, a Rússia surgiu agora, pelo menos ao que se referia aos Estados
balcânicos, como um protetor e um amigo.
Os Estados Balcânicos
Essa atitude deu motivo a um sentimento de desafogo em um grupo de
estados que continuavam a achar que sua segurança permanecia precária,
completamente à mercê das ambições de seus grandes vizinhos ou das
exigências militares dos beligerantes. A própria absorção das energias das
nações em guerra nas campanhas da Noruega ou de Flandres fornecia
apenas um alívio parcial. Mas a boa ou má fortuna da Alemanha ou dos
aliados influenciava profundamente a atitude dessas pequenas nações, cuja
vontade de resistir a um agressor variava diretamente com o grau de
auxílio com que achavam que poderiam contar no caso de tal resistência; e
pelos meados de junho o crescente sucesso do Eixo se refletia numa
tendência cada vez maior sobre a decisão das nações balcânicas de optar
por uma política conciliatória em relação à Itália e Alemanha.
O começo de abril achou os beligerantes a manobrar ainda por favoráveis
posições diplomáticas e econômicas na Europa oriental. A Grã-Bretanha,
que chamara de volta seus enviados aos Bálcãs para consultas em fins de
março, anunciou a 4 de abril a criação de um órgão especial, subordinado
ao Tesouro, para tratar de interesses comerciais nos Estados balcânicos.
Ao lado alemão, o persistente dr. Clodius ainda estava em Bucarest,
fazendo pressão para a desmobilização da Romênia e por fornecimentos
mais substanciais de petróleo e gêneros alimentícios. Apesar da falta de
sucesso quanto a essas exigências mais importantes, ele foi capaz, a 20 de
abril, de obter uma nova taxa cambial e um acordo experimental para a
aquisição de certas matérias-primas, em troca de armas e maquinarias
alemães. Fortalecido por esses resultados limitados, continuou a viagem
até Budapest e Belgrado, na esperança de atrair a Hungria e a Iugoslávia
mais firmemente para a órbita alemã.
Simultaneamente, a Alemanha propôs um protetorado prático da zona do
Danúbio. As intrigas e contra- intrigas chegaram ao auge com a acusação
alemã, ao começo de abril, de que a Grã-Bretanha planejava bloquear o
tráfego do Danúbio, fazendo saltar pelos ares as margens do rio junto ao
Portão de Ferro, e a 10 de abril informou-se que um navio de carga que
levava suprimentos para a Alemanha tinha sido feito explodir. A captura
pela Romênia, a 8 de abril, de várias barcaças britânicas que carregavam
dinamite pareceu emprestar algum viso de verdade aos receios alemães de
interferência, se bem que a Inglaterra explicasse que essa dinamite se
destinava ao afundamento das barcaças no caso de uma tentativa alemã de
interceptação. O resultado foi a informação de que a Alemanha tencionava
exigir o direito de policiar o Danúbio - sugestão que depois foi modificada
para uma proposta, apoiada pela Hungria, de que os próprios Estados
danubianos se encarregassem do policiamento do rio em vez de continuar
a deixá-lo entregue à comissão internacional existente, - proposta essa
redigida de maneira a permitir à Alemanha partilhar dessa atividade. Ela
foi rejeitada pela Iugoslávia; mas pelos fins de abril tornou-se claro que a
Alemanha dominava comercialmente a maior parte do rio e que isso
poderia muito bem significar efetivo domínio militar no momento em que
tal se tornasse desejável.
Essa pressão continuou simultaneamente com a campanha da Noruega,
que pouco distraía os beligerantes de seus interesses nos Bálcãs. Era,
antes, um exemplo aos Estados balcânicos de quão pouco poderiam
esperar que a sua neutralidade fosse respeitada pela Alemanha, e uma
advertência contra os perigos que poderiam oferecer os simpatizantes
alemães dentro de suas fronteiras. Juntamente com outros neutros, os
Estados balcânicos voltaram a atenção para esses elementos, e para os
atenciosos "turistas" alemães que pareciam especialmente atraídos pelas
fortificações fronteiriças e campos petrolíferos. O acontecimento mais
assustador foi a prisão do antigo premier iugoslavo Stoyadinovich, a 19 de
abril, seguida de numerosas outras detenções e expulsões quando o
governo descobriu uma conspiração para um levante que se verificaria
juntamente com a invasão alemã. Medidas semelhantes foram tomadas na
Romênia; e a 11 de maio o ministério romeno foi reconstruído para incluir
um grupo de ministros menos favoráveis à Alemanha que seus
predecessores. Para modificar essa situação de um modo curioso, todavia,
havia a gradual
aproximação entre o rei Carol e a Guarda de Ferro fascista, aproximação
essa que teve expressão numa anistia política a 25 de abril. Nem a
Romênia nem a Iugoslávia estavam ainda prontas para cerrar as portas a
relações amigáveis com o Eixo. Com a vitória alemã em Flandres, na
verdade, elas tomaram a decisão definitiva de travar relações mais
amigáveis com o vencedor. Uma parcial desmobilização romena, a 29 de
maio, foi seguida, a 1 o de junho, pela demissão do ministro do Exterior
aliadófilo e pela nomeação de um simpatizante dos alemães em seu lugar.
O livramento de Stoyadinovich e seus associados, noticiado a 14 de junho,
foi o sinal de que a Iugoslávia se movia em direção semelhante.
A Repercussão na América
A extensão da guerra, entretanto, produzia efeitos fora do continente
europeu. Todos os países invadidos, a exceção de Luxemburgo, tinham
possessões no exterior; e o status desses territórios, particularmente os
pertencentes à Holanda e Dinamarca, tornou-se um caso de séria atenção
por parte de outras potências, tanto beligerantes como neutras.
Um dos cuidados imediatos da Grã-Bretanha foi evitar o controle nazista
da Dinamarca, desde as Faroes até a Islândia. As Faroes, pequeno grupo
de ilhas a duzentas milhas a noroeste das Shetlands, foram ocupadas por
tropas britânicas pouco depois da invasão, com a finalidade de ser evitada
a sua tomada e uso como base submarina e aérea. O risco da Islândia ser
utilizada para fins semelhantes também existia, mas a ação no momento
foi transferida, parcialmente, em resultado das medidas tomadas pelas
próprias autoridades islandesas. Essa ilha tinha o status de reino
independente, ligado à Dinamarca apenas por uma união pessoal com a
coroa dinamarquesa. A 9 de abril, o seu legislativo decidiu que, desde que
a invasão alemã tornava impossível ao rei exercer sua autoridade na
Islândia, o exercício dos poderes reais seria confiado ao ministério, até
ulterior aviso. Com a retirada aliada da Noruega, entretanto, a posição
desprotegida da Islândia significava a necessidade de garantias mais
efetivas; e a 10 de maio o governo britânico anunciou que tropas tinham
desembarcado a fim de proteger a ilha contra a invasão, com a garantia de
que essa força seria retirada depois de concluídas as hostilidades.
A vasta ilha da Groelândia era também uma possessão dinamarquesa; e
aqui os resultados da guerra mostravam os primeiros sinais de
interferência direta no hemisfério ocidental. Os cuidados dos Estados
Unidos manifestaram-se imediatamente, e a hostilidade americana em
relação à idéia de um ponto de apoio alemão tão próximo ao continente
americano foi claramente manifestada. Embora os recursos da Groelândia
fossem insignificantes, sua localização a tomava importante elo da rota
aérea setentrional da Europa e possível abrigo de bases aéreas
inquietadoramente próximas aos Estados Unidos. Conforme Roosevelt
acentuou perante o Congresso a 16 de maio: "Dos fiordes da Groelândia
há uma distância de quatro horas à Terra Nova, cinco horas à Nova
Escócia,... e apenas seis horas à Nova Inglaterra." Nenhum passo imediato
foi dado; mas conversações tiveram início com a Grã-Bretanha e o
Canadá, e o comunicado, a 1 o de maio, de que os Estados Unidos
mandariam um cônsul à Groelândia constituiu o primeiro passo em
direção à afirmativa da aplicação da doutrina de Monroe a esse país.
A invasão da Holanda levantou ainda maiores possibilidades
perturbadoras. A Dinamarca cedera suas possessões nas Caraíbas durante
a última guerra, quando os Estados Unidos compraram as ilhas Virgem.
Mas a Holanda retinha ainda as Índias Ocidentais Holandesas, com as suas
importantes refinarias de petróleo, bem como a Guiana Holandesa. A 11
de maio, um destacamento aliado foi desembarcado nas ilhas holandesas
afim de evitar possível sabotagem; mas foi anunciado que o governo
americano tinha sido informado da situação, e a garantia de que nenhuma
mudança de soberania estava sendo estudada foi, no momento, aceita
pelos Estados Unidos.
A questão das Índias Orientais Holandesas provocou cuidados ainda
maiores. Eram elas possessões sobre as quais os japoneses tinham por
algum tempo lançado olhares especulativos; e a sua tomada pelo Japão
mudaria profundamente a situação estratégica do Pacífico, fornecendo a
esse país, ao mesmo tempo, valiosos e necessários recursos. O governo
nipônico já tinha deixado claro que não poderia permitir a aquisição
dessas ilhas por outra potência; e os Estados Unidos, a 17 de abril, fizeram
declaração semelhante, que, na realidade, não passava de uma advertência
ao próprio Japão. Ambos os países mantinham-se em alerta desde a
invasão da Holanda; mas cada qual agia como obstáculo ao outro, e os
próprios holandeses agiram altivamente por meio do governo colonial, o
que impediu que o problema se tornasse imediatamente agudo.
Mas, além desses motivos reais de preocupação, houve nos Estados
Unidos uma compreensão rapidamente crescente dos interesses vitais do
país no caso de um conflito generalizado. A extrema crueldade dos
ataques
alemães a neutros inofensivos provocou ressentimentos crescentes; e o
despontar da possibilidade de uma derrota aliada fez com que a atenção se
voltasse subitamente para as conseqüências que uma vitória de Hitler teria
sobre a América.
Esses sentimentos encontraram vigoroso porta-voz no presidente
Roosevelt. A 15 de abril, num discurso perante a conferência da União
Pan-Americana, o presidente traçou o contraste entre a tradição americana
de paz e a atitude dos agressores europeus, utilizando-se de termos que, se
bem que não mencionassem potência alguma especificamente, implicavam
tanto numa condenação como numa advertência. Com a invasão dos
Países Baixos, a sua condenação tornou-se mais direta. Num discurso,
nesse mesmo dia, perante o Congresso Científico Americano, declarou-se
"chocado e revoltado pelas trágicas notícias vindas da Bélgica, dos Países
Baixos e de Luxemburgo". A 11 de abril, em resposta ao apelo do rei
Leopoldo, escreveu: "O povo dos Estados Unidos espera, como eu
próprio, que se possa pôr um fim à política tendente a dominar povos
pacíficos e independentes pela força e agressão militar, e que o governo e
o povo da Bélgica possam preservar sua integridade e liberdade." Quão
geralmente esses sentimentos eram partilhados pelas outras nações do
Novo Mundo ficou demonstrado a 18 de maio, quando as vinte e uma
repúblicas americanas deram o passo sem precedentes de emitir uma
declaração conjunta asseverando que protestavam contra a última agressão
militar, e que consideravam "a violação de neutralidade ou a invasão de
nações mais fracas como uma medida injustificável para a condução e
sucesso na guerra."
A ação dos Estados Unidos não ficou confinada a palavras. Em resultado
da agressão alemã e dos reveses aliados, o presidente, apoiado por
crescente exigência popular, resolveu-se a defender dois rumos
simultâneos. O primeiro foi expandir e acelerar a defesa nacional, iniciada
a 16 de maio pela petição de Roosevelt ao Congresso em favor de novos
créditos no valor de mais de um bilhão de dólares. O segundo foi uma
tentativa para evitar que essa expansão interferisse no fornecimento de
suprimentos aos aliados, e para acelerar esse fornecimento, cuja urgência
se tornara mais manifesta. Em junho, o governo tomava ativas medidas
para se desfazer de seu estoque de armas, ou pela venda direta do velho
equipamento ou pela troca de aviões, por exemplo, com os fabricantes,
que mais tarde lhe forneceriam novos modelos, e entrementes venderiam o
equipamento assim tornado disponível à Grã-Bretanha e à França. E
enquanto esses passos estavam sendo dados para tornar os recursos
americanos mais prontamente disponíveis, a diplomacia americana exercia
pressão crescente sobre a Itália, na esperança de mantê-la fora da guerra.
A Entrada da Itália na Guerra
Ao tempo da invasão da Noruega, a atitude da Itália em relação aos
aliados se tinha metamorfoseado numa hostilidade implacável. Havia
ainda dúvidas sobre se o encontro do Brenner entre Mussolini e Hitler
resultara num plano combinado e minucioso; mas as semanas que se
seguiram viram a Itália começar preparativos positivos para a entrada na
guerra. A 2 de abril, adotou uma medida estabelecendo a mobilização
civil, e dando ao governo poder para requisitar os serviços e bens de todos
os cidadãos em tempo de guerra. A 10 de abril, a imprensa acentuou que
as forças italianas estavam em pé de guerra, e durante as semanas
subseqüentes procedeu-se à completa mobilização das reservas por meio
de notificações individuais. Ao mesmo tempo, informou-se que a frota se
tinha concentrado nas ilhas do Dodecaneso, de onde podia ameaçar as
bases aliadas do Mediterrâneo oriental.
Os aliados, por sua vez, fizeram esforços sucessivos para desanuvear suas
relações com a Itália. A 17 de abril, em seguida a demonstrações hostis em
Milão, o ministro britânico da Guerra Econômica disse, em tom de
advertência, que a Grã-Bretanha gostaria de saber em que pé estavam suas
relações com a Itália. No começo de maio, foi informado que o governo
britânico solicitara à Itália definisse sua posição exata dentro das próximas
duas semanas. Suas dúvidas sobre que isso provocaria qualquer resposta
satisfatória ficaram demonstradas em fins de abril, quando tomou a
deliberação séria de convocar todos os navios mercantes de volta do
Mediterrâneo e reforçar a frota com base em Alexandria.
A atitude francesa, ao contrário, caracterizava-se pela suavidade, na
esperança de desfazer a crescente ira italiana. Durante todo esse período,
Reynaud fez sucessivas referências amigáveis à Itália, e indicou por várias
vezes o desejo francês de discutir as reivindicações italianas. A 20 de
abril, ele revelou que suas iniciativas diretas não haviam tido até então
resposta alguma. Concessões definitivas foram oferecidas em maio com
respeito aos direitos italianos a Tunis, Djibuti e ao canal de Suez, e a 6 de
junho Reynaud declarou numa irradiação: "Não há povo algum com o qual
a França não possa resolver por meios pacíficos as divergências de
interesse que lhes pareça contrário." Mas a esse tempo já estava
completamente visível o fato de estar fora do desejo de Mussolini uma
solução por meios pacíficos.
Essa atitude de descaso foi acentuada pelo repentino abandono por parte
de Mussolini daqueles grandiloqüentes discursos públicos com os quais
ele se costumava deliciar. "Depois dos meus discursos", disse ele a um
auditório a 9 de maio, "deveis acostumar-vos ao meu silêncio. Somente os
fatos o romperão". Mas se o chefe deixou de soltar a língua, o resto da
matilha se mantinha em plena grita. Era dirigido por Giovanni Ausaldo,
diretor do Telégrafo e pessoa íntima do conde Ciano, cuja promessa, a 14
de abril, de que "em breve soarão os clarins" foi um corolário ao tema que
desenvolvera em subseqüentes editoriais e irradiações. Essa promessa foi
fielmente alardeada por outras personalidades fascistas e pela imprensa
italiana em geral; e para evitar quaisquer notas discordantes, o Osservatore
Komano, órgão da Santa Sé, o único dos jornais italianos a manter uma
atitude imparcial em relação à guerra, foi primeiramente atacado e por fim
virtualmente suprimido.
Em certa ocasião pareceu que os clarins ressoavam para um assalto contra
a Iugoslávia. As inquietantes relações entre os dois países, que não foram
melhoradas pelo envio à Albânia de grandes contingentes de
"trabalhadores" italianos, chegaram a um estado de considerável tensão
em fins de abril, como resultado de demonstrações hostis em Florença. A
21 de maio, essa tensão atingia a um ponto cuja gravidade era indicada
pelo fechamento por parte da Itália da fronteira iugoslava até a fronteira
albanesa e pelo aceleramento dos preparativos militares na Albânia. A 29,
entretanto, a Itália estava pronta a dar garantias satisfatórias, e o alívio
iugoslavo contribuiu para a adoção de sua nova política de orientação para
o Eixo.
Era na realidade contra a Grã-Bretanha que se dirigiam de preferência os
insultos italianos. O controle naval britânico do Mediterrâneo, e o tangível
efeito deste sobre o reforço do bloqueio da Itália, faziam com que a
Inglaterra fosse um objetivo ardentemente desejado. Ansaldo, a 5 de maio,
expressou a esperança de ver a invasão das Ilhas Britânicas. Parece que
foram feitos esforços para alistar a Espanha na cruzada, concitando- a a
tomar Gibraltar; mas, embora uma missão militar espanhola visitasse a
Itália, Franco parecia querer evitar comprometer-se em demasia. As
negociações em progresso em torno do bloqueio parecem ter sido
utilizadas pela Itália como base de queixas, mais do que meios para a
busca de uma solução, e a 31 de maio elas foram rompidas
definitivamente. A 9 de junho, Ansaldo asseverou que a Itália tencionava
tomar parte na segunda fase da guerra, em que "unidos à Alemanha, nós
sustentaremos a guerra à Inglaterra. Abriremos de uma vez para sempre as
portas cerradas da Grã-Bretanha. Tal é, a nossa convicção."
Nessa data, tudo estava pronto para a aventura. Já a 18 de abril foi
revelado que comissões militares tinham sido trocadas entre a Itália e o
Reich. A 30 de abril, o novo couraçado italiano Vittorio Veneto foi posto
em serviço. A 17 de maio, um orçamento de guerra destinou vastas novas
somas para despesas militares, e os fascistas foram advertidos de que nem
mesmo a sua situação de membros do Partido os salvaria se agissem como
traidores, opondo-se à entrada na guerra. Os decretos de mobilização civil
entraram em vigor a 24 de maio. Dois dias depois, foram preparadas
medidas para conservar o petróleo em estoque com a proibição do uso de
carros a motor e de botes a motor particulares, a contar de 1 o de junho. E
a 29 de maio, a revogação das licenças de importação demonstrou quão
próximo a nação estava do mergulho final.
Os ataques aéreos alemães contra o vale do Ródano a 1 o de junho, que
incluíram um ataque a Marselha por aviões vindos do mar, procuravam
sem dúvida demonstrar praticamente a Mussolini que o mergulho podia
ser dado com segurança. Quando o Conselho de Ministros se reuniu, a 4
de junho, o estágio final foi completado. No dia seguinte foi anunciado
que as águas costeiras italianas eram "perigosas", presumivelmente por
terem sido lançados nelas campos de mina. A 7 de junho, todos os navios
italianos em viagem receberam ordens de arribar ao porto neutro mais
próximo. A 9 de junho, o ex-secretário do Partido, Farinacci, anunciou que
"chegou a hora em que todas as exigências italianas serão satisfeitas". E
no dia seguinte, falando de sua costumeira sacada, Mussolini disse ao seu
povo que a Itália tinha entrado na guerra "contra as democracias
plutocráticas e reacionárias que sempre bloquearam a marcha e
freqüentemente conspiraram contra a existência do povo italiano.
"A mão que segurava o punhal", disse Roosevelt num discurso nessa
mesma tarde, "mergulhou-o nas costas do vizinho." A decisão italiana
causou um profundo desapontamento ao presidente. Recordou ele que
mais de três meses antes Mussolini tinha apontado com orgulho para a sua
ação de manter a guerra fora do Mediterrâneo. Quando a atitude italiana
começava a mudar, o presidente procurou exercer pressão sobre ela para
que continuasse em paz. A 1 o de maio foram feitas representações que se
repetiram a 15 do mesmo mês; e numa e noutra dessas ocasiões o
presidente se oferecera para comunicar as exigências italianas aos aliados
e para procurar obter garantias de que a Itália tomaria parte na conferência
de paz em igualdade de condições com os beligerantes, desde que se
abstivesse de entrar na guerra. Mas Mussolini declarara que não via base
para negociações no momento presente e não demonstrara desejo algum
de cooperar no interesse da paz. Novo esforço dos Estados Unidos a 31 de
maio foi uma vez mais em vão.
Na sua comunicação anterior, Roosevelt tinha advertido o chefe italiano de
que "na opinião do governo dos Estados Unidos, qualquer extensão das
hostilidades à região do Mediterrâneo poderia resultar no aumento ainda
maior do cenário do conflito". Era a advertência velada de que os Estados
Unidos, em tal caso, poderiam não mais achar possível ficar alheios.
Agora que o fato ocorreu, embora os Estados Unidos ainda não estivessem
preparados para uma formal entrada na guerra, a administração chegou até
o limite extremo da não-beligerância. "Seguiremos", disse o presidente,
"dois rumos óbvios e simultâneos. Estenderemos aos adversários da força
os recursos desta nação, e ao mesmo tempo lançaremos mão e
aceleraremos o uso desses recursos a fim de que nós mesmos na América
tenhamos equipamento e treinamento condizentes com a tarefa de
enfrentar qualquer emergência e realizar completamente a defesa."
Foi dada assim a garantia de que a política havia muito defendida pelo
presidente Roosevelt - a política de auxiliar os aliados "por todos os meios
afora a guerra" - seria levada ao máximo. Cinco dias depois, em resposta a
um apelo desesperado de Reynaud, Roosevelt em termos ainda mais
definidos prometeu que a nação redobraria de esforços e que enquanto os
aliados resistissem poderiam contar com suprimentos crescentes,
procedentes dos Estados Unidos. Na última frase, e nas conclusões que
dela se podiam tirar, estavam tanto os receios como as esperanças pelo
futuro da causa aliada. Mas mesmo essa garantia foi incerta demais para
resolver a situação desesperada. A 17 de junho, com a Linha Maginot
abandonada e o exército em plena retirada, a França solicitou condições de
paz.
limitada, tinha o sucesso dependente de um cálculo acurado do poder
dessa defensiva. Mas quando a Alemanha tomou a iniciativa e desfechou
um golpe de sucesso contra a Escandinávia com uma arremetida
arrasadora através dos Países Baixos, rapidamente se percebeu que os
cálculos baseados na experiência passada tinham de ser lançados aos
ventos. A guerra "real", quando estalou, foi uma espécie inteiramente nova
de guerra. Os elementos básicos talvez fossem os mesmos apresentados
nos livros militares, mas o desenrolar da tática baseava-se em novas
armas, e o novo uso dessas armas tornava-a inteiramente sem precedentes.
Para essa espécie de guerra, os aliados descobriram que ainda não estavam
preparados. Tinham que definir a sua natureza e descobrir uma resposta
aos novos métodos de ataque em meio aos desesperados esforços de
suportar esse ataque com êxito suficiente para evitar o completo
aniquilamento. E, entrementes, eram os nazistas que, com a sua nova
técnica, mantinham a iniciativa. Eles foram capazes de escolher o seu
próprio terreno e campo e de impor ao inimigo, submetido a forte pressão,
as condições de batalha que melhor convinham aos seus propósitos. Em
dois meses de luta, o tamanho do sucesso que obtiveram era em si uma
prova de quão diferente esta guerra era daquela que havia vinte e cinco
anos se travara em grande parte desse mesmo território.
Essa diferença não era inerente, não somente em métodos militares, mas
às amplas conseqüências da luta. Já não eram mais apenas os beligerantes,
e mesmo sequer os pequenos estados pára-choques, aqueles que haveriam
de sofrer as conseqüências do desfecho. Mesmo as nações que estavam de
fora, sem nenhum receio imediato de ataque, despertaram com um choque
à percepção de que isso era algo mais que uma guerra comum por
objetivos limitados. Era uma luta entre duas concepções totalmente
diferentes de vida; e enquanto era certo que o mundo seria transformado
pelo fato da própria guerra, a natureza da transformação que se seguiria a
uma vitória nazista estava começando a tornar-se clara. Seria o fim de um
tipo de sociedade para cuja evolução o mundo ocidental tinha gasto
séculos, e a criação de uma ordem inteiramente nova que imporia seu
cunho não apenas às nações conquistadas mas ao mundo em geral. E
quando o mundo enfrentou essa perspectiva, tornou-se consciente de que
estava diante da ameaça de uma revolução mundial iminente, - ameaça
que não mais partia de Moscou e sim de Roma e Berlim.
A Invasão da Escandinávia
A decisão a que chegaram os aliados, no fim de março, de apertar de modo
mais eficiente o bloqueio da Alemanha foi vista com especial apreensão
na Escandinávia. Havia naturalmente muitas aberturas que os aliados
pretendiam tapar - o petróleo e metais que a Alemanha estava obtendo dos
Bálcãs, os gêneros alimentícios que recebia dos Estados danubianos, a
ampla quantidade de produtos de além-mar que lhe chegavam através dos
Países Baixos. Importantes porém como eram, havia razão para se
acreditar que as questões de interesse mais imediato dos aliados fossem as
relacionadas com o minério de ferro que a Alemanha estava recebendo da
Suécia e o qual era transportado através das águas territoriais norueguesas.
Para essas duas nações, os problemas de neutralidade tinham-se tornado
gradualmente mais difíceis desde que a guerra começara. Ao mais leve
indício de que não estavam completamente subordinadas à Alemanha, a
imprensa e o governo nazistas rompiam em grita ameaçadora. Ao mesmo
tempo, a Alemanha na sua guerra aérea e submarina não fazia esforços
para distinguir os navios suecos e noruegueses dos barcos beligerantes.
Até o dia 6 de abril, 52 navios noruegueses, 33 suecos e 28 dinamarqueses
tinham sido afundados, com uma perda de perto de mil vidas. Quando os
protestos desses neutros à Alemanha foram respondidos apenas com novas
recriminações, os aliados naturalmente começaram a achar que tal
neutralidade deixava algo a desejar.
A guerra finlandesa tinha por um tempo acrescentado nova complicação a
esse estado de coisas. Com o fim das hostilidades, os Estados
escandinavos ficaram livres dos perigos inerentes dos planos aliados de
intervenção em favor dos finlandeses. Mas o problema geral permaneceu,
acentuado por uma crescente impaciência aliada pelo continuado acesso
da Alemanha aos suprimentos escandinavos; e isto foi expresso pela
irradiação de Churchill a 30 de março, a qual acentuava que os neutros
estavam sendo forçados a suprir uma potência cuja vitória significaria a
sua escravidão. Qualquer dúvida sobre o que essa atitude significava para
a Escandinávia foi removida pela declaração de Chamberlain a 2 de abril,
a qual atacava esse "duplo padrão de neutralidade" e insinuava fortemente
que os esforços que estavam sendo realizados para bloquear a rota
escandinava eram apenas a fase preliminar de operações mais efetivas. E
dois dias mais tarde, falando à União Nacional dos Conservadores e
Associações Unionistas, o primeiro ministro disse: "Embora jamais
procuremos infligir danos ou perdas aos neutros, e embora estejamos
ansiosos por guardar todas as regras, não se pode esperar que permitamos
que a Alemanha tire vantagens indefinidamente dos nossos escrúpulos
com o arrancar assistência e conforto aos neutros.
A esse ponto de vista foi dada expressão oficial nas notas aliadas
apresentadas à Noruega e à Suécia a 5 de abril. Essas notas, de
conformidade com a declaração do sr. Koht a 8 de abril, alegaram que os
acontecimentos dos últimos três meses tinham mostrado a recusa da
Alemanha de permitir que os estados escandinavos dirigissem livremente
sua própria política externa. O resultado foi que a Alemanha, por seu
acesso a importantes matérias-primas, beneficiava-se de vantagens nesses
países para desvantagem e perigo das Potências Aliadas. Isto era algo que
os aliados não mais podiam tolerar. Eles estavam lutando tanto por si
próprios como pela causa das pequenas nações, e não podiam permitir que
fossem prejudicados pelas vantagens que tal situação dava à Alemanha.
Tinham, portanto, que se reservar o direito de tomar medidas que
pusessem fim a todas as práticas que ajudavam a Alemanha ou feriam a
causa aliada.
As medidas que tinham em mente referiam-se particularmente à rota do
minério de ferro. Os navios alemães acharam possível viajar de Narvik à
costa norueguesa sem deixar as águas territoriais até chegarem ao
Skaggerak e à guarida dos campos de mina alemães. "Não tem havido",
disse Churchill a 11 de abril, "nenhum impedimento maior ao bloqueio da
Alemanha do que esse corredor norueguês. Foi assim na guerra passada, e
tem sido assim nesta guerra." Durante a guerra passada, os aliados tinham
induzido a Noruega a colocar campos de mina nessas águas; e quando a
atual guerra iniciou, eles procuraram obter da Noruega permissão para
colocar suas próprias minas ali. Mas a Noruega resistiu firmemente a essa
exigência; e a sua virtual rejeição ao pedido aliado, consignada nas notas
de 5 de abril, mostrava que nenhuma ação efetiva poder-se-ia esperar de
sua parte. A 8 de abril, os aliados passaram das palavras aos atos. Na
manhã daquele dia, os aliados anunciaram que tinham resolvido "impedir
o uso continuado pelo inimigo de trechos de águas territoriais que lhe
eram de especial valor", e que em conseqüência tinham colocado campos
de mina em três pontos das águas norueguesas.
O governo norueguês protestou imediatamente e exigiu a remoção das
minas. Parecia bem possível que uma grave situação resultasse daí entre a
Noruega e os aliados. Mas antes que isso ocorresse, todo o quadro foi
mudado pela ação da Alemanha.
Os Preparativos Alemães
Desde o estalar da guerra, a Alemanha se esforçara em manter os Estados
escandinavos firmemente dentro de sua órbita. Devido a razões tanto
econômicas como estratégicas, era-lhe da máxima importância preservar o
acesso a esses países, bem como o evitar que seus adversários
conquistassem tanto uma ascendência diplomática como um ponto de
apoio militar na península. Esse esforço tinha sido aumentado pela guerra
finlandesa e possibilidade de intervenção aliada. Não havia ilusões de que
os aliados usariam tal intervenção para criar uma nova frente contra a
Alemanha; e mesmo antes que os aliados chegassem à decisão de prestar
auxílio armado à Finlândia já a Alemanha tinha iniciado seus preparativos
para fazer abortar uma ação dessa natureza no norte.
Quando chegou a vez de proteger seus próprios interesses às custas dos
neutros, os nazistas pela sua própria natureza gozaram de uma liberdade
de ação que fôra negada aos aliados. Estes tinham baseado sua causa
moral na manutenção da legalidade internacional e na preservação dos
direitos de todas as nações, grandes ou pequenas. Essa posição
efetivamente os impedia de cometer qualquer séria infração da soberania
das países neutros. Podiam invocar a doutrina das represálias para
justificar certos atos extraordinários, como por exemplo a apreensão das
exportações alemães ou o lançar dos campos de mina ao largo da Noruega.
Podiam arriscar-se a uma violação técnica de direitos teóricos num caso
extremo, como o do Altmark. Mas somente uma necessidade premente os
faria sacrificar sua vantagem moral em benefício de exigências militares.
A Alemanha, entretanto, não tinha tais vantagens a perder. Na doutrina
nazista, o bem-estar do Reich era o único padrão moral a ser considerado;
e enquanto a Alemanha podia procurar utilizar contra os aliados os
conceitos morais de democracia que estes alimentavam, sempre que
servissem aos propósitos do Reich, não tinha intenção de deixar-se
dominar por tais escrúpulos.
No começo do ano, portanto, a Alemanha se decidiu a impor seu domínio
à Escandinávia, tanto para proteger sua posição como para estender a
frente marítima contra a Inglaterra. Em fevereiro, as medidas preliminares
estavam em pleno andamento e eram reunidos navios para transporte ao
mesmo tempo em que se exercitavam tropas ao longo do Báltico em
operações de desembarque. A anunciada intenção aliada de apertar o
bloqueio estimulou essas medidas e provocou notas de sinistra advertência
na imprensa alemã. Já a 16 de março, o Voelkischer Beobachter acentuara:
"Os exemplos da Polônia e Finlândia mostram com ênfase esmagadora o
que acontece aos pequenos povos quando desafiam as leis de seu espaço
vital... A generosa atitude da Alemanha apresenta-se em flagrante
contraste com o sórdido egoísmo com que a Inglaterra e a França
procuram obrigar pequenos povos a servir os fins de sua estratégia." Ao
fim do mês, comentando um discurso de Churchill, um jornal berlinense
inquiria: "Que é a perda de algumas vidas neutras em comparação com a
cínica tentativa de fazer morrer de fome as mulheres e crianças de toda
uma nação? A Alemanha não esquecerá daqueles que compartilham este
assassínio em massa, privando o povo alemão dos meios legais de defesa."
E a 5 de abril, depois de uma conferência com Goebbels, os diretores dos
jornais alemães começaram a prever uma nova fase da guerra e a
aproximação da hora fatal dos neutros.
Essa campanha da imprensa foi sincronizada com a partida de uma
expedição completa contra a Noruega. Embora o lançamento das minas
aliadas tivesse dado ao ataque alemão a aparência de um contra-golpe, a
coincidência era puramente fortuita, já que os navios alemães em alguns
casos tinham partido para o seu destino pelo menos três dias antes. As
indicações de que algo estava acontecendo tornaram-se aparentes a 8 de
abril, quando um transporte alemão apinhado de soldados, o Rio de
Janeiro, foi afundado por um submarino britânico ao largo de Lillesand, e
uma flotilha alemã, informava-se, estava navegando com rumo norte
através do Grande Belt. Mas enquanto o público ainda especulava em
torno do significado desses acontecimentos, a Alemanha desfechava seu
golpe. Ao alvorecer de 9 de abril, numa faixa de mil milhas, suas forças
assaltavam a Noruega e a Dinamarca.
A Ocupação da Dinamarca
Quando cruzaram a fronteira dinamarquesa em Flensburg, as tropas
alemães transpuseram o que era quase a última fronteira não-fortificada da
Europa. A Dinamarca, mais ainda do que seus vizinhos escandinavos,
sentia-se compelida, em virtude de seu tamanho e posição estratégica, a
depender mais da boa fé internacional do que de força armada para a sua
possível defesa. Nação de menos de quatro milhões de habitantes, cuja
única fronteira terrestre confinava com o Reich alemão, havia muito ela
tinha reconhecido que não poderia oferecer resistência eficaz a uma
invasão; e mesmo suas recentes confiscações para a defesa aérea eram
mais um gesto significando o desejo de manter sua independência do que
uma garantia real contra a conquista. Como o seu premier tinha dito na
irradiação do Ano Novo: "O povo dinamarquês só tem um caminho a
seguir. Temos de prosseguir no caminho da neutralidade e confiar no valor
das promessas e acordos que conosco foram firmados."
O principal desses acordos era o pacto de não-agressão com a Alemanha.
Em abril de 1939, em resultado da mensagem do presidente Roosevelt
pedindo penhores de paz, Hitler tinha convocado os pequenos vizinhos da
Alemanha para perguntar se eles se sentiam ameaçados, e oferecera-lhes a
conclusão de tratados que pretensamente removeriam quaisquer receios
que porventura alimentassem. Nem a Suécia, nem a Noruega tinham
aceito a oferta, em vista dos exemplos de quão perigoso era para um país
pequeno aceitar qualquer garantia alemã. A Dinamarca, entretanto, julgou
que não podia; de modo algum, arriscar-se a ofender sua despótica
vizinha; e a 31 de maio firmou com a Alemanha um tratado por meio do
qual ambas prometiam
que "em nenhuma circunstância recorreriam à guerra ou a qualquer outra
forma de violência uma contra a outra."
Era essa uma garantia débil bastante, em vista dos antecedentes da
Alemanha; contudo, era a única garantia que a Dinamarca possuía. Ela não
tinha aliança e não recebera garantia alguma de qualquer outra nação.
Com os restantes neutros ocidentais, durante anos tinha depositado suas
esperanças na Liga das Nações e na perspectiva de um desarmamento
geral; e quando tudo isso ruiu, somente lhe restou a esperança de que, num
novo conflito, não oferecesse nem ofensas, nem tentações a qualquer
facção que lhe pudesse pôr em perigo a neutralidade. Estava ela ligada
com frouxos laços de cooperação econômica e política ao Grupo de Oslo,
que consistia nas nações escandinavas e nos Países Baixos; mas esses
Estados tinham evitado toda a idéia de aliança militar, por consentimento
mútuo. Quando, em março, a Finlândia obteve da Suécia e da Noruega a
promessa de que um pacto de assistência mútua se seguiria à sua paz com
a Rússia, a Dinamarca foi deixada fora desse projeto, como sendo mais um
passivo do que um ativo; e o próprio projeto desfez-se quando a Rússia lhe
interpôs o veto decisivo. Em resultado, os Estados escandinavos todos
ficaram sozinhos e isolados diante da nova acometida alemã.
A força que a Dinamarca poderia opor a tal acometida era insignificante.
Em teoria, ela podia colocar cerca de 150.000 homens em pé de guerra;
mas a maioria desses homens era deficientemente treinada, e os efetivos
de paz disponíveis não passavam de 11.000 homens. Dificilmente,
portanto, poderia causar surpresa o não ter o invasor encontrado
resistência real alguma. As forças que se lançaram ao assalto em meia
dúzia de pontos, por terra e mar, eram calculadas na ocasião em cerca de
40.000 a 50.000 homens. Apenas a Guarda Real, em Copenhague ofereceu
breve resistência, que foi prontamente dominada. Pelas quatro horas da
tarde, o país estava sob controle alemão.
Esse controle, de acordo com o governo alemão, não era o de um
conquistador, mas sim de um protetor. Numa nota aos governos dos países
invadidos, o Reich alegou que as medidas aliadas de bloqueio constituíam
"um golpe destruidor na concepção de neutralidade". O Reich estava de
posse de provas de que a Inglaterra e a França estavam planejando a
invasão dos países nórdicos, e era claro que esses países não poderiam
oferecer resistência eficaz. A Alemanha interviera portanto "para proteger
a paz do norte contra todo o ataque anglo-francês e obter a sua garantia
definitiva." Em vista desse altruísmo sem exemplos, a Alemanha esperava
que os países em questão compreendessem seus motivos e não lhe
oferecessem oposição. "Toda a resistência", - advertiu-lhes a Alemanha, -
"teria de ser e seria quebrada por todos os meios disponíveis pelas forças
armadas alemães que aqui aportaram, e levaria portanto a uma efusão de
sangue absolutamente inútil."
Em face dessa perspectiva, a Dinamarca não tinha outro recurso senão
ceder. Depois de conferenciar com o seu gabinete, o rei Cristiano deu à
publicidade uma proclamação, também assinada pelo primeiro ministro,
aceitando a situação sob protesto. A população foi solicitado evitar a
resistência afim de se salvar o país dos desastres da guerra. Numa sessão
especial do Parlamento, à tarde, o primeiro ministro fez uma declaração
em que disse: "A Alemanha assegurou-nos que não tinha intenção alguma
de violar a independência e integridade territorial da Dinamarca... Nosso
povo sem dúvida perceberá a necessidade da atitude do governo... Só a
Dinamarca, nada senão a Dinamarca importa agora."
Mas se o reino dinamarquês se mostrou, assim, uma presa fácil, com a
Noruega a coisa foi muito diferente.
A Invasão do Noruega
As forças navais alemães que se movimentavam simultaneamente contra
seis portos noruegueses, assim procediam com o conhecimento de que o
sucesso de sua empresa não dependia somente delas próprias. Reforços
aguardavam-nas em vários pontos nos bojos de navios alemães que,
chegando à Noruega ostensivamente com lastro, na realidade ocultavam as
tropas e equipamentos mecanizados destinados à invasão. O elemento de
surpresa, acentuado por essa tática, era uma grande vantagem inicial,
permitindo a um punhado de homens tomar posições essenciais enquanto
os noruegueses os olhavam atônitos. E, como toque final, havia os agentes
que esperavam os nazistas dentro da Noruega e os quais, ao tempo
marcado, realizaram as missões mais importantes que lhes tinham sido
confiadas, assegurando assim a vitória.
O ministro do Exterior da Noruega reduziu mais tarde o alcance deste
auxílio interno e alegou a 6 de maio que ainda estava para descobrir um
autêntico caso de traição. "Pode custar a ser acreditado", disse ele, "mas
fomos tomados de surpresa. Eles vieram sobre nós à noite, enquanto
dormíamos." Há pouca dúvida de que
grande parte das conversas sobre quinta-coluna e cavalos de Tróia era
exagerada, e que em muitos casos a surpresa foi obtida não em
conseqüência da deserção norueguesa, mas em resultado de falsas ordens
expedidas pelos próprios nazistas. A cooperação interna, contudo, de
qualquer fonte que partisse, permaneceu como sendo o aspecto vital de
todo o quadro. A confiança mesma com que os navios de guerra alemães
atravessaram os fiordes estreitos e sinuosos, sem se preocupar com
barreiras de minas protetoras ou com o perigo das baterias de costa,
demonstrava a completa certeza que tinham de que o seu caminho já fôra
eficazmente preparado.
Em Narvik, por exemplo, os nazistas foram auxiliados tanto pelas
atividades do cônsul alemão como pela ação do comandante militar
norueguês. O primeiro manejou os fios dos preparativos, inclusive a
presença de cargueiros com o seu carregamento oculto de tropas. O último
deixou de tomar as providências e de emitir as ordens que pudessem tornar
a resistência possível. Dois vasos de guerra noruegueses, surpreendidos no
porto de Narvik, abriram fogo conta os navios alemães quando surgiram à
vista através de forte temporal de neve; mas foram quase que
imediatamente torpedeados, e a própria cidade estava ocupada dentro de
meia hora sem que um só tiro fosse disparado de terra. Em Trondheim, de
conformidade com um comunicado norueguês, os vasos de guerra alemães
tinham-se rodeado de uma flotilha de pequenos barcos noruegueses que
impediu os fortes de Agdenes de abrir fogo. Também neste caso, a cidade
foi ocupada sem resistência; mas o forte de Hegre, ao leste, ofereceu uma
resistência que prosseguiu por toda a campanha subseqüente. Bergen,
Stavanger e Kristiansand foram da mesma forma capturados após uma
resistência relativamente pequena.
Era em Oslo, contudo, que estava a chave de toda a operação. Neste caso
também, uma combinação de surpresa e de falsas ordens reduziu a
resistência ao mínimo. Houve breve luta no aeroporto, e os fortes de
Oskaraorg impuseram curta resistência. Mas mesmo a perda de dois vasos
de guerra na passagem pelos estreitos deixou de paralisar a expedição
alemã, que, efetivamente, ocupou a capital durante a manhã de 9 de abril.
As autoridades norueguesas souberam à meia-noite que navios alemães
tinham entrado no fiorde, e o gabinete se reuniu no ministério do Exterior,
às 5 da madrugada, com as hostilidades já se desenvolvendo, chegou o
ministro alemão para apresentar a nota que informava a Noruega de que
estava sendo tomada sob a proteção benevolente do Reich e exigia a
completa rendição do país ao controle alemão. Com certa relutância, o
enviado alemão permitiu ao ministro das Relações Exteriores, Koht,
consultasse seus colegas antes de receber uma resposta. A resposta foi
uma rejeição imediata, que envolvia a certeza de hostilidade. O governo se
transferiu imediatamente para Hamar e convocou o Storting (Parlamento
da Noruega) para informá-lo dos últimos acontecimentos e receber sua
aprovação. A tarde, já na iminência de um ataque alemão a Hamar, o
governo transferiu-se de novo, dessa vez para Elverum.
Nem todas as possibilidades de acordo, entretanto, haviam sido
desvanecidas. Em Elverum, foi recebido um pedido do ministro alemão,
dr. Brauer, para uma audiência com o rei Haakon. O dr. Brauer era um
homem em que o professor Koht tinha considerável confiança, e parecia
possível que novas e mais aceitáveis propostas fossem apresentadas. O
Storting, portanto, concordou em associar três de seus próprios
componentes com o professor Koht, e o dr. Brauer foi informado de que
seria recebido no dia seguinte.
Havia certa dificuldade em torno da audiência, já que os alemães, de modo
mais sem tato, assaltaram Elverum antes que ela se pudesse realizar. Foi
somente a sua recusa em mãos dos noruegueses que capacitou o ministro
alemão a obter a entrevista que tinha solicitado. Ficou demonstrado,
entretanto, que a mesma era inútil. O dr. Brauer informou o rei, e depois a
delegação, de que a mudança de situação obrigava a novas exigências. A
principal destas era a da resignação do atual ministério e do
estabelecimento de um novo governo sob a chefia do major Vidkun
Quisling, líder do Partido Nazista da Noruega. Conquanto o sr. Koht
parecesse pronto a considerar uma mudança governamental que tomasse
possível a colaboração com a Alemanha, essa submissão a um títere
desacreditado era uma exigência que ia longe demais. O rei insistiu em
que não poderia nomear um governo que não gozasse da confiança do
povo, e o regime Quisling estaria em pé de igualdade com o que os russos
haviam colocado na região da Carélia após a invasão da Finlândia.
Consentiu em reservar a resposta para depois de consultar seu governo
legal, mas este concordou com a sua decisão, que foi comunicada ao dr.
Brauer na noite de 10 de abril. A pergunta do ministro alemão sobre se
isso significava que a resistência norueguesa continuaria, a resposta foi:
"Sim, o mais demoradamente possível".
Havia, de fato, limites muito sérios à extensão do tempo que a Noruega
poderia esperar manter-se por si própria. Mesmo em condições favoráveis
ela dificilmente poderia reunir mais que 100.000 soldados numa
população de escassos três milhões de habitantes. Tomada de surpresa
como fôra, parecia improvável que mais do que a metade desse número
estivesse à sua disposição. Os alemães, a 11 de abril, tinham talvez 50.000
homens na Noruega, bem equipados com armas mais leves, ainda que não
providos plenamente de tanques e artilharia pesada. A tarefa imediata dos
noruegueses era opor a maior barreira possível a essas forças modernas e
particularmente evitar que seu corpo principal, em Oslo, estabelecesse
junção efetiva com as guarnições muito mais fracas que tinham ocupado
os outros portos noruegueses.
Isso significava, com efeito, evitar um avanço sobre o norte ou leste do
fiorde de Oslo. A marcha alemã para o oeste pouco mais poderia fazer do
que reforçar o controle de um breve trecho costeiro. A marcha para o leste
entretanto, abriria as comunicações com a fronteira sueca; e um avanço
bem sucedido para o norte logo colocaria os invasores em posição de
cortar o país em dois e consolidar o seu domínio em toda a Noruega
meridional.
O imediato esforço norueguês constituiu, portanto, no traçar de um anel
em torno dos alemães que se lançavam nessas duas direções. A marcha
para o norte seguia pelo vale de Glommen, conduzindo às junções
ferroviárias da Hamar e Elverum e guardado a leste pela fortaleza de
Kongsvinger. A sudeste de Oslo, os alemães desembarcaram tropas à
margem oriental do fiorde e abriram caminho para o interior. Essas eram
forças aparentemente pequenas mas tinham diante de si pouco mais que
improvisados destacamentos noruegueses. A 15 de abril, os alemães
proclamaram ter atingido a fronteira sueca e estar no comando das defesas
de ambas as margens do fiorde de Oslo; e no dia 18, a resistência
norueguesa nessa zona parecia ter chegado ao fim.
Entrementes, os alemães pareciam ter-se ocupado da regularização de seus
instrumentos de autoridade na Noruega. A completa ineficácia do major
Quisling mesmo como títere ficou revelada quando, a 15 de abril, ele foi
substituído por um antigo governador provincial e ministro da Justiça,
Ingolf Christensen. Isto indicava ainda a esperança de que o Reich seria
capaz de manter a ficção de um governo independente a exercer
autoridade efetiva e aceitar a proteção alemã, mas essa esperança
rapidamente se desfez. A 19 de abril, ele recebeu novo golpe quando
Hitler ordenou a expulsão do ministro norueguês de Berlim. E a 24 de
abril, a Alemanha anunciou sua soberania irrestrita sobre os distritos
ocupados da Noruega e nomeou um comissário responsável apenas
perante o próprio Hitler.
A área que ela governava, entretanto, era distintamente limitada. As
guarnições nazistas obtiveram pouco sucesso na extensão de seu controle
em torno dos portos ocidentais. Ao norte de Oslo, os alemães exerciam
pressão sobre os vales de montanhas com unidades avançadas, mas o seu
controle além de Hamar era ainda precário. Os noruegueses continuavam a
opor encarniçada resistência, e começava a chegar-lhes socorros de parte
dos aliados. O curso futuro dos acontecimentos dependeria agora do êxito
que a marinha britânica tivesse em cortar as comunicações alemães com a
Noruega e em abrir o caminho para o desembarque de uma força aliada
considerável.
As Operações Navais
As vésperas da campanha norueguesa, o corpo principal da Home Fleet
encontrava-se em Scapa Flow. Desde a perda do Royal Oak, as defesas
desse ancoradouro tinham sido reforçadas, e a frota havia estado operando
daquela base durante as últimas cinco ou seis semanas. Periodicamente
durante esse lapso os alemães lançavam ataques aéreos contra Scapa, e
dois deles tiveram lugar na semana que precedeu a invasão, além de um
reide fracassado para atingir as Orcades. Mas na última dessas visitas, a 8
de abril, a frota não mais estava lá.
A razão era a presença no mar de unidades navais alemães. No domingo, 7
de abril, aviões britânicos de reconhecimento avistaram uma divisão naval
alemã, incluindo cruzadores de batalha, rumando para norte ao largo de
Heligoland. Logo que essa informação foi recebida, a frota pôs-se ao mar
em busca do inimigo. Havia todas as perspectivas de que os navios
alemães, mesmo que não fossem alcançados, seriam impelidos para uma
armadilha; é que ao largo da Noruega setentrional se encontrava no
momento poderosa força britânica preparando-se para o cumprimento da
tarefa de espalhar novos campos de mina ao alvorecer do dia seguinte.
O fato dos alemães terem escapado foi devido a uma combinação de boa
sorte e mau tempo. A sorte do destróier britânico Glowworm mostrou
quão limitada eram as possibilidades da frota alemã. Esse navio perdera
um homem, caído ao mar, no domingo, dia 7 de abril, e retardou-se por
algum tempo à sua procura.
No dia seguinte estava rumando para norte a fim de unir-se ao resto da
força quando se encontrou com dois destróieres alemães. Mal se tinha
engajado na luta e outro navio surgiu pelo lado norte - o novo cruzados
alemão Admiral Hipper. Antes de poder perceber e informar que tinha
topado com a principal frota alemã, o Glowworm foi posto a pique, com a
perda do grosso de sua tripulação.
Novamente, no dia seguinte, a esquadra britânica roçou as bordas da força
inimiga. Ao romper do dia de 9 de abril, terça-feira, à hora marcada para o
ataque da expedição alemã, o cruzador de batalha Renown avistou através
da tempestade de neve que então caíra ao largo de Narvik o navio de
guerra alemão Scharnhorst, acompanhado do Admiral Hipper. De uma
distância de 16.000 m, o Renown atingiu o Scharnhorst com dois
impactos, um dos quais pôs fora de ação o fire control da belonave alemã;
mas o Scharnhorst, auxiliado pela tempestade e por uma cortina de fumaça
lançada pelo cruzador que o acompanhava, conseguiu escapar-lhe de vista,
embora o Renown estivesse fazendo vinte e quatro nós no mar forte e se
tivesse distanciado bastante de seus destróieres. No decurso da ação, ele
foi atingido por uma granada que o perfurou na altura da linha d'água, mas
não explodiu e não causou baixas a bordo.
Contudo, apesar desses exemplos de boa sorte, os alemães pagaram um
preço substancial em perdas navais pelo sucesso de sua empresa. O saldo
final não pôde ser calculado com precisão. A afirmativa norueguesa de ter
afundado o navio de guerra Gneisenau no fiorde de Oslo era encarada
pelos observadores com certa cautela. Um submarino britânico disputou
com as baterias de costa norueguesas a glória do afundamento do cruzador
Karlsruhe. O cruzador que aviadores britânicos acreditavam ter posto a
pique no porto de Bergen era, de acordo com testemunhas oculares, o
Köln, que já tinha sido avariado por um torpedo. Os alemães admitiram a
perda do Blücher e do Karlsruhe, e parecia certo que o Emden tinha sido
afundado por um lança-minas norueguês e que o Admiral Scheer tinha
sido posto fora de ação por um submarino britânico. Uma autoridade naval
britânica calculou as perdas navais nazistas ao fim da primeira semana em
50% de sua força em navios de guerra de primeira classe, 33% dos
cruzadores pesados, 83% dos cruzadores leves e 43% dos destróieres.
Mesmo se permitindo uma razoável margem de erros, era certo que a frota
alemã tinha sido anulada como força ofensiva eficiente.
O significado disso, entretanto, poderia ser facilmente superestimado. A
frota alemã de superfície, mesmo na plenitude de sua força, jamais esteve
em condições de desafiar a marinha britânica. Na melhor das hipóteses,
poderia ser uma força de corsários; e mesmo sob esta forma de atividade,
seus sucessos tinham sido tão pequenos que podiam ser considerados
desprezíveis. Se, entretanto, pôde ser utilizada para assegurar a conquista
da Noruega pelos alemães, com as suas perspectivas de bases aéreas e de
submarinos dentro de pequeno raio de alcance da Inglaterra, a perda de um
terço ou mesmo da metade de seus efetivos podia não parecer um preço
alto demais a pagar. Uma vez estabelecidos nessas posições, os alemães
podiam confiar mais na sua força aérea e submarina do que nas belonaves
de superfície para proteger suas comunicações e anular todos os esforços
da potência marítima britânica para desalojá-los.
Ficou demonstrado que os cálculos alemães em ambos os casos, haviam
sido feitos sobre bases bastante razoáveis. Os golpes aliados nas
comunicações inimigas no Skaggerak eram rápidos e vigorosos e suas
fases iniciais foram tão eficazes, que os alemães na Noruega ficaram
dependendo em grande parte do transporte aéreo para a obtenção de
reforços. Mas a natureza das operações aliadas era seriamente limitada
pelas circunstâncias. Conforme Churchill explicou mais tarde, a
potencialidade aérea alemã significava que uma continuada patrulha de
superfície naquela zona teria resultado em perdas capazes de conduzir a
um desastre naval. A confiança foi, portanto, posta num bloqueio
submarino completado por minas. Os submarinos britânicos receberam
ordens de afundar todos os navios alemães que se lhes apresentassem.
Foram lançadas minas, não somente no Skaggerak e no Kattegat, mas
também ao longo da costa báltica da Alemanha. Essas diversas atividades
resultaram na perda para os alemães, no decorrer de três semanas, de pelo
menos vinte e oito navios de transporte e abastecimento e sérias avarias
em uma dúzia de outros. Mas mesmo ao preço de tais perdas, os navios
alemães continuavam a circular, e a relativa segurança de suas
comunicações, abalada pelos assaltos iniciais, foi gradualmente
restabelecida.
A possibilidade de desalojar imediatamente os alemães por meio de um
ataque direto também acarretava graves riscos. Embora as guarnições
alemães dos portos fora de Oslo raramente se compusessem no começo de
mais que dois mil soldados, o avanço inicial lhes dera uma vantagem real.
Navios invasores teriam de enfrentar não somente ataques aéreos em
águas apertadas em que havia pouco espaço para manobras, mas também o
perigo adicional representado pelas baterias da costa e pela força naval
inimiga emboscada nos fiordes profundamente recortados. Um ataque a
Oslo, como os nazistas estavam no comando dos fortes, teria sido suicídio.
O ataque a Trondheim foi tomado em consideração, e uma força que
incluía tropas canadenses
foi aprontada para a expedição, marcada para o dia 25 de abril. Mas os
êxitos iniciais no desembarque de tropas em Andalsne e Trondheim
decidiram os peritos militares a se concentrarem nesses pontos, de
preferência a um ataque direto a Trondheim, que oferecia riscos de sérias
perdas.
No caso de Narvik, a situação se desenvolveu de modo diferente, graças
em grande parte à iniciativa do comandante da flotilha britânica de
destróieres naquela região. A 9 de abril, essa flotilha de cinco navios, sob
o comando do capitão Warburton-Lee, estava patrulhando o fiorde
Ocidental, entre as ilhas de Lofoten e o continente. Fazendo
reconhecimentos, o comandante soube que Narvik já estava firmemente
dominada e que sendo os destróieres nazistas dos maiores e mais
modernos - força que teria quase o dobro da potência de fogo da divisão
britânica - se encontravam no porto. Ao saber dessa situação, o
Almirantado, se bem que particularmente ansioso por destruir os navios de
abastecimento que acompanhavam a expedição alemã, hesitava em
ordenar um ataque. Mas quando foi dito ao capitão Warburton-Lee que ele
próprio deveria ser o único juiz, e que o Almirantado o apoiaria fosse qual
fosse a sua atitude, pouca dúvida poderia haver sobre o que sucederia.
Às primeiras horas de 10 de abril, a flotilha iniciou a penetração do fiorde.
Esperava com certeza encontrar o canal minado e o porto defendido pelas
baterias de terra. Nevava tão fortemente que, como um oficial informou,
"Jamais vimos nenhum dos lados do fiorde, exceto no começo, quando
quase o abalroamos uma vez". Sua entrada aparentemente pegou as forças
alemães completamente de surpresa, pois que foram capazes de afundar os
navios de abastecimento no porto antes de terem sido forçados a retirar
pelo fogo do inimigo mais forte. O destróier Hunter foi afundado; o Hardy
foi atingido tão seriamente que teve de ser encalhado e abandonado (seus
sobreviventes meteram-se terra a dentro e foram libertados quatro dias
mais tarde); o Hotspur ficou avariado, mas conseguiu sair com os restantes
dois navios. Na retirada, coroaram o feito com o afundamento de um
transporte alemão de munições. Deixaram atrás de si um destróier alemão
afundado e três em chamas.
Essa façanha aplainou o caminho para a eliminação da força naval alemã
três dias mais tarde. A 13 de abril, nove destróieres britânicos,
acompanhados pelo couraçado Warspite cuja tarefa era silenciar as
baterias de costa, penetraram em Narvik, onde se encontravam então sete
destróieres alemães. Três destes foram destruídos no decurso de um
encontro que durou duas horas e meia. Os restantes escaparam pela
estreita entrada de 16 km do fiorde de Rombaks rumo ao leste de Narvik,
sempre perseguidos pelos destróieres britânicos. Um dos navios alemães,
já gravemente danificado, foi incendiado; os restantes três foram
encalhados e perfurados pelos respectivos tripulantes, que fugiram para
terra. Três dos destróieres britânicos ficaram danificados durante a ação;
mas a força alemã tinha sido varrida, e com ela desaparecera toda a
esperança alemã de reforçar sua guarnição por mar.
Mas Narvik mesma ainda não estava em mãos aliadas; e embora estivesse,
sua situação longínqua e a carência de comunicações terrestres tê-la-ia
tornado quase inútil como base de operações militares contra as principais
forças alemães. O patrulhamento naval ao largo da costa ocidental evitava
que quaisquer reforços substanciais alcançassem as guarnições de Bergen
e Trondheim. Mas expulsá-las dali exigia a realização de operações
militares; e agora restava a marinha tornar possível o desembarque eficaz
de uma força de efetivo considerável e bem equipada, se se quisesse
expulsar os invasores da Noruega.
A Expedição Aliada
A própria natureza da situação exigia uma expedição de tal ordem.
Teoricamente, os aliados não tinham mais obrigações diretas para com a
Dinamarca e a Noruega do que tiveram com a Finlândia. A coisa mais
aproximada a uma garantia era a referência de Chamberlain à Suécia e
Noruega no decurso dos debates finlandeses a 19 de março: "Nada irá ou
poderá salvá-las a não ser a determinação de se defenderem e de se unirem
com outros que estão prontos a auxiliá-los na sua defesa." Mas por seus
próprios interesses, os aliados não poderiam manter-se alheios à invasão
alemã da Escandinávia. Foi imediatamente anunciado que os aliados
tinham decidido estender daí em diante sua completa assistência à
Noruega e conduzir a guerra lado a lado com eles. Esta garantia foi
repetida por Chamberlain a 9 de abril. A 11 de abril, Churchill disse a
respeito. dos noruegueses: "Nós os auxiliaremos da melhor forma que
pudermos. Conduziremos a guerra em comum com eles, e somente
faremos a paz quando os seus direitos e liberdade estiverem restaurados".
E a 13 de abril, o rei George enviou uma mensagem pessoal ao rei
Haakon, assegurando-lhe que os aliados estavam dando à Noruega todo o
auxílio que lhes era possível.
Quando os primeiros dias penosos se arrastavam, esse auxílio pareceu
custar muito a chegar. Os alemães tinham alegado que a sua ocupação da
Noruega e Dinamarca visava apenas antecipar uma iminente invasão
aliada. A 27 de abril, com a apresentação teatral mas inconvincente, pelo
sr. Ribbentrop, de "provas documentárias", esta lenda avolumou-se até o
ponto em que os nazis asseguravam que uma expedição aliada tinha-se
feito ao mar para logo retroceder à notícia da ação alemã. Para tais
fantasias, a carência de imediata ação aliada era a única resposta
convincente, e servia para colorir a hipótese de que a Grã-Bretanha e a
França tinham sido de fato escolhidos em sono pelo golpe alemão.
Churchill deu algum apoio a isso quando a 11 de abril, depois de admitir
que sabiam há meses dos preparativos alemães, insistiu em que os aliados
não tinham meios para saber qual era a verdadeira finalidade desses
preparativos. Isso sem dúvida significava subestimar a perspicácia sua e
de seus colegas. A verdadeira natureza dos erros de previsão aliados foi
talvez melhor expressa numa nota do correspondente militar do Times:
"Quando a campanha da Finlândia chegou ao fim, o corpo principal da
força reunida para ir em auxílio daquele país foi transferido para outra
parte, juntamente com a sua artilharia anti-aérea. A divisão 49 e certas
outras tropas foram mantidas, entretanto, estacionárias, com o objetivo de
serem desembarcadas nos principais portos noruegueses na eventualidade
de uma invasão alemã vinda do sul. A captura desses portos pelos alemães
não foi prevista, e era considerado que os destacamentos relativamente
pequenos designados para esse propósito seriam suficientes para mantê-los
até que outras forças pudessem ser desembarcadas sob a sua cobertura... A
invasão alemã não foi, portanto, uma surpresa completa em si mesma; mas
o seu alcance e o seu êxito invalidaram completamente o plano original".
Os aliados, em conseqüência, viram-se à frente de uma operação que é
tradicionalmente uma das que oferecem sérias dificuldades - o
desembarque de tropas numa costa hostil enfrentando a resistência
inimiga. As recordações pouco confortadoras da frustrada tentativa de
forçar os Dardanelos, que começaram a avivar- se a essa perspectiva, de
modo nenhum se tranqüilizaram à contemplação do terreno norueguês.
Essa costa montanhosa, guardada por numerosas ilhas e sulcada por
enseadas profundas e sinuosas, oferecia um problema formidável. Os
estrategistas ingleses, como se vê pela citação acima, haviam
compreendido perfeitamente as vantagens que essa costa oferecia para a
defesa. Eles tinham agora de encontrar um meio de levar de vencida a
resistência que aí seria oposta pelo inimigo.
A chave de toda a operação, estava claro, era o porto de Trondheim. Oslo,
para o momento, estava fora de cogitações; e um porto como Bergen,
circundado por montanhas que quase o isolavam do interior, oferecia
vantagens relativamente menores sob o ponto de vista estratégico. De
Trondheim, por outro lado, o acesso seria possível - se bem que de forma
alguma fácil - ao principal sistema de comunicações da Noruega
meridional. Um exército que obtivesse um forte ponto de apoio nessa
região poderia ter esperança de estabelecer uma linha que cortasse o sul do
norte e oferecesse uma base de que as forças aliadas pudessem varrer,
vindas do planalto central, as posições alemães ao longo da costa.
A primeira tentativa, entretanto, não foi um assalto frontal, mas um
movimento para tomar a posição de Trondheim pela retaguarda. Nos dias
14 e 17, foram desembarcados destacamentos navais em Namsos e
Andalsnes, respectivamente; nos dias 16 e l8, eles foram seguidos pelos
primeiros contingentes de tropa. Seu imediato objetivo era obter o
domínio da estrada de ferro e assim evitar uma junção entre as forças de
Trondheim e o grosso das forças alemães e ao mesmo tempo, obter
comunicações que lhes permitissem entrar rapidamente em contacto com
as forças norueguesas e tomar posições avançadas, na esperança de mantê-
las contra os alemães até que chegasse o grosso das forças aliadas.
A essa data havia uma corrida contra o tempo, uma corrida que
possivelmente já fôra perdida. Era verdade que os alemães, apesar de uma
semana de lutas, não tinham ainda estabelecido comunicações entre o
grosso de suas tropas e as guarnições da costa. Esse era um tributo notável
à qualidade da resistência norueguesa, mas os defensores estavam sendo
fortemente comprimidos pelas forças alemães que exerciam pressão ao
norte de Oslo e a leste de Trondheim. A 16 de abril, o ministro norueguês
em Londres lançou um apelo no sentido de que os aliados agissem
rapidamente e assinalou a necessidade urgente de auxílio contra os
alemães no sul da Noruega meridional.
O fato era que a força alemã estava então crescendo com uma rapidez que
fazia com que a conservação das posições inicialmente ocupadas pelos
aliados fosse uma possibilidade. O processo de restabelecer o controle
sobre o Skaggerak tinha evoluído o bastante para fazer que suas
comunicações desfrutassem de uma segurança razoável. Os alemães
estavam agora recebendo, não somente reforços, mas o equipamento
mecanizado que permitia às forças avançadas fazer rápidos progressos
para tomar importantes posições, e os
noruegueses podiam ver a perspectiva de que a tática que tinha sido tão
bem sucedida na Polônia seria repetida às custas suas.
Contra isso, as primeiras forças britânicas podiam oferecer pouco, no
tocante ao equipamento pesado. Destacamentos leves eram mandados às
pressas para o interior a fim de se juntarem aos noruegueses e ajudá- los a
barrar o avanço alemão de Hamar a Lillehammer, mas sua inferioridade
em número e equipamento tornou impossível consolidassem suas
posições. Ao mesmo tempo, as unidades navais alemães no fiorde de
Trondheim puderam manter sob o fogo de sua artilharia pesada as forças
aliadas que avançavam para o sul, vindas de Namsos, e forçaram-nas a
recuar para Steikjer. E a perspectiva de que tais desvantagens fossem em
breve levadas de vencida era seriamente ameaçada pela superioridade
alemã no ar.
O início da campanha mostrou o domínio do poder aéreo sobre o poder
marítimo de forma mais direta que a registrada antes. Os pesados ataques
aéreos às forças navais britânicas ao largo de Bergen, a 9 de abril,
representaram a primeira batalha real entre navios e aviões em número
considerável e em alto mar. Fazendo- se a comparação, em vista dessa
batalha, entre bombardeiros e navios de guerra, o resultado penderia
decisivamente favorável a estes últimos.
Sob esse aspecto, a bomba mais poderosa lançada durante a guerra foi
uma de 1.000 libras, que alcançou Rodney com um impacto direto. A
pesada armadura da coberta do vaso de guerra resistiu completamente ao
choque, e o único dano causado pela explosão foi ferimentos em três
oficiais e sete marinheiros. Dois outros cruzadores foram atingidos, mas
ficaram apenas levemente danificados por estilhaços, e permaneceram em
seus postos junto à frota.
As unidades menores e mais levemente blindadas não podiam esperar
escapar tão facilmente. Contra impactos diretos, que eram apenas os
considerados fatais, tinham a proteção da velocidade, principalmente.
Nesse mesmo encontro, cinco ataques foram desfechados diretamente
contra o destróier Aurora, em face do pesado ataque anti-aéreo, mas
nenhum deles alcançou seu objetivo. O destróier Ghurka, por outro lado,
foi fortemente atingido e teve de ser abandonado. Foi contra unidades
dessa classe que os aviadores alemães obtiveram seus raros êxitos durante
a campanha subseqüente. Tudo o que conseguiram foi infligir certas
avarias a um cruzador durante o bombardeio de Stavanger, a 17 de abril,
mas assim mesmo esse navio foi capaz de chegar a um porto. Os pilotos
alemães pareciam ter pendor para superestimar as vitórias sobre os navios
que atacavam, e suas afirmações de vitórias acabaram por incluir o
afundamento dum vaso de guerra da classe do Queen Elizabeth, o de um
cruzador da classe do York e um porta-aviões. Mas o Almirantado
desmentiu a perda de navios dessa classe durante a campanha; e em vista
da fantástica qualidade das anteriores afirmações alemãs desse caráter, sua
ulterior exuberância deixava pouca impressão nos observadores
destacados.
O poderio aéreo, portanto, mostrou-se incapaz de disputar eficazmente o
domínio dos mares. A frota britânica podia manter abertas as
comunicações marítimas, o que era essencial para a expedição aliada. Mas
o seu poder estacava diante dos portos; e era nos portos, pontos de junção
das operações marítimas e terrestres, que a força aérea alemã agia com o
máximo de sua eficiência.
Esses portos estavam longe de serem adequados, mesmo sob as melhores
condições. Um ataque bem sucedido a Trondheim teria assegurado um
bom ancoradouro com modernas instalações portuárias. A decisão dos
aliados de confinar seus esforços iniciais a Namsos e Andalsnes deixou-os
dependentes de simples aldeias de pesca, cujas poucas docas não
passavam de toscas construções de pedra ou mesmo de madeira,
carecendo completamente de guindastes mecânicos e de outras necessárias
facilidades de descarga. Sua vulnerabilidade a ataques aéreos era
acentuada pela incapacidade de enviar material anti-aéreo com os
primeiros destacamentos aliados. Eram esses os pontos que os alemães
golpeavam com plena fúria. A 19 de abril, eles desfecharam contra
Namsos um ataque que durou sete horas, e que foi seguido de outros que
continuaram durante os três dias seguintes. "Vi Chapei, Madrid, Abo e
Rovaniemi" escreveu um correspondente francês, "depois de ataques
aéreos. Sei o que um bombardeio é, mas o arrasador da destruição de
Namsos excedia tudo que tinha visto." Os Ataques a Andalsnes, se bem
que menos espetaculares, eram quase da mesma eficácia. Quando o
equipamento antiaéreo foi posto à disposição, os dois portos estavam em
ruínas.
As tropas aliadas que tinham avançado para o interior foram expostas a
assaltos igualmente terríveis. Elas receberam os ataques coordenados de
tropas, tanques e bombardeiros de mergulho; e em Steinkjer enfrentaram,
além disso, o fogo dos navios de guerra alemães que se encontravam no
fiorde de Trondheim.
O último fator, juntamente com o desembarque de forças navais alemães
que ameaçavam cortar os primeiros destacamentos e avançar com rumo
sul em direção a Levanger, praticamente cortaram o braço setentrional da
pinça aliada que se movia contra Trondheim. Foi deixado aos
destacamentos meridionais capturar primeiro as vitais junções ferroviárias
de Dombaas e de Stoeren, para então investir para o sul com a maior
rapidez possível a fim de evitar um avanço alemão sobre os principais
vales em direção a Trondheim.
Essas forças aliadas estavam mal equipadas para semelhante tarefa.
Careciam de equipamentos mecanizados e de artilharia pesada.
Encontravam-se sem uma dotação adequada de canhões antitanques e anti-
aéreos. Na melhor das hipóteses, elas podiam esperar agir como força
retardadora contra o inimigo. E a possibilidade de receberem reforços de
pendia mais uma vez da situação no ar.
Isto significava o estabelecimento de bases aéreas aliadas na Noruega.
Houve desde o princípio tentativas de anular o poderio aéreo alemão com
ataques às suas principais bases. Stavanger esteve sob quase constante
bombardeio, e houve reides freqüentes contra campos como Fornebu,
perto de Oslo, e Aalborg, ao norte da Dinamarca. Mas apesar dos danos
extensos causados a esses campos, os aviões nazistas continuavam a
operar, e tornou-se claro que se os bombardeiros não podiam controlar as
vias marítimas, muito menos podiam impedir a atividade inimiga. Nem era
possível a caças operar com eficiência de bases britânicas distantes 500
km. Os caças bi-motores que eram utilizados desempenhavam bem a
tarefa quando em encontros com o inimigo. Mas não podiam permanecer
no ar por muito tempo, e eram provavelmente menos rápidos que os
bombardeiros alemães, como por exemplo os Junkers Ju.88. Podiam
operar patrulhas limitadas ou atacar objetivos definidos. Mas para a
defesa, era necessário aviões de caça que pudessem permanecer por mais
tempo no ar e erguer vôo assim que o inimigo surgisse. Mas tal força não
podia operar sem bases, e os alemães tinham capturado todas as bases
importantes da Noruega. Algumas tentativas foram feitas pelos aliados
para o uso de lagos gelados, mas se mostraram insatisfatórias; e uma base
improvisada na área de Dombaas foi descoberta e bombardeada até que
ficou quase inútil. Por fim, tornou-se absoluta a superioridade aérea
nazista na Noruega.
Tal fato selou o destino da expedição aliada. A superioridade alemã tanto
em efetivos como em potência de fogo foi aumentada sem cessar e à
medida que as forças nazistas avançavam. A 25 de abril, elas investiram
pelo Osterdal - o oriental dos dois vales principais - contra Tynset e
estavam a distância de ataque de Roeros; e no Gudbrandsdal, o vale
paralelo a leste, os aliados foram obrigados a recuar de Otta a Dombaas.
Lá então conseguiram deter o inimigo; mas os alemães no Osterdal
lançaram duas colunas mecanizadas através de caminhos montanhosos em
direção a um ponto da estrada de ferro entre Dombaas e Stoeren. Era um
movimento que ameaçava efetuar ligações entre a força atacante e os
alemães de Trondheim e cortar as forças aliadas em duas. Somente
reforços imediatos poderiam salvar a expedição aliada, agora numa
inferioridade de quase dez para um. Mas o Alto Comando chegou à
conclusão de que a remessa de reforços era impossível, em vista da
supremacia aérea dos alemães; e embora fosse informado que o general de
Wiart, a 29 de abril, tinha assegurado que "as tropas britânicas têm tudo
que precisam" a decisão tomada foi, entretanto, a de retirar as tropas a fim
de salvá-las da destruição. Na noite de 1 para 2 de maio, a retirada foi
efetuada de Andalsnes, e na noite seguinte de Namsos. Com exceção de
grupos esparsos de noruegueses que ainda resistiam, a totalidade da
Noruega meridional foi deixada nas mãos dos nazistas. Com uma chuva
final de bombas sobre a expedição em retirada, os alemães afundaram três
destróieres - um britânico, um francês e um polonês, - mas, de acordo com
o comunicado do Almirantado, os transportes de tropa não foram
atingidos.
O comunicado do Almirantado sobre a retirada sugeria, entretanto, que a
luta não tinha sido completamente abandonada, e que seriam realizados
esforços noutros pontos da Noruega. Isto significava claramente que se
concentrariam em Narvik. Aqui, a batalha naval de 13 de abril tinha
resultado na perda do controle alemão sobre o porto, mas não sobre a
cidade propriamente dita. Não foi senão dois dias mais tarde que os
aliados começaram a desembarcar tropas, e a protelação deu aos alemães
tempo não somente para consolidar suas posições, como também para
capturar as elevações de Rombak, a leste das pequenas forças norueguesas
lá fixadas, e estender o seu controle ao longo da estrada de ferro que
conduzia à fronteira sueca. Quando, portanto, as forças militares aliadas
chegaram, encontraram a posição forte danais para um assalto frontal. Ao
invés disso, desembarcaram tropas nos dois lados do fiorde das cercanias
da cidade, e iniciaram o vagaroso processo de envolvimento da guarnição
nazista.
Ficou demonstrado que essa operação nada tinha de fácil. A guarnição
alemã não tinha perspectiva imediata de ser substituída, pois que todas as
tentativas de remessa de reforços por mar foram interceptadas, e os
esforços germânicos para avançar de Namsos por terra eram retardados
pelas forças norueguesas e aliadas
que operavam de Mo e Bodoe. Mas a posse pelos alemães das elevações
de Rombak tornou possível um desembarque ocasional de aviões de
transporte, e outros reforços chegaram de pára-quedas. Suprimentos,
incluindo artilharia anti-aérea, eram também deixados cair de pára-quedas;
e o bombardeio alemão, juntamente com a posse alemã dos fortes da costa,
envolviam um vagaroso processo de redução, antes que as forças navais
aliadas pudessem entrar no porto em segurança. A perda do pequeno
cruzador Curlew, equipado com peças anti-aéreas, mostrou o quão
arriscado era para os navios operarem nessas águas estreitas e difíceis.
Apesar de tudo, as forças aliadas, que haviam crescido até chegarem a um
número orçado em 15.000, gradualmente se concentraram. A 28 de maio,
foi lançado um ataque que durou vinte e quatro horas; e no dia seguinte, os
aliados puderam anunciar que a cidade de Narvik estava enfim em seu
poder.
Mas esse não foi, de modo algum, o fim da história. O grosso das forças
alemães tinha deixado a cidade antes da mesma ser capturada e recuado ao
longo da ferrovia para as suas posições em torno de Bjoernfjell. Era claro
que elas não estavam ainda dispostas a entregar esses meios de acesso às
minas de ferro suecas sem uma luta que, devido a natureza do terreno,
poderia muito bem prolongar-se indefinidamente. Com todo o resultado do
conflito - um resultado que incluía o destino da própria Noruega - em jogo
na frente ocidental, os aliados se decidiram a evitar mais desgastes de
força e a evacuar toda a Noruega. "A dura necessidade da guerra", disse o
rei Haakon na sua proclamação de 10 de junho, "forçou os governos
aliados a conjugar todas as suas forças para a luta em outras frentes, e eles
precisam de todos os homens e de todo o material nessas frentes." Avisou,
portanto, o seu povo de que era inútil continuar a resistência e ao mesmo
tempo lhe garantiu que o seu rei e governo continuariam a luta fora do
país, expressando a confiança em que "o povo norueguês, juntamente com
outros povos que agora estão sofrendo sob o jugo alemão, reaverão uma
vez mais os seus direitos e liberdade." Como toque final trágico à
evacuação, o Almirantado foi obrigado a anunciar a perda de um navio-
tanque, um navio de abastecimento, dois destróieres e o porta-aviões
Glorius - afundado, de conformidade com informes alemães, pelos vasos
de guerra Scharnhorst e Gneisenau.
As Aquisições da Alemanha
Nestas operações, intensamente criticadas, foi engajada apenas uma
pequena parte das forças adversárias de cada lado. Não se considerava,
aliás, a Noruega como um alvo que justificasse o risco de maiores perdas.
Hitler podia arriscar navios de guerra, que lhe eram de pequena utilidade
em qualquer parte, mas o Almirantado se recusou a enfrentar quaisquer
aventuras sérias com a armada britânica. A expedição aliada à Noruega
meridional, constante de 12.000 homens, formava menos que uma simples
divisão; e embora os alemães tivessem mandado oito ou dez divisões, esta
continuava sendo uma pequena porção das duzentas divisões que, ao que
se calculava, o Reich tinha em armas. Importante como era a posse da
Noruega, sob numerosos aspectos, nenhum dos lados estava desejoso,
contudo, de jogar alto a ponto de enfraquecer seriamente a sua posição no
caso de um movimento do inimigo nos Bálcãs, no Mediterrâneo ou nos
Países Baixos.
Havia contudo definitivas conseqüências econômicas e estratégicas que
representavam um ganho real para a Alemanha e perda nítida para os
aliados. O espólio imediato obtido pelos nazistas era em si substancial.
Metade das reservas de ouro dos bancos centrais de Oslo e Copenhague,
somando cerca de 75.000.000 de dólares, juntamente com quantidade
ignorada de valores estrangeiros, caiu em mãos alemães. No porto livre de
Copenhague, os armazéns foram completamente atulhados de artigos
importados, desde os gêneros alimentícios até peças de motor. Somente na
Dinamarca foram encontradas de 300.000 a 500.000 toneladas de óleo e
petróleo. Estes eram manás que a economia estritamente racionada do
Reich tinha todas as razões para bem receber.
Os recursos naturais da Noruega e Dinamarca eram de maior importância
ainda. A Dinamarca era rico país agricultor e produtor de laticínios, no
qual um terço da população vivia exclusivamente do cultivo da terra. Uma
nação como a Alemanha, que ficou sem manteiga afim de fabricar
canhões, podia bem receber a aquisição do maior exportador de manteiga
do mundo, e também um dos maiores produtores de toucinho. Tanto a
Dinamarca como a Noruega eram grandes exportadoras de peixe, e os
produtos florestais e minerais da Noruega eram importantes para
propósitos bélicos. Um aspecto complementar dessas aquisições era o de
que elas privavam os aliados, particularmente a Grã-Bretanha, de
suprimentos que até então recebiam. A Grã-Bretanha absorvia metade das
exportações dinamarquesas e mais que uma quarta parte das da Noruega.
Ela estava agora sem o seu maior fornecedor de manteiga, toucinho e
ovos. Com a conquista da Noruega, ela perdia o grosso de seu
abastecimento normal de madeira e mais de noventa por cento de sua
polpa de madeira - materiais importantes na manufatura de aviões e na provisão de
celulose para explosivos, como também ao fabrico de papel para jornais.
Da Noruega também vinham ligas de ferro e produtos de acetileno,
importantes para o preparo de aço e construções navais. Tais produtos,
agora à disposição da Alemanha, teriam de ser substituídos pelos aliados
por abastecimentos de fontes menos adequadas.
Havia, é verdade, outras considerações que até certo ponto perturbavam
esse equilíbrio. Para começar, a Dinamarca tinha uma balança comercial
favorável com a Inglaterra, enquanto da Alemanha comprava mais do que
lhe vendia. Isto significava que a Dinamarca obtinha fundos da Grã-
Bretanha e os empregava na Alemanha, obtendo assim uma certa soma de
câmbio estrangeiro que não mais estaria à disposição do Reich. Também,
embora a nova conquista pudesse facilitar a situação alimentar no Reich,
essa vantagem poderia, a certos respeitos, ser temporária. Nenhum país
bastava a si mesmo em matéria de gêneros alimentícios. A Noruega em
particular, com apenas três por cento de suas terras aráveis, dependia de
importações de cereais; e a Dinamarca era uma produtora especializada
para o mercado mundial e dependia a muitos aspectos de abastecimentos
de fora. Isto era particularmente verdadeiro no caso dos adubos e
forragens, ambos os quais provinham de além-mar; e estes,
particularmente as forragens concentradas como a torta oleosa, eram
justamente os de que a Alemanha carecia. Isto queria dizer que, embora a
Dinamarca fosse uma abastecedora por curto prazo de gêneros
alimentícios, surgia a possibilidade de que a carência de forragens
conduziria no inverno a uma considerável matança de gado; e,
entrementes, o problema de abastecer a Noruega de gêneros alimentícios
devia ser resolvido pela Alemanha. Mas essas eram dificuldades que
podiam ser facilmente exageradas. A Alemanha tinha mostrado, no caso
de outras conquistas suas, que podia lidar com essa espécie de situação,
reduzindo o padrão de vida dos povos que mantivesse submissos; e a
imediata instituição de um racionamento rígido na Dinamarca mostrou a
determinação de conservar essa nova conquista por métodos semelhantes.
Um fator importante, contudo, escapava-lhe em grande parte ao controle.
Esse era a navegação dinamarquesa. Era um fator particularmente
importante no caso da Noruega, cuja navegação de quatro e meio milhões
de toneladas era a quarta frota mercante do mundo em tamanho,
ligeiramente superior à frota alemã. Considerável parte dessa frota,
incluindo cerca de cinqüenta por cento dos 272 navios-tanques
noruegueses, já estava fretada pelo governo britânico. Somente pequena
porção dessa frota estava em portos noruegueses quando se verificou a
invasão, e aos navios em alto mar foi ordenado pelo rádio arribassem a
portos neutros ou aliados. Por meio de disposições subseqüentes, um
comitê norueguês com sede em Londres tomou sob controle unificado essa
frota agindo em colaboração com o controle naval anglo-francês
estabelecido logo no começo da guerra. A navegação dinamarquesa,
entretanto, era um problema mais complicado. O governo norueguês podia
agir com os aliados; mas o governo dinamarquês estava sob proteção
alemã e não podia adotar uma atitude hostil ao Reich. Isto significava que
a navegação dinamarquesa, do ponto de vista aliado, era tecnicamente de
um caráter inimigo. Ao mesmo tempo, os aliados não tinham desejo algum
de tratar a Dinamarca como uma potência hostil, e tinham todas as razões
para adquirir e não destruir os navios dinamarqueses. Ao invés de os
apreender ou afundar, os aliados se ofereceram para arrendá-los, sob a
condição de serem transferidos para a bandeira britânica ou francesa e de
que a renda correspondente não passasse para a Alemanha. Essas
condições, entretanto, mostraram-se de difícil aceitação, e durante abril e
maio a maior parte dos 700 navios pertencentes à Dinamarca, dois terços
dos quais em portos neutros ou aliados, permaneceram imóveis. Um
comitê dinamarquês de navegação, organizado pelo ministro da
Dinamarca nos Estados Unidos, negociava com os aliados; e a 23 de maio
foi firmado um acordo permitindo aos navios deixarem os portos neutros
com qualquer destino, a exceção da Alemanha e países sob seu controle.
Mas isto acabou por ser apenas uma concessão temporária, e o destino
final dos navios que continuavam a ostentar o pavilhão dinamarquês
parecia ser provavelmente sua apreensão pelos aliados.
Sob o aspecto estratégico, a conquista da Noruega meridional, em
particular, significava uma vantagem bem definida para a Alemanha. Os
portos noruegueses se prestavam admiravelmente à atividade submarina.
As bases aéreas norueguesas diminuíam para a metade a antiga distância
pelo ar à Inglaterra setentrional, especialmente à base naval de Scapa
Flow. A Alemanha estava, pelo menos potencialmente, numa posição
muito mais favorável para martelar as principais rotas marítimas
britânicas, incluindo as rotas norte e oeste das Ilhas Britânicas, e para
obrigar as forças navais de bloqueio que antes patrulhavam a área entre a
Escócia e a Noruega a estender suas atividades por um raio muito maior. A
importância da nova situação foi demonstrada a 17 de abril com o informe
de que a Grã-Bretanha estava colocando minas ao longo de sua costa
ocidental, principalmente para proteger o estuário do Clyde. A ameaça
ainda era mais potencial do que imediata, pois que o êxito dos submarinos
contra a navegação mercante continuava em declínio, e parecia que as
bases aéreas norueguesas ainda não estavam sendo utilizadas para reides
de longa distância. Mas a
Alemanha, apesar de tudo, estendeu grandemente o alcance de seu poder
ofensivo contra o flanco oriental britânico.
Do ponto de vista negativo, havia também vantagens reais para a
Alemanha. Mesmo que não tivesse usado essas novas posições como
bases para ação agressiva, a ocupação removera o receio de que pudessem
ser tomadas e utilizadas contra ela pelo inimigo. O controle da Dinamarca
e da Noruega era uma proteção para a frente setentrional da Alemanha,
cuja importância ficou grandemente aumentada. porque significava
também o controle sobre o Báltico. E tinha a outra e positiva vantagem de
quase automaticamente significar o controle da Suécia.
A invasão da Noruega alarmara naturalmente a Suécia, receosa pela
própria segurança. E, por mais irônico que pareça, foi o veto russo ao
proposto pacto escandinavo de defesa que livrou a Suécia da obrigação de
entrar na guerra em favor da Noruega. Mas havia sempre a perspectiva de
que, se as forças alemães fossem mal sucedidas, os nazistas exigissem
passagem através da Suécia para homens e abastecimentos. A Suécia
rejeitara de antemão qualquer idéia dessa natureza e alegara firmemente a
intenção de defender sua neutralidade contra qualquer violação. Apoiou
esta alegação com ataques a aviões que lhe sobrevoaram o território e com
protestos enérgicos junto ao Reich contra tais atos. Uma troca de cartas
entre o rei Gustavo e Hitler parece ter levado a Alemanha a dar garantias;
mas o fato decisivo foi o êxito da consolidação do controle alemão na
Noruega. Isto significava, com efeito, que a Suécia caíra
irremediavelmente na órbita alemã, tanto política, como economicamente;
e o começo de negociações comerciais com a Alemanha em fins de abril
indicava o fato da Suécia ter percebido que, com a Alemanha controlando
a entrada do Báltico, o acesso sueco ao mundo exterior era dependente da
boa vontade alemã.
Significava também que os recursos da Suécia estavam mais
completamente do que nunca à disposição da Alemanha, e especialmente
que a Alemanha tinha agora garantido um fornecimento contínuo de
minério de ferro sueco. Isto era de importância capital, pois que das
importações alemães de minério de ferro no total de 24.000.000 de
toneladas em 1938 quase 11.000.000 de toneladas provinham da Suécia, e
a sua alta qualidade tornava-a indispensável à indústria alemã de
armamentos. Normalmente, o grosso dessa importação seguia o caminho
de Narvik, e esse porto no momento não mais era utilizável. Mas as
importações alemães por essa rota vinham mostrando forte declínio desde
o início do ano; e com a abertura da rota do Báltico acreditava-se que
Lulea e outros portos suecos, embora mais limitados em capacidade que o
de Narvik, podiam encarregar-se do grosso das exportações necessárias.
Por outro lado, os aliados estavam agora grandemente privados do acesso
ao minério sueco. A Grã-Bretanha, em fevereiro, recebera, em realidade,
mais minério de Narvik que o recebido pela Alemanha. Os dois milhões
de toneladas de minério que ela normalmente importava da Noruega e
Suécia representavam apenas uma terça parte de suas importações, mas
sua alta qualidade tornavam-no de grande importância, e a indústria
britânica de aço estava provavelmente destinada a enfrentar certa
dificuldade antes de poder conseguir uma fonte substituta de
abastecimentos.
A Queda de Chamberlain
O colapso da campanha norueguesa levou ao auge uma crise política que
havia muito se vinha desenvolvendo. Nas primeiras etapas da invasão
nazista, o público tinha sido encorajado a acreditar que Hitler tinha dado
um passo descuidado, cujas conseqüências cedo sentiria. Com o passar do
tempo sem que essas conseqüências surgissem, crescente obstinação se
tornou aparente; e com a revelação da completa falta de habilidade dos
aliados na realização de um contra-golpe decisivo, o sentimento de
decepção achou vasas numa explosão de ira contra o governo, e
especialmente contra o primeiro ministro.
Mas o responsável não era apenas o fracasso norueguês. Como Attlee
disse durante debates subseqüentes: "Reina grande ansiedade entre o povo
deste país, que não está convencido de que a guerra está sendo conduzida
com suficiente energia, capacidade, força e resolução. e isto não somente
na Noruega. A campanha norueguesa é o auge de outros
descontentamentos". Isto ficou delimitado pela diferença na atitude geral
em relação a Chamberlain e Churchill. Este era responsável pelo
Almirantado, cuja política foi alvo de considerável crítica sob a acusação
de falta de audácia crítica orientada pelo almirante Keyes, que se mostrava
ressentido com a rejeição de sua oferta de dirigir um ataque a Trondheim.
Churchill falara de modo otimista a respeito da ação de Hitler,
classificando-a de "erro estratégico e político tão grande como o cometido
por Napoleão ao invadir a Espanha." Prometera que os exércitos aliados
iriam "limpar o solo dos Vikings da imunda mácula da tirania nazista".
Mas Churchill, fossem quais fossem os seus enganos, teve pequena parte
na responsabilidade pelas grandes deficiências que tinham condenado a
campanha ao fracasso. Logo que Hitler começara a rearmar-se, ele tinha
estado a martelar o governo, num esforço para persuadi-lo
da necessidade de se preparar para a luta vindoura. E agora apontava para
antecedentes de que não teve culpa quando dizia: "A razão da séria
desvantagem decorrente da falta de iniciativa nossa é daquelas que não
podem ser rapidamente removidas. Foi falha nossa não termos nos últimos
cinco anos mantido ou reconquistado a paridade com a Alemanha no ar.
Esta é uma velha e comprida história."
Por outro lado, Chamberlain não podia deixar de compartilhar uma parte,
ao menos, de tal situação. E à luz do fracasso norueguês, toda a política do
governo chamberlainiano começou a assumir uma perspectiva diferente
aos próprios olhos dos que o apoiavam. A lembrança de tentativas inúteis
para apaziguar os ditadores, a exclusão inexorável de seu conselho de
homens que advogavam uma orientação mais briosa, a carência de vigor
mesmo depois de iniciada a guerra e o otimismo frívolo de alegações
como que "Hitler tomou o bonde errado" - tudo isso agora refluiu sobre
ele. Qualquer possibilidade que tivesse de recuperar a posição era desfeita
pela sua arrogante impenitência. A desculpa implícita em seu discurso de
7 de maio visava menos o fracasso da expedição do que o fato mesmo de
tal expedição ter sido enviada. Recusava-se a estudar quaisquer mudanças
sérias de pessoal ou a criação de algum gabinete de guerra realmente
eficiente. Reiterou a convicção de que "a balança das vantagens até o
presente pende para o lado das forças aliadas". Era claro que sob sua
chefia não se poderia esperar um novo impulso de vigor ou imaginação.
O resultado foi uma revolta dentro do próprio Partido Conservador contra
a continuação dessa inexorável falta de habilidade. Este foi o fato vital em
torno da votação de 8 de maio na Câmara dos Comuns. O governo estava
à superfície, sustentado por uma votação de 281 contra 200. Mas o Partido
Conservador na Câmara somava 365 membros, e destes apenas 252
votaram pelo governo. Entre os 65 conservadores que não tinham votado
pode ter havido algumas abstenções normais, mas o grosso se abstivera
deliberadamente de votar como expressão de sua desaprovação. Os 33
conservadores que votaram contra o governo incluíam figuras
proeminentes tais como Duff Cooper, L.S. Amery, Leslie Hore-Belisha e
Lord Winterton todos eles antigos ministros conservadores. Todos os
membros conservadores dos serviços de guerra presentes à sessão votaram
contra o ministério.
Apesar da maioria de Chamberlain, portanto, a votação era uma clara
condenação de sua chefia. Ele tentou ainda endireitar a situação, alargando
as bases do ministério. Mas os líderes trabalhistas se recusaram a unir- se a
uma administração de que Chamberlain fosse o chefe, e essa recusa
resolveu o caso. A 10 de maio, Chamberlain renunciou, e Churchill teve
coroada a sua movimentada carreira com a obtenção, afinal, da pasta de
primeiro ministro.
Mas a esta altura os aliados se defrontaram com uma nova crise, muito
mais grave, pois Hitler lançou todo o poderio de seus exércitos contra os
Países Baixos.
A Invasão dos Países Baixos
A confiante inocência da Dinamarca e da Noruega, que se deixaram
apanhar completamente de surpresa, estava longe de ser partilhada pelos
pequenos países à fronteira ocidental da Alemanha. Logo desde o
renascimento da Alemanha como potência militar, eles vinham tendo
plena consciência dos perigos com que se iriam defrontar no caso de uma
nova guerra no oeste. A topografia dos Países Baixos, que oferecia menos
obstáculos naturais que o terreno mais para o leste, tomava-os o caminho
mais adequado para um exército de invasão que partisse quer da França
quer da Alemanha. A tentação era aumentada pela sua relativa carência de
obras artificiais de defesa, quando contrastadas com as pesadas
fortificações de ambos os lados da fronteira franco-alemã. Uma investida
através da Holanda e da Bélgica era algo que os chefes militares tanto da
Alemanha como dos aliados tinham que ter em vista como uma
possibilidade sempre presente.
Os Países Baixos, por sua vez, estavam completamente alertas quanto a
essa perspectiva. Nos primeiros dias da guerra, ela chegou muito perto da
realização durante a crise de novembro; e novamente em janeiro um
ataque alemão pareceu iminente. O irromper das hostilidades na
Escandinávia mostrou o quanto as pequenas nações neutras estavam
expostas à cruel agressão nazista e prenunciou ações alemães mais vastas
no oeste. A Bélgica, a 10 de abril, cancelou as licenças no exército. A
Holanda também começou a tomar precauções, que a levaram a reforçar
suas tropas nas áreas fronteiriças de Limburg e Bradant a 12 de abril e a
inundar a região em torno de Utrecht. A lei marcial já estava em vigor em
certos distritos; e a 19 de abril o estado de sítio foi estendido a todo o país.
Com a lição das atividades quinta-colunistas da Noruega diante delas,
tanto a Holanda como a Bélgica começaram a deter pessoas suspeitas em
posições-chave - se bem que no caso da Holanda pelo menos tais medidas
se mostrassem por demais limitadas no seu intuito.
A 7 de maio estava claro que tais precauções tinham e muito bem - a uma
razão de ser. Nesta data, chegou aos Países Baixos a informação de que os
alemães estavam concentrando tropas rapidamente em pontos- chave ao
longo da fronteira. O governo imediatamente cancelou as licenças no
exército, convocou certas classes de reserva, fechou vários canais internos
e suspendeu todas as mensagens telefônicas e telegráficas para fora do
país. A imprensa semi-oficial alemã ensaiou uma surpresa compungida à
idéia de que os Países Baixos se considerassem ameaçados, e apontou
insistentemente os Bálcãs como sendo o real foco do perigo. Depois, com
todos os preparativos completos, o governo alemão entrou a vociferar
contra a falsidade aliada em utilizar a situação do Mediterrâneo como uma
cortina de fumaça destinada a mascarar suas intenções a respeito dos
Países Baixos, desígnios esses que a Alemanha tinha que neutralizar,
tomando sob sua proteção aqueles países. Na madrugada de 10 de maio, os
exércitos alemães invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo.
As Defesas dos Países Baixos
O poder defensivo dessas novas vítimas da ofensiva nazista, se bem que
limitado em extensão e recursos, não era de modo algum desprezível. O
pequeno Grão Ducado de Luxemburgo, com a sua população de 600.000
habitantes, não poderia naturalmente oferecer nenhuma resistência eficaz.
Mas a Holanda e a Bélgica, ambas a esse tempo plenamente mobilizadas,
tinham em armas cerca de 400.000 e 600.000 homens respectivamente; e
possuíam sistemas de defesa que, esperava-se, compensariam, em certos
aspectos, a falta de defesas naturais.
Entretanto havia também sérias omissões que, por algum tempo, tinham
preocupado seriamente os peritos militares. Até certo ponto, essas
omissões eram o resultado inevitável da atitude política dos dois países.
Em sua insistência por uma rígida política de neutralidade, tanto a Bélgica
como a Holanda haviam recusado todas as sugestões para entrarem em
planos específicos destinados a dar-lhes o auxílio aliado de que agora
necessitavam de modo tão premente. A Holanda permanecia
orgulhosamente isolada, sem garantia alguma de assistência exterior em
caso de invasão. A 19 de abril ainda, o premier de Geer tinha anunciado
numa irradiação: "Até onde o auxílio humano alcance, contamos somente
com nós mesmos. Além disso, temos de ambos os lados a promessa de que
a nossa neutralidade será respeitada até que a mantenhamos, e sobre isto
não pode haver dúvida alguma. Portanto, não queremos arranjos e mesmo
os evitamos." Se por fim os holandeses mostraram certo ressentimento
pelo fato de um eficaz auxílio aliado não ter chegado a tempo, esse atraso
era, em grande parte, conseqüência da atitude que aqueles países haviam
adotado.
A atitude da Bélgica foi semelhante. Até 1936, a Bélgica mantivera uma
aliança militar com a França. Mas com a ascenção de Hitler e a
perspectiva de nova luta, o rei Leopoldo achou que a volta a uma posição
de neutralidade era preferível a uma situação que significava a certeza de
nova invasão, no caso da guerra rebentar. Em 1937, portanto, ela foi
libertada de seus compromissos. Mas tanto a Grã-Bretanha como a França
reafirmaram a garantia dada em Locarno de socorrer a Bélgica em caso de
invasão, e o governo alemão assegurou a determinação "de respeitar
sempre o território belga", desde que a Bélgica deixasse de se envolver em
atividade militar contra o Reich.
Em resultado dessa nova posição, Leopoldo achou-se obrigado a abster-se
mesmo de conferências militares com os aliados. "As alianças", disse,
"mesmo as defensivas, não nos serviriam, porque, por mais pronto que
fosse, o auxílio não nos poderia alcançar antes do primeiro choque do
invasor, que poderia ser sobrepujante e contra o qual devemos preparar-
nos a lutar sozinhos." Todos os esforços aliados para chegar a um acordo
que lhes facilitasse o auxílio mais rápido possível foram inúteis em face
dessa atitude. Leopoldo acreditava que poderia manter a neutralidade
permanecendo à parte, e que qualquer cooperação com os aliados
convidaria certamente a um ataque. Em dezembro, seguindo-se ao medo à
guerra do mês anterior, houve certo contato entre os estados maiores
militares, mas o rei rejeitou tanto a unidade de comando como um plano
combinado de campanha. A Bélgica, acreditava, era dez vezes mais forte
defensivamente do que em 1914, e havia menos risco em ficar sozinha do
que em planejar a aceitação de um auxílio definitivo; e mesmo a lição da
Noruega não o induziu a aceder aos apelos dos aliados.
O acontecimento iria provar que seus cálculos eram otimistas demais. A
Bélgica podia ter sido mais forte que em 1914, mas agora tinha de
enfrentar os métodos novos e muito mais devastadores de 1940. e para
essa tarefa não estava de modo algum equipada. O custo do rearmamento
significava que ela tinha sido incapaz de adquirir alguns dos mais
dispendiosos armamentos, inclusive artilharia pesada e equipamento
mecanizado. Estava com falta tanto de tanques como de canhões anti-
aéreos; e, o que era ainda mais sério,
era fraca em aviões de primeira linha e defesa anti-aérea. Dado o caráter
da blitzkrieg hitleriana, eram essas deficiências de primeira grandeza.
Mais ainda, a atitude da Bélgica em relação aos aliados era paralela à
atitude da Holanda em relação à Bélgica. Os holandeses se recusaram a
considerar não apenas planos de defesa coordenada com a Bélgica, mas
mesmo a eficiente continuidade de fortificações fronteiriças. Sua primeira
real linha defensiva, ao longo do Ijssel, era uma continuação da linha
belga do Mosa. Mas ela não oferecia nenhuma grande barreira; e a posse
pelos holandeses da fortaleza de Maastricht significava que eles
mantinham um ponto de vital importância para o sistema defensivo belga,
mas que os próprios holandeses, em parte devido a dificuldades de ordem
geográfica, dificilmente poderiam esperar defender por mais de um
período muito breve.
Atrás dessa linha de pouca profundidade, as defesas belgas e holandesas
deixavam de ter qualquer ligação. Conforme declarou o presidente da
comissão de defesa nacional do Senado belga a 26 de dezembro, havia
entre os dois sistemas um corredor desguarnecido de 65 km. de largura.
Uma penetração inimiga nessa área, vinda de leste, dividiria os dois países
e ameaçaria a posição belga no flanco mais fraco. A posição holandesa,
consistente principalmente de defesas resultantes do aproveitamento de
canais e zonas inundáveis, era a linha Grebbe, cerca de 30 km. a leste de
Utrecht, estendendo-se à fronteira belga, mas não fazendo ligação alguma
com a linha do canal Alberto. E na região de Utrecht ficava a principal
linha protegendo a parte rica e populosa do país, a Holanda ocidental - de
novo uma linha de que as defesas aquáticas formavam os principais
esteios. Era um sistema tanto tradicional como não dispendioso que
convinha à frugalidade holandesa; mas por mais eficaz que pudesse ter
sido no século XVII era dificilmente adequado a uma guerra do século
XX.
As defesas belgas eram mais modernas e mais lógicas. Ao sul, o difícil
terreno das Ardennes era uma defesa avançada a proteger a principal linha
ao longo do Mosa. Ao norte, o Canal Alberto oferecia uma defesa
reforçada por uma cadeia de casamatas que, toscamente, faziam paralelo
com a fronteira holandesa desde Antuérpia até o Mosa. E ao centro, a
proteger as Ardennes e a fronteira holandesa, estavam os fortes de Liège,
modernizados e aumentados desde 1914 e acrescentados à junção do Mosa
e do Canal Alberto com o novo forte de Eben Emael. Onde o sistema
holandês podia, na melhor das hipóteses, conseguir uma ação retardadora,
os belgas podiam esperar que suas defesas mantivessem a resistência até a
chegada de auxílio eficaz.
Mas eles precisavam de tal auxílio, e precisavam que viesse depressa.
Logo após ter sido iniciada a invasão, o governo belga apelou para a Grã-
Bretanha e França. "O governo belga", dizia a sua mensagem, "está
resolvido a resistir com todas as suas forças à agressão de que o país é
mais uma, vez objeto. Ele apela para os governos da República e do Reino
Unido no sentido de que o auxílio previsto em tratados e confirmado pela
declaração em comum de 24 de abril de 1937 lhe seja estendido com a
maior brevidade possível."
Apoio Aliado
Os aliados já haviam previsto as medidas a tomar em tal situação. Estavam
plenamente cônscios do perigo que seria oferecido ao seu flanco esquerdo
por uma investida alemã através dos Países Baixos, e suas representações
à Bélgica sobre a necessidade de medidas de defesa comum tinham sido
uma tentativa para enfrentar essa ameaça. Quando a Bélgica se recusou a
escutá-los, os aliados se decidiram a salvaguardar suas posições por outros
meios. A Linha Maginot, projetada ao tempo em que se esperava a Bélgica
se aliasse à França, não tinha sido construída ao longo da fronteira belga,
que ainda estava aberta quando a guerra começou. De setembro em diante,
portanto, os franceses diligenciaram a construção de um sistema
suplementar de fortificações naquela área. Essas construções não eram tão
completas e tão permanentes como a Linha Maginot, pois que tinham sido
baseadas ao princípio da defesa de profundidade, numa rede de fortins
isolados, entremeados de armadilhas para tanques e outras defesas
acessórias; mas, ao que parecia, os franceses tinham pouca dúvida de que,
devidamente guarnecida, essas defesas seriam perfeitamente adequadas
para repelir o invasor.
Havia, na verdade, uma corrente de opinião no Alto Comando Francês a
qual defendia a retenção das principais forças aliadas nessas posições
defensivas, mesmo que os Países Baixos tivessem de ser deixados
entregues ao seu destino. Mas essa atitude era combatida por outro grupo e
pelos britânicos, que achavam que a garantia dada aos belgas devia ser
cumprida e que a costa belga não tinha de ser entregue ao inimigo sem
luta. Também pode ter havido a impressão de que a invasão alemã abriria
oportunidade para um contra- golpe decisivo. Conforme pouco antes da
invasão afirmou um escritor militar belga. "A invasão dos Países
Baixos envolveria uma grande derrota diplomática alemã. Parece pouco
provável que a Alemanha se exponha a tal probabilidade."
Quando chegou o apelo do rei Leopoldo, portanto, os aliados já se tinham
decidido por um plano de ativa assistência. Duas horas depois, tropas
aliadas estavam em movimento. Seu destino principal era a parte da linha
ao sul de Louvain, embora pelo menos um batalhão tivesse sido enviado à
Holanda, na esperança de que chegasse a tempo de poder ajudar os
holandeses. Algumas unidades francesas tomaram posições em direção à
costa, mas a ala esquerda era mantida principalmente pelos belgas, com o
grosso da Força Expedicionária Britânica ao centro e os franceses ao sul,
particularmente ao longo do Mosa. As guardas avançadas dos aliados em
marcha estabeleceram contato com o inimigo a 13, e a 15 os seus corpos
principais estavam em posição.
A esse tempo, entretanto, já os alemães tinham conseguido êxitos tão
substanciais que tornou todos os planos aliados obsoletos e fez
desmoronar todo o conceito que estes faziam da natureza da guerra. A
tática empregada pelos alemães na sua investida ocidental já tinha sido
prenunciada na Polônia, mas a importância da lição polonesa, ao que
parece, não foi muito bem apanhada pelo Alto Comando Aliado. Em
conseqüência, conquanto a invasão dos Países Baixos não tenha sido em si
uma surpresa, o elemento de surpresa estava contudo presente, aqui como
na Noruega, como um resultado dos métodos táticos empregados pelo
inimigo.
Esses métodos foram possibilitados pelo motor a gasolina. Os resultados
obtidos com as unidades mecânicas combatentes em terra e no ar
ofereciam novas possibilidades de rapidez e poder ofensivo aproveitados
ao máximo pelos nazistas. O uso de bombardeiros de mergulho para
aplainar o caminho, de tanques para efetuar a ruptura inicial de linhas, de
infantaria motorizada para explorar ou consolidar o avanço, ofereciam um
novo espetáculo de coordenação precisa e efetiva. E outro elemento de
surpresa foi injetado pelos ataques, não somente às linhas aliadas como à
retaguarda. Até uma extensão considerável, esses ataques foram assistidos
por aqueles membros da quinta-coluna nazista, particularmente na
Holanda, que tinham sido preparados com instruções precisas para
desempenhar sua parte essencial.
Mas foi o lançamento de tropas em pára-quedas e o desembarque de outras
com botes a motor e aviões de transporte que tornaram possível a captura
de posições vitais e a conquista da Holanda em cinco dias.
A Conquista da Holanda
Esse foi o primeiro passo em torno do qual os alemães se concentraram.
Simultaneamente com o assalto à fronteira, que resultou na tomada de
Maastricht e na invasão da Holanda setentrional, um ataque foi desfechado
do ar contra Roterdã e as posições-chave ao longo do Mosa. Aviões de
transporte aterrissaram e capturaram o aeroporto de Waalhaven.
Hidroaviões com mais tropas desceram no rio Mosa. Residentes alemães,
que se tinham reunido durante a noite numa ilha sobre o rio, onde o
edifício de concreto que servia de sede aos escritórios de uma companhia
alemã de navegação formava um quartel-general ideal, contribuíram com a
tomada das pontes que davam acesso à cidade. Outros transportes aéreos
desceram no aeroporto durante o dia, até que um reide aéreo britânico pô-
lo parcialmente fora de ação. Embora os holandeses, depois de dura luta,
tivessem conseguido expulsar os alemães das posições obtidas na cidade,
estes continuaram a manter o aeroporto e a margem esquerda até serem
alcançados pelas principais forças alemães vindas do leste.
Foi, de novo, a força mecanizada que tornou possível esse avanço rápido.
As defesas holandesas não conseguiram resistir aos ataques em massa dos
bombardeiros ou de paralisar o assalto dos tanques alemães. As defesas
aquáticas com que se contava para deter os tanques foram transpostas
quando o assalto aéreo capacitou os destacamentos alemães a cruzar os
rios e canais e a manter um ponto de apoio até que os engenheiros
ergueram pontes para a passagem dos tanques. A tomada da ponte de
Moerdijk por tropas pára- quedistas evitou a demolição desta e permitiu
aos alemães flanquear o todo das principais defesas aquáticas holandesas
e, no quarto dia da campanha, isolar o grosso das tropas holandesas de
quaisquer reforços vindos do sul.
Entrementes, as principais cidades da Holanda eram submetidas a furiosos
ataques aéreos. Roterdã encontrava-se em chamas e parcialmente
destruída. Amsterdã era pesadamente bombardeada. Tanto em Amsterdã
como em Haia, elementos quinta-colunistas desfechavam ataques a
posições-chave, auxiliados por tropas pára-quedistas. A 13 de maio, a
rainha Guilhermina e o governo holandês partiram para a Inglaterra,
deixando no cargo o comandante-chefe, general Winkelinan. No dia
seguinte, já tomada Roterdã e Utrecht
ameaçada de completo aniquilamento, estava claro que a Holanda se
achava no fim de uma resistência efetiva. As autoridades holandesas
alegaram que ao fim de cinco dias de luta o exército tinha sofrido 100.000
baixas, isto é, uma quarta parte de seus efetivos. A 14 de maio, com a
finalidade de evitar mais destruição e carnificina, rendeu-se toda a
Holanda ao norte do Mosa, e no dia 17 a província de Zeeland que ainda
combatia cessou a resistência. Após uma quinzena de governo militar, a
nação que fôra subjugada em cinco dias foi posta sob o controle do dr.
Seyss-Inquart - nome que evocava calamitosas recordações da Áustria e
cobria de manto gelado a futura felicidade dos Países Baixos.
A Batalha de Flandres
A eliminação da Holanda do rol dos beligerantes abriu a possibilidade de
um movimento alemão de cerco através da Bélgica setentrional à maneira
do plano de 1914. Entretanto, evidenciou-se logo que se deviam esperar
dificuldades, tanto de caráter estratégico como tático. Da mesma forma
que na Polônia, os alemães seguiram o plano de romper as forças
adversárias e envolvê-las parceladamente. Tendo tomado conta da
Holanda, procuraram em seguida isolar as forças na Bélgica atacando, não
à sua ala esquerda, mas a sua junção com as principais linhas francesas.
O inicial golpe alemão, que rompeu as defesas holandesas, também varreu
a primeira linha belga com desconcertante rapidez. A pronta captura de
Maastricht deixou exposto o Canal Alberto; e a tomada, no segundo dia,
do novo forte de Eben Emael permitiu aos invasores cercar as defesas de
Liège quase no mesmo ponto que em 1914 e voltar-se contra o próprio
Canal Alberto. Os belgas recuaram para uma linha ao longo do rio Dyle,
onde as forças aliadas se lhes reuniram, mas não antes que Namur tivesse
sido envolvida (se bem que seus fortes, como os de Liège, continuassem a
resistir) e Louvain fosse alcançada pelos alemães. Mas, embora a pressão
continuasse nessa região, estava claro a 15 de maio que toda a força da
ponta de lança alemã estava sendo lançada contra as posições francesas do
Mosa.
Quando os aliados deixaram suas posições preparadas para penetrar na
Bélgica, eles realizaram aquilo que na realidade era uma conversão à
direita, cujo pião se fixava em Sedan. As posições resultantes ao longo do
Mosa formavam um ângulo reto com o prolongamento da Linha Maginot
de Montmedy a Mézières. Com isso, deslocaram numerosas unidades que
mantinham esse setor especial. Ele deixou aquela parte da linha
temporariamente fraca; mas os aliados contavam com as defesas das
Ardennes belgas para retardar o inimigo e impedir qualquer assalto sério.
Esse foi um erro sério, talvez mesmo fatal. As forças mecanizadas alemães
irromperam através do terreno difícil das Ardennes, com seus bosques e
elevações, com uma velocidade espantosa. Sua rapidez levou de vencida
as forças relativamente leves daquele setor e evitou a destruição de
estradas e
pontes, o que poderia retardar o avanço. Os invasores golpeavam a linha
do Mosa, enquanto as tropas destinadas a reforçar o setor de Sedan ainda
se deslocavam para tomar posições. De acordo com Reynaud, essas tropas
comandadas pelo general Corap eram de qualidade inferior, menos
solidamente treinadas e dispondo de oficialidade menos eficiente que as
que estavam substituindo. Haviam sido postadas ao longo do Mosa,
organizadas em pouca profundidade, e metade das divisões de infantaria
ainda não estavam em posição a 14 de maio. Quando os alemães
investiram contra o Mosa, entre Namur e Sedan, foram capazes, em parte
porque também aí algumas pontes não tinham sido destruídas, de efetuar
travessias em três lugares e de conseguir uma ruptura da linha entre Sedan
e Maubeuge, ameaçando assim com o envolvimento de todo o sistema
francês de fortificações. A 19 de maio, um corredor de 100 km. de largura
já tinha sido aberto entre os exércitos franceses a leste e as forças aliadas
na Bélgica. Não mais era simplesmente um "saliente", como tinha sido
dito a princípio. Estava sendo alargado e aprofundado por uma pressão
constante, que chegou ao auge quando, a 21 de maio, as colunas alemãs
abriram caminho para o oeste e atingiram a costa em Abbeville.
Esse êxito surpreendente tinha a explicação básica na simples máxima
enunciada por Frederico, o Grande: "As batalhas são ganhas pela
superioridade de fogo." Os alemães, nesses encontros, foram capazes de
lançar maior peso de metais que seus adversários. Isto era devido tanto à
superioridade alemã em equipamentos mecanizados como à eficiência
com que esse equipamento foi utilizado. Como na Polônia, a sua
superioridade no ar foi utilizada primeiro para destruir os aeroportos
franceses nos reides em massa contra Nancy e outros centros, a 10 de
maio, e depois para facilitar o assalto preliminar contra a infantaria
defensora, assalto que aplainou o caminho para o ataque terrestre. A força
aérea aliada retribuiu com eficácia dentro de seus limites, hostilizando as
colunas alemães de suprimentos e penetrando profundamente na Renânia e
na Alemanha meridional para atacar centros ferroviários e os depósitos de
combustível que
continham as reservas tão essenciais a uma guerra mecanizada. A 15 de
maio, a R.A.F. entrou em plena ação contra os alemães que estavam
transpondo o Mosa, e contribuiu para que fosse evitado um desastre
imediato, ao preço da perda de trinta e cinco aviões. No decorrer desses
dias de combate, ficou perfeitamente comprovada a superior qualidade dos
aviadores e aparelhos aliados. Mas isto não pôde contrabalançar a carência
em número; mesmo que as perdas alemãs registrassem uma proporção de
quatro para uma, conforme declaração britânica, a vantagem não era
grande bastante para manter o equilíbrio no ar.
Quanto aos tanques, a vantagem alemã ainda era maior. Os alemães
tinham pelo menos dez e possivelmente doze divisões blindadas, somando
cerca de cinco mil tanques. Contra estes, os franceses possuíam no
máximo quatro ou cinco divisões e os britânicos uma. Causava este fato
fraqueza na defesa e mais ainda nos contra-ataques. Os alemães revelaram
a posse de tanques lança-chamas (possivelmente a "nova arma secreta"
que dominou o forte de Eben Emael) e de tanques gigantes de setenta ou
oitenta toneladas, cuja armadura resistia ao fago dos canhões anti-tanques
e fez com que entrasse em ação os canhões 75 franceses, que atiravam
com alça zero. Foi realmente triste chegar-se à conclusão de que os mais
eficientes desses tanques, e os mais difíceis de deter-se por meios
ordinários, haviam sido provavelmente construídos na Tchecoslováquia.
A superioridade alemã nesses pontos essenciais era acentuada pela estreita
cooperação das duas armas. O choque inicial, efetuado pelos
bombardeiros de mergulho, que tomaram o lugar da barragem de artilharia
da guerra passada, foi imediatamente seguido por um assalto mecanizado,
enquanto os defensores ainda se encontravam confusos pelo primeiro
choque. Assim que os tanques pesados descobriram os pontos débeis da
linha, arremeteram por eles e, seguidos por veículos blindados mais leves,
abriram-se em leque e atacaram as zonas mais à retaguarda, forçando
assim uma precipitada reorganização da linha para enfrentar a ameaça
vinda de nova direção. Os defensores, desse modo desequilibrados, não
tinham oportunidade real de se recompor, já que os alemães mantinham a
iniciativa por meio de golpes sobre golpes. Os esforços dos aliados para
cortar o corredor por meio de contra-ataques obtiveram alguns êxitos
iniciais, mas não conseguiram de modo algum, nenhum resultado
permanente; e, através da brecha entre Bapaume e Peronne, os alemães
foram capazes de obter reforços que obrigaram os franceses a recuar para
trás do Somme e fizeram a volta pela costa para envolver as forças aliadas
ao norte.
Retirada da Bélgica
Os chefes aliados cedo perceberam o perigo que representava para essas
forças a rapidez do avanço alemão sobre o Mosa. A 12 de maio, já estava
claro que esse avanço oferecia séria ameaça às posições aliadas no rio
Dyle, e que a situação ao sul tornava desejável uma retirada. A insistência
do rei Leopoldo, entretanto, que protestou contra a rendição de Bruxelas e
Antuérpia, a ordem foi retardada até o dia 15. Com a ruptura pelos
alemães das linhas aliadas em Sedan, a retirada tornou-se inevitável e, a 17
de maio, as forças aliadas recuaram para trás de Bruxelas (de onde o
governo belga saíra para Ostende) e ocuparam uma linha que corria de
Lille, ao longo do Escalda em frente a Ghent, para um ponto a oeste de
Antuérpia, cidade que is alemães entraram no dia seguinte.
Com o irrompimento alemão para o Canal, a 21 de maio, a situação dos
exércitos setentrionais tornou-se extremamente precária. Eles agora
estavam cortados de socorros diretos do sul e dependentes, para efeito de
suprimentos e reforços dos portos do Canal. Mas o irrompimento alemão
para a costa, acompanhado de violentos ataques aéreos aos próprios
portos, ameaçava cortar essas vias finais de comunicação. A 23 de maio,
luta pesada se desenvolvia em torno de Boulogne, de onde a guarnição foi
evacuada dois dias mais tarde por destróieres que repeliram os tanques
alemães em avanço a uma distância quase do tiro com alça zero. A 26, os
alemães proclamaram a queda de Calais, embora a guarnição aliada,
isolada e dependente de provisões vindas do ar, mantivesse a cidadela por
mais quatro dias. Com Ostende já ameaçada, apenas um porto, o de
Dunquerque, permanecia aberto para os aliados.
Então, a 28 de maio, a última esperança de manutenção desse porto
pareceu desfazer-se com a decisão do rei Leopoldo de fazer com que as
tropas belgas se rendessem aos alemães.
"Em plena batalha", disse Reynaud numa irradiação no mesmo dia, "o rei
Leopoldo III, sem uma palavra aos soldados franceses e britânicos, que,
em resposta ao seu angustioso apelo, tinham acorrido em socorro ao seu
país, depôs as armas." A amargura dos aliados era compreensível. Mas se
de fato a rendição os apanhou de surpresa, a intenção do rei, se bem que
não a sua decisão final, parece que lhes foi comunicada alguns dias antes.
Com certeza houve uma sessão noturna que durou até às 5 da madrugada
no dia 25 de maio, sessão em
que seus ministros em vão procuraram demovê-lo de seus propósitos.
Quando ele persistiu, os ministros lhe denunciaram a ilegalidade da
medida sem uma sanção ministerial, e declararam que o governo belga
continuaria com novas forças ao lado dos aliados. O próprio Leopoldo
buscou uma saída solicitando aos alemães um armistício; mas quando este
foi recusado, optou pela rendição incondicional.
Não há dúvida alguma de que suas razões baseavam-se na convicção de
que a situação militar era sem esperança. Churchill, a 4 de junho, tinha
dito que desde a ruptura da linha do Mosa "somente uma rápida retirada
para Amiens e para o sul podia ter salvo os exércitos britânicos e francês";
mas acrescentou que o único motivo que evitou a efetivação dessa retirada
foi o fato de ter ela acarretado a destruição do exército belga e a rendição
de todo o país. Essa era a perspectiva com que o rei, que se recusara a
reconhecê-la uma quinzena antes, agora se defrontava. Enquanto as
colunas alemães avançavam rapidamente em direção à costa, as principais
forças alemães ao norte lançaram todo o seu peso contra as forças belgas.
Impeliram os aliados para além do Escalda, tomando Ghent e Courtrai, e
efetuaram em seguida uma arremetida que as levou através do Lys e
deixou Bruges sob seu fogo. Quando o caminho da retirada estreitou-se, a
destruição do exército belga tornou-se iminente, e com ela a perda de toda
a Bélgica. Na esperança de resguardar algo de seu país e de sua própria
autoridade, Leopoldo, por sua própria responsabilidade, fez a paz.
Pareceu a princípio que tal atitude acarretava a destruição certa dos aliados
que tinham vindo em seu socorro. Com a sua ala esquerda repentinamente
exposta, e os esforços para cortar o corredor do Somme repelidos com
mais perdas, pareceu difícil de se crer que pudessem abrir caminho para o
sul ou escapar através de Dunquerque antes que a armadilha se fechasse ao
todo. A 29 de maio, o comunicado oficial alemão anunciou que o destino
dos exércitos franceses e britânicos estava selado.
O que se seguiu foi um triunfo da disciplina e do moral. O flanco exposto
foi rapidamente reorganizado para formar uma frente contínua. A área em
torno de Dunquerque foi inundada para constituir uma barreira extra aos
ataques mecanizados. Os corpos de tanques franceses que lutavam ao
redor de Lille efetuaram uma heróica ação de retaguarda sob o comando
do general Prioux; e mesmo quando os alemães os separaram do grosso
das forças, parte dessas forças conseguiu romper caminho para a frente.
Vagarosamente e em boa ordem, diante de um inimigo que empregou todo
o seu poderio procurando esmagá-los, os exércitos franceses e ingleses
recuaram em direção a Dunquerque.
Ali, as forças navais dos dois países empreenderam uma das ações mais
difíceis que se pode imaginar, o embarque de um exército batido em face
de violenta perseguição. Muita gente se recorda das operações de Corunna
há mais de um século; mas Sir John Moore não teve nessa ocasião que
enfrentar uma força aérea inimiga. Os bombardeiros alemães atacaram
sem cessar tanto as tropas retirantes como os navios que as recolhiam, e
com particular selvageria a própria Dunquerque. A situação era agora o
reverso do que fôra, na Noruega, com os aviões inimigos a martelar
novamente o ponto de junção entre as forças de mar e terra. Dessa vez,
entretanto, a destruição das instalações portuárias não era tão decisiva.
Elas não mais eram imprescindíveis ao fornecimento de material, e as
circunstâncias tornaram possível embarcar os homens em praias abertas.
Uma vasta flotilha de pequenas embarcações tinha sido reunida para levar
os sobreviventes aos transportes e navios de guerra que os aguardavam ao
largo. Durou cinco dias a evacuação, favorecida por um mar calmo e
parcialmente protegida durante pelo menos dois dias por forte nevoeiro.
Quando a 4 de junho os alemães afinal entraram em Dunquerque, era este
um porto em ruínas de que sua presa escapara.
À vista da magnitude da operação, e da exposição a ataques não somente
da aviação como de submarinos e botes-rápidos munidos de lança-
torpedos, a perda anunciada pareceu surpreendentemente pequena. A Grã-
Bretanha admitiu a perda de seis destróieres e de vinte e quatro pequenas
embarcações, juntamente com 24.000 toneladas de navios mercantes, no
decurso da operação. A França perdera sete destróieres e um navio de
abastecimentos. Quão grande era a força salva da Bélgica, apenas as altas
autoridades o poderiam dizer com exatidão. Churchill anunciou que a
marinha, utilizando-se de quase mil navios de todos os tipos, tinha
carregado 335.000 homens através do Canal. Sua declaração sobre as
perdas, constante de "mais de 30.000" homens, pareceu, na sua deliberada
maneira vaga, ocultar uma certa reticência. Não houve, contudo, tentativa
alguma para reduzir a seriedade das perdas de material, que incluíam mais
de mil canhões e o grosso do equipamento mecanizado britânico, bem
como uma porção não declarada do pertencente aos franceses. Fosse qual
fosse a perda infligida aos alemães atacantes - que uma autoridade neutra
estimou em quarenta por cento de seu equipamento mecanizado - essa
perda era tal que, conforme Churchill advertiu, exigiria bastante tempo aos
aliados para ser reparada.
Um aspecto da evacuação ofereceu uma pequena parcela de conforto para
o futuro. E isso era devido às realizações da força aérea britânica. A
superioridade individual que tinha sido demonstrada de modo cada vez
mais impressionante, mesmo desde o começo da guerra, nunca esteve tão
em evidência como na batalha de Dunquerque. Dessa vez, os caças
britânicos dispunham de bases dentro de seu raio de ação; e se em sua
inferioridade numérica, não foram capazes de manter os bombardeiros
inteiramente afastados, anularam praticamente a sua eficácia durante a
maior parte da evacuação. Sem essa supremacia britânica no ar, toda a
majestade da marinha dificilmente teria podido evitar que a operação
degenerasse num matadouro. "Foi a primeira vez", escreveu um
observador americano, "que as forças de caça inglesas e alemãs entraram
em combate real durante um período tão extenso e em que tanta coisa se
jogava. A superioridade dos aviões ingleses ficou imediatamente
estabelecida."
Aquisições Alemãs
O cômputo dos lucros e perdas resultantes da conquista dos Países Baixos
e do norte da França era ainda de avaliação mais complexa que o da
Escandinávia. Todos esses países eram, até uma extensão considerável,
produtores especializados que estavam longe da auto-suficiência quanto às
necessidades da vida. A Holanda produzia gêneros alimentícios para
menos de três milhões dos seus oito milhões de habitantes. A Bélgica, o
país europeu de maior densidade de população, estava ainda mais
dependente da importação de gêneros alimentícios. Eram esses paises que,
como a Dinamarca e a Noruega, viviam de troca de gêneros com outros
países; e embora a Alemanha ocupasse um lugar importante nesse sistema
de trocas, o processo para ajustar os países conquistados dentro do sistema
econômico alemão iria certamente acarretar profundos reajustamentos,
particularmente para os conquistados.
Na aquisição de bens imediatos, a Alemanha podia provavelmente contar
com um forte saldo credor. Era verdade que ela obtivera relativamente
pouco em ouro ou moeda estrangeira, cuja maior parte havia sido
calmamente evacuada antes da invasão. Os créditos holandeses e belgas
nos Estados Unidos, como os da Dinamarca e Noruega, tinham sido
congelados ao romper das hostilidades por ordem do governo americano.
O grosso da marinha mercante holandesa escapara ao controle nazista. E
embora certos estoques de petróleo tivessem sido adquiridos, os grandes
depósitos, em portos como Flushing e Amsterdã, tinham sido destruídos
antes da rendição.
Mas a Holanda era um grande país mercante com fortes estoques de
gêneros em depósito e em trânsito, e os armazéns de seus portos, como
também cidades como Antuérpia e Dunquerque, representavam sem
dúvida bem-vindas aquisições. A Holanda também, como a Dinamarca,
oferecia um suprimento de gêneros para curto período, baseado nas
grandes indústrias de laticínios e no cultivo de legumes; se bem que, outra
vez como a Dinamarca, a manutenção da produção nesses terrenos
dependesse de forragens e fertilizantes vindos de fora, os quais havia
dúvida de que a Alemanha pudesse fornecer.
Havia, entretanto, aquisições mais permanentes de natureza industrial.
Apesar de haver capturado poucos navios, a Alemanha obteve os maiores
estaleiros da Europa. Essas aquisições nos quatro países conquistados
forneciam uma capacidade total igual à da própria Alemanha. Embora os
estaleiros não pudessem ser adaptados à construção de grandes unidades
navais sem considerável emprego de tempo e dinheiro, poderiam servir
para a construção de submarinos, particularmente desde que tanto a
Dinamarca como a Holanda tinham firmas produzindo motores Diesel.
Mais importantes ainda eram as indústrias pesadas da Bélgica e
Luxemburgo. A Bélgica tinha consideráveis depósitos de carvão, e estes
completados pela aquisição do norte da França, incluindo-se a grande
bacia do Lens, que produzia mais de 30.000.000 de toneladas anuais. O
Luxemburgo, situado à orla da bacia produtora de ferro do Lorena, tinha
uma produção de minério igual a três quartas partes da produção alemã e
fornecia oito por cento das importações pré-guerra da Alemanha. A
indústria pesada da Bélgica. Luxemburgo e norte da França seria uma
valiosa aquisição aos recursos da Alemanha e uma perda correspondente
para os aliados.
Dessas conquistas provinha uma possível desvantagem. A Alemanha, que
extraía trinta por cento de suas importações de pré-guerra desses países,
também os usava como via de suas importações de além-mar. Isto era
especialmente verdadeiro em relação à Holanda, cujo comércio de
trânsito, de um modo geral, era igual à metade de suas exportações e
importações combinadas. Isto se tornou particularmente importante depois
de iniciar a guerra e da instituição do bloqueio aliado. A Holanda, cujas
importações dos Estados Unidos em janeiro de 1940 eram o dobro das de
janeiro de 1939, representava claramente uma lacuna séria no sistema
aliado. Ela agora estaria sujeita aos seus plenos rigores, e a Alemanha
seria incapaz de usá-la como canal para o mundo exterior. Mas o
significado disto não devia ser exagerado. O controle aliado já estava
começando a apertar-se, conforme ficou demonstrado pela queda das
cifras de importação de fevereiro e março, em relação ao nível do ano
anterior. O tratado comercial firmado com a Inglaterra a 21 de março
estabelecia o racionamento das exportações numa base das estatísticas de
antes da guerra: e os comerciantes holandeses, que escaparam à lista negra
aliada, estavam cooperando para que suprimentos essenciais não
chegassem à Alemanha. O rombo já tinha sido reduzido a um orifício
antes da invasão alemã.
Para os países conquistados, o aspecto mais sério da nova situação
econômica consistia no fato de toda a sua economia ter sido baseada no
livre intercâmbio de gêneros no mercado mundial, e de ter sido agora essa
base destruída. Para os aliados, significava a perda tanto de fregueses
como de fontes de suprimento. Cerca de dez por cento do comércio
britânico, cerca de quinze por cento do da França, faziam-se com esses
países. Mas era o aspecto estratégico que oferecia o perigo mais iminente.
A extensão da fronteira alemã contra a Inglaterra, resultante da conquista
da Noruega, era agora ainda mais alongada e numa direção muito mais
perigosa. Pela primeira vez desde os dias de Napoleão, a Inglaterra via a
costa do Canal de posse dum inimigo poderoso. Se a Noruega trouxe os
nazistas a uma distância de ataque de Scapa Flow e às rotas comerciais do
norte, os Países Baixos lhes deram bases aéreas situadas a uma hora de
alcance de bombardeio do coração da Inglaterra industrial, e bases
submarinas cuja importância fôra perfeitamente evidenciada durante a
última guerra. Embora as instalações portuárias de Boulogne e
Dunquerque tivessem sido destruídas antes da evacuação, e embora
Zeebrugge estivesse uma vez mais bloqueada, seria apenas uma questão
de tempo para que fossem postos novamente em condições de utilização -
e possivelmente em condições de muito melhor utilização que as
existentes mesmo em 1918. E, entrementes, a sua posse permitiria
dificultar as comunicações aliadas e tornaria a Hitler mais fácil concentrar-
se contra a Inglaterra ou atacar com todas as suas forças o coração da
França.
A Tomada de Paris
Uma das características da prematura posição aliada de condescendência
tinha sido a afirmativa de que o tempo estava ao lado dos aliados. Mas o
tempo, como depois passaram a perceber, era um aliado inconstante.
Enquanto a França e a Inglaterra puderam permanecer atrás de suas
defesas e preparar-se despreocupadamente para uma luta prolongada,
podia se supor que elas repeliriam com firmeza a inicial investida alemã.
Mas mesmo isso exigia uma ação rápida e enérgica, se quisessem tirar
todas as vantagens dessa situação de calma; e mesmo quando tal situação
terminou, não compreenderam os aliados como havia sido breve este
período.
Com o fim do período de trégua, o tempo passou a favorecer o outro lado.
Tornou-se evidente que a Alemanha estava disposta a usar todo o peso de
sua vantagem para esmagar os aliados antes deles poderem obter
superioridade em organização e equipamento. O tempo, de que
desesperadamente necessitavam, era- lhes negado, pois Hitler lançava
agora golpes sobre golpes antes que seus adversários pudessem recobrar-
se do choque anterior. Mesmo enquanto a última das tropas derrotadas
estava chegando de Dunquerque, os nazistas tinham reunido suas forças
para uma nova arremetida, dessa vez diretamente contra Paris.
Novamente, a advertência preliminar veio em forma de reides aéreos. A 1
o de junho, o vale do Ródano. inclusive a importante área industrial em
torno de Lyon, foi atacado pela primeira vez. A 3 de junho, as primeiras
bombas caíam sobre Paris mesma. Até certo ponto, esses reides
aparentavam ter o agora clássico objetivo de martelar as bases aéreas e
destruir os aviões defensores no solo. E a 5 de junho a Inglaterra, até então
quase imune, experimentou o primeiro de três ataques aéreos sucessivos,
mas em grande parte ineficazes, dirigidos às bases situadas nas costas do
leste e do sul.
O avanço propriamente dito foi iniciado na madrugada de 5 de junho.
Numa frente de 190 km ao longo do Somme e do Aisne, os bombardeiros
de mergulho nazistas desciam sobre as linhas francesas, seguidos pela
infantaria alemã que se deslocava em formação em massa para o assalto.
Dessa vez, os tanques, ao invés de encabeçarem o avanço, foram, segundo
parece, mantidos em reserva, para explorar brechas porventura abertas
pela infantaria. Esse processo, possivelmente, foi motivado pela natureza
das novas defesas, organizadas às pressas, ao longo da linha do Somme e
destinadas especialmente a neutralizar a tática nazista de infiltração. As
tropas mantiveram a posição contra a infantaria atacante. Quando os
tanques surgiram, foram capazes de infiltrar-se entre os postos avançados,
para caírem na armadilha e serem destruídos mais tarde pelas defesas de
tanques da retaguarda.
Confiava-se que essas defesas, se bem que não fossem inexpugnáveis,
pudessem infligir ao inimigo perdas desastrosas. Mas ficou logo claro que
mesmo tais perdas não conseguiram deter o comando alemão, agora
determinado a ministrar um golpe esmagador antes que os remanescentes
do exército de Flandres pudessem ser reorganizados ou que a Linha
Weygand fosse tornada permanente. Os ataques principais, desfechados no
baixo Somme e ao longo do canal Ailette, entre o Aisne e o Oise,
conseguiram penetração durante o primeiro dia nas defesas externas.
Durante dias seguidos, a fúria dos ataques e o número dos atacantes, ao
invés de enfraquecer, crescia gradualmente. No começo, calculava-se que
os alemães estavam empregando quarenta divisões. No quinto dia, esse
número subiu para cem divisões o total das tropas alemães de primeira
linha disponíveis.
Sob essa tremenda pressão, os franceses, agora apoiados por tropas
britânicas à sua esquerda, eram obrigados a recuar continuamente. A 6 de
junho, os alemães anunciavam o rompimento da linha do Somme em três
pontos e o avanço de 27 km; e no leste o seu ataque atingia o Chemin-des-
Dames. No dia 9, chegaram ao Sena em Rouen e estenderam seu ataque,
mais para leste na direção de Argonne. O Aisne foi atravessado em dois
pontos e as forças avançadas alemães estavam a 55 km de Paris. No dia
seguinte, quando a ponta ocidental da pinça penetrou no Sena e a sua
ponta oriental, apoiada por um avanço sobre Reims, chegou até o Marne, o
governo francês deixou Paris e se dirigiu primeiro a Tours e depois, quatro
dias mais tarde, a Bordéus. No dia 12, tanto o Sena como o Marne tinham
sido atravessados, e uma força aliada, contendo pelo menos uma divisão
britânica, fôra cortada da costa do canal. Os alemães afirmavam que dois
exércitos franceses, com um total de cerca de meio milhão de homens,
tinham sido postos fora de ação eficaz.
Paris era agora uma cidade condenada. Num esforço para salvá-la da
destruição, o comando aliado decidiu não fazer tentativa alguma para
defendê-la, e sim fazer recuar suas forças para uma linha mais ao sul. A 14
de junho, ressoavam na silenciosa capital os passos das tropas nazistas em
marcha, e outra vez, após setenta anos, Paris era entregue aos alemães.
Com renovada fúria; o ataque nazista lançou seu peso contra a frente
francesa mais a leste, num esforço para esmagá-la no seu pivô, em
Montmedy, e flanquear a Linha Maginot.
Quando a 10 de maio foi iniciada a invasão da Holanda, Hitler a
descrevera com a batalha que iria "decidir o destino da nação alemã para
os próximos mil anos". No início do avanço sobre Paris, Weygand dissera
na sua ordem do dia: "Começou a batalha da França. O destino do nosso
país, a salvaguarda da nossa liberdade, o futuro de nossos filhos dependem
da vossa tenacidade". Era, assim, o destino de ambos os contendores que
estavam em jogo. Não mais era uma simples questão de vitória ou derrota,
mas sim de sobrevivência ou aniquilamento nacional. E quando a pressão
incessante continuou e a Itália lançou seu peso para o lado da Alemanha,
tornou-se claro que a Inglaterra e a França precisavam reunir todos os seus
recursos a fim de restabelecer a situação.
Os Governos de Guerra Aliados
A campanha norueguesa, que se mostrara fatal ao ministério Chamberlain,
teve, de modo significativo, efeito contrário sobre a posição de Reynaud.
Chamberlain representava os erros do passado. Reynaud representava uma
reação contra esses erros e a promessa de uma política nova e mais
eficiente. Os acontecimentos da Noruega pareciam confirmar a resolução
francesa de depor Daladier; e o ministério Reynaud, que a 22 de março
mal tinha obtido um voto de confiança da Câmara, recebia o apoio
unânime daquela Casa a 19 de abril.
A invasão dos Países Baixos deu mais firmeza ao apoio ao ministério.
Atenuaram-se temporariamente as divergências dentro da Câmara e a
oposição externa diminuiu ao ser reconhecida a necessidade de completa
união nacional para enfrentar a nova emergência.
Uma das razões de tal oposição fôra a inclusão de elementos socialistas no
ministério, numa tentativa para se lhe alargar a base - passo que fez os
partidos da Direita tomar a princípio uma atitude que era a expressão de
sua crítica. Agora, entretanto, o desejo por um esforço unido sobrepujou as
diferenças políticas. A 10 de maio, dois líderes da oposição conservadora
entraram no gabinete de guerra para lhe dar um caráter completamente
representativo de todos os matizes da opinião política.
A harmonia assim conseguida, entretanto, foi submetida a severas
provações durante os meses seguintes. Em particular, o espírito de
moderação e transigência, responsável por falhas anteriores, continuava a
dificultar a ação do governo sob diversas formas. Houve, mesmo, indícios
de que o antigo premier, Pierre Laval, tinha obtido, contra a oposição de
Daladier, a realização de novas tentativas de apaziguamento da Itália,
talvez mesmo a idéia de uma paz com a Alemanha por meio de
transigências. A responsabilidade direta de Daladier pela condução da
guerra terminou a 18 de maio, quando numa reorganização parcial do
ministério Reynaud
tomou conta da pasta da Guerra, entregando a Daladier, em troca, a dos
Negócios Exteriores. Ao mesmo tempo, o ministério do Interior era dado a
Georges Mandel, que fôra assistente de Clemenceau e o qual, acreditava-
se, dirigiria com mão forte os negócios internos, animando as autoridades
locais com um espírito resoluto e enérgico; e o idoso marechal Pétain foi
convidado para o cargo de vice-presidente do Conselho, com a tarefa
especial de aconselhar Reynaud sobre a condução da guerra.
Essas nomeações reavivaram a lembrança do Tigre e da bem sucedida
defesa da França, um quarto de século antes. Por isto mesmo, talvez, elas
localizaram o contraste com o espírito de Munique e dos homens que o
corporificavam. A 5 de junho, seguindo-se a crescentes atritos em torno de
questões da política futura, essa sensação chegou ao auge e resultou numa
nova revisão do ministério. Daladier foi deixado de lado definitivamente.
Albert Sarraut, seu associado mais íntimo, perdeu a pasta de ministro da
Educação. Várias outras mudanças com a mesma tendência geral foram
efetuadas. O resultado foi a eliminação final das principais figuras ligadas
a Munique - uma "transformação", como se expressou um comentador,
"que eliminou concepções gastas, espíritos fatigados e tendências em
conflito". Simultaneamente, outro passo em direção à eficiência era
evidenciado pela redução do gabinete de guerra de onze para oito
membros.
Essas transformações na esfera do governo civil foram o resultado da
necessidade de "novos métodos e novos homens" de que Reynaud falara
dois dias antes. Mais significantes ainda foram as transformações no
comando militar. Um dia depois de ter sido Pétain chamado ao serviço do
governo, o general Gamelin foi removido de seu posto de comandante-
chefe e substituído pelo general Weygand, a quem Gamelin sucedera em
1935. A 25 de maio, numa reviravolta drástica, quinze generais foram
demitidos de seus comandos. E em conexão com a reorganização de 5 de
junho, o general Charles de Gaulle foi levado, como colaborador especial
de Reynaud, ao ministério da Guerra.
Por trás dessas transformações estava o fato de ter Reynaud reconhecido, a
21 de maio, que a clássica concepção francesa da guerra tinha sido
completamente esmagada pelas novas realizações. Essa concepção
baseava-se na tática defensiva de uma guerra de posição e simbolizada
pelo general Gamelin e pela linha Maginot. Era, entretanto, uma
concepção da qual o próprio Reynaud duvidara durante algum tempo. Em
1935, ele apresentara um projeto de lei para a criação de uma considerável
força mecanizada que desse à França capacidade de ofensiva - proposta
essa rejeitada pelo governo de então. O general de Gaulle compartilhava
esta crença na necessidade da ofensiva por meio de material mecanizado;
e em Weygand, discípulo e sucessor espiritual de Foch, os franceses
esperavam estivesse corporificado o próprio espírito de ofensiva.
Na Grã-Bretanha também houve uma transformação em direção
semelhante. O salto do general Ironside, a 26 de maio, de chefe do Estado
Maior Imperial a comandante-chefe das forças metropolitanas talvez tenha
sido parcialmente motivado por uma crescente preocupação em torno da
possibilidade de invasão. Era, contudo, verdade que o seu sucessor, Sir
John Dill, era considerado muito mais que Ironside como o homem que
partilhava da preferência de Weygand pelo ataque em vez de defesa. Mas
o indício real de uma mudança de atitude por parte da Inglaterra foi
evidenciado, e de modo ainda mais claro do que no caso da França, pelas
mudanças no governo, que se seguiram à renúncia de Chamberlain.
O Ministério Churchill
O desejo de união nacional que animou a França em face do assalto de
Hitler, encontrou imediato paralelo na Grã-Bretanha. A falta de confiança
em Chamberlain tinha sido uma barreira para um verdadeiro governo
nacional, mas a sua substituição por Churchill abriu logo o caminho para a
união de todos os partidos em torno do comum esforço bélico.
O novo gabinete da guerra era um pequeno organismo interno composto
de cinco membros. Churchill, Halifax e Chamberlain representavam a
maioria conservadora, com Attlee e Greenwood como representantes dos
trabalhistas. A ausência da representação liberal nesse órgão indicava que
certas dificuldades políticas ainda permaneciam em suspenso, pois que
teria sido extremamente difícil a inclusão de Sinclair mediante a
eliminação de Simon, e a eliminação de Simon era quase um pré-requisito
para a colaboração trabalhista. Mas na prática o novo órgão oferecia geral
satisfação a todas as camadas da opinião pública. Era pequeno bastante
para prometer uma direção eficaz da política. Seus membros estavam
geralmente livres de deveres administrativos - princípio que em vão se
desejava impor a Chamberlain. Apenas Lord Halifax, no Ministério das
Relações Exteriores, estava chefiando um departamento específico. Os
outros quatro
membros ocupavam postos que obrigavam a tarefas nominais, e assim
estavam livres para dedicar toda a atenção à política geral.
Nem a mudança do Gabinete de Guerra nem a do Ministério
representavam. por si sós, uma transformação completa. O Partido
Trabalhista, em seus ataques a Chamberlain e seus associados, tinha
mostrado uma antipatia particular em relação a esses três fidalgos, Sir
John Simon, Sir Samuel Hoare e Sir Kingsley Wood. A eliminação desse
grupo, popularmente identificado com o espírito de Munique e do
apaziguamento, foi, entretanto, incompleta. Simon foi generosamente
elevado ao posto de Lorde-Conselheiro com a promoção a visconde.
Hoare achou tratamento menos digno de felicitações na sua nomeação a
enviado especial a Madrid, onde foi saudado com uma demonstração de
jovens nacionalistas, que exigiam desse notável apaziguador a entrega de
Gibraltar. Chamberlain, todavia, obteve um assento no Gabinete de
Guerra, e Wood ocupou na Fazenda Real um posto de máxima
importância. Mas isto podia ser contrabalançado pelo sangue novo nos
departamentos de serviços, em postos tais como o ministério dos
Abastecimentos, onde Herbert Morrison, um dos melhores
administradores dos trabalhistas, tomou conta da nova posição. Alexander
no Almirantado, Eden no Ministério da Guerra e Sinclair como ministro
do Ar formavam um trio prometedor que ficaria sob a direção do próprio
Churchill, pois que o novo primeiro ministro iria continuar a agir como
coordenador dos departamentos de serviço na qualidade de ministro da
Defesa. E para animar o ministério havia o novo espírito que Churchill
expressou ao definir o objetivo de seu governo: "É a vitória, a vitória a
todo o custo; vitória apesar de todos os terrores; vitória por mais longo e
duro que seja o caminho, pois que sem a vitória não há sobrevivência."
Dois departamentos, calculava-se, atrairiam atenção especial sob as
circunstâncias existentes. O primeiro era o ministério do Ar, e
particularmente a sua eficiência na questão do aumento da produção. Já
em março, Sir Kingsley Wood, então ministro do Ar, expressou a
confiança em que o número dos aviões fornecidos aos aliados excedesse a
produção mensal alemã. Os peritos neutros foram menos arrebatados,
mesmo quando os 770 aviões obtidos dos Estados Unidos durante os
primeiros seis meses foram incluídos nos cálculos. Os acontecimentos
subseqüentes iriam mostrar que o comunicado do ministro era
decididamente otimista. Era dessa sorte de condescendência que
despertava a ira dos críticos; mas embora isso resultasse na substituição de
Wood por Sir Samuel Hoare em abril, a transformação dificilmente
constituía uma garantia de nova energia ou deficiência. Em Sir Archibald
Sinclair, entretanto, o ministério tinha agora um chefe que prometia ambas
as coisas. E, como nova afirmação de vigor, um departamento especial de
produção aeronáutica foi criado, e Lord Beaverbrook nomeado para dirigi-
lo. Essa nomeação, embora possivelmente arriscada, constituía um
daqueles atos inspirados, tão condizentes com o caráter de Churchill.
Beaverbrook era um barão da imprensa, e os barões da imprensa
freqüentemente têm tido a tendência de agir sob impulsos dominadores de
preferência a cálculos sóbrios. (Lloyd George disse certa vez de sua
aliança com Northcliffe que ela era semelhante a ir a um passeio
acompanhado dum gafanhoto). Mas não havia dúvidas sobre as qualidades
dinâmicas do novo titular ou quanto às suas profundas convicções sobre a
necessidade de uma produção crescente, e ambas essas qualidades
significariam uma diferença entre as de seus predecessores.
O outro departamento era o de finanças. Por trás de todo o problema de
abastecimentos estava a questão da política financeira, e Sir John Simon
no Tesouro parecia partilhar da relutância de seus colegas em reconhecer a
insuficiência dos métodos ortodoxos e da moderação. O orçamento que
apresentou a 23 de abril sofreu severas críticas, baseadas no seu intuito
limitado e carência de imaginação. Se bem que concluísse uma despesa de
mais de dois e meio milhões de libras esterlinas, críticos competentes
sustentavam a tese de que estava muito aquém dos esforços que deviam
ser feitos; e nem os impostos crescentes sobre mercadorias de uso nem as
provisões para empréstimos - que acarretavam a rejeição do plano
largamente discutido do professor Keynes sobre economia compulsória -
pareciam adequados para a emergência. Havia certa dúvida sobre se Sir
Kingsley Wood no Tesouro faria algo mais ousado que o seu predecessor.
Mas uma indicação de possíveis novas receitas foi dada a 29 de maio,
quando o imposto sobre os lucros excessivos, que o governo impunha a
tudo acima de um limite fixo, foi tornado extensivo das indústrias de
guerra a todo o gênero de comércio e negócio; se bem que a sua recusa de
estudar novos gravames até que o país se adaptasse à carga existente,
pudesse ainda ser considerada como uma demonstração da carência da
percepção da necessidade de apressar a mobilização de todos os recursos
nacionais.
Mas o poder de efetuar tal mobilização já tinha sido considerado fora de
qualquer dúvida. Numa das mais drásticas medidas jamais votadas pelo
Parlamento Britânico, o governo, a 22 de maio, obteve por meio da Lei de
Defesa de Poderes de Emergência controle sobre toda a propriedade e
potencial humano do reino. Isto permitia ao ministro requisitar qualquer
indústria, "designar qualquer pessoa para executar qualquer serviço
exigido", resolver sobre salários e condições de trabalho, e em geral
convocar tanto a riqueza como a mão de
obra para o serviço do Estado. Seu propósito imediato foi permitir ao
Estado o controle e a reorganização do total da indústria bélica; e os
primeiros passos que tomou foram colocar todas as fábricas de munição
numa base de trabalho ininterrupto, dia e noite, e trazer essas indústrias
sob o controle de um novo Departamento de Munições, cuja tarefa seria a
de acelerar e organizar de modo mais eficiente a produção essencial.
O controle ao mesmo tempo reforçou os já amplos poderes do governo
sobre os elementos suspeitos no interior do país. A atenção despertada
pelas atividades subversivas na Noruega foi mais aguçada pela ameaça
presente de invasão, que se afigurava seguir-se à conquista dos Países
Baixos pela Alemanha. Precauções contra desembarques inimigos e
particularmente contra tropas pára-quedistas determinaram a construção
de barricadas e o recrutamento de um corpo de defensores locais
voluntários. Precauções contra a traição de elementos internos conduziram
a novas restrições em relação aos cidadãos dos países inimigos e à prisão
dos principais simpatizantes do fascismo, inclusive Sir Oswaldo Mosley e
o membro conservador do Parlamento capitão Archibald Ramsay. Uma lei
impondo a pena de morte por traição foi rapidamente aprovada pelo
Parlamento, a 23 de maio. Diante de um perigo maior do que qualquer
outro havia séculos, a Grã-Bretanha suspendeu suas liberdades
tradicionais, no interesse da segurança nacional.
Neutros e Não-Beligerantes
O avanço da máquina de guerra alemã despertou os sentimentos mais
diversos entre as nações que estavam fora do conflito. Algumas delas, a
Itália em particular, mostravam-se prontas para aclamar os sucessos
nazistas e esperavam lucrar com eles. Mas a maioria dos Estados ainda
não tocados pelas hostilidades percebia com crescente inquietação que o
resultado afetaria profundamente seus próprios destinos; e o seu despertar
à consciência achou expressão em importantes transformações políticas
que se adaptariam à nova situação criada pelas vitórias alemães.
A mais desconfiada, talvez dessas nações era a União Soviética. O
ressentimento contra os aliados e a amizade oficial em relação à
Alemanha, que caracterizaram as declarações de Molotov nos fins de
março, continuaram a constituir a atitude do governo soviético pelo menos
durante as semanas subseqüentes. Havia uma tendência para se enxergar a
invasão alemã da Escandinávia como o resultado compreensível do plano
aliado de intervenção em favor da Finlândia, e para se aceitá-la como uma
nova garantia contra ataques vindos de oeste. A Rússia, ocupada em
aplicar as lições da guerra finlandesa e em considerar os contínuos
problemas de sua situação interna, estava disposta a olhar, no momento,
com complacência a aventura alemã.
Com o correr do tempo, entretanto, surgiam sinais pálidos da diminuição
tanto da parcialidade russa em relação à Alemanha como de seu
descontentamento em relação aos aliados. Um dos sinais dos futuros
acontecimentos era constituído pela proposta russa, nos últimos dias de
abril, de renovação das negociações comerciais com a Grã-Bretanha.
Essas negociações tinham sido iniciadas na primavera de 1939, mas o seu
imperceptível progresso fôra completamente paralisado ao iniciar a guerra
finlandesa. Essa dificuldade especial estava agora fora do caminho, mas
ainda nenhum dos dois lados demonstrava desejo algum de entrar
diretamente num acordo. A Grã-Bretanha, embora disposta a negociar em
princípio, insistia em que qualquer tratado devia tomar uma forma capaz
de contribuir para o bloqueio da Alemanha, e parecia esperar um acordo
segundo o modelo dos tratados recentemente negociados com os neutros
ocidentais e pelos quais estes prometiam limitar as exportações à
Alemanha ao nível das de antes da guerra. A Rússia estava pronta a
discutir uma garantia de que nenhuma de suas importações passaria para a
Alemanha, mas se recusava a considerar qualquer limitação de seu direito
de dispor de seus produtos como bem entendesse. Isto constituía uma
barreira, mas não uma barreira intransponível, pois que nos fins de maio a
Grã-Bretanha cedeu em sua insistência ao ponto de tornar possível o envio
de uma missão comercial a Moscou. Havia ainda dificuldades em torno do
modo de condução das negociações, pois que o embaixador britânico
estava ausente, de licença, desde janeiro e os russos se mostravam
ansiosos pelo reatamento de relações diplomáticas completas. A própria
nomeação de uma persona grata, Sir Stafford Cripps. como chefe da
missão comercial deixou de satisfazer a exigência russa de negociações
por intermédio dum embaixador regulamentar. O resultado, entretanto, foi
simplesmente dar a Sir Stafford Cripps o cargo de embaixador, e as
formalidades preliminares pelo menos tinham sido assim preenchidas.
O controle alemão dos caminhos do Báltico, todavia, dificilmente poderia
ser bem recebido pela União Soviética; e a possibilidade da extensão desse
controle para dentro do próprio Báltico não podia ser ignorada. Havia
especial interesse em torno da posição da Suécia, conforme ficou
demonstrado pela conversação diplomática que resultou, a 3 de maio, no
comunicado de que a Rússia e a Alemanha tinham concordado quanto ao
seu mútuo interesse na preservação da neutralidade sueca. A Rússia
seguiu-se a isso com esforços
para melhorar a sua própria posição; e um dos resultados desses esforços
foi a aceitação pela Lituânia, a 15 de junho, de um ultimato soviético que
estendeu consideravelmente os direitos russos adquiridos pelo tratado de
outubro e tornou a Lituânia um completo protetorado militar. Era um
reforço da posição defensiva russa que mostrava certa dúvida sobre o
possível rumo da futura atividade alemã.
Nos Bálcãs, também, a Rússia demonstrava crescente interesse pela
tranqüilidade, como a melhor garantia de segurança. A 9 de maio,
anunciou ter advertido os beligerantes, como também a Itália, de que se
abstraíssem de aventuras nos Bálcãs; e a 17 de maio informou-se que
havia feito representações, dentro dessas mesmas linhas, junto aos
próprios Estados balcânicos. Parecendo constituir uma ameaça no começo
do ano, a Rússia surgiu agora, pelo menos ao que se referia aos Estados
balcânicos, como um protetor e um amigo.
Os Estados Balcânicos
Essa atitude deu motivo a um sentimento de desafogo em um grupo de
estados que continuavam a achar que sua segurança permanecia precária,
completamente à mercê das ambições de seus grandes vizinhos ou das
exigências militares dos beligerantes. A própria absorção das energias das
nações em guerra nas campanhas da Noruega ou de Flandres fornecia
apenas um alívio parcial. Mas a boa ou má fortuna da Alemanha ou dos
aliados influenciava profundamente a atitude dessas pequenas nações, cuja
vontade de resistir a um agressor variava diretamente com o grau de
auxílio com que achavam que poderiam contar no caso de tal resistência; e
pelos meados de junho o crescente sucesso do Eixo se refletia numa
tendência cada vez maior sobre a decisão das nações balcânicas de optar
por uma política conciliatória em relação à Itália e Alemanha.
O começo de abril achou os beligerantes a manobrar ainda por favoráveis
posições diplomáticas e econômicas na Europa oriental. A Grã-Bretanha,
que chamara de volta seus enviados aos Bálcãs para consultas em fins de
março, anunciou a 4 de abril a criação de um órgão especial, subordinado
ao Tesouro, para tratar de interesses comerciais nos Estados balcânicos.
Ao lado alemão, o persistente dr. Clodius ainda estava em Bucarest,
fazendo pressão para a desmobilização da Romênia e por fornecimentos
mais substanciais de petróleo e gêneros alimentícios. Apesar da falta de
sucesso quanto a essas exigências mais importantes, ele foi capaz, a 20 de
abril, de obter uma nova taxa cambial e um acordo experimental para a
aquisição de certas matérias-primas, em troca de armas e maquinarias
alemães. Fortalecido por esses resultados limitados, continuou a viagem
até Budapest e Belgrado, na esperança de atrair a Hungria e a Iugoslávia
mais firmemente para a órbita alemã.
Simultaneamente, a Alemanha propôs um protetorado prático da zona do
Danúbio. As intrigas e contra- intrigas chegaram ao auge com a acusação
alemã, ao começo de abril, de que a Grã-Bretanha planejava bloquear o
tráfego do Danúbio, fazendo saltar pelos ares as margens do rio junto ao
Portão de Ferro, e a 10 de abril informou-se que um navio de carga que
levava suprimentos para a Alemanha tinha sido feito explodir. A captura
pela Romênia, a 8 de abril, de várias barcaças britânicas que carregavam
dinamite pareceu emprestar algum viso de verdade aos receios alemães de
interferência, se bem que a Inglaterra explicasse que essa dinamite se
destinava ao afundamento das barcaças no caso de uma tentativa alemã de
interceptação. O resultado foi a informação de que a Alemanha tencionava
exigir o direito de policiar o Danúbio - sugestão que depois foi modificada
para uma proposta, apoiada pela Hungria, de que os próprios Estados
danubianos se encarregassem do policiamento do rio em vez de continuar
a deixá-lo entregue à comissão internacional existente, - proposta essa
redigida de maneira a permitir à Alemanha partilhar dessa atividade. Ela
foi rejeitada pela Iugoslávia; mas pelos fins de abril tornou-se claro que a
Alemanha dominava comercialmente a maior parte do rio e que isso
poderia muito bem significar efetivo domínio militar no momento em que
tal se tornasse desejável.
Essa pressão continuou simultaneamente com a campanha da Noruega,
que pouco distraía os beligerantes de seus interesses nos Bálcãs. Era,
antes, um exemplo aos Estados balcânicos de quão pouco poderiam
esperar que a sua neutralidade fosse respeitada pela Alemanha, e uma
advertência contra os perigos que poderiam oferecer os simpatizantes
alemães dentro de suas fronteiras. Juntamente com outros neutros, os
Estados balcânicos voltaram a atenção para esses elementos, e para os
atenciosos "turistas" alemães que pareciam especialmente atraídos pelas
fortificações fronteiriças e campos petrolíferos. O acontecimento mais
assustador foi a prisão do antigo premier iugoslavo Stoyadinovich, a 19 de
abril, seguida de numerosas outras detenções e expulsões quando o
governo descobriu uma conspiração para um levante que se verificaria
juntamente com a invasão alemã. Medidas semelhantes foram tomadas na
Romênia; e a 11 de maio o ministério romeno foi reconstruído para incluir
um grupo de ministros menos favoráveis à Alemanha que seus
predecessores. Para modificar essa situação de um modo curioso, todavia,
havia a gradual
aproximação entre o rei Carol e a Guarda de Ferro fascista, aproximação
essa que teve expressão numa anistia política a 25 de abril. Nem a
Romênia nem a Iugoslávia estavam ainda prontas para cerrar as portas a
relações amigáveis com o Eixo. Com a vitória alemã em Flandres, na
verdade, elas tomaram a decisão definitiva de travar relações mais
amigáveis com o vencedor. Uma parcial desmobilização romena, a 29 de
maio, foi seguida, a 1 o de junho, pela demissão do ministro do Exterior
aliadófilo e pela nomeação de um simpatizante dos alemães em seu lugar.
O livramento de Stoyadinovich e seus associados, noticiado a 14 de junho,
foi o sinal de que a Iugoslávia se movia em direção semelhante.
A Repercussão na América
A extensão da guerra, entretanto, produzia efeitos fora do continente
europeu. Todos os países invadidos, a exceção de Luxemburgo, tinham
possessões no exterior; e o status desses territórios, particularmente os
pertencentes à Holanda e Dinamarca, tornou-se um caso de séria atenção
por parte de outras potências, tanto beligerantes como neutras.
Um dos cuidados imediatos da Grã-Bretanha foi evitar o controle nazista
da Dinamarca, desde as Faroes até a Islândia. As Faroes, pequeno grupo
de ilhas a duzentas milhas a noroeste das Shetlands, foram ocupadas por
tropas britânicas pouco depois da invasão, com a finalidade de ser evitada
a sua tomada e uso como base submarina e aérea. O risco da Islândia ser
utilizada para fins semelhantes também existia, mas a ação no momento
foi transferida, parcialmente, em resultado das medidas tomadas pelas
próprias autoridades islandesas. Essa ilha tinha o status de reino
independente, ligado à Dinamarca apenas por uma união pessoal com a
coroa dinamarquesa. A 9 de abril, o seu legislativo decidiu que, desde que
a invasão alemã tornava impossível ao rei exercer sua autoridade na
Islândia, o exercício dos poderes reais seria confiado ao ministério, até
ulterior aviso. Com a retirada aliada da Noruega, entretanto, a posição
desprotegida da Islândia significava a necessidade de garantias mais
efetivas; e a 10 de maio o governo britânico anunciou que tropas tinham
desembarcado a fim de proteger a ilha contra a invasão, com a garantia de
que essa força seria retirada depois de concluídas as hostilidades.
A vasta ilha da Groelândia era também uma possessão dinamarquesa; e
aqui os resultados da guerra mostravam os primeiros sinais de
interferência direta no hemisfério ocidental. Os cuidados dos Estados
Unidos manifestaram-se imediatamente, e a hostilidade americana em
relação à idéia de um ponto de apoio alemão tão próximo ao continente
americano foi claramente manifestada. Embora os recursos da Groelândia
fossem insignificantes, sua localização a tomava importante elo da rota
aérea setentrional da Europa e possível abrigo de bases aéreas
inquietadoramente próximas aos Estados Unidos. Conforme Roosevelt
acentuou perante o Congresso a 16 de maio: "Dos fiordes da Groelândia
há uma distância de quatro horas à Terra Nova, cinco horas à Nova
Escócia,... e apenas seis horas à Nova Inglaterra." Nenhum passo imediato
foi dado; mas conversações tiveram início com a Grã-Bretanha e o
Canadá, e o comunicado, a 1 o de maio, de que os Estados Unidos
mandariam um cônsul à Groelândia constituiu o primeiro passo em
direção à afirmativa da aplicação da doutrina de Monroe a esse país.
A invasão da Holanda levantou ainda maiores possibilidades
perturbadoras. A Dinamarca cedera suas possessões nas Caraíbas durante
a última guerra, quando os Estados Unidos compraram as ilhas Virgem.
Mas a Holanda retinha ainda as Índias Ocidentais Holandesas, com as suas
importantes refinarias de petróleo, bem como a Guiana Holandesa. A 11
de maio, um destacamento aliado foi desembarcado nas ilhas holandesas
afim de evitar possível sabotagem; mas foi anunciado que o governo
americano tinha sido informado da situação, e a garantia de que nenhuma
mudança de soberania estava sendo estudada foi, no momento, aceita
pelos Estados Unidos.
A questão das Índias Orientais Holandesas provocou cuidados ainda
maiores. Eram elas possessões sobre as quais os japoneses tinham por
algum tempo lançado olhares especulativos; e a sua tomada pelo Japão
mudaria profundamente a situação estratégica do Pacífico, fornecendo a
esse país, ao mesmo tempo, valiosos e necessários recursos. O governo
nipônico já tinha deixado claro que não poderia permitir a aquisição
dessas ilhas por outra potência; e os Estados Unidos, a 17 de abril, fizeram
declaração semelhante, que, na realidade, não passava de uma advertência
ao próprio Japão. Ambos os países mantinham-se em alerta desde a
invasão da Holanda; mas cada qual agia como obstáculo ao outro, e os
próprios holandeses agiram altivamente por meio do governo colonial, o
que impediu que o problema se tornasse imediatamente agudo.
Mas, além desses motivos reais de preocupação, houve nos Estados
Unidos uma compreensão rapidamente crescente dos interesses vitais do
país no caso de um conflito generalizado. A extrema crueldade dos
ataques
alemães a neutros inofensivos provocou ressentimentos crescentes; e o
despontar da possibilidade de uma derrota aliada fez com que a atenção se
voltasse subitamente para as conseqüências que uma vitória de Hitler teria
sobre a América.
Esses sentimentos encontraram vigoroso porta-voz no presidente
Roosevelt. A 15 de abril, num discurso perante a conferência da União
Pan-Americana, o presidente traçou o contraste entre a tradição americana
de paz e a atitude dos agressores europeus, utilizando-se de termos que, se
bem que não mencionassem potência alguma especificamente, implicavam
tanto numa condenação como numa advertência. Com a invasão dos
Países Baixos, a sua condenação tornou-se mais direta. Num discurso,
nesse mesmo dia, perante o Congresso Científico Americano, declarou-se
"chocado e revoltado pelas trágicas notícias vindas da Bélgica, dos Países
Baixos e de Luxemburgo". A 11 de abril, em resposta ao apelo do rei
Leopoldo, escreveu: "O povo dos Estados Unidos espera, como eu
próprio, que se possa pôr um fim à política tendente a dominar povos
pacíficos e independentes pela força e agressão militar, e que o governo e
o povo da Bélgica possam preservar sua integridade e liberdade." Quão
geralmente esses sentimentos eram partilhados pelas outras nações do
Novo Mundo ficou demonstrado a 18 de maio, quando as vinte e uma
repúblicas americanas deram o passo sem precedentes de emitir uma
declaração conjunta asseverando que protestavam contra a última agressão
militar, e que consideravam "a violação de neutralidade ou a invasão de
nações mais fracas como uma medida injustificável para a condução e
sucesso na guerra."
A ação dos Estados Unidos não ficou confinada a palavras. Em resultado
da agressão alemã e dos reveses aliados, o presidente, apoiado por
crescente exigência popular, resolveu-se a defender dois rumos
simultâneos. O primeiro foi expandir e acelerar a defesa nacional, iniciada
a 16 de maio pela petição de Roosevelt ao Congresso em favor de novos
créditos no valor de mais de um bilhão de dólares. O segundo foi uma
tentativa para evitar que essa expansão interferisse no fornecimento de
suprimentos aos aliados, e para acelerar esse fornecimento, cuja urgência
se tornara mais manifesta. Em junho, o governo tomava ativas medidas
para se desfazer de seu estoque de armas, ou pela venda direta do velho
equipamento ou pela troca de aviões, por exemplo, com os fabricantes,
que mais tarde lhe forneceriam novos modelos, e entrementes venderiam o
equipamento assim tornado disponível à Grã-Bretanha e à França. E
enquanto esses passos estavam sendo dados para tornar os recursos
americanos mais prontamente disponíveis, a diplomacia americana exercia
pressão crescente sobre a Itália, na esperança de mantê-la fora da guerra.
A Entrada da Itália na Guerra
Ao tempo da invasão da Noruega, a atitude da Itália em relação aos
aliados se tinha metamorfoseado numa hostilidade implacável. Havia
ainda dúvidas sobre se o encontro do Brenner entre Mussolini e Hitler
resultara num plano combinado e minucioso; mas as semanas que se
seguiram viram a Itália começar preparativos positivos para a entrada na
guerra. A 2 de abril, adotou uma medida estabelecendo a mobilização
civil, e dando ao governo poder para requisitar os serviços e bens de todos
os cidadãos em tempo de guerra. A 10 de abril, a imprensa acentuou que
as forças italianas estavam em pé de guerra, e durante as semanas
subseqüentes procedeu-se à completa mobilização das reservas por meio
de notificações individuais. Ao mesmo tempo, informou-se que a frota se
tinha concentrado nas ilhas do Dodecaneso, de onde podia ameaçar as
bases aliadas do Mediterrâneo oriental.
Os aliados, por sua vez, fizeram esforços sucessivos para desanuvear suas
relações com a Itália. A 17 de abril, em seguida a demonstrações hostis em
Milão, o ministro britânico da Guerra Econômica disse, em tom de
advertência, que a Grã-Bretanha gostaria de saber em que pé estavam suas
relações com a Itália. No começo de maio, foi informado que o governo
britânico solicitara à Itália definisse sua posição exata dentro das próximas
duas semanas. Suas dúvidas sobre que isso provocaria qualquer resposta
satisfatória ficaram demonstradas em fins de abril, quando tomou a
deliberação séria de convocar todos os navios mercantes de volta do
Mediterrâneo e reforçar a frota com base em Alexandria.
A atitude francesa, ao contrário, caracterizava-se pela suavidade, na
esperança de desfazer a crescente ira italiana. Durante todo esse período,
Reynaud fez sucessivas referências amigáveis à Itália, e indicou por várias
vezes o desejo francês de discutir as reivindicações italianas. A 20 de
abril, ele revelou que suas iniciativas diretas não haviam tido até então
resposta alguma. Concessões definitivas foram oferecidas em maio com
respeito aos direitos italianos a Tunis, Djibuti e ao canal de Suez, e a 6 de
junho Reynaud declarou numa irradiação: "Não há povo algum com o qual
a França não possa resolver por meios pacíficos as divergências de
interesse que lhes pareça contrário." Mas a esse tempo já estava
completamente visível o fato de estar fora do desejo de Mussolini uma
solução por meios pacíficos.
Essa atitude de descaso foi acentuada pelo repentino abandono por parte
de Mussolini daqueles grandiloqüentes discursos públicos com os quais
ele se costumava deliciar. "Depois dos meus discursos", disse ele a um
auditório a 9 de maio, "deveis acostumar-vos ao meu silêncio. Somente os
fatos o romperão". Mas se o chefe deixou de soltar a língua, o resto da
matilha se mantinha em plena grita. Era dirigido por Giovanni Ausaldo,
diretor do Telégrafo e pessoa íntima do conde Ciano, cuja promessa, a 14
de abril, de que "em breve soarão os clarins" foi um corolário ao tema que
desenvolvera em subseqüentes editoriais e irradiações. Essa promessa foi
fielmente alardeada por outras personalidades fascistas e pela imprensa
italiana em geral; e para evitar quaisquer notas discordantes, o Osservatore
Komano, órgão da Santa Sé, o único dos jornais italianos a manter uma
atitude imparcial em relação à guerra, foi primeiramente atacado e por fim
virtualmente suprimido.
Em certa ocasião pareceu que os clarins ressoavam para um assalto contra
a Iugoslávia. As inquietantes relações entre os dois países, que não foram
melhoradas pelo envio à Albânia de grandes contingentes de
"trabalhadores" italianos, chegaram a um estado de considerável tensão
em fins de abril, como resultado de demonstrações hostis em Florença. A
21 de maio, essa tensão atingia a um ponto cuja gravidade era indicada
pelo fechamento por parte da Itália da fronteira iugoslava até a fronteira
albanesa e pelo aceleramento dos preparativos militares na Albânia. A 29,
entretanto, a Itália estava pronta a dar garantias satisfatórias, e o alívio
iugoslavo contribuiu para a adoção de sua nova política de orientação para
o Eixo.
Era na realidade contra a Grã-Bretanha que se dirigiam de preferência os
insultos italianos. O controle naval britânico do Mediterrâneo, e o tangível
efeito deste sobre o reforço do bloqueio da Itália, faziam com que a
Inglaterra fosse um objetivo ardentemente desejado. Ansaldo, a 5 de maio,
expressou a esperança de ver a invasão das Ilhas Britânicas. Parece que
foram feitos esforços para alistar a Espanha na cruzada, concitando- a a
tomar Gibraltar; mas, embora uma missão militar espanhola visitasse a
Itália, Franco parecia querer evitar comprometer-se em demasia. As
negociações em progresso em torno do bloqueio parecem ter sido
utilizadas pela Itália como base de queixas, mais do que meios para a
busca de uma solução, e a 31 de maio elas foram rompidas
definitivamente. A 9 de junho, Ansaldo asseverou que a Itália tencionava
tomar parte na segunda fase da guerra, em que "unidos à Alemanha, nós
sustentaremos a guerra à Inglaterra. Abriremos de uma vez para sempre as
portas cerradas da Grã-Bretanha. Tal é, a nossa convicção."
Nessa data, tudo estava pronto para a aventura. Já a 18 de abril foi
revelado que comissões militares tinham sido trocadas entre a Itália e o
Reich. A 30 de abril, o novo couraçado italiano Vittorio Veneto foi posto
em serviço. A 17 de maio, um orçamento de guerra destinou vastas novas
somas para despesas militares, e os fascistas foram advertidos de que nem
mesmo a sua situação de membros do Partido os salvaria se agissem como
traidores, opondo-se à entrada na guerra. Os decretos de mobilização civil
entraram em vigor a 24 de maio. Dois dias depois, foram preparadas
medidas para conservar o petróleo em estoque com a proibição do uso de
carros a motor e de botes a motor particulares, a contar de 1 o de junho. E
a 29 de maio, a revogação das licenças de importação demonstrou quão
próximo a nação estava do mergulho final.
Os ataques aéreos alemães contra o vale do Ródano a 1 o de junho, que
incluíram um ataque a Marselha por aviões vindos do mar, procuravam
sem dúvida demonstrar praticamente a Mussolini que o mergulho podia
ser dado com segurança. Quando o Conselho de Ministros se reuniu, a 4
de junho, o estágio final foi completado. No dia seguinte foi anunciado
que as águas costeiras italianas eram "perigosas", presumivelmente por
terem sido lançados nelas campos de mina. A 7 de junho, todos os navios
italianos em viagem receberam ordens de arribar ao porto neutro mais
próximo. A 9 de junho, o ex-secretário do Partido, Farinacci, anunciou que
"chegou a hora em que todas as exigências italianas serão satisfeitas". E
no dia seguinte, falando de sua costumeira sacada, Mussolini disse ao seu
povo que a Itália tinha entrado na guerra "contra as democracias
plutocráticas e reacionárias que sempre bloquearam a marcha e
freqüentemente conspiraram contra a existência do povo italiano.
"A mão que segurava o punhal", disse Roosevelt num discurso nessa
mesma tarde, "mergulhou-o nas costas do vizinho." A decisão italiana
causou um profundo desapontamento ao presidente. Recordou ele que
mais de três meses antes Mussolini tinha apontado com orgulho para a sua
ação de manter a guerra fora do Mediterrâneo. Quando a atitude italiana
começava a mudar, o presidente procurou exercer pressão sobre ela para
que continuasse em paz. A 1 o de maio foram feitas representações que se
repetiram a 15 do mesmo mês; e numa e noutra dessas ocasiões o
presidente se oferecera para comunicar as exigências italianas aos aliados
e para procurar obter garantias de que a Itália tomaria parte na conferência
de paz em igualdade de condições com os beligerantes, desde que se
abstivesse de entrar na guerra. Mas Mussolini declarara que não via base
para negociações no momento presente e não demonstrara desejo algum
de cooperar no interesse da paz. Novo esforço dos Estados Unidos a 31 de
maio foi uma vez mais em vão.
Na sua comunicação anterior, Roosevelt tinha advertido o chefe italiano de
que "na opinião do governo dos Estados Unidos, qualquer extensão das
hostilidades à região do Mediterrâneo poderia resultar no aumento ainda
maior do cenário do conflito". Era a advertência velada de que os Estados
Unidos, em tal caso, poderiam não mais achar possível ficar alheios.
Agora que o fato ocorreu, embora os Estados Unidos ainda não estivessem
preparados para uma formal entrada na guerra, a administração chegou até
o limite extremo da não-beligerância. "Seguiremos", disse o presidente,
"dois rumos óbvios e simultâneos. Estenderemos aos adversários da força
os recursos desta nação, e ao mesmo tempo lançaremos mão e
aceleraremos o uso desses recursos a fim de que nós mesmos na América
tenhamos equipamento e treinamento condizentes com a tarefa de
enfrentar qualquer emergência e realizar completamente a defesa."
Foi dada assim a garantia de que a política havia muito defendida pelo
presidente Roosevelt - a política de auxiliar os aliados "por todos os meios
afora a guerra" - seria levada ao máximo. Cinco dias depois, em resposta a
um apelo desesperado de Reynaud, Roosevelt em termos ainda mais
definidos prometeu que a nação redobraria de esforços e que enquanto os
aliados resistissem poderiam contar com suprimentos crescentes,
procedentes dos Estados Unidos. Na última frase, e nas conclusões que
dela se podiam tirar, estavam tanto os receios como as esperanças pelo
futuro da causa aliada. Mas mesmo essa garantia foi incerta demais para
resolver a situação desesperada. A 17 de junho, com a Linha Maginot
abandonada e o exército em plena retirada, a França solicitou condições de
paz.
