segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Segunda Guerra Mundial - 1940 Hoterdã - A Invasão da Holanda


Roterdã
A Invasão da Holanda


O ultimato de rendição tinha sido aceito. A antiga e bela cidade estava a
salvo. Porém os pilotos alemães de bombardeio procuravam em vão pelos
foguetes de sinalização que os fizessem retornar. Foi dentro da massa
compacta de construções da velha cidade que as bombas caíram. E o vento
soprava forte...

Willhelmina Steenbeek
Cidade Destruída


A Holanda viveu por detrás de uma cortina de neutralidade durante mais
de um século. Nascida no período da Guerra dos Oitenta Anos, suportou
impavidamente o conflito com uma série de inimigos durante a maior
parte de sua história inicial. Foi bem sucedida em relação à Espanha
Imperial, apesar das imensas adversidades, e acabou por conquistar a
independência. Esta e mais as riquezas de novo império colonial que lhe
vieram após, tiveram de ser valentemente defendidas em várias ocasiões
contra muitos inimigos, às vezes novamente a Espanha, que se ligava a
outros, depois a Inglaterra e, em seguida, a França. Os holandeses sempre
resistiram, embora nem sempre fossem bem sucedidos, mas pelo menos
conseguiram manter sua independência e o acesso ao mundo exterior,
através do poderio marítimo. No entanto, mais de dois séculos de guerra
tiveram como conseqüência a conquista da Holanda durante a Revolução
Francesa, dando-se então a destruição do mito de que aquele país era
indestrutível. A princípio estabeleceu-se uma independência fictícia como
títere da França, para começar, como uma república - mais tarde
monarquia regida pelo irmão de Napoleão - mas por fim esclareceu-se a
verdadeira situação: em 1811 a Holanda foi integrada definitivamente ao
Império Napoleônico. Quando este soçobrou e a Holanda foi libertada, os
Países Baixos, ora ampliados com a adição da Bélgica e do Luxemburgo,
abandonaram todas as aspirações de virem a ser grande potência e
satisfizeram-se se portar como estado-tampão próspero entre uma Prússia
que ressurgia e a França.
Como a própria Bélgica, cuja secessão da União em 1830 não foi de todo
benéfica, o pequenino estado holandês esperava consolidar sua posição
internacional optando pela neutralidade. Enquanto as guerras de
unificação alemã e italianas transtornavam o equilíbrio europeu pelo poder
no século XIX, os países Baixos mantiveram-se alheios, burgueses,
conservadores e, sobretudo, a salvo de intervenção estrangeira. Embora a
Primeira Guerra Mundial mostrasse abertamente aos belgas que a
neutralidade não era garantia alguma contra um invasor implacável, os
holandeses tiveram a sorte de se livrar do conflito, sofrendo apenas certas
privações quando o bloqueio britânico do continente tornou-se mais eficaz
nos últimos 18 meses do conflito. Pouco se fez no tocante à defesa; tendo-
se argumentado que ela era dispendiosa demais, e desnecessária. Pois a
guerra não fora evitada sem custosas despesas? O destino da Bélgica,
ocupada e arrasada durante quatro anos, não causou grande impacto sobre
as atitudes dos holandeses, muito embora ele soubessem ver e ouvir a
guerra, da segurança dos seus lares, se viviam nas proximidades da
fronteira daquele país.
No decorrer dos anos 20 a Alemanha foi dócil, militarmente fraca e
destroçada pelo desemprego e pela inflação, e a Holanda, apenas
pequenina parte do orçamento foi gasta com sua defesa. Quando Hitler
subiu ao poder, embora o perigo para a segurança holandesa fosse
evidente, não se gastou na defesa muito mais do que nos anos 20. Havia
uma suposição não-escrita, quase não-falada, de que sobrevindo nova
guerra, na Europa, a Holanda, de algum modo, ficaria alheia, protegida em
sua neutralidade, como o fizera antes. Esta ilusão foi destruída a 10 de
maio de 1940, quando levas de aviões despejaram bombas e pára-
quedistas saltaram num estado de todo despreparado para a guerra, não só
militar como também psicologicamente. Como aconteceu em outras
democracias ocidentais, as vozes da razão que haviam pedido
repetidamente rearmamento e aliança com seus aliados naturais, Inglaterra
e França, foram ignoradas. A destruição de uma das suas maiores cidades,
Roterdã, foi um choque ainda maior que a própria invasão. Em cinco dias,
a Holanda perdeu sua independência. Roterdã, que os alemães
bombardearam por engano, jazia em ruínas, juntamente com a política de
neutralidade da Holanda.
Guilhermina Steenbeek, que passou por esse holocausto da guerra e da
ocupação, descreve como se deu a invasão da sua pátria despreparada e os
horrores provocados pelo bombardeio da sua cidade natal. Nenhum
holandês que passou pela Segunda Guerra poderá jamais esquecer a
repentina violência da Blitzkrieg ou a destruição brutal e desnecessária de
que foi vítima uma das suas maiores cidades. Das cinzas da guerra
surgiram uma nova Roterdã e uma nova Holanda, mas as lições da guerra
foram aprendidas por preço muito alto. É pouco provável que o povo
holandês retorne a uma neutralidade de avestruz, que não oferece como
ficou provado defesa alguma contra um agressor predatório.
As bombas alemães destruíram uma grande cidade, mas nada pôde
destruir o coração de seu povo. Roterdã Redux continua viva. Seu grande
coração espiritual reconstruiu Roterdã dos escombros da guerra, um
símbolo da Holanda e de uma Europa renascentes.

Paraíso de Alienados

Os turistas que visitam Roterdã admiram ali a colossal escultura, de
Zadkine, de um homem estendendo os braços para o céu. Os visitantes
comuns a encaram apenas como peça de “arte moderna”- a figura de um
homem com enorme buraco no corpo. Não percebem que esse buraco
simboliza a condição da própria cidade de Roterdã, uma cidade ainda bela
no sentido moderno, e lutando para subir em busca do sucesso material,
mas da qual arrancaram o coração. Durante o dia, a cidade é a própria
imagem da vivacidade: os portos fervilhantes, o povo enérgico e
trabalhador, a cacofonia do edifício da bolsa do milho, os compradores
atarefados da Lijnbaan - o centro de compras famoso; tudo é estímulo para
o visitante, mas à noite, vem a calma. O povo de Roterdã trabalha na
cidade, mas a maioria não mora nem se diverte ali; o magnífico teatro
permanece quase vazio. Para os divertimentos a população muitas vezes
vai a Breda, nas proximidades, ou mesmo a Antuérpia, na Bélgica, que na
verdade não fica muito longe.
Contudo, antes de 1940 Roterdã tinha vida noturna emocionante e era foco
de cultura. O pitoresco centro com seus velhos monumentos, a grande
biblioteca e os numerosos tesouros artísticos, atraíam pessoas que viviam
a quilômetros e distância. Os cinemas e os teatros viviam cheios e a
Schiedamse Dijk, conhecida de marinheiros de todo o mundo, fervilhava
com música vinda de seus pequenos cafés e com as visões e os odores de
uma cidade rica e vital. Mas aquela cidade, a Roterdã onde nasci, não
existe mais.
Em 1940, Roterdã planejava festejar o sexto centenário de existência
oficial, sendo reconhecidos seus foros de cidade em 1340. Daquela época
em diante, ela progredira ininterruptamente, e graças à sua ótima
localização, tornou-se importante centro comercial, onde muitos
imigrantes alemães e britânicos se estabeleceram. Antuérpia, sua grande
rival, superou-a, mas somente até 1847, quando se deu a inauguração do
Nieuwe Waterweg, o canal que liga Roterdã ao Mar do Norte. Dai em
diante prosperou cada vez mais e seu povo confirmou a reputação de
trabalhador, pondo à prova toda sua imaginação, energia e previsão. Mas a
crescente prosperidade também atraiu mais gente do que a cidade podia
abrigar com o mínimo de conforto, sobretudo no centro. Nesse ambiente
de atmosfera e vitalidade maravilhosas, as famílias pobres, no entanto,
estavam espremidas em casas pequenas demais, sem instalações sanitárias
adequadas, e foi ali que, em maio de 1940, deu-se o bombardeio. Por um
terrível engano cometido pela Luftwaffe, 80.000 pessoas em Roterdã,
aproximadamente 13% da população, ficaram desabrigadas. Mais de 2.500
lojas foram arrasadas. Cem destas, pequenas, vendiam água quente
(Waterstokeijer). Tratava-se de uma característica dos bairros pobres em
que as pessoas tinham de comprar água quente para lavar roupa e servir a
outras necessidades rotineiras, pois não contavam com suprimento próprio
do liquido. Cerca de 500 cafés foram destruídos, incluindo os da
Schiedamse Dijk, e quase 70 escolas, juntamente com 21 igrejas, 12
cinemas, 20 grandes prédios de bancos, 4 hospitais e dois teatros. Tesouros
artísticos insubstituíveis, especialmente os de propriedade particular,
foram consumidos pelo fogo. O mundo inteiro perdeu sua grande
biblioteca, a Leeskabinet, de Roterdã, uma das maiores da Holanda. A
Igreja de S. Lourenço, construída no século XV, também foi destruída,
restando apenas a parte externa, embora a estrutura fosse restaurada depois
da guerra, por preço altíssimo e financiado com fundos privados. A Igreja
de Sta. Rosália, o incomparável rococó de Roterdã, restaurada apenas
alguns anos antes da Segunda Guerra, foi reduzida a escombros
juntamente com a sinagoga construída em 1725 no Boompjes, outrora um
cais orlado de belas árvores.
Os eventos que precederam esse desastre são importantes com relação à
política da neutralidade comodista. O exemplo de Roterdã permanecerá
eternamente como lembrete deprimente das conseqüências de tamanha
imprevidência.
Então, porque razão estava a Holanda tão mal preparada para enfrentar
uma guerra obviamente inevitável? O treinamento de soldados pode-se
dizer que não existia, as armas eram antiquadas (o exército holandês usava
fuzis datando de 1890) e, para transporte, alguns batalhões contavam
apenas com bicicletas. E tudo isso
devido a um otimismo geral e descabido, provocado pela relutância em
enfrentar a realidade, a de que a Alemanha honraria a neutralidade da
Holanda. A ordem de mobilização geral, portanto, só foi dada a 29 de
agosto de 1939.
Depois da anexação da Áustria e de parte da Checoslováquia, o principal
objetivo de Hitler foi a invasão da Polônia. Deste acontecimento originou-
se o conflito da Inglaterra e da França com a Alemanha, a 3 de setembro
de 1939 - um passo inevitável, mas, ainda assim, corajoso, levando-se em
conta o grandioso poderio militar do inimigo. A Alemanha mobilizara 105
divisões; 59 delas estavam lutando na Polônia, mas por trás da Muralha
Ocidental, 43 divisões estavam prontas para atacar os países euro-
ocidentais. A julgar pelas aparências, a França poderia facilmente contra-
atacar com suas 84 divisões, que eram no entanto formadas sobretudo de
soldados treinados para a defesa, não estando por isso em condições de
desfechar ataques. A Inglaterra achava-se quase que na mesma situação,
pois só recentemente começara a fortalecer o exército. Segundo o War
Office em Londres, mais de 1.600 tanques se faziam necessários e só
haviam 60 disponíveis. A Alemanha dispunha aproximadamente o mesmo
número de aviões que a França e Inglaterra juntas, modernos e eficientes,
ao passo que os aviões aliados eram, em sua maioria, desesperadamente
antiquados e decadentes. Em poderio marítimo é que os Aliados
mantinham certa superioridade.
A grande confiança que a Inglaterra e a França depositavam em suas
marinhas foi a principal causa de se ter dado à Alemanha o tempo
necessário para arquitetar a ofensiva e formar um exército e uma força
aérea adequadamente armados e bem treinados. Tanto Chamberlain como
Daladier haviam chegado à conclusão que, com a ajuda das colônias e dos
Domínios Britânicos e - se necessário - dos americanos, a Alemanha seria
facilmente bloqueada e subjugada. Eles não tinham pressa de entrar em
guerra. E, de qualquer modo, ninguém podia acreditar, é obvio, que Hitler
tentaria conquistar toda a Europa Ocidental. Os franceses, contribuindo
para alimentar essas ilusões, mantinham uma fé inabalável na eficiência da
“Linha Maginot”, que, diga-se de passagem, não ia além da Bélgica. Até
meados de dezembro, o Primeiro Ministro da Inglaterra ainda não
acreditava que os alemães pretendessem atacar o Ocidente; o General
Montgomery advertiu que Hitler iniciaria a grande ofensiva na Europa
Ocidental tão logo achasse conveniente. Na realidade, a ofensiva já fora
adiada várias vezes devido apenas às más condições climáticas.
Foram os repetidos adiamentos de Hitler da data do ataque alemão que
fizeram o governo holandês não acreditar nas advertências do major G.J.
Sas, o Adido Militar holandês à embaixada em Berlim. Ele tinha um bom
amigo ali, o Coronel Hans Oster, oficial de carreira alemão, e esses dois
homens se conheciam muito bem há anos e confiavam um no outro. Oster
estivera em serviço ativo durante a Primeira Guerra, era um realista e
gostava muito da Holanda, onde o Imperador Alemão, Guilherme II,
encontrara asilo em 1919. Ele disse a Sas que não acreditava no Nacional-
Socialismo de Hitler; temia uma segunda guerra mundial, e combatera o
movimento nazista desde a sua fundação. (Foi enforcado em Floosenburg,
em abril de 1945, após a fracassada tentativa de matar Hitler a 20 de julho
de 1944). Era bem informado, pois trabalhava na repartição para
compilação de inteligência militar e, subseqüentemente, foi nomeado
chefe do Zentralabteilung, cuja posição facilitava-lhe o contato com vários
adidos militares em Berlim. Todas as informações que passou a Sas
revelaram-se, mais tarde, corretas. Ele o advertiu, por exemplo, que os
membros da Família Real deveriam cuidar da sua segurança; que as pontes
sobre o Maas seriam destruídas mais cedo ou mais tarde; que os alemães
usariam tropas aeroterrestres e tanques, e que alguns dos soldados alemães
envergariam uniformes holandeses. Pelo final de janeiro de 1940, revelou
que uma divisão completa de tanques invadiria Roterdã por Noord-
Brabant (uma província no sul da Holanda, limítrofe com a Bélgica), pelas
pontes no Moerdjik e também em Dordrecht. Este último informe, talvez o
mais importante, extraviou- se. O General Winkelman, sucessor do
General Reynders como Comandante-Chefe do exército e da marinha,
jamais o recebeu.
A 12 de setembro de 1939, Hitler comunicou aos seus generais que
pretendia atacar o Ocidente tão logo se desse a rendição da Polônia.
Muitos generais acharam o plano audacioso e alegaram que o exército não
contava com os caminhões necessários para tal empresa e que a munição
disponível só poderia suprir nada mais que um terço das divisões já
prontas, na ocasião, para combate e, mesmo assim, num período de apenas
duas semanas de ação. Hitler ignorou tais objeções. Mesmo que a
Wehrmacht estivesse fraca, as condições dos franceses e dos britânicos
eram bem piores. A 8 de outubro ele ditou uma mensagem a ser enviada
ao General Keitel, chefe do Oberkommando der Wehrmacht, e aos
comandantes-chefes do exército, marinha e força aérea: General von
Brauchitsch, Almirante Raeder e o Generalfeldmarschall Goering,
respectivamente. Cientificava-os da importância de derrotar a França e a
Inglaterra o mais breve possível, e deixava claro sua avaliação
desfavorável da URSS como aliada. O Vale do Ruhr, de valor capital para
a indústria bélica alemã, tinha que ser salvaguardada, e se a Holanda e a
Bélgica cedessem à persuasão da França e Inglaterra, abrindo
mão da neutralidade, aquele vale estaria em perigo. Como o ataque é a
melhor forma de defesa, urgia invadir os países neutros o mais rápido que
pudessem. Seria uma boa vantagem também assegurar para a Alemanha as
costas da Holanda e da Bélgica, e talvez a costa do Canal da Mancha, para
bases aéreas, fazendo da Inglaterra um alvo mais fácil.
Hitler ainda examinou a possibilidade de ocupação da Bélgica pelos
aliados, sendo essa, outra razão para as tropas alemães encetarem o ataque
imediatamente. O Fuhrer e seus generais, portanto, planejaram uma
enorme ofensiva, de codinome Fall Gelb (Caso Amarelo), cuja primeira
versão já estava pronta a 19 de outubro. O teatro de operações seria
principalmente a Bélgica, porque, em caso de ataque alemão, os exércitos
franceses e britânicos poderiam penetrar naquele país pelo sul. De
princípio, dava-se prioridade à tomada de Utrecht, Amsterdã e Roterdã,
mas o plano foi substituído, resolvendo-se pela concentração de tropas no
sul. Apenas o 6° Exército alemão cruzaria o sul da Holanda a caminho de
Bruxelas, caso em que a Vesting Holland (Fortaleza Holanda)
permaneceria intata. O dia marcado para o Fall Gelb era 12 de novembro
de 1939.
Os generais ainda não estavam muito entusiasmados. A maioria das
divisões não se achava pronta para combate, faltando grande parte do
material necessário; o treinamento e a organização precisavam ser
aperfeiçoados. Brauchitsch ofereceu-se para aconselhar a Hitler que não
era boa política atacar tão cedo, mas o Fuhrer, muito irritado, rejeitou as
críticas de imediato e deu ordens pessoalmente que se iniciassem os
preparativos para o “Caso Amarelo”. As tropas rumaram em direção das
fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo na noite de 5 de novembro.
O exército que atravessaria o Luxemburgo tinha ordens de preparar seu
flanco direito e repelir possíveis ataques holandeses, porque, embora se
soubesse muito bem que aquelas tropas não representavam grande perigo,
qualquer atraso, por menor que fosse, poderia ser fatal. Pois o que
impediria os holandeses de destruir as pontes sobre o Maas (em francês,
Meuse; em português, Mosa), e os belgas, as pontes sobre o canal
Alberto? Hitler estava tremendamente preocupado com essa possibilidade
e tentou garantir seus caminhos de avanço por meio de um plano
complexo envolvendo a localização de soldados alemães, em uniformes
holandeses e belgas, em pontos estratégicos. Mas onde encontrar estes
uniformes? Era preciso grande número deles, não apenas de uniformes do
exército mas também os de guardas alfandegários, policiais, ferroviários,
etc. Os generais ignoravam que alguns uniformes holandeses na realidade
foram confeccionados na Alemanha, e também que velhos uniformes
eram-lhes vendidos como trapos. Assim, não se tentou comprar na
Holanda as roupas necessárias. Certo oficial alemão, tendo como amigos
alguns holandeses membros do NSB (National Socialistiche Bond ou
União Nacional-Socialista), encarregou-se de adquirir os tais uniformes.
Entretanto, um lojista judeu de Amsterdã, que negociava com roupas
usadas, desconfiou, anotou o número da chapa do carro que levou os
uniformes e chamou a policia. O veículo foi detido na fronteira, o dono
preso e os uniformes, confiscados, destruindo-se, assim, totalmente, o
plano. Mas o espantoso é que, pelo menos na aparência, ninguém tirou
conclusões óbvias da circunstância de alemães querendo adquirir
uniformes holandeses. A organização das Ferrovias Holandesas ordenou
que todos os seu empregados portassem identidade depois do incidente, e
não se fez mais que isto. O oficial alemão implicado, Gerken, escapou e
não pôde ser interrogado. Posteriormente, a 12 de maio, ele retornou para
libertar seus cúmplices holandeses, então presos em Almelo: obrigou o
diretor da prisão a libertá-los e depois destruiu todos os documentos
referentes à operação.
No sábado, 4 de novembro, o embaixador britânico em Haia, Sir Neville
Bland, informou ao Ministro das Relações Exteriores holandês, van
Kleffens, que os alemães atacariam a Holanda e a Bélgica a 12 de
novembro. A Rainha Guilhermina foi informada, assim como o General
Reynders. Este não achou necessário transmitir a mensagem a Sas em
Berlim; não confiava muito no Adido Militar, considerando-o uma
daquelas pessoas cansativas que adoram deixar os outros inquietos com
estórias de desgraça iminente. Sas, contudo, já sabia que a Alemanha
estava treinando tropas aeroterrestres e pára-quedistas e que soldados
alemães envergando uniformes poloneses seriam usados no ataque à
Polônia, ele bem o sabia, o Oeste seria o alvo seguinte. Seus avisos foram
praticamente ignorados em Haia e a suspeita de que ele estava fazendo
como na estória de “Pedro e o Lobo” aumentou, porque jamais
mencionava o nome do seu principal informante, Oster, apenas sempre se
referindo a ele como “um oficial alemão”.
O Gabinete Holandês, que na época não passava de um organismo
decorativo formado em grande parte de gente meio senil e por isso mesmo
pouco ativa, considerava Sas, que era muito sentimental, um personagem
extravagante e, portanto, não-merecedor de confiança. Seus membros
decidiram mandar o Tenente-Coronel Gijsberti Hodenpijl, ex-adido militar
em Berlim durante a Primeira Guerra, à Alemanha para constatar a
veracidade das alegações feitas por Sas. Hodenpijl visitou os seus velhos
camaradas em Berlim e deles teve a garantia de nada saberem sobre um
ataque iminente à Holanda. Assim, bastante satisfeito, enviou uma
confortadora mensagem para a Haia: nada havia de errado. Aconteceu que
um seu amigo estava no Departamento e ao saber da notícia ficou tão
abalado, que chamou Sas para Haia imediatamente o que aborreceu muito
o General Reynders. O general, Comandante-Chefe do Exército e da
Marinha, lhe disse em poucas palavras que não queria que ele tivesse
contato direto com Dijxhoorn (Ministro da Defesa) nem com van Kleffens
(Ministro das Relações Exteriores) mas única e exclusivamente com ele, o
General. Profundamente desiludido, Sas retornou a Berlim.
Contudo, apesar da descrença oficial em Sas, alguma sensação de perigo
começava a se fazer sentir. Os generais holandeses decidiram reforçar a
linha de defesa no Grebbe e fechar parcialmente as estradas da fronteira. O
Ministro van Kleffens propôs que a Rainha juntamente com o Rei da
Bélgica, fizessem um apelo à Alemanha, França e Inglaterra para pôr
termo à guerra. A rainha achou a idéia excelente e na mesma noite
escreveu uma carta a Mon cher Léopold contendo a proposta de enviar
telegramas a Hitler, ao Rei Jorge VI e ao Presidente Lebrum. Infelizmente,
Hitler recusou-se a cooperar. Não obstante, os holandeses continuaram
otimistas; a 9 de novembro era possível ler nos jornais: “Nosso governo
não vê razões para alarme”.
Ainda na véspera tinha-se dado uma tentativa de matar Hitler na
Burgerbraukeller, em Munique (o bierputsch), e nessa ocasião o Ministro
van Kleffens declarara no Parlamento: “Os alemães poderiam surpreender-
nos com uma invasão amanhã”.
A 20 de janeiro de 1940, Churchill, numa transmissão radiofônica,
censurou as pequenas potências que se mantinham neutras, afirmando que
elas aguardavam trêmulas de medo, cada uma antevendo sua própria
derrocada, só não sabendo qual seria a primeira, mas ansiando, todavia,
para que a tempestade amainasse antes de chegar a sua vez. Se todas
estivessem dispostas a cooperar, a catástrofe poderia ser evitada, disse ele.
Na Holanda, suas palavras não surtiram o efeito que ele esperava.
Segundo a opinião dos governantes dos países neutros, Inglaterra e França
não tinham o direito de lhes impor sua vontade, mesmo porque, em
passado bem recente, eles não haviam ajudado nenhuma das nações
dominadas pela Alemanha e a Rússia. Bastava pensar no que acontecera
com a Polônia, Checoslováquia e Finlândia. Esta última, a propósito,
pedira ajuda da Liga das Nações e só o que conseguiu foi a expulsão da
Rússia daquela organização, em nada beneficiando os finlandeses, que,
não podendo contar com o auxílio solicitado, envolveram-se, durante três
meses, num renhido combate, violento e heróico, resultando por fim na
capitulação. O consenso geral na Holanda era que qualquer declaração que
se fizesse em favor dos Aliados, apenas precipitaria, com essa atitude, a
invasão do seu país pelos alemães, e era preciso evitar essa catástrofe a
qualquer preço. Acreditava- se que somente uma completa neutralidade
poderia salvar a Holanda, conforme acontecera na Primeira Guerra. O fato
de que a história talvez não se repetisse neste aspecto, era uma hipótese
que o povo holandês não podia aceitar, e nem desconfiava, ou se tinha
alguma suspeita, preferia ignorá-la que seu país poderia ser atacado. Para
isso, na verdade, Hitler só desejava um pretexto, uma desculpa. E o
conseguiu, utilizando-se do Incidente de Venlo, que a imprensa holandesa
praticamente ignorou e do qual os próprios holandeses, em sua maioria,
continuaram ignorando.

Venlo e Violação

Na Holanda, o Serviço Secreto Britânico operava, disfarçado, através da
Agência de Controle de Passaportes, fundada em Haia durante a Primeira
Guerra. À frente da operação, estava o Major R.H. Stevens, cuja tarefa
principal era compilar todos os dados que se relacionassem com o exército
alemão, e para isso contava com as informações recebidas através de
holandeses que viajavam regularmente para a Alemanha. Seu
intermediário era um homem chamado Vriten, cujas atividades,
infelizmente, já eram conhecidas dos alemães, pois um dos seus parceiros,
Friedrich Gunther, não passava de um traidor alemão que enviava
informações à Abwehr em Hamburgo. Outro dos parceiros de Vrinten,
Koutrik, também se voltou para a Abwehr em 1938. Koutrik conseguira
desempenhar-se tão bem de suas funções, que, através dele, os alemães
obtiveram os nomes e endereços de todos os agentes do Serviço Secreto
Britânico. Na chefia do Serviço Secreto Holandês estava o Major-General
van Oorschot que, embora, pelo menos superficialmente, tem boas
relações com os adidos militares alemães, era, na verdade, anglófilo. Há
muitos anos já vinha prevendo uma inevitável segunda guerra mundial.
Oficialmente, van Oorschot não mantinha qualquer contato com o Serviço
Secreto Britânico - o Governo holandês não o teria aprovado - mas, a bem
da verdade, havia estreita cooperação entre os vários serviços secretos
existentes na Holanda, na Inglaterra e na França, e todas as informações
colhidas sobre a Wehrmacht eram trocadas entre eles, sendo a ligação
realizada por um repórter holandês. O Serviço de Inteligência Checo mais
tarde entrou para essa associação, e um dos seus contatos, o alemão de
nome
Thummel, é que os advertiu da ofensiva contra a Polônia; ele foi preso em
1942 e por fim executado no campo de Theresienstadt, em abril de 1945.
Todas as informações recebidas pelo Serviço Secreto eram
cuidadosamente examinadas e verificadas, na medida do possível, pois a
contra-espionagem alemã tinha o hábito de espalhar informes falsos - o
chamado Spielmaterial. Na verdade, todos faziam o mesmo e com sucesso
extraordinário, tornando bem difícil distinguir a informação verdadeira da
falsa. O mesmo se aplicava aos informantes; nunca se sabia ao certo
quando eram leais. Muitos membros do Serviço Secreto Alemão na
Holanda se faziam passar por fugitivos e, muitas vezes, só mesmo aos
holandeses conseguiam iludir. Um desses era o Dr. Franz Fischer, que
logrou entrar em contato com o Dr. Spiecker, em Londres, ex-chefe do
serviço de imprensa do Reichskanzlei, agora aparentemente interessado
em oficiais alemães desiludidos e insatisfeitos e, sob tal disfarce, recebeu
de Fischer muitas informações falsas que foram transmitidas aos outros
Serviços Secretos através do Serviço de Inteligência Britânico. O superior
de Fischer era um tal Dr. Solms, e eles puderam fazer seu jogo durante 8
meses inteiros antes de despertar a desconfiança do Major Chidson, na
época chefe da Agência de Controle de Passaportes, que rompeu todos os
contatos com aqueles. Supõe-se, no entanto, que ele não tenha informado
seu sucessor, o Major Stevens, nem o QG em Londres. Um lapso curioso.
A Agência de Controle de Passaportes ignorava que o Serviço de
Inteligência Britânico tinha outro homem em Haia (ao passo que os
alemães provavelmente conheciam a verdadeira função daquela Agência)
e, assim, requisitou o Capitão S. Payne Best, casado com uma holandesa e
residente em Haia havia alguns anos. Spiecker instruiu Fischer para que
entrasse em contato com o capitão, a quem o QG em Londres mandou
encontrar-se com o Dr. Solms, tendo Fischer como intermediário. Payne
Best comunicou-se com Londres através de Stevens, da Agência de
Controle de Passaportes, e juntou-se a Solms, em Venlo, na segunda
quinzena de setembro de 1939, senão então, informado de uma trama para
eliminar Hitler, Solms, entretanto, ainda não conhecia todos os detalhes,
mas os líderes do complô em breve tentariam entrar em contato com
Payne Best e dar-lhe mais informações. Depois daquele encontro, Solms
achou melhor desaparecer; alegou que a Gestapo já estava desconfiando e,
portanto, tinha de ficar oculto. Reinhard Heydrich, Chefe da Policia
Secreta, decidira substituí-lo por dois oficiais da SS que, a bem da fraude,
foram chamados de Leutnant Grosch e Hauptmann (Capitão) von Seidlitz.
Entrementes, Payne Best informara o Serviço de Inteligência Holandês
sobre seus contatos com a “resistência “ alemã, e os holandeses, por sua
vez, enviaram um certo Tenente Klop, cuja função seria ter os ouvidos
alerta e transmitir tido ao General Reynders. Os ministros Dijxhoorn e van
Kleffens foram mantidos na ignorância desse fato. O primeiro encontro
realizou-se perto de Dinxperlo, na fronteira da Holanda com a Alemanha,
a 21 de outubro, tendo-se Klop apresentado como “Cooper”, afirmando ser
inglês - o que não lhe era difícil, pois vivera no Canadá e falava
fluentemente o idioma daquele país. O grupo alemão alegou que não podia
demorar muito, pois seu regresso teria que se dar antes das 8 horas;
concordou-se que a primeira reunião seriam em Arnhem. Ali eles quase
foram presos, por terem despertado as desconfianças de um garçom. Não
se aproveitou grande coisa nesse encontro e os ingleses ficaram muito
desapontados, mas alimentaram a esperança de conhecer membros mais
importantes da “oposição a Hitler” na reunião seguinte. Esta se realizou a
30 de outubro, quando Best e Stevens puderam conhecer “três membros
do complô”. Em lugar do Hauptmann von Seidlitz veio Walter
Schellenberg, sob o pseudônimo de “Hauptmann Schemmel”, aluno
promissor da SD Hauptamt, embora ainda jovem demais para o papel de
“General”. O professor austríaco de Croms foi à Holanda usando o nome
de “Coronel Martini” como o homem de confiança do “líder da oposição”.
Ele e o “Leutnant Grosch” foram presos perto de Arnhem, mas Klop
conseguiu libertá-los. Em meio à conversa, falaram sobre as perdas
alemães durante a campanha polonesa e salientaram ser de vital
importância que a guerra terminasse imediatamente. Mas antes que
pudessem agir, eles precisariam conhecer os termos de paz com os quais a
França e a Inglaterra concordassem. Payne Best transmitiu a informação
ao Lorde Halifax, Ministro das Relações Exteriores britânico, cuja reação
à notícia foi muito fria; não obstante, ele achou conveniente continuar com
os contatos.
A 7 de novembro reuniram-se pela terceira vez. Os alemães, não gostando
de Venlo como ponto de reunião, sugeriram um café holandês, o Backus,
situado a poucos metros da fronteira. Ali, “Schemmel” desculpou-se pela
ausência do General, que lamentava muito não poder comparecer à
reunião, mas que viria no dia seguinte e lhes entregaria pessoalmente os
documentos de maior importância. No dia 8, o General mais uma vez não
pôde comparecer, tendo Hitler convocado todos os generais para uma
reunião a fim de discutir as propostas de paz da Rainha Guilhermina e do
Rei Leopoldo; mas era certo o seu comparecimento no dia seguinte.
A 9 de novembro, Payne Best, Stevens e Klop foram a Venlo. Eles
começaram a desconfiar da situação e foram armados. Klop disse aos dois
que o QG fora informado de que era esperada a invasão da Holanda
pelos alemães a qualquer momento e essa notícia perturbadora - embora
não acreditassem realmente nela - os deixou inquietos. Ao chegar em
Venlo, Klop foi ao Koninklijke Marechaussée (Policia Real Holandesa)
para pedir o envio de uma patrulha ao Café Backus como medida de
segurança e enquanto eles se dirigiam para lá de carro, dois
Marechaussées os seguiram de bicicleta. No posto da fronteira, Klop saiu
do carro para informar o guarda alfandegário de que iam ao Backus,
enquanto outros estacionavam o veículo perto do café. Nem bem o
fizeram, um carro militar dobrou uma esquina, com alemães pendurados
de ambos os lados e disparando revólveres à maneira dos gangsters de
Chicago. Best e Stevens nem sequer tiveram tempo de sacar suas armas.
Klop fez menção de atirar, mas uma bala acertou-lhe na cabeça (morreu a
caminho do Hospital de Dusseldorf). Stevens e Best, e seu motorista,
Lemmens, foram algemados e conduzidos ao QG da Gestapo. Quando os
dois policiais de bicicleta chegaram ao Café Backus, tudo já terminara.
O governo holandês não gostou do resultado do exercício e o General van
Oorschot, chefe do Serviço Secreto Holandês, foi obrigado a demitir-se.
Foi inútil Payne Best e Stevens fingirem inocência; “Schemmel” estava
bem informado e revelou sua verdadeira identidade - Oficial da SS
Schellenberg. Ele os mandou para Berlim a fim de serem interrogados por
um especialista em Serviço Secreto de Inteligência britânico. Payne Best
recusou-se a falar, mas Stevens, que levava consigo uma relação de
nomes, foi mais acessível, e Lemmens, o motorista, confirmou tudo.
Lemmens foi libertado em novembro de 1940, mas Payne Best e Stevens
tiveram que passar o resto da guerra no campo de concentração de Dachau
onde, felizmente, Stevens foi muito bem tratado, tendo até permissão de ir
ao teatro em Munique, acompanhado de um guarda.
O Serviço de Inteligência alemão tinha agora mais razão para desconfiar
da existência de estreita cooperação entre os Serviços Secretos britânico e
holandês, mas ainda não conseguira provas concretas. Era evidente que, da
sua parte, o governo holandês ignorava até que ponto iam as relações entre
os vários Serviços de Inteligência e até mesmo se empenhou numa
investigação minuciosa. Os alemães não reagiram, porque, naturalmente,
não podiam dar-se ao luxo de permitir a investigação do caso.
A assinatura de Klop, em seus papéis, na verdade foi a mais valiosa arma
encontrada pelos alemães. Forjada com perícia, ela autenticou uma
história fantástica da perfídia holandesa que serviu de desculpa para a
invasão da Holanda.
Entrementes, a data para o Fall Gelb fora marcada para 12 de novembro e
Sas, avisado por Oster, dirigiu-se imediatamente para Haia. Devido ao
mau tempo, no entanto, o Fall Gelb foi adiado para 15 de novembro, mas
as notícias do adiamento chegaram tarde demais para Oster entrar em
contato com Sas. Este também ignorava que o embaixador britânico, Sir
Neville Bland, cientificara o governo holandês da invasão iminente. Em
Haia, Sas teve uma recepção fria e, sendo um homem muito
temperamental, enfureceu-se com a atitude dos ministros. Fora de si de
tanta raiva, gritou que iria falar pessoalmente com a Rainha. O General
Reynders, de cuja atitude para com Sas já falamos, encarregou-se de
enviar uma mensagem ao ajudante da rainha, e Sas teve-lhe a porta
fechada. No dia seguinte, o Ministro Dijxhoorn entrevistou Sas e o proibiu
de pedir audiência à rainha, embora já então a raiva de Sas tivesse
diminuído um pouco, em parte por ter descoberto que a informação que
trouxera fora corroborada pelas advertências de Sir Neville Bland e de que
pelo menos algumas providências estavam prestes a ser tomadas.
Todas as licenças do exército foram canceladas, uma providência que há
muito tardava, mas somente a 11 de novembro é que o Banco Neerlandês
foi avisado do perigo. Um diretor foi o mais depressa possível até Haia e
soube de Sas que só havia uma chance mínima de que os alemães não
invadiriam naquela mesma noite. Depois de ter conferenciado com Trip,
Presidente do Banco Neerlandês, dois navios da Maatschappilj Zeeland
foram fretados imediatamente e, durante a noite de 19-20 de novembro,
foram carregados com ouro - 166 milhões de florins holandeses. (Não se
tendo realizado o ataque, o ouro permaneceu ali, acondicionado em suas
pequenas caixas de madeira).
O General Reynders ordenou que ficassem de prontidão as tropas na
fronteira e da força aérea; mas, naturalmente, o Fall Gelb foi adiado uma
vez mais, pois o mau tempo persistia; aliás, os adiamentos por este motivo
- nada menos de 19 ao todo - prolongaram-se até 10 de maio de 1940.
O Primeiro-Ministro, de Geer, declarou através de uma transmissão
radiofônica tranquilizadora: não havia razão para temores... não se deveria
dar crédito às notícias publicadas na imprensa estrangeira, que não
passavam de pernicioso sensacionalismo.
Hitler aproveitou-se da situação para fazer propaganda, segundo à qual os
boatos de uma invasão alemã provinha apenas de intrigas vis da Inglaterra
e da França no intuito de convencer os países neutros a tomar partido
contra a Alemanha. A imprensa holandesa não poupou louvores ao
Ministro Geer, declarando ser ele um dos poucos a se manter tranqüilo em
meio aos exaltados elementos fomentadores de guerra.
Os líderes do exército holandês já não estavam confiando no governo, e
para o público em geral um futuro em paz apresentava-se como uma
perspectiva não muito remota.
Os esforços de Sas para fazê-los compreender suas advertências não
estavam surtindo o efeito que desejava, sobretudo quando chegou ao
conhecimento do General Reynders que todas as suas informações eram
obtidas de um oficial da Abwher. O General não podia aceitar que tal coisa
fosse verdade, parecia-lhe o maior dos absurdos, que um oficial alemão
fosse tão indiferente aos conceitos de honra e dignidade a ponto de se
tornar traidor. E, naturalmente, cada vez que Sas dava nova data de
invasão e nada acontecia, aumentava a sua convicção de que Sas era um
neurótico irritante. De inicio, a embaixada holandesa em Berlim tampouco
acreditava na veracidade das informações de Sas, porém, mais tarde, seus
membros mudaram de idéia devido a alguns informes provenientes de
outras fontes. Gerbrandy, o embaixador holandês em Berlim, e a Rainha
eram praticamente as únicas pessoas da mais alta categoria que não
consideravam Sas um rematado idiota; Reynders chegou mesmo a dar
ordens no sentido de evitar que as informações enviadas por Sas fossem
transmitidas à Rainha, pois, acreditava ele, a tornariam nervosa, como
também ao Ministro Dijxhoorn, porque ele começaria a interferir no
exército e isso o General não poderia aceitar de maneira alguma.
Entretanto, a Rainha recomendara um de seus acessores a Sas para que lhe
enviasse diretamente copias dos seus relatórios, de cujas mãos elas as
receberia. Mais tarde explicou ela confidencialmente que sabia
compreender muito bem o quanto a certas pessoas podiam incomodar os
modos um tanto exagerados de Sas, mas que, não obstante, os políticos
deveriam ter tido a capacidade de lhe descontar as excentricidades
características e reconhecer o que nele havia de autêntico.
As relações entre exército e governo melhoraram muito, quando, em fins
de janeiro de 1940, Reynders foi substituído pelo general Winkelman,
então com 63 anos de idade. Novas técnicas foram planejadas e este
obteve todo o dinheiro que desejava para as providências que iria tomar.
No mês de novembro anterior, o General Reynders enviara memorandos,
por insistência do Ministro van Kleffens, às embaixadas em Bruxelas,
Paris e Londres, com a recomendação de serem lidas somente na
eventualidade de a Alemanha invadir a Holanda. Em fins de março, o
General Winkelman enviou outros memorandos nos quais pedia a ajuda
dos franceses e da Real Força Aérea se a Alemanha atacasse a Holanda.
Algumas unidades da marinha holandesa tinham envelopes lacrados a
bordo, contendo mapas especiais, rotas de evacuação para a Inglaterra e o
código de reconhecimento da Marinha Real britânica. Completaram-se os
planos para se dar a transferência do ouro do banco Neerlandês, durante
todo esse tempo ainda acondicionados em suas pequenas caixas a bordo
dos dois navios fretados, que seriam escoltados pelo Mar do Norte por
destróieres britânicos; e estabeleceu-se uma ligação radiofônica direta
entre o Chefe de Estado- Maior da Marinha Holandesa em Haia e o
Almirante em Londres. Estas precauções mais tarde mostraram-se de
enorme valia nos preparativos para a evacuação da família real e do
governo.
A 9 de abril de 1940, as forças alemães invadiram não só a Dinamarca
mas também Oslo e todos os portos noruegueses até Narvik. Hitler
garantira para a Alemanha o minério de ferro do norte da Suécia,
exportado através de Narvik. O Coronel Oster informara Sas sobre o
ataque iminente havia 6 dias; Sas transmitira a informação para o adido
naval dinamarquês - cujo governo não acreditou nele - e ao chanceler
norueguês - que por sua vez achou de bom alvitre não informar seu
governo. A operação toda não custou à Kriegsmarine alemã mais que três
cruzadores, 10 destróieres e um submarino.
A 19 de abril o governo holandês proclamou o estado de sítio no país. Isto
significava que, entre outras coisas, os 30.000 membros do NSB
(Movimento Nacional-Socialista holandês) tinham de ser mantidos sob
constante vigilância e que a imprensa estava agora censurada. O número
30.000 referia-se unicamente aos membros registrados do NSB; além
destes, havia muitos elementos apenas simpatizantes do Movimento.
(Estes mais tarde procuraram evitar complicações; muitos deles, no
entanto, se tornaram de grande atividade, negando, embora, qualquer
ligação com o Movimento). Em 1935, a filiação ampliou-se. Durante
aquela época de desemprego generalizado, membros do NSB
candidataram-se às eleições no governo provincial com o lema “Um
Povo”, e conseguiram quase 8% dos votos. O programa elaborado pelo
NSB - a extinção dos demais partidos políticos, a eliminação do
Parlamento, a proibição de greves e a instituição do trabalho
forçado - serviu, naturalmente, para disfarçar um pouco as metas
eleitorais, mas tornou-se bastante claro mais tarde e fez que muitos
filiados o abandonassem nos anos que antecederam de perto a guerra.
Aliás, em 1937, o número dos filiados existentes era menor que metade do
que havia em 1935. Não obstante, muitos membros do NSB continuavam
pagando suas anuidades devido a uma lealdade mal orientada, ou melhor,
somente por obstinação (uma característica nacional),que ainda lhes
ficaria muito mais dispendiosa mais tarde.
O Fall Gelb fora novamente reorganizada. Agora, tanto o sul como
também os Países Baixos deveriam ser capturados e de uma só vez, para
retirar o território holandês - segundo o plano - das garras da Inglaterra. A
Holanda, ocupada, seria um ponto fraco no perímetro defensivo da
Alemanha. Como o Dr. L. de Jong comenta em seu (O Reino dos Países
Baixos durante a Segunda Guerra Mundial): “As forças aliadas podiam
penetrar diretamente da Holanda no território do Ruhr e paralisar a
máquina de guerra da Alemanha. Isso tinha de ser impedido a todo custo”.
A espionagem alemã fizera um trabalho realmente completo, daí
resultando estar muito bem informada sobre todo o sistema defensivo e,
em particular, sobre os pontos vulneráveis que forçosamente deveriam
existir. À parte as informações dadas por espiões que trabalhavam na
Holanda, o Serviço de Inteligência alemão ainda podia contar com um
sem-número de fotografias atualizadas, tiradas a grande altitude, que
revelavam concentrações de tropas e outros preparativos para defesa em
meticulosos detalhes.
Rapidez e surpresa, o lema da Blitzkrieg, eram fatores primordiais. O
plano centralizava-se numa tomada rápida da sede do governo, Haia, e, se
possível, a captura da Rainha. Tropas seriam desembarcadas em três
aeródromos perto de Haia: Valkenburg, Ypenburg e Ockenburg, sendo que
as outras bases e a força aérea já teriam sido eliminadas na noite anterior
por bombardeios feitos do oeste. Os integrantes da força de ataque
deferiam viajar de motocicletas até Haia a toda velocidade com a missão
de realizar a captura do General Winkelman e de outros ministros do
governo. Teriam também de ocupar as repartições militares, requisitar
carros (eles tinham até uma relação de garagens) e prender todos os que
trabalhassem, ou que apenas fossem suspeitos de trabalhar, para Serviços
de Inteligência holandês, francês ou britânico. Sendo capturada a rainha,
ela teria de dar a ordem de capitular, “a fim de evitar derramamento
desnecessário de sangue”, muito embora, se recusasse, seria apenas
mantida prisioneira em seu palácio “em condições honrosas”.
Entrementes, a 9ª Divisão de tanques do 18° Exército estaria deslocando-
se para Roterdã através de Moerdijk e Dordrecht, quando as tropas
aeroterrestres vindas de Haia já teriam assegurado as pontes de Moerdijk e
Dordrecht e ocupado o aeródromo Waalhaven, perto de Roterdã.
Este, em poucas palavras, era o plano. Como a Holanda se defenderia com
suas reduzidas forças mal equipadas? O pedido do General Reynders, em
1937, para que se adquirissem 60 tanques, fora recusado pelo então
Ministro da Guerra, que alegou serem eles ultrapassados; e agora, a
Holanda não possuía um sequer.
O adido militar da embaixada holandesa em Londres foi informado de que
os tanques de Hitler passariam por Brabant, e quando a notícia foi
recebida, decidiu-se adquirir mais 140 tanques, porém estes não haviam
sido entregues até maio de 1940. As tropas do exército holandês
deslocavam-se a pé e as comunicações eram primitivas, apesar da
presença, na Holanda, da Philips, uma das mais importantes companhias
mundiais fornecedoras de equipamento de telecomunicações. Três quintos
das tropas eram infantaria, equipadas com velhos fuzis de modelo
austríaco de 1890. As granadas de mão eram escassas e, de qualquer
modo, muitos dos soldados não sabiam usá-las.
A relação dos pontos vulneráveis das forças holandesas poderia estender-
se indefinidamente. Um deles referia-se a maior parte dos elementos
convocados, cujo treinamento era muito restrito ou muito primitivo; o
exército regular não despertava interesse algum e por isso o número de
seus oficiais vinha diminuindo a cada dia que passava. Entre os oficiais da
reserva não existiam elementos especializados.
Desde a época das guerras napoleônicas e a separação da Bélgica dos
Países Baixos, nada de dramático acontecera e esta circunstância muito
contribuiu para um estado de coisas revestido da maior imprevidência. Era
difícil reconhecer que a Holanda talvez não pudesse manter-se neutra.
Havia, entretanto, alguém que percebia o perigo e demonstrava sua
preocupação - a Rainha Guilhermina. Prevendo a possibilidade de ter de
deixar o país, pensava na maneira como manter em segurança a filha, a
Princesa Juliana, e a família, que poderiam encontrar abrigo nos arredores
de Paris, junto aos parentes do Príncipe Bernhard. Somente van Kleffens,
Ministro das Relações Exteriores, ficou a par dessas providências;
ele meditara sobre o exemplo de Varsóvia e, temendo que Haia também
pudesse ser bombardeada, tomou a iniciativa de transferir os vários
ministérios para outros locais.
Nas paredes de alguns, viam-se os dizeres: os judeus emigraram; as
companhias transferiram seu capital para a Inglaterra ou Estados Unidos; o
Banco Neerlandês mandou para o exterior o grosso das suas reservas em
ouro; a Philips transferiu todas as suas patentes e desenvolvimento
industriais para a Inglaterra; e, significativamente, o embaixador alemão
em Haia depositou sua grande fortuna pessoal na conta de uma migo em
Nova York.
Finalmente, após um inverno que durante cem anos não fora mais
rigoroso, veio a primavera. Hitler, que se vinha mantendo, impaciente, na
maior expectativa, agora propunha o dia 5 de maio para o Fall Gelb.
Acontece que o Ministro van Kleffens, bastante preocupado com a
possibilidade de que talvez fosse tarde demais para o governo deixar o
país na iminência de um ataque, decidiu enviar uma carta, datada de 3 de
maio, ao embaixador holandês em Londres, contendo instruções no
sentido de informar aos governadores de além-mar de: se a Holanda fosse
obrigada a se render, eles continuassem agindo independentemente como
parte do Reino Holandês. Isto era da maior importância para as Índias
Orientais Holandesas, pois o Japão alimentava um interesse todo especial
por aquela área.
No aeroporto de Schiphol, os aviões estavam abastecidos e prontos para
decolar. As rodovias foram intencionalmente atravancadas de veículos
estacionados com intervalos de cerca de 60 metros, dando passagem
suficiente para tráfego normal e impedindo que fossem usadas, talvez,
como pistas de pouso para aviões.
Mas o Fall Gelb foi adiado mais uma vez. O major Sas deu então, após
inúmeras outras, sua última advertência: a Alemanha atacaria a 8 de maio.
A Rainha Guilhermina e o Rei Leopoldo da Bélgica tentaram intervir a
bem da paz:; Hitler, porém, estava irredutível. A 7 de maio todas as
licenças foram mais uma vez canceladas.
A tão esperada ofensiva alemã, entretanto, não se realizou; os 200.000
soldados prontos para combate e os 50.000 efetivos estacionados nos
quartéis do exército holandês relaxaram, e todo o país também. Mas, dessa
vez, o tempo de espera foi curto; o ataque foi mesmo desfechado e
precisamente às 03:55 horas de 10 de maio de 1940.

Trágico Despertar

Pode-se muito bem descrever o inesperado do ataque, através dos
acontecimentos que se desenrolaram no aeródromo de Bergen, onde 23
caças, armados e já com os motores ligados, apenas aguardavam a ordem
de decolar. Ouviu-se então o ronco dos aviões que sobrevoavam o local e a
princípio julgou-se quer eram bombardeiros alemães a caminho da
Inglaterra. Contudo, ao sobrevoar o Mar do Norte, mudaram de rumo e,
vindo do oeste, passaram a bombardear o aeródromo. Bergen e os caças
foram totalmente destruídos, antes mesmo que a verdadeira guerra
começasse de fato.
Deve-se reconhecer que a invasão foi bem organizada. Centenas de aviões
polvilharam os ares de pára- quedistas, com os pára-quedas brancos
destacando-se nítidos contra o claro céu azul. Algumas nuvens brancas - o
efeito da explosão de granadas antiaéreas - apareceram, mas foram poucas
as baixas causadas entre os Junkers em seu vôo baixo. Vários caças
holandeses deram combate aos aviões inimigos, mas não eram adversários
à altura para enfrentar os Messerschmitts, que os sobrepujavam, e os
aviões escoltados por eles seguiam seu caminho livremente.
O espantoso é que um aeródromo conseguiu permanecer intato.
Aparentemente os alemães ignoravam a existência da base de Ruigenhoek
e aproveitando-se disto, enquanto os outros aeródromos eram
violentamente bombardeados, um piloto de caça holandês foi pousar ali,
com seu avião meio destruido pelas balas, e encontrou todo o mundo
dormindo. Ninguém naquele aeródromo sequer imaginara que a guerra
começara.
O principal centro visado pela invasão foram os arredores de Haia, onde
pelo menos metade da Luftlandekorps - tropas aeroterrestres - deveria
saltar. Dos três aeródromos existentes na área, Ypenburg, Ockenburg e
Valkenburg, este último, em fase de construção, não podia ser usado
porque o solo ainda estava muito fofo, o que não impediu, entretanto, o
desembarque de 75 transportes alemães, muito embora não
pudessem decolar novamente para que fossem revezados por outros. Mais
de 1.000 soldados alemães foram desembarcados ali, resultando da
operação 21 baixas holandesas.
Ypenburg foi ocupado pela força aérea holandesa e estava sendo defendido
por um batalhão de granadeiros. Os caças Fooker D-21 e Douglas,
pertencentes à defesa holandesa, decolaram e conseguiram destruir 5
aviões inimigos, mas dentro de uma hora todos os aviões D-21 estavam
fora de ação por falta de combustível ou munição ou haviam sido
destruídos. Os Douglas saíram-se ainda pior: 8 logo foram derrubados e
um deles caiu num tanque de armazenamento de óleo, perto de
Vlaardingen, que estava em chamas.
Como era de esperar, o bombardeio causou grande pânico entre os
soldados holandeses, e um comandante- de-companhia mais tarde
informou ter sido obrigado a usar de grande energia e poder de persuasão
para controlar a unidade - em sua maioria formada de cozinheiros,
bagageiros, escreventes, etc, quase que totalmente desarmados. Este era o
exército a que estava entregue a defesa da Holanda. Contudo, quando os
primeiros transportes alemães pousaram, às 05:24 horas, os demais
granadeiros lutaram com galhardia. Os oito aviões da primeira leva de
Junkers ficaram crivados de balas, sendo que alguns deles incendiaram-se,
e as duas levas seguintes também com oito aviões cada uma colidiram
com os aparelhos já em terra com resultados dos mais desastrosos. A
quarta leva evidentemente não encontrou condições de pousar e não teve
outra alternativa senão voltar; alguns entretanto, ainda lograram pousar na
praia. A defesa havia conseguido rechaçar o primeiro ataque a Ypenburg,
mas logo depois o aeródromo caiu em poder dos pára-quedistas alemães.
No decorrer das primeiras horas de guerra, a força aérea alemã fora muito
bem sucedida: a maioria da força aérea holandesa estava aniquilada, e
podia-se considerar que essa parte da missão levada a termo pela
Luftwaffe saíra bem de acordo com o que se planejara. Mas o ataque
desfechado ao centro governamental se desintegrara, pois os transportes
alemães não conseguiram pousar em nenhum dos três aeródromos dos
arredores de Haia e, aliás, em Ypenburg e Ockenburg, as tropas alemães
achavam-se bloqueadas. Assim, o ataque-relâmpago que seria
empreendido por motociclistas contra Haia, visando capturar a Rainha e os
ministros, não podia prosseguir.
As forças invasoras tiveram mais sucesso nas operações realizadas nas
proximidades de Roterdã, onde o aeroporto de Waalhaven, as pontes sobre
o Maas em Roterdã e as grandes pontes rodoviárias perto de Moerdijk e
Dordrecht, foram ocupadas conforme planejado.
O Ministro van Kleffens recebeu uma mensagem informando que o
embaixador alemão na Holanda, Conde Zech von Burkersroda, desejava
vê-lo no Departamento. O Ministro teve certa dificuldade em entrar em
Haia; soldados bloqueavam todos os acessos a qualquer elemento
estranho, que poderia ser considerado um quinta-coluna. Van Kleffens,
embora não fosse um estranho, teve a maior dificuldade em convencê-los
de sua passagem, desde que se recusavam a acreditar que tinham à frente o
próprio Ministro das Relações Exteriores - o que estaria fazendo um
ministro no meio de todo aquele perigo, arriscando ser morto por aviões
alemães prontos para atacar? Um telefonema ao Grande QG deu-lhe
finalmente a permissão solicitada. O Conde von Burkersroda pretendia ler
para van Kleffens os termos da mensagem cifrada recebida dos seus
superiores, mas quando chegou o momento, foi abalado por tamanha
emoção, que não pôde pronunciar uma só palavra. É que ele vivia há 12
anos na Holanda e ali fizera muitos amigos nesse período; sentiu-se tão
comovido, que nada mais pôde fazer senão entregar a folha de papel a van
Kleffens. O teor da mensagem referia-se às provas irrefutáveis que a
Alemanha possuía de que a França e a Inglaterra pretendiam invadir a
Holanda e a Bélgica visando a penetrar o vale do Ruhr. Portanto, resistir às
forças alemães seria um tentativa inútil, diante dos poderosos exércitos da
Alemanha, que os esmagaria instantaneamente. Contudo, a propriedade
holandesa e a Família Real seriam protegidas contra eventuais abusos, se
os holandeses depusessem as armas. Do contrário, o país poderia esperar o
aniquilamento completo.
De acordo com os termos da Constituição Holandesa, a guerra não podia
ser declarada sem a ratificação dos Staten-Generaal (Estados-Gerais), o
equivalente às duas Casas do parlamento britânico. Naturalmente, a guerra
estava progredindo naquele momento, de modo que qualquer declaração
apenas confirmaria o estado de coisas existente. Todavia, van Kleffens não
queria arriscar a possibilidade de críticos poderem dizer que os holandeses
não haviam declarado guerra, por isso daria aos alemães material útil de
propaganda; eles declarariam os soldados holandeses como franco-
atiradores. Portanto, o Ministro tomou a decisão e registrou, por escrito,
que o governo da Holanda considerava o país em guerra com a Alemanha.
Ele entregou sua resposta ao conde e lhe perguntou se tinha algo a dizer. O
Conde Zach mal pôde balbuciar
algumas palavras de despedida e, ao partir, van Kleffens apertou-lhe a mão
(escandalizando dois oficiais holandeses presentes). Von Burkersroda foi
removido para internação no Hotel des Indes e van Kleffens partiu rápido
para estar presente a uma conferência de última hora a ser realizada num
grande abrigo subterrâneo no Bezuidenhout, quando então se decidiu que
van Kleffens deveria seguir logo para Londres a fim de expor a situação e
pedir ajuda. Não havia quase vento, algo muito raro na Holanda, e diante
dessas condições atmosféricas favoráveis, ele propôs tomar um hidroavião
que poderia levantar vôo de Scheveningen e levá-lo à outra margem do
Mar do Norte. Welter, Ministro das Colônias, deveria acompanhá-lo e van
Kleffens pediu, e foi-lhe concedida permissão para levar a esposa consigo,
caso houvesse lugar para ela no avião.
Em Scheveningen, eles encontraram dois hidroaviões balançando
suavemente no mar calmo, um deles, entretanto, estava com o tanque de
gasolina avariado, e o outro, muito adernado, pois um dos flutuadores
apresentava-se crivado de balas. O piloto deste último afirmou que se
pudesse desenvolver bastante velocidade, a água escoaria do flutuador e
seria possível decolar. Ele tiveram sorte e lograram escapar, debaixo de
uma saraivada de balas. (Três dias depois o oficial que os acompanhara até
a costa foi-lhes ao encontro em Londres e notificou que o outro hidroavião
fora bombardeado depois que eles decolaram, resultando na morte de três
jovens marinheiros).
Na excitação do momento, ninguém pensara em verificar se havia algum
mapa no avião, de modo que o vôo foi realizado a olho. Depois de algum
tempo eles viram uma grande cidade costeira a boreste e resolveram
amerrissar - tratava-se da cidade de Brighton. Adernando perigosamente,
eles taxiaram até o cais, com “Sparks” sentado na asa acenando seu lenço.
Logo se reuniu uma multidão na praia, e entre as inúmeras pessoas que ali
se encontravam havia muito policiais que os escoltaram até a delegacia de
policia de Brighton, onde lhes serviram sanduíches - muito bem vindos,
aliás, pois nada haviam comido desde a noite anterior. Como não tinham
dinheiro britânico, a policia também lhes adquiriu as passagens de trem
para Londres. Foram acompanhados na viagem pelo Prefeito de Brighton
e, ao chegarem à capital, o embaixador holandês foi-lhes ao encontro na
estação. Sem perda de tempo dirigiram-se para o Ministério das Relações
Exteriores, onde tiveram uma prolongada conversa com o Lorde Halifax; a
Holanda tendo sido atacada pela Alemanha, fora promovida da sua
posição de neutra para a de aliada. Terminada a reunião, foram-se avistar
com o Primeiro-Ministro do Almirantado, Winston Churchill, que acabara
de ser informado, através do Palácio de Buckingham, que Chamberlain
renunciara ao cargo e ele fora encarregado de formar o novo gabinete.
“Todos foram extremamentes amáveis”, escreve van Kleffens em The
Rape of the Netherlands.
Agora que dois dos representantes holandeses estavam em Londres, os
invasores alemães não puderam calar a voz do governo legal da Holanda,
fato que se mostrou de enorme importância e a BBC ofereceu a van
Kleffens a oportunidade de testemunhar ao povo britânico estar ali para
criar fortes laços com os governos das potências das quais agora se tornara
aliado.
Nessa época havia quatro importantes armadores holandeses em Londres;
eles decidiram formar o Comitê de Frota Mercante que seria reconhecido
pelos governos britânico e holandês. O comitê assumiria o controle dos
navios da frota mercante holandesa, que tinham podido ou talvez
pudessem escapar aos alemães. Nesse momento havia cerca de 45 navios
da Holanda em portos britânicos.
Welter e van Kleffens foram recebidos em audiência pelo Rei no dia
seguinte à sua chegada e ficaram muito impressionados pela sua
personalidade e pela simpatia e bondade que lhes dispensou. Entrementes,
a Família Real holandesa reunira-se no Palácio Huis ten Bosch, nos
arredores de Haia, onde havia um grande abrigo subterrâneo. De manhã
cedo, um aparelho alemão fez um vôo rasante sobre o palácio e embora
fosse derrubado, o incidente fez a rainha compreender que era tempo de
tomar providências mais concretas visando à segurança da Princesa
Herdeira e das suas duas filhas menores, resolvendo que elas deveriam
deixar o país imediatamente. Mas os três aeródromos perto de Haia não
tinham condições de ser usados, pois estavam juncados de transportes
alemães abandonados, e a luta que se travava nas proximidades do
aeródromo de Waalhaven impedia o uso deste. Além disso, os bosques em
torno de Huis ten Bosh estavam repletos de soldados aeroterrestres
alemães. O general Winkelman aconselhou a Família Real a ir
temporariamente para o Palácio de Noordeinde, em Haia, onde estaria um
pouco mais de segurança. Apelando para a maior discrição possível, os
automóveis da Corte foram deixados ali e utilizaram-se de dois carros
comuns, tendo à frente a Rainha Gulhermina seguida logo após pela
Princesa Herdeira e sua família no segundo carro. Devido aos inúmeros
boatos que falavam de uma quinta-coluna (segundo rumores, havia
pessoas desconhecidas e misteriosas atirando de tocaia contra soldados
holandeses), todos ficaram um tanto surpreendidos por verem que a
viagem se desenrolara praticamente sem quaisquer incidentes, podendo
chegar com facilidade ao Palácio de Noordeinde, de onde se providenciou,
através de uma ligação radiofônica com o Almirantado britânico, para que
a Princesa Juliana e suas filhas embarcassem pela madrugada nos navios
que os britânicos estavam enviando para Ilmuiden, originalmente com o
objetivo de transportar o ouro do Banco Neerlandês. Entretanto, a região
entre Haia e Ijmuiden estava agora infestada de perigos devido à presença
ali de tropas aeroterrestres alemães, e a partida precisou ser adiada.
Em Roterdã, a batalha estava no auge e pelo amanhecer os alemães
haviam já tomado as pontes sobre o Maas no centro da cidade; o
aeródromo de Waalahaven também foi capturado e durante o dia quase
6.000 soldados alemães desembarcaram ali. Na verdade, os holandeses
tinham cerca de 7.000 homens protegendo os depósitos e instalações
portuárias, mas entre eles, apenas 1.000 estavam adequadamente
treinados, e só podiam contar com 8 metralhadoras pesadas e 48 leves e
antiquadas. Além disso, foram apanhados completamente de surpresa
durante a noite de 9-10 de maio e mal compreendiam o que estava
acontecendo. Segundo todas as probabilidades, a Alemanha atacaria a
Holanda pela fronteira comum, e não pelo lado oposto do país, através da
cidade portuária de Roterdã, no Oeste. Foram vítimas, também, de toda
sorte de boatos - por exemplo, de que os alemães estavam disfarçados de
policiais holandeses e que membros da quinta-coluna estavam atirando
contra soldados holandeses. Em suma, era uma situação terrivelmente
caótica para eles, mas de grande vantagem para o Comandante-Chefe
alemão, General Student.
As medidas de defesa que os holandeses puderam adotar estavam
lamentavelmente muito aquém, levando-se em conta o poderio das forças
que tentavam tomar a cidade. O Coronel Scharroo, comandante das
unidades de Roterdã, providenciara para que todas as estradas da cidade
fossem protegidas por barricadas; a Z5, uma velha lancha-torpedeira,
ancorada perto do Hook, zarpou para o Willemsbrug, juntamente com a
TM 51, as únicas torpedeiras que a marinha possuía na Holanda, para
atacar os alemães. Foram bombardeadas com persistência por aviões
inimigos e embora, felizmente, todas as bombas errassem o alvo, os
disparos da costa lhes causaram pesadas avarias. Providenciou-se para que
fossem comboiadas pelo destróier Van Galen, que acabara de voltar das
Índias Orientais Holandesas, e por duas canhoneiras de Den Helder; antes,
porém, que o Van Galen pudesse chegar a Roterdã, teve de travar combate
com bombardeiros de mergulho alemães, derrubou três deles, mas acabou
sendo afundado.
No entanto a ajuda já estava a caminho. O 7° Exército francês, sediado na
fronteira franco-belga, recebera ordens expressas de avançar
imediatamente para o norte, o que não era fácil, todavia, pela falta
absoluta de disponibilidade de transporte para tal força. O deslocamento se
fez por trem e por vários tipos de automóveis para esse fim requisitados,
muito deficientes, segundo uma testemunha ocular que os viu passar na
Bélgica: “ônibus parisienses que já deveriam estar fora de uso, caminhões
de mudança, caminhões outrora usados para levar legumes ao mercado
Les Halles em Paris, e caminhões de entrega de grandes lojas”. A
artilharia francesa era puxada por pequenos e fogosos cavalos. Os infelizes
soldados que não tinham transporte tiveram que viajar a pé. O
comandante-chefe francês, General Gamelin, compreendia que a situação
era precária e o tempo, escasso, e por isso ordenou que uma força
avançada se dirigisse para Flushing, na Zelândia, num navio-transporte
protegido por belonaves. O primeiro grupo chegou durante o dia, o grupo
de exploração tendo à frente o Coronel de Beauchesne. Além disso, as
tropas britânicas também desembarcaram na mesma ocasião.
A 10 de maio, de manhã bem cedo, Londres mandara grupos de demolição
ficar de prontidão; um destacamento seguiria para Ijmuiden com o
objetivo de destruir as comportas enquanto estivessem abertas.
Felizmente, o comandante sediado em Ijmuiden pôde impedir essa missão;
caso o plano fosse realizado, todo o oeste da Holanda teria sido inundado
pelo mar - uma verdadeira catástrofe.
Ao destacamento despachado para Roterdã coube a tarefa de incendiar os
tanques de óleo de Pernis, situados próximo de Roterdã. Contudo, o
General Winkelman antecipadamente ordenara os preparativos para
inutilizar os óleos, a simples mistura dos vários tipos de óleo resultaria o
mesmo que a destruição pelo fogo - a curto prazo. Ele considerava
prematuras as medidas drásticas como incêndio e destruição por explosões
dos depósitos de óleo. Durante a noite de 10-11 de maio, o destacamento
britânico ajudou no embarque das barras de ouro no valor de 22 milhões
de florins do Banco Neerlandês. Ainda havia mais ouro, mas ao clarear o
dia suspendeu-se o embarque porque o prédio do bando estava sendo
atacado. O navio britânico, mal deixou o porto, foi afundado por uma
mina magnética e o comandante morreu. Durante a ocupação, os alemães
puderam recuperar quatro quintos do ouro no fundo do Nieuwe Waterweg;
consideraram-no despojos de guerra e o transportaram para a Alemanha,
sendo que o restante, ainda em Amsterdã, foi levado em segurança para a
Inglaterra em dois cargueiros da KNSM e escoltados por cruzadores
britânicos. Ouro no valor de mais de 887 milhões de florins puderam
assim ser salvos da cobiça do III Reich.
Duas velhas barcas da Linha de Harwich - a Malines e a St. Denis -
estavam atracadas em Roterdã, prontas para retirar o pessoal do consulado
britânico (inclusive os elementos que trabalhavam para o Serviço Secreto
britânico) em caso de ataque alemão. Vrinten e seu colaborador Koutrik
(agora um agente duplo trabalhando para a Abwher) faziam parte dos que
fugiram para a Inglaterra, a bordo do Malines. Infelizmente, Koutrik sabia
onde estavam os dossiês de Vrinten e outros registros, informação esta que
logo transmitiu ele aos alemães. Muitos “contatos” foram presos e alguns
chegaram mesmo a ser executados.
Entrementes, a Alemanha dominava os céus da Holanda. Os pilotos
holandeses contra-atacavam com abnegada coragem e determinação, mas
estavam em séria desvantagem no uso de suas máquinas antigas e lentas,
e, assim, o primeiro dia da guerra veio surpreendê-los com a destruição de
20% dos seus aviões ineficientes. Os artilheiros antiaéreos, carecendo de
experiência em disparo contra alvos móveis, adquiriram- na rapidamente,
logo nas primeiras horas da manhã de 10 de maio; eles conseguiram
derrubar cerca de 100 transportes, mas nesse breve período tiveram de
despender metade de todo o estoque de munição antiaérea que possuíam.
Incluindo aviões que não podiam mais decolar, como descrevemos antes,
200 transportes foram perdidos.
Apesar do fato desastroso dos alemães estarem dominando as pontes sobre
o Maas em Roterdã e as localizadas perto de Dordrecht e Moerdijk, ao QG
militar holandês ainda restavam muitas esperanças de que seria possível
encontrar um jeito de se unir às tropas francesas que então avançavam, e
deter afinal o ataque alemão.
Na verdade, os generais alemães que sitiavam Roterdã já estavam um
tanto pessimistas. Eles reconheciam que os ataques aéreos nas
proximidades de Haia haviam, quase todos, fracassado. Apenas 13 dos
primeiros 55 aviões-transportes conseguiram retornar à base, e um destes
ainda contendo toda a carga. Preocupado, o General Kesselring enviou um
avião de reconhecimento à Haia que, ao retornar, trouxe a mensagem de
que não se podia observar nada de especial. Ele chegou à conclusão de que
o ataque fracassara e decidiu mandar recuar na direção de Delf (a meio
caminho entre Haia e Roterdã). Tentou enviar uma ordem de retirada para
o grupo acampado perto de Valkenburg, mas não pôde conseguir ligação.
O General Student informara ao comandante alemão que tomara o
Noordereiland, que era possível que a 9ª Divisão panzer não tivesse
condições de chegar em seu auxílio antes de duas semanas. Mas o General
von Bock, comandante do Heeresgruppe “B” daquela divisão, estava
decidido a chegar a tempo. Ele tinha conhecimento de que muita coisa
saíra errada no oeste da Holanda, mas a ponte Moerdijk havia sido tomada
e isto era de vital importância, como escreveu ele em seu diário. Os mais
importantes objetivos, as pontes perto de Gennep, Moerdijk, Dordrecht e
Roterdã, foram alcançados, e os alemães de forma alguma abririam mão
deles.
O pânico reinava entre os holandeses, e não apenas a população civil foi
afetada; o moral também sofrera colapso no setor militar e corriam muitos
boatos infundados - um deles, por exemplo, que os alemães pretendiam
usar gás. Havia também o temor todo especial de uma quinta-coluna
(termo originário da Guerra Civil Espanhola) que causou muita suspeita
exagerada e assaz prejudicial. Sacerdotes e monges, por qualquer motivo,
tornavam-se as maiores vítimas de suspeição, e depois que ocorreu o boato
de que soldados aeroterrestres alemães haviam desembarcado usando
blusas azuis, calças marrons e tamancos holandeses, todo camponês teve
de ser submetido a exame dos mais rigorosos.
Todos os alemães residentes na Holanda foram presos, incluindo grande
número de judeus; não havia espaço bastante para abrigar
convenientemente todos os prisioneiros, o que resultou numa espantosa
promiscuidade. Centenas de pessoas foram aprisionadas no grande saguão
do prédio da KLM. Ouviram-se alguns judeus comentar que estariam
melhor nos campos de concentração alemães, onde, pelo menos, podiam
lavar-se.
Nesse ínterim, os franceses haviam chegado ao sul do país e junto com um
destacamento holandês, tentaram ambos retomar a ponte de Moerdijk, mas
sob o impacto do bombardeio da Luftwaffe que os metralhou
incessantemente, o ataque fracassou. Lapsos de comunicação e outras
dificuldades deram origem à confusão em que os boatos conseguiram
deturpar a verdade dos acontecimentos. Os franceses, não tendo sido
informados da ordem de que as tropas no sul deviam recuar para a outra
margem dos grandes rios na Vesting Holland achavam que estavam sendo
abandonados pelo exército holandês.
O Coronel Schmidt, comandante da Peel-Division no sul da Holanda e
encarregado da defesa da província Noord-Brabant, recebeu missão nada
fácil. Durante a manhã de 11 de maio ele perdera contato com a maioria
dos seus comandantes-de-batalhão, um dos quais, o major da reserva
Dobken, já fora morto por uma metralhadora alemã que tentava destruir.
Outros comandantes haviam mudado suas posições sem deixar qualquer
notícia quanto ao seu paradeiro. A situação piorou ainda mais quando os
franceses resolveram fazer exigências das mais contraditórias; o Tenente-
Coronel Lestoqoui queria estacionar suas tropas ao sul de Breda, e outros
comandantes franceses, ao norte. Infelizmente, o coronel ignorava o fato
de que havia numerosos membros da Policia Real em Breda que poderiam
ter sido aproveitados para dirigir as tropas já meio desorientadas. As
mensagens telefônicas tendiam a ser intencionalmente ambíguas, porque
todos receavam que pudessem ser ouvidas pelos quinta-colunas.
Lestoquoi decidiu ir pessoalmente a Roosendaal, para onde seu estado-
maior se deslocara, a fim de obter a informação que necessitava, Decidiu-
se por uma estrada paralela à rodovia principal - e teve a má sorte de
encontrar os primeiros tanques da 9ª Divisão Panzer
; aprisionado e levado para Den Bosch (Bois-le- Duc), foi ali submetido a
um minucioso interrogatório. Ao lhe perguntar sobre o paradeiro da
divisão Ligeira do III Corpo de Exércitos, ele não soube responder, e
mesmo que o quisesse, dele não tinha a menor idéia. Assim, o
Comandante da Peel-Division foi eliminado, mas já então isso não fazia a
menor diferença; as estradas estavam repletas de soldados em fuga, sem
suas cozinhas de campanha ou provisões, sem assistência médica,
desorganizados, a pé, de bicicleta ou em carros requisitados,
continuamente metralhados e bombardeados por aviões alemães. Um
trecho particularmente ruim era a estrada entre Tilburg e Breda que,
embora juncada de corpos de soldados, de cavalos mortos e de veículos
em chamas, e portanto virtualmente intransponível, continuou sendo
atingido pelos caças inimigos.
O General Student, que capturara a ilha de Ijsselmonde, no Sul, onde se
encontrava o aeródromo de Waalhaven, bem perto de Roterdã, recebeu o
reforço de mais 750 homens lançados de pára-quedas e também com
reabastecimento para seus estoques de material. Os soldados holandeses
da Divisão Ligeira tentaram por todos os meios possíveis chegar à ilha,
mas eram sempre repelidos; a história também se repetiu perto de Oude
Maas, onde os alemães se haviam entrincheirado solidamente. A falta de
treinamento dos líderes militares holandeses foi um fator que, por toda
parte, prejudicou a defesa; ela incapacitou, por exemplo, o ataque à ponte
perto de Barendrecht, sofrendo os mesmos efeitos a própria cidade de
Roterdã. Os soldados ali estacionados, como em quase toda parte da
Holanda, tinham pouco ou nenhum treinamento; alguns eram recrutas
totalmente inexperientes a ponto de não terem tido sequer a chance de
aprender a manejar uma arma.
O general Winkelman retirou três batalhões das reservas perto de
Grebbeberg para ajudar Roterdã; juntamente com um quarto batalhão
primeiramente enviado para Leyden, eles formavam a ajuda tão
necessitada pela força extremamente nervosa e muito inadequada do
exército a que estava entregue a defesa da cidade. Eles totalizavam muito
maior número do que os prováveis 1.000 alemães responsáveis pela
captura de Roterdã-Sul, a ilha Noorder limítrofe e a pequena cabeça-de-
ponte da extremidade norte de Willemsbrug. Houve uma tentativa de
expulsar os soldados alemães das posições que ocupavam, por meio de
bombardeios (necessariamente leves), mas sem resultado algum. Devido
ao fogo de interdição disparado da ilha Noorder, não houve condições de
ali posicionar a artilharia; a única a ficar na posição exigida na margem do
rio a 10 de maio fora levada para Hillegersberg, onde se julgava ser mais
necessária. Além disso, o posto de observação nos túneis de ventilação do
Maas não podia ser usado e, por conseguinte, a artilharia, que estivera
atirando regularmente contra Waalhaven, teve de suspender o fogo por
algum tempo. Os aviões incapacitados no aeródromo tiveram mais de
quatro horas de tranqüilidade para ser reparados; o bombardeio só se
reiniciou muito depois que eles partiram.
A maioria dos soldados holandeses empenhava-se apenas no setor
defensivo. Era tal a apreensão de que os alemães atravessassem o Maas
em outros pontos, que se despenderam enormes esforços, desnecessários,
aliás, e com a maior presteza. E até mesmo essa iniciativa tão mal
orientada teve péssimo resultado, devido à confusão reinante entre os
oficiais que dirigiam as operações e também houve suspeita de atuação da
quinta- coluna. Nesse tempo tornou-se freqüente os soldados holandeses
atirarem contra os próprios camaradas, supondo estar atingindo alemães
disfarçados ou holandeses renegados.
Pela manhã, o Comandante do destróier britânico Wild Swan ofereceu-se
para subir o Nieuwe Maas até Roterdã e bombardear Waalhaven com os
canhões do seu navio. O oferecimento não foi aceito já que representava
perigo para os soldados que haviam recebido ordens de recapturar
Waalhaven. Às 12:30 horas do mesmo dia, o Almirantado mandou o
comandante executar a missão, mas o bombardeio ainda assim não
se concretizou devido a boatos no Hook de que Waalhaven fora retomada.
Assim, os holandeses no Maas tiveram que agir sem contar com o apoio
de artilharia. A essa altura, os combates ocorriam por toda parte e a White
Huis, ou Casa Branca, importante marco local devido à sua posição
estratégica, teve de ser abandonada.
Um incêndio iniciado no Boompjes estava agora se propagando a vários
navios no Wijnhaven que já se encontravam envolvidos pelas chamas.
Uma fumaça asfixiante e de cheiro desagradável pairava nas diversas áreas
de Roterdã perto do porto. Durante a tarde, os alemães montaram
metralhadoras no Statendam, da Linha Holland-Amerika, atracado no
Wijnhaven. A tripulação conseguiu escapar, apesar das ordens recebidas
no sentido de permanecer a bordo, e os holandeses começaram a atirar
contra o belo navio, causando, naturalmente, consideráveis danos além de
provocar vários incêndios - e também despertando grande indignação
entre os diretores da Linha Holland-Amerika, que perguntaram às
autoridades militares por que não podiam afundar o navio com um único
tiro certeiro. Aparentemente, isso não era possível. Um barco de corpo de
bombeiros que foi ao Statendam com a intenção de apagar os incêndios,
teve de voltar, por ter sido morto o seu comandante. À noite, o navio, que
ainda não chegara a 11 anos de existência, não passava agora de uma
enorme bola de fogo. O mesmo destino sofreram os navios Dinteldijk,
Bosdijk e Veendam.
A população da ilha Noorder sofreu muito: a 10 de maio os sistemas de
abastecimento de gás e água cessaram de funcionar, e no dia 11 todos os
prédio situados na extremidade oeste da ilha ardiam como sinais
luminosos e o cais teve de ser evacuado. Milhares de criaturas foram
obrigadas a se abrigar em escolas e outros prédios que pudessem
comportá-las; só na escola católica havia 500 pessoas, muitas delas
portando seus animais de estimação. A escola tinha somente dois
sanitários, e, é obvio, sem água. Uma alemão que morava na Holanda
havia muitos anos, feroz adversário do regime nazista, ofereceu-se para
uma perigosa missão. Seu negócio fora destruido no dia anterior, ele sofria
de úlcera, era judeu e não tinha parentes vivos; não dava mais valor à vida
e queria fazer algo de útil aos seus semelhantes. Havia uma necessidade
premente de água para todos os fins e ele foi repetidamente buscá-la no
Prins Hendrikkade, sempre arriscando a vida ao fazê-lo.
Aqueles que ainda tinham casa intata raramente saiam. Os soldados
alemães, entretanto, já haviam começado a invadi-las, em busca de
homens e meninos para cavar trincheiras. Choltitz estava decidido a
resguardar a ilha Noorder e o Willemsbrug até o fim, na esperança de que
a 9ª Divisão Panzer chegasse a tempo. Preferiu ignorar a ordem do
General Student que o mandava abandonar a pequena cabeça-de-ponte na
costa norte, na noite de 11 de maio.
Com os dois únicos bombardeiros que a Força Aérea Holandesa ainda
podia dispor, fez-se uma tentativa no sentido de destruir Willemsbrug e
eliminar a cabeça-de-ponte alemã na ilha Noorder. As bombas não
acertaram a ponte, mas, errando o alvo, muitas foram cair sobre várias
casas na extremidade oeste da ilha e provocaram incêndios que deixaram
mais outros milhares de pessoas ao desabrigo. À tarde repetiu-se a
tentativa, e mais uma vez inutilmente. Ao voltar a base, a pequenina força
de bombardeiros teve de enfrentar 12 caças alemães e perdeu um
bombardeiro e um caça, restando à Força Aérea Holandesa apenas um
bombardeiro.
O segundo dia da guerra fora uma catástrofe. À leste da Linha Grebbe, a
faixa de postos avançados fora perdida e a posição Peel-Raam,
abandonada; a defesa do Zuid-Willemsvaart ruíra por terra e os soldados
holandeses em Noord-Brabant estavam em pânico. A Divisão Ligeira não
conseguira atravessar o Noord e expulsar os alemães da ilha Ijsselmonde;
o 6° Batalhão de frente fracassara na cabeça-de-ponte em Moerdijk e o 3°
estava isolado, perto de Barendrecht, no Oude Maas. Em Roterdã, os
alemães ampliaram seu ponto de apoio na extremidade norte do
Willemsburg e consequentemente todos os ataques desfechados contra
suas tropas aeroterrestres perto de Delft, Haia, Wassenaar e Valkenurg
tinham sido repelidos.
Metade da munição destinada aos canhões AAe holandeses foi consumida
logo no primeiro dia da guerra. As modernas baterias pesadas haviam sido
fornecidas pela Vickers inglesa, que deveria enviar outros suprimentos de
munição. Mais à solicitação urgente feita pelo Adido Militar holandês em
Londres para dar prioridade ao pedido holandês, responderam que nada
havia daquele calibre em estoque, no momento.
Os invasores tinham a certeza de que seria fácil destruir a resistência
adversária. Por reconhecimento aéreo eles sabiam que os holandeses
careciam de artilharia para a defesa da faixa de postos avançados de
Grebbeberg; mesmo que defendessem, ou não, o Grebbeberg até o último
homem, isso não importava muito
aos alemães, que esperavam para breve a chegada da 9ª Divisão Panzer, a
Roterdã, através de Moerdijk e Dordrecht. Significando que, bem atrás das
tropas holandesas que estavam defendendo a Linha Grebbe e a Nova
Linha Costeira, 150 tanques pesados alemães podiam ir diretamente para
Haia, para a sede do governo holandês e para a residência da Família Real.
Os dias três e quatro
A 12 de maio, domingo de Pentecostes, tanques da 9ª Divisão Panzer (DP)
chegavam à ponte Moerdijk. A posição “Won” no norte da Holanda,
destinada à defesa do Afsluitdijk, foi tomada e houve luta renhida perto da
Linha Grebbe (no leste da Holanda). Na vizinhança de Wageningen, os
alemães encetaram um bombardeio violento que os holandeses, embora
com muito empenho, não conseguiram deter.
Em Roterdã-Zuid e em outras áreas da ilha Ijsselmonde, o General Student
tivera a sorte de encontrar cerca de 100 caminhões, que usou para
transportar todo um batalhão de soldados aeroterrestres, três baterias de
artilharia e alguns canhões antiaéreos. Mais ou menos por volta das 13
horas, a coluna passou sobre o Oude Maas e pouco depois atacou e tomou
a estação ferroviária de Dordrecht e toda a área das redondezas. Um
gasômetro explodiu e o clarão iluminou tudo em volta quando anoiteceu.
Eram quase 17 horas, batedores da 9ª DP, em carros blindados leves,
começaram a cruzar a ponte Moerdijk. Um segundo-tenente holandês,
feito prisioneiro pela manhã, e que viu os carros blindados percorrer a
rodovia em direção ao centro da ilha de Dordrecht, recebeu ordens de ir ao
encontro do oficial-comandante das tropas holandesas ali estacionadas e
recomendar que se rendesse. O comandante em questão era o Coronel van
der Bijl, encarregado da Divisão Ligeira que acabara de chegar à ilha e
instalara seu posto em Dubbeldam, cerca de 1.600 metros de Dordrecht.
Ele imediatamente pegou o telefone para informar o comandante da
Fortaleza Holanda, General van Andel. Este supôs que a aproximação de
veículos blindados nada mais era que o produto de imaginação do coronel,
por ter dado ouvidos apenas a boatos; além disso, fora informado pelo
General Winkelman que carros blindados franceses estavam a caminho
para lhes dar apoio, sendo bem possível, portanto, que eram eles que
chegavam... Carros blindados alemães? Impossível... e o próprio Vander
Bijl não tivera tempo de verificar o que havia de verdade na mensagem
trazida pelo segundo-tenente. Enquanto isso, o coronel dirigia-se a
Dordrecht, a fim de providenciar algumas mudanças no comando da
artilharia. (Sua missão tinha como objetivo certo Tenente-Coronel
Mussert, irmão de Mussert, o líder do NSB, de quem se desconfiava, e
com boas razões, de ser indigno de confiança. Ainda ouviremos falar dele.
Van der Bijl destituiu Mussert do comando da artilharia de Dordrecht, mas
o General van Andel cancelou a demissão e colocou Mussert sob o
comando direto de van der Bilj). A viagem do coronel não foi fácil. A essa
altura a força alemã já penetrara entre Dubbeldam e Dordrecht. Ele
decidiu então fazer um desvio com seu estado-maior pela ferrovia a oeste
de Sliedrecht e dali cruzar até Dordrecht, utilizando-se da barca de
Papendrecht. Tarde da noite ele chegou a Papendrecht apenas para
encontrar a barca atracada na outra margem do rio e avariada.
O comandante da Divisão Ligeira via-se agora isolado da ilha de
Dordrecht e das demais tropas ali estacionadas, onde se encontravam
também os carros batedores da 9ª DP e seus primeiros tanques pesados
que haviam chegado. Durante a noite, as tropas holandesas recuaram para
o centro da cidade de Dordrecht, extremamente cansadas, famintas e de
moral abatido. Nenhum dos seus ataques fora bem sucedido; os aviões
alemães haviam chegado um após outro sem que aparecesse um só dos
aliados.
Os holandeses posicionados diante de Willemsdorp, em Beijerland, na
margem oeste do Kil, tinham visto os carros blindados cruzar a ponte de
Moerdijk à tarde, mas não fora impossível determinar se eram alemães ou
franceses. Jogando com a sorte, eles atiraram contra os veículos e viram
estar certos na sua decisão quando foram atacados e metralhados por 20
bombardeiros alemães ao anoitecer de 12 de maio. Eles continuaram
patrulhando a ponte até a tarde do dia seguinte. O comandante alemão em
Willemsdorp estava na expectativa do desembarque, na ilha, de um grande
contingente holandês reforçados, sem dúvida, por tropas britânicas.
As baterias holandesas alojadas nas proximidades das pontes de Moerdijk
necessitavam desesperadamente de munição, e ela havia chegado, 12
toneladas, de caminhão, no sábado, com destino a Beijerland, e fora
depositada no navio De Twee Gezusters, que tentou passar sob a ponte
dominada pelos alemães, mas foi atingido por um intenso fogo de
artilharia, obrigando-o a voltar para Goribchem - com toda aquela
tonelagem de explosivos a bordo, ele era pouco mais que uma bomba
flutuante. Pouco depois fez-se nova tentativa, desta vez com uma
tripulação de voluntários das forças armadas e, escoltado pela canhoneira
Christiaan Cornelis, o navio rumou para Dordrecht. Por incrível que
pareça, não houve um só tiro contra eles
vindo das pontes do Doerdijk, mas no Dordtse Kil foram surpreendidos
por um tremendo bombardeio proveniente da ilha e metralhados por
aviões. A Christiaan Cornelis foi obrigada a retirar-se, bastante avariada,
para o Hollands Diep, puxada pelo rebocador Robur, que também sofrera
consideravelmente, mas o Twee Gezusters, ainda sob forte ataque,
conseguiu chegar ao pequeno ancoradouro de Strijensas, perto de
Dordrecht, onde a munição foi descarregada com toda rapidez. O capitão
morreu e o timoneiro ficou gravemente ferido.
Durante a noite houvera pânico no QG antiaéreo em Dordrecht e, em
conseqüência, a instalação telefônica ali fora destruída. Destruição esta,
aliás, desnecessária, motivada apenas por boatos infundados, mas aceitos
como notícias verídicas. Chegara uma mensagem dizendo que o inimigo
marchava pelo Coolsingel, e para que os alemães nada encontrassem que
lhes fosse útil, todo o equipamento foi destruido, e o estado maior fugiu. O
departamento de manutenção dos Correios instalou as linhas principais no
dia 12 de maio, mas as comunicações, nesse ínterim, ficaram bastante
deficientes.
Em Roterdã, o comandante da guarnição, Coronel Scharroo, recebera
como reforço 5 batalhões, nos dias 10 e 11 de maio, e em vista disso,
parecia inexplicável que os alemães ainda estivessem de posse das pontes
do Maas. O General Winkelman mandou o Tenente-Coronel Wilson a
Roterdã, juntamente com dois outros oficiais de estado-maior, investido de
plenos poderes para substituir Scharroo em caso de necessidade. Quando
Wilson, acompanhado de três carros blindados, chegou a Roterdã,
verificou que as tropas estavam sendo totalmente empenhadas na proteção
da cidade a oeste, norte e leste e para guarnecer o longo limite do Maas.
Além disso, vários destacamentos vasculhavam as casas em busca de
prováveis elementos da quinta- coluna.
Os dois primeiros bombardeios desfechados pelos alemães, na manhã de
domingo de Pentecostes, haviam destruido o hospital de olhos e várias
casas entre Oosrplein e a Estação Beurs. Por razões de segurança,
Scharroo mudara seu QG para o distrito de Blijdorp, no norte da cidade.
Wilson concluiu não ser viável usar as tropas do Maas. Telefonou pedindo
mais reforços e teve a promessa de lhe mandarem o 2° Batalhão de
Caçadores, da guarnição no Hook. Às 14 horas o comandante daquele
batalhão recebeu ordens de marchar imediatamente com sua unidade para
Roterdã, o que não foi possível, por estar, uma das suas companhias,
dispersa em dispositivo de defesa pela ilha Rozemburg. Somente à 01:30
horas do dia seguinte é que o batalhão ficou reunido e pronto para partir
para Roterdã, quase 12 horas após ter recebido a ordem. E esse espaço de
tempo foi muito bem aproveitado pelos alemães, que o usaram para
preparar suas trincheiras, perto das pontes do Maas. Wilson, que tomara a
estrada de Gouda para Roterdã por supor que aquela que passava por Delft
estivesse ocupada pelos alemães, quis verificar se suas suposições tinham
fundamento e mandou um dos três carros blindados para o Delft. Houve
troca de tiros perto de Overschie, mas, fora isto, o carro blindado chegou a
Delft sem quaisquer dificuldades. A estrada, no entanto, estava entulhada
de destroços de veículos alemães abandonados.
A ordem emitida pelo Comandante da 1ª Divisão visando atacar na
direção de Roterdã através de Delft não foi alterada. Viram-se, pára-
quedistas descendo perto de Roterdã. Os atacantes se aproximaram até
2.400 metros de Overschie, atirando, entrementes, contra os pára-
quedistas, mas não conseguiram chegar à cidade. Os restos da 22ª Divisão
Luftlande, que recebera ordem de recuar para o sul de Delft, foram mais
para o sul e chegaram a Overschie a 12 de maio. Deles partiram os tiros
contra o carro blindado de Wilson. No mesmo dia, mais soldados foram
para Overschie, onde não havia tropas holandesas para oferecer
resistência.
Da força aérea holandesa pouco restava. Alguns caças e o único
bombardeiro de que podiam dispor tentaram atacar perto da posição Won,
mas não conseguiram romper a defesa antiaérea alemã. O sucesso dessa
tentativa não teria feito muita diferença, porque a posição Won já estava
em mãos alemães.
Eles foram ligeiramente mais bem sucedidos perto de Wageningen. Para
levantar o moral do Estado-Maior terrestre holandês, o General von Voorst
pedira o concurso da força aérea para atacar alvos a oeste de Wageningen.
Um dos pilotos dos lentos e antiquados C-5 disse mais tarde que podia
distinguir Wageningen na distância, envolta num lençol de fumaça e
chamas; tomou aquela direção e de súbito foi atacado por três caças
alemães - Messerschmitts 109 ou Heinkels 112 - bastante velozes e
fortemente armados. Afastou-se, num mergulho, em meio a uma saraivada
de balas e traçadoras, mas nesse momento descobriu-se que o aparelho não
obedecia aos controles e antes que tivesse uma chance de saltar, o avião
atingiu um dique a toda velocidade, deu um tremendo salto e caiu. Quando
o piloto recuperou os sentidos, viu-se empapado de gasolina, o avião
emborcado e o tanque de combustível vazava seu conteúdo sobre os canos
de descarga
ainda quentes. Felizmente, nenhuma das bombas ainda presas ao aparelho
tinha explodido com a colisão. O pé do piloto ficara preso, mas ele
conseguiu libertar-se e se afastar dos destroços. Ao todo, realizaram-se 48
missões a 12 de maio, mas sem grandes vantagens.
A rendição prematura da posição Won desapontara profundamente o
General Winkelman, que estava muito pessimista sobre a situação toda: as
pontes de Moerdijk, Dordrecht e em Roterdã permaneciam em poder dos
alemães e a faixa de postos avançados perto da Linha Grebbe tampouco
fora recapturada. A Luftwaffe era esmagadoramente forte e os estoques de
munições holandeses estavam sem dúvida alguma chegando ao fim
(restava menos de ¼ do estoque de munição antiaérea). Ele disse ao
Gabinete que a guerra estaria perdida em mais alguns dias no máximo, a
menos que a ajuda aliada viesse logo, e a Holanda não teria outra sadia
senão capitular. Um telefonema urgente enviado ao governo britânico
dizia que a situação era tão precária, que sem a ajuda dos aliados era
impossível deter o avanço alemão e a resistência em breve se esgotaria.
Somente com ajuda imediata a situação poderia ser salva. Dijxhoorn
também telefonou a vam Kleffens em Londres. Providencialmente, van
Kleffens tinha um encontro com Churchill que, desde 10 de maio, era o
Primeiro Ministro e Ministro da Defesa; mas, no entanto, Churchill só o
que fez foi lamentar por não estar em condições de dar a ajuda pedida. Van
Kleffens requisitara três divisões, mas as únicas tropas disponíveis
pertenciam ao Exército Territorial, uma espécie de Guarda Civil. Contudo,
podia-se apelar para a Marinha Real. Churchill encarregou-se de enviar
todos os destróieres disponíveis para o Waddenzee (as águas
compreendidas entre as ilhas e a costa norte da Holanda) e bombardear,
dali, o Afsluitdijk, o que não parecia má idéia. Mas três lanchas-
torpedeiras passaram pelo Noordzeekanaal até Ijsselmeer e apenas um
destróier apareceu no Waddenzee, por pouco tempo, a 13 de maio. A Real
Força Aérea bombardeou o aeródromo de Waalhaven, sem muito
resultado. Afinal, tudo não passou de um gesto puramente simbólico.
Na Linha Grebbe, os alemães haviam encontrado resistência além da que
esperavam, mas não se preocuparam muito com isso, porque a 9ª DP já
havia chegado à ponte de Moerdijk, vinda do sul. Hitler aproveitou ao
máximo o seu êxito acrescentando a 22ª Divisão Luftwaffe à 9ª DP que,
juntamente com a 7ª Divisão Flieger a o SS-Leibstandarte Adolf Hitler -
deslocado do Veluwe (Gelderland) para Noor-Brabant -, formaram o 39°
Armee-Korps, sob o comando do General-leutnant der Panzertruppen R.
Schmidt
O general Winkelman só soube que os tanques alemães já haviam chegado
à ilha Dordrecht, às 23:30 horas, pela Rádio Bremen. Portanto, a situação
era ainda pior do que supunha antes e ele se preparou para uma entrevista
a horas mortas com a Rainha e o Gabinete, para informá-los da gravidade
da situação. Ao chegar, às 03:30 horas, ele não teve de aguardar por muito
tempo para apresentar seus respeitos à Rainha. É que ela estivera ocupada,
tomando providências no sentido de resolver a questão de abrigo e
segurança para sua filha e respectiva família, e não pudera dormir desde
que o caminhão fornecido pelo Banco Neerlandês as levara, tarde da noite,
para o navio inglês que as aguardava. Quando soube de Winkelman que a
situação era tão séria e que somente a ajuda aliada maciça poderia salvar a
situação, ela decidiu telefonar ao Rei da Inglaterra. O general concordou
que esse contato pessoal talvez fosse benéfico e às 04:15 horas o Rei Jorge
VI foi despertado por um sargento da policia que lhe disse que a rainha da
Holanda estava no telefone. “Não acreditei nele”, escreveu o Rei em seu
diário, “mas fui atender e era ela em pessoa. Implorou-me que mandasse
aviões para a defesa da Holanda. Transmiti a mensagem a todos os
interessados e deitei-me novamente. Nem sempre nos telefonam a essas
horas, especialmente uma rainha. Mas nestes tempos qualquer coisa pode
acontecer, e até coisas muito piores”.
A Rainha Guilhermina já mandara um telegrama pessoal ao Rei da Itália
pedindo-lhe que usasse sua influência junto ao seu aliado político para
salvar a Holanda. Contudo, ele nada podia fazer, assim como o Papa Pio
XI, que, a 10 de maio, enviara um telegrama à rainha expressando sua
simpatia, sendo vigorosamente censurado pelo Duce por esse ato de
solidariedade humana.
Após sua conferência com a rainha, o General Winkelman foi para o
edifício do Gabinete. E neste, seus membros, ao receber a notícia, acharam
que era hora da rainha partir o mais rápido possível, ao que Winkelman
opôs-se, radicalmente, considerando que se a população soubesse que a
rainha deixara o país, o moral cairia tanto que toda a resistência
enfraqueceria. Não partilhava, no entanto, dessa opinião o Ministro
Dijxhoorn, que achou mais aconselhável a partida da rainha, a bem de sua
própria segurança e para evitar ser aprisionada e transformada num bom
refém e com isso manter a Holanda sob vigilância. Quando Dijxhoorn
informou de sua decisão ao Vice-Almirante Furstner, e aconselhando-o a
mandar o resto da esquadra para a Zelândia, este último ficou
profundamente abalado. O almirante nem imaginava o quanto era grave a
situação e acusou os ministros de derrotismo desprezível, dizendo: “É este
o país de Tromp e De Ruyter?” Os tanques alemães aproximavam-se de
Roterdã, a Fortaleza Holanda estava ameaçada bem no seu âmago e
Winkelman queria lutar até o fim, mas Dijxhoorn achava desumanamente
irresponsável desperdiçar mais vidas por uma causa perdida. Era
imperioso que a rainha deixasse Haia imediatamente e o Gabinete deveria
acompanhá-la. Finalmente chegou-se a um acordo e Dijxhoorn iria ter
com a Rainha para aconselhá-la a partir. Ela recusou-se a atender ao apelo
do ministro, mas ouviu os argumentos do general e depois de pesar
seriamente os prós e contras achou por bem refugiar-se na Zelândia (O
destino contudo, decidira que ela iria para a Inglaterra: uma transmissão
radiofônica informando que o céu sobre a Zelândia estava repleto de
aviões alemães provocou a mudança em direção a Harwich, como
descreveremos mais adiante. A esperança de que pudesse obter ajuda
militar real para seu povo, se pedisse ela mesma, ajudou-a a aceitar o fato
de estar deixando o país),
Nesse meio tempo, mais tanques da 9ª DP chegavam a Dordrecht e
também considerável reforço para a Luftwaffe. As tentativas no sentido de
retomar a ilha de Dordrecht fracassaram por completo. Na noite anterior
preparara-se um plano para atacar as forças alemães de Dordrecht para
oeste e da estação das barcas de Wieldrecht para leste, fechando assim a
rodovia Moerdijk-Dordrecht, que atravessava a ilha. Infelizmente, o plano
fracassou na prática. O destacamento que avançava da estação das barcas
de Wieldrecht foi alvo de ataques incessantes por bombardeiros desde o
começo da manhã; uma seção da importante defesa antiaérea foi destruída
e a casa de fazenda onde se estabeleceu o posto de comando das forças
atacantes pegou fogo. Então viram tanques aproximando-se do oeste,
ostentando marcas de identificação de tecido amarelo usadas pelos
alemães para distinguir seus próprios tanques, para que não atirassem uns
contra os outros por engano. Alguns soldados holandeses confundiram
essa cor com laranja e começaram a espalhar o boato de que os franceses
tinham finalmente chegado. Quando vários holandeses correram
entusiasmados ao encontro dos supostos aliados, o primeiro tanque abriu
fogo. Dois tanques dos aliados foram destruídos e os outros recuaram, mas
os intensos ataques aéreos lograram dispersar as demais unidades
holandesas.
O centro de Dordrecht estava preparado para defesa. Todos os acessos
estavam bloqueados por barricadas e a maioria das pontes foi erguida,
exceto onde canhões antiaéreos estavam posicionados. À tarde, 12 tanques
alemães aproximaram-se, mas antes que os defensores tivessem chance de
abrir fogo, o ajudante-de-campo do “traidor” Tenente-Coronel Mussert
foi-lhes dizer que os tanques franceses se aproximavam. Os holandeses
começaram a acenar alegremente bandeiras vermelho, branco e azul, e a
tripulação do primeiro tanque à vista também acenou e, de súbito, abriu
fogo bem à frente da ponte, mas não a cruzou, e embora alguns tanques
conseguissem entrar em Dordrecht, onde causaram tremenda destruição,
eles não se sentiram muito seguros e acharam melhor retroceder para o
lugar de onde vieram. As pontes foram bloqueadas com maior segurança e
construíram-se novas barricadas, mas Mussert, ainda usando da sua
influência, ordenou que se mantivessem abertas algumas estradas para
facilitar o transporte de feridos. Oficiais do Corpo de Bicicletas (sic)
fizeram objeções a isso, pois os alemães, disseram, aproximavam-se, mas
ele desprezou a crítica e lhes disse que estavam vendo apenas fantasmas.
Os oficiais concluíram que ele só podia ser um quinta-coluna e daí por
diante ignoraram suas ordens.
Por fim, o Coronel van der Bijl, ordenou que todas as tropas recuassem de
Dordrecht para a outra margem do Merwede, e depois que os últimos
soldados holandeses cruzaram o rio, as barcas foram afundadas. As tropas
estavam compreensivelmente desmoralizadas e muitos soldados já
consideravam Mussert um traidor. Diante disso um grupo de oficiais
resolveu prendê-lo por suspeita, mas ao receber a ordem para se render,
erguendo os braços, ele se rebelou e respondeu que não se deixaria
prender por um simples capitão. “Atire se for homem”, redargüiu ele, e
àquela frase, um pouco indeciso o capitão pensou se estaria certo ao
executar o homem, mas quando Mussert perguntou, a um tenente, quem
era ele, e ao mesmo tempo baixava os braços, o tenente não teve dúvidas e
atirou; algumas horas mais tarde, o Tenente-Coronel Mussert morria.
Com o único bombardeiro restante, um T-5, tentou-se destruir a ponte de
Moerdijk. A primeira bomba errou o alvo e a segunda não explodiu. O
bombardeiro e o caça que o escoltava foram derrubados por um grupo de
Messerschmitts e todos os tripulantes morreram. A ponte de Moerdijk
estava sendo alvejada pela artilharia holandesa desde o dia 12, mas essa
tarefa era prejudicada pelo incessante bombardeio alemão. Um pouco mais
ao sul, os alemães conseguiram cruzar o Kil, depois do que, o Gravendeel
da aldeia foi incendiado. O gasômetro explodiu em chamas e a flecha da
torre da igreja, contendo um posto de observação com quatro homens caiu.
Para espanto de todos, os quatro homens saíram dos escombros, meia hora
depois, ilesos.
O Coronel Scharroo expedira ordens visando à destruição das pontes mais
importantes de Roterdã. Para que se pudesse destruir o Willemsbrug e a
ponte ferroviária que levava à ilha Noorder, era preciso, antes de mais
nada, expulsar o alemães que já estavam lá havia três dias. A solicitação
do Tenente-Coronel Wilson para que lhe dessem novo batalhão com um
comandante bem enérgico foi atendida. À 01:30 horas de 13 de maio,
o Batalhão de Caçadores partiu do Hook, e pela manhã logo cedo os
soldados, exaustos, chegaram a Roterdã. O cansaço era tanto, que muitos
homens caíram no sono antes mesmo de tocar na comida dos pratos que
tinham nas mãos.
O Cônsul-Geral Britânico em Roterdã insistiu para que os soldados
britânicos que haviam chegado ao Hook, um Batalhão da Guarda Real
britânica, também deveriam seguir para Roterdã o mais depressa possível.
Estes eram soldados profissionais e estavam equipados com motocicletas e
carros blindados leves. O comandante, porém, recusou porque isto
contradizia as ordens que recebera de Londres. Ele poderia ir para Haia, se
necessário, mas não para Roterdã.
E de fato foi para Haia, onde informou que Roterdã estava em mãos
francesas, não havendo, portanto, perigo algum. Assim, só restavam
Scharroo e suas tropas, mal dormidos e mal alimentados, tendo tido
apenas uma refeição decente no período de quatro dias. Os fuzileiros
navais voltaram a ajudá-lo, tendo trocado seus uniformes azuis por outros
cáqui, para não ficarem muito expostos à vista. Houve uma má
coordenação entre os comandantes, mas um destacamento dirigiu-se ao
Boompjes (perto de Willemshaven), transpondo as urinas das casas
destruídas pelo fogo, e ao chegar foi saudado pela visão de um porto cheio
de navios em chamas. Os fuzileiros navais davam inicio ao assestamento
das metralhadoras, quando de repente foram alvejados por alemães que se
haviam entrincheirado no prédio da Companhia Nacional de Seguros.
Houve baixas, alguns morreram e os que restaram tiveram de recuar,
exceto seis homens, que ficaram isolados no Willemsbrug. Destes, um foi
morto, outro ficou ferido, e os demais abrigaram-se atrás de uma placa de
ferro que estava abaixo do nível da rua, onde ficaram por mais de 24
horas, sempre atirando de tocaia contra quaisquer alvo que aparecesse. E
os fuzileiros, no entanto, ao recuar mal sabiam que a força alemã estava
prestes a se render. A tentativa de destruir as pontes fracassara.
O tenente-coronel Wilson chamara o QG pela manhã para dizer que agora
era evidente que a resistência continuada levaria, sem dúvida alguma, à
destruição final de Roterdã; o general Winkelman respondeu, todavia, que
Roterdã tinha de ser defendida, e se necessário, até o último homem.
Quando o Tenente-Coronel von Choltitz (que 4 anos após, como general,
se celebrizaria como o homem que não destruiu Paris) transmitiu a
exigência de rendição a Scharroo, por intermédio do vigário da igreja da
ilha Noorder, ele, portanto, teve de recusar. Já então, muitos trechos da
cidade estavam em chamas e as ruas, entulhadas de vidros partidos e
bondes abandonados; os engenheiros militares britânicos e holandeses
tinham incendiado os depósitos de óleo no rio perto de Pernis; parecia, na
verdade, que Roterdã, seria totalmente destruída.
A situação não era melhor perto da Linha Grebbe. A 12 de maio um
Standarte (regimento) das Waffen-SS penetrara ali profundamente e se
tivesse conseguido aproximar-se de Rhenen, toda a área estaria tomada e
os holandeses teriam de iniciar o recuo para a outra margem da Nova
Linha Costeira Holandesa. Os soldados holandeses ali situados, por se
acharem há muitos dias sem dormir, estavam praticamente inúteis para a
luta e era de vital importância a sua substituição por homens descansados.
Estes já deviam estar à espera há muito tempo. Quando os reforços
finalmente chegaram, foram logo atacados pela infantaria da 207ª Divisão
de Infantaria (DI), que substituíra o SS-Standarte. O fogo foi bastante
violento, mas os holandeses resistiram tenazmente, em vários locais, até
acabar a munição; a essa altura, nada mais puderam fazer senão renderem-
se. Esses fracassos locais bastaram para facilitar a penetração dos alemães
em algumas áreas, até a Linha de Obstáculo e tomar outros setores na
retaguarda. Não foram poucos os homens que fugiram em pânico, e os
capturados serviam muitas vezes de escudo aos alemães para obrigar os
companheiros a se renderem. Pelo diário de um soldado holandês sabemos
como ele foi confrontado por duas fileiras de alemães, cada uma com um
prisioneiro holandês à frente. Os prisioneiros imploraram aos camaradas
para que não atirassem e se rendessem. Muitos soldados holandeses não
ligaram ao pedido e continuaram disparando, até que um dos prisioneiros
de repente apertou o abdome e caiu, provavelmente atingido por um dos
próprios camaradas.
Para compensar os exemplos de covardia apresentados no exército
holandês houve, entretanto, inúmeras demonstrações de infinita coragem.
Quando o posto de comando do 1° Batalhão foi cercado, o major Lanzaat,
o comandante, decidiu lutar até o fim. Eles haviam requisitado um
pequeno restaurante do Zoológico de Rhenen, uma casa pequena, de
paredes delgadas. Lanzaat estava acompanhado de alguns oficiais e
soldados e seu armamento consistia de uma metralhadora leve, vários
fuzis e revólveres e muita pouca munição. Eles instalaram a metralhadora
sobre uma mesa e atiravam pela janela. Mas os alemães logo trouxeram
uma peça de artilharia, o pavilhão não resistiu ao ataque e começou a
desmoronar. O major foi ferido e mandou seus homens recuar pelas
trincheiras atrás do prédio, mas ele próprio ficou ali, e acabou morrendo.
O pavilhão foi reduzido a escombros.
Graças ao heroísmo dos poucos que, como o major Lanzaat, decidiram
lutar a todo custo, a Linha Grebbe não caiu mais cedo. A ação do Tenente-
Coronel Hennink é outro exemplo, impedindo a fuga de homens de um
batalhão que chegara para reforçar a Linha Grebbe. Seu posto de
comando, nos bosques, a nordeste do viaduto, estava sendo
tremendamente bombardeado, resultando em muitos mortos e feridos.
Perto do Tenente-Coronel, seu ajudante foi atingido nas costas por
fragmentos de granada, e quando mandaram o soldado que estava próximo
a Hennink buscar ajuda médica, ele comentou secamente que também
estava ferido e chamou atenção para um dos seus olhos fora da órbita;
apesar de seu horrível ferimento, levou o ajudante até o médico antes de
procurar socorro para si próprio. Mas nem todos era tão corajosos como
este soldado. Em sua maioria, os homens transferidos de outras unidades
estavam completamente abatidos e se postavam encolhidos nos cantos das
trincheiras, de onde foram expulsos por Hennink e destacados para
posições, com uma patrulha especial investida de poderes para atirar caso
tentassem fugir. Isso ajudou. Pelo anoitecer, o Tenente-Coronel entregou a
bandeira do regimento a um sargento e um soldado raso que deveriam
levá-la para a Fortaleza Holanda, o que foi feito com êxito. Descobriu-se
mais tarde que dois dos três comandantes do 8° Regimento foram mortos,
juntamente com 180 outros oficiais e soldados. A infantaria alemã ainda
não conseguira atravessar a ferrovia. De manhã os atacantes das SS
tentaram iludir a defesa do viaduto, envergando uniformes holandeses,
mas a tentativa fracassou, porque eles ainda estavam usando as
características botas alemães, e isso os traiu. Então a Luftwaffe veio em
seu auxílio com 27 Stukas, mas os defensores, comandados pelo Capitão
Gelderman, com dois tenentes, dois policiais da Marechaussée holandesa
(ainda era mantida essa tradicional denominação francesa) e mais alguns
homens que reabasteciam as duas metralhadoras e serviam o único canhão
antitanques, permaneceram em seus postos. Finalmente, às 13:30 horas,
um dos elementos do grupo de Gelderman conseguiu explodir o viaduto
depois de trabalhar durante toda a manhã na colocação dos explosivos,
debaixo de fogo intenso.
À tarde os soldados alemães foram metralhados por um batalhão holandês
que abrira caminho até a ferrovia através de um fluxo constante de
refugiados. obrigando o inimigo a abandonar a fábrica de móveis onde
estava instalado, pois os reforços de artilharia haviam recebido ordens de
bombardear a ferrovia defendida pelos holandeses. Eles ignoravam, a essa
altura, estar o grupo de Gelderman completamente sem munição e
acreditavam que a pesada resistência holandesa continuava firme. Na
verdade, a defesa holandesa se esboroara por completo desde o meio-dia.
O moral dos soldados holandeses fora solapado principalmente pelo fogo
de artilharia intenso e constante ao qual estavam expostos, sem ao menos
vislumbrar os alemães. O nervosismo crescia à medida que as notícias
informavam a aproximação de infantaria alemã, provocando a fuga de
vários homens seriamente afetados, logo em seguida atingidos por um
esquadrão dos hussardos. O comandante do esquadrão informou ao seu
superior que havia grande perigo de seu regimento ser cercado, e o
comandante, não sabendo quantos soldados estavam realmente presentes,
decidiu recuar para Elst. Durante todo esse tempo, a deserção se tornava
muito freqüente. O Capitão Gelderman, ao enviar o ajudante com pedido
de alimento para 600 homens (muitos nada comiam havia dias), alterou o
número para 400 ao saber que um terço dos efetivos havia desertado. E, ao
que parecia, entre os restantes, somente 15 homens ainda se mantinham
em suas devidas posições.
Os soldados em pânico fugiam e eram logo atacados por bombardeiros de
mergulho e artilharia, a ponto de seus oficiais não mais poderem tê-los sob
controle. Além disso, em muitos casos os oficiais não sabiam onde
encontrar seu superiores, já que os postos de comando haviam sido
mudados por várias vezes. Não obstante, até aquele momento nenhum
alemão atravessara a linha férrea e o alambrado que havia sido estendido
sobre a ferrovia.
Em outros setores da Linha Grebbe a situação não era tão grave. A 2ª
Divisão do IV Corpo de Exércitos recebeu excelente apoio de artilharia (o
que não se deu com a 4ª Divisão, onde muita coisa ficava a desejar). O
bombardeio holandês era tão eficiente que fez os alemães julgar estarem
civis trocando mensagens telefônicas com observadores ocultos no
terreno, e devido a isso toda a população de Ede foi evacuada para que o
fato não viesse a se repetir. Somente pelo anoitecer é que os alemães
conseguiram tomar alguns pontos na faixa de postos avançados, mas a
linha de defesa principal ainda continuou intata.
Também houve certo êxito na posição de Betuwe, onde a Brigada “A”
repelira, pela manhã, um ataque desfechado por cerca de 200 alemães no
rio Waal (um tributário do Reno) e à tarde rechaçaram seus barcos que
iniciavam a travessia, sendo que dois afundaram. À noite eles fizeram a
tentativa de explodir a ponte ferroviária perto de Rhenen, mas as cargas de
demolição não detonaram. Fogo de artilharia foi dirigido
contra o local onde os explosivos estavam presos à estrutura e o último
projétil disponível acertou, destruindo a ponte.
A única penetração importante que os alemães conseguiram fazer foi perto
de Rhenen, e isso bastou, pois se a Linha Grebbe fosse rompida num só
ponto ela teria de ser abandonada. Os IV e II Corpos de Exército, Brigada
“A” e Brigada “B”, teriam de recuar para o limite leste da Fortaleza
Holanda, atrás da Nova Linha Costeira Holandesa. Na verdade, a Linha
não era nenhuma barreira intransponível. Supunha-se que grandes lençóis
de água deteriam o avanço alemão, mas ninguém previra o baixo nível dos
rios (devido ao tempo muito seco naquela primavera) e que demoraria
muito tempo para que os pôlderes fossem inundados depois de abertas as
comportas. A evacuação dos 23.000 habitantes da área, e seu gado, 60.000
animais, prosseguiu livremente, mas à noite quase todos os campos ainda
estavam secos. Os soldados em retirada desconfiavam de que alguém
estava traindo a operação. Além do fracasso da Nova Linha Costeira
Holanda, o limite oriental da Fortaleza Holanda estava quase sem
fortificações; não havia trincheiras, bunkers, postos de metralhadoras ou
comunicações telefônicas. Além disso, a maioria dos soldados
encarregados da defesa nunca estivera na área antes; para eles o território
era totalmente desconhecido e isso representava uma considerável
desvantagem.
Entretanto, no todo, a retirada em si foi bem satisfatória. Pequenos grupos
às vezes eram capturados, mas por grande sorte, a Luftwaffe estava inativa
durante esse tempo. Os trechos de nevoeiro denso que ocultavam a terra
durante a manhã cedo serviam de abrigo muito bem-vindo.
O general Winkelman deu ordens para se formar uma ampla barreira
antitanques em torno de Haia. A própria cidade foi também reforçada com
poderosa guarda em todas as pontes. A defesa de Ijsselmeer empreendida
pela marinha foi marcada por um agourento insucesso: a canhoneira Friso
foi tão seriamente avariada por ataque aéreo que teve de ser posta a pique.
Todas as mensagens chegadas ao QG, sem exceção, eram extremamente
desalentadoras. Havia razões de sobra para que o General Winkelman e o
Major-General van Boorst tot Voorst considerassem a situação muito
crítica. E tampouco estavam satisfeitos os generais alemães que tinham
tido a esperança de acabar com a resistência no dia 10; ainda não lhes
chegara ao conhecimento que os soldados holandeses localizados atrás da
frente oriental haviam recuado para a Fortaleza Holanda e por isso
julgavam não seria fácil esmagar a resistência. Também estavam
apreensivos quanto à possível ajuda britânica que viria através de Ijmuiden
e foi sobretudo por esta razão que o General von Kuchler recebeu ordens
de tomar a Fortaleza Holanda o mais breve possível. Ele exigiu que no dia
14 toda a Linha Grebbe teria de ser rompida e penetrada e que a 9ª DP do
34° Corpo de Exércitos, sob o comando do General Schmidt, devia cruzar
a linha Dodrecht-Roterdã e prosseguir dali para Utrecht. Depois disso,
seria preciso tomar Amsterdã para impedir a retirada do exército holandês
para o norte da Holanda. Os soldados alemães que haviam tentado
desembarcar em Noord-Holland pelo Ijsselmeer ainda estavam isolados
em Kornwerderzand, onde a defesa ainda era vigorosa.
Mas os tanques tinham de, primeiramente, cruzar o rio Maas em Roterdã
onde a defesa continuava rija e persistente. Hitler enviou instruções aos
seus generais, que as receberam a 14 de maio, para destruir a resistência
surpreendentemente forte no menor espaço de tempo possível. Para isto,
todos os efetivos da Lufwaffe estariam à sua disposição. Naquela noite, o
General Schmidt recebeu ordens de Kuchler para romper a resistência em
Roterdã apelando para todos os meios, até mesmo a destruição da cidade,
se preciso fosse.
Entrementes, a Rainha Guilhermina já estava a caminho da Inglaterra. Às
10h seu carro deixou Haia para o Hook. A viagem demorou mais de uma
hora e a rainha por um triz escapou da morte quando uma bomba alemã
explodiu perto do carro. Eles zarparam a bordo do destróier britânico
Hereward com destino à província da Zelândia, mas tiveram de mudar de
rumo devido às minas e aos ataques aéreos e, assim, Harwich passou a ser
sua meta. Às 17 horas o Hereward apontou em Harwich onde um trem
especial aguardava para levar a Rainha a Londres. O Rei Jorge e a Rainha
Elizabeth estavam à sua espera na estação, assim como o embaixador
holandês e os ministros van Kleffens e Welter, a quem ela disse: “Temos
de começar a trabalhar imediatamente”. “Com profunda relutância ela se
deixou convencer a aceitar o inevitável”, escreveu o Rei, que não a
conhecera antes, em seu diário. “Ela estava, naturalmente, aborrecida e
não trouxera roupa alguma consigo”.
A Rainha Gulhermina começou logo a trabalhar. Manteve uma conversa
com van Kleffens que durou algumas horas e ela estava, como vam
Kleffens registrou depois, chocada e tensa, mas perfeitamente
controlada, nada abatida, decidida, e capaz de raciocinar com clareza. Um
telegrama foi enviado ao presidente francês Lebrun, pedindo ajuda: se
mais auxílio não fosse dado, o General Winkelman não teria outra
alternativa senão capitular. Também se decidiu que van Kleffens tornaria a
fazer idêntico pedido a Churchill. O Primeiro Ministro já estava dormindo,
mas eles foram recebidos pelo Chefe do Gabinete Militar, Sir Harold
Ismay, na Sala de Guerra no subsolo do Prédio do Gabinete. (Esta Sala de
Guerra, contendo a suite particular de Churchill, ainda existe - situada a 12
metros abaixo da King Charles Street e da George Street, protegida por 9
metros de concreto-armado). O Tenente-Coronel van de Plassche mostrou
uma perspectiva da situação na Holanda e van Kleffens fez um sumário
das necessidades essenciais: “As possibilidades na Holanda são as
seguintes: Primeiro, deve-se prestar qualquer tipo de ajuda imediata, com
a qual se poderá continuar resistindo eficazmente. Segundo, se não for
possível da ajuda efetiva, o general, Comandante-Chefe terá poderes para
agir como achar melhor, levando em conta, naturalmente, as forças
militares e a população civil”.
Ismay e seu convidado para fazer parte da reunião, Douglas, Subchefe do
Estado-Maior da Aeronáutica, concordaram plenamente com o que foi
proposto, embora ambos soubessem muito bem que era quase impossível à
Inglaterra oferecer qualquer tipo de ajuda; eles nem sequer haviam tentado
acordar Churchill.

Ultimato e Destruição

Na manhã seguinte os holandeses souberam pelo rádio, que a rainha
deixara seu país, e essa notícia deixou o povo, em sua maioria,
profundamente derrotado e oprimido. Transmissões radiofônicas
estrangeiras durante a noite já haviam notificado que a Rainha da Holanda
chegara a Londres e esta informação, especialmente entre os militares, foi
considerada como um aviso de que tudo estava perdido, e eles se sentiram
abandonados. Tentou-se erguer o moral, divulgando a seguinte declaração:
“Pode-se considerar que a situação militar é a seguinte:
Nas províncias do Norte, o inimigo se firmou. A tentativa de penetrar até o
Afsluitdijk à força não deu resultado. A parte norte de Roterdã está firme
em nossas mãos. Durante a noite passada o exército se retirou para a Nova
Linha Fluvial Holandesa que conhecemos muito bem. A posição de Den
Helder está totalmente intata. Em Brabant a situação não está clara. Temos
a Zelândia bem firme em nosso poder. Nossas defesas aéreas, apesar das
perdas, permanecem preparadas. A luta é árdua. Mas vale a pena lutar,
porque a luta interessa à nossa existência independente por nós
conquistada há séculos sob a liderança de Oranje. Viva Sua Majestade, a
Rainha! Viva a Pátria!”
Depois de divulgada esta proclamação pelo rádio, o QG recebeu uma
mensagem do comandante da guarnição de Roterdã. Ele recebera um
ultimato para render-se no prazo de duas horas, ou a cidade seria
totalmente destruída. O bombardeio inicial de artilharia teria seu começo
às 13 horas, seguido, 20 minutos depois, pelo ataque da Luftwaffe, depois
do que as tropas alemães cruzariam o rio, apoiadas por tanques e lança-
chamas, marchando sobre Gouda e Utrecht e dali para Overschie e Haia.
Como concessão, Choltitz permitiria que o elemento feminino da ilha de
Noorder e os cidadãos abaixo de 16 e acima de 60 anos de idade
cruzassem o Koninginnerbrug para Roterdã-Zuid. Se os holandeses
concordassem com o ultimato, os bombardeiros seriam notificados por
Verey-lights (foguetes de sinalização) vermelhos e o ataque seria
cancelado.
Perdeu-se muito tempo precioso porque o ultimato não estava assinado.
No pé da página constava apenas: “O comandante das Tropas Alemães”.
Segundo Wilson o documento era inútil e disse isto ao General
Winkelman. O Coronel Scharroo não via motivo para a rendição; naquela
mesma manhã ele mandou todos os canhões antitanques disponíveis para o
Willemsbrug e preparou a destruição do viaduto ferroviário na estação de
Beurs. Não se viam alemães ao norte do rio, e na sua opinião, o ultimato
não passava de bobagem. Mas a decisão final cabia ao Comandante-Chefe.
Às 11:45 horas Scharroo foi informado pelo QG que o ultimato só poderia
ser levado a sério, se adequadamente assinado. Às 12:10 horas Scharroo
enviou uma nota a Der Oberst-Kommandant der Truppen in Roterdã, que
foi entregue apenas 15 minutos antes de expirar o prazo do ultimato. O
General Schmidt era de opinião de que o povo de Roterdã estava disposto
a negociar, do contrário não teria dado resposta alguma ao ultimato; deu
ordens para adiar o ataque e redigiu uma mensagem radiofônica na qual
declarava que o bombardeio de Roterdã seria adiado por uma hora. Já
eram 12 horas e metade dos bombardeiros já havia decolado da sua base
para seu vôo de hora e meia até Roterdã. Eles tinham instruções, como
dizia no ultimato, de que cancelariam a missão se os Verey-lights
vermelhos fossem disparados sobre a ilha Noorder. Mas o General Student
perdera metade do seu equipamento de rádio durante o bombardeio de
artilharia de Waalhaven e teve dificuldades em travar contato - assim,
perdeu-se
mais tempo precioso. Schmidt não recebeu notícias da Alemanha e já
estava pensando que os bombardeiros não viriam. Quando Choltitz leu a
resposta de Scharroo, avisou seu comandante, General Student. Este foi
com seu superior, General Schmidt, e com o comandante da 9ª DP, de
automóvel até o Capitão Backer, que transmitira a resposta de Scharroo a
Choltitz. No verso da mensagem de Scharroo, Schmidt escreveu que era
necessário permitir que tropas alemães penetrassem em Roterdã à luz do
dia, no norte do rio, que os corajosos soldados holandeses depusessem as
armas, com os oficiais tendo permissão de conservar as suas. Backer disse
que o Coronel Scharroo tornaria a entrar em contato com o QG e, se este
concordasse, todos os soldados ao longo da frente do rio Maas seriam
avisados, o que requeria algum tempo. Schmidt estava disposto a conceder
três horas: ele assinou seu nome e posto e acrescentou: General-
Comandante de um Corpo de Exército. Alguns minutos depois,
inesperadamente, do sul e do leste, cerca de 100 bombardeiros alemães se
aproximaram roncando.
O General Schmidt, que julgara que sua ordem para adiar a incursão aérea
chegara à base implicada gritou: “Deus Todo-Poderoso, será uma
catástrofe! meu Deus, meu Deus, o que acontecerá? Será uma segunda
Varsóvia!”
Os Verey-lights vermelhos foram lançados; Schmidt mandou jogar na rua
vários fardos de algodão tirados de uma grande loja, mas já era tarde
demais. O líder do esquadrão que se aproximava, do sul, viu os Verey-
lights e desviou-se com seus aviões, mas os três primeiros aparelhos já
tinham despejado suas bombas. A maior parte da força de bombardeio
continuou para cumprir a missão. Em Roterdã, os habitantes corriam para
os porões ou se jogavam ao chão, nas ruas, senão podiam chegar ao abrigo
de uma casa a tempo - incluindo até mesmo alguns soldados alemães.
Em pouco o ar estava repleto do uivo das sereias de alarme antiaéreo, do
ronco surdo dos bombardeiros, do silvo das bombas que caiam e do ruído
surdo das primeiras explosões.
Roterdã agora sofria as cenas de carnificina e devastação que, começando
com Guernica, prosseguiram, de ambos os lados, numa escalada cada vez
mais horrenda até as incursões incendiárias contra Tóquio e os atos finais
da Segunda Guerra Mundial, os ataques nucleares a Hiroxima e Nagasaki.
No porão de uma pequena loja da Oosrplein, mais de 30 homens, mulheres
e crianças estavam espremidos de tal forma que quando a parte dos fundos
do porão foi atingida por uma bomba, os que não foram afetados nada
puderam fazer para ajudar os outros, cujos gemidos eram pontilhados pelo
som de outras explosões. Os encanamentos de água foram atingidos, os de
gás e a rede de energia, destruídos e o sistema telefônico sofreu colapso
total. As imensas fontes dos canos de água rompidos, diminuíram, uma
vez perdida a pressão, e naturalmente, quando mais necessária se tornou,
toda ela havia acabado.
Mais bombas caíram. A loja de departamentos Bijenkorf, o Hospital
Municipal, a Delegacia de Policia, o edifício De Doelen, o quartel do
Corpo de Bombeiros, o hospital volante Raampoort e a penitenciária de
Noordsingel, cujos presos foram libertados - tudo foi atingido. Do De
Doelen, grande número de alemães hospedados e membros do NSB
fugiram para as ruas, ferindo as mãos no arame farpado. Dos prédios em
chamas, pessoas saiam correndo com as vestes ardendo para morrer
horrivelmente nas ruas. Não se podia chamar o Corpo de Bombeiros,
porque os telefones não funcionavam; o que já não importava, pois o
próprio quartel dos bombeiros estava em urinas; as ruas estavam
bloqueadas em muitos lugares pelos escombros e, naturalmente, o
abastecimento de água fora sumariamente interrompido. Alguns
bombeiros, por iniciativa própria, tentaram extinguir os incêndios, que se
alastravam, mas por muito que fizessem seus esforços nada significavam
diante da gigantesca conflagração que se desenvolvia. Fragmentos de
madeira incandescente e nuvens de fagulhas eram levados pelo vento,
incendiando cortinas agitadas pelo vento através de janelas destruídas (a
maioria das vidraças fora partida por explosões de bombas) e provocando
incêndios em casas ainda praticamente intatas. Além disso, fortes lufadas
de vento oeste contribuíam para a propagação do fogo com grande
rapidez.
Depois da incursão, o Coolsingel estava ardendo por todos os lados; o
ruído característico do fogo alastrando-se e o baque surdo dos escombros
ao desabarem pareciam fortes demais na calma advinda após o
bombardeio. Os animais perigosos do Diergaarde Blijdorp (o zoológico)
tinham sido mortos no dia 12 e quando o bombardeio começou, todas as
outras jaulas foram abertas para dar aos animais alguma chance de
sobrevivência, caso o zoológico também fosse atingido.
As pessoas que saíram dos seus abrigos estavam estupeficadas pelo
choque. Tudo ao seu redor parecia arder e era difícil respirar por causa da
fumaça acre irritando a garganta e o nariz. Nas ruas e nas próprias casas
em chamas havia cenas pungentes. Diante de uma casa estavam seis
corpos espalhados no pavimento - toda uma família - e em outra ruína, um
menino jazia pendurado de cabeça para baixo, preso entre as vigas caídas;
incapaz de livrar-se, ele deve ter visto o fogo vindo em sua direção. Em
outro lugar, a mão de uma criança aparecia entre os escombros; podia-se
também ver um corpo humano esmagado contra uma porta e outro
pendente de uma janela.
A maioria dos sobreviventes fugiu dessa devastação o mais depressa que
pôde; só o calor já era insuportável. Em vários momentos após o
bombardeio se encontravam pessoas que não tinham conseguido escapar.
Um açougueiro procurara abrigo no seu frigorífico e três mulheres se
abrigaram num cofre: as portas haviam emperrado e os três morreram
asfixiados, incapazes de se livrarem. Grupos de salvamento de emergência
escavavam febrilmente os montes de escombros na esperança de encontrar
sobreviventes. Às vezes as pessoas conseguiam abrir caminho nos
escombros: os que sobreviveram às bombas no porão da loja em
Oostplein, por exemplo; ao desobstruir a escada dos escombros maiores,
para apressar sua escapada, um deles encontrou algo mole, era a cabeça
esmagada de uma jovem. Eventualmente eles abriram uma saída estreita
suficiente para o homem mais magro do grupo sair, mas a abertura ruiu
novamente. No fim da tarde, os outros foram descobertos por um membro
do corpo de bombeiros auxiliar. Cobertos de sangue de cortes feitos por
cacos de vidros espalhados por toda parte, eles saíram do monte de
escombros para finalmente ver o sol - uma bola ardente em meio às
nuvens de poeira.
O incêndio do hospital era incontrolável e a única solução foi evacuar
todos os pacientes. Homens saídos diretamente das salas de cirurgia
estavam ajudando; pessoas eram trazidas da rua para dar uma mão. Os
pacientes foram levados para a igreja católica, onde havia um hospital de
emergência, e quando este ficou lotado, outros pacientes foram levados
para a Laurenskrek. Estas duas igrejas não demoraram a pegar fogo e os
pacientes tiveram de ser removidos novamente para outro local - quase
uma impossibilidade, pois não havia segurança em lugar nenhum. Todo o
centro da cidade estava em chamas.
A conflagração continuou avançando para o leste, com um quarteirão após
o outro sucumbindo às chamas. Era inútil qualquer ação preventiva. As
pessoas levavam coisas fáceis de transportar, às vezes um simples pedaço
de queijo ou um pão, e fugiam. Muitos dormiram ao relento naquela noite,
porque não se atreviam a entrar numa casa após os horrores porque tinham
passado. Milhares foram para o Kralingerhout, um bosque nos arredores
de Roterdã onde, a noite inteira, pessoas vagavam chamando seus
parentes. À vezes elas encontravam pais ou filhos, a quem julgavam
mortos, mas quase sempre a busca era infrutífera.
Durante a noite o vento mudou e então soprava forte do leste, espalhando
o fogo para o setor oeste da cidade, que até então parecia seguro. Um
grande clarão pairava sobre a cidade em chamas.
À tarde, as pessoas em Betuwe tinham visto o sol estranhamente
obscurecido, como um eclipse, e agora, com o anoitecer, eles viam o
apavorante brilho dos incêndios na direção da grande cidade portuária a
muitos quilômetros de distância. A cidade parecia um enorme mar de fogo
e o céu tinha a cor roxa quente e manchada de púrpura. Gigantescas
colunas de fumaça erguiam-se compactas, levando consigo os fragmentos
mais leves dos escombros, ainda em chamas. Havia fortes explosões,
depois do que nuvens de fagulhas e chamas subiam muito alto. Ninguém
podia aproximar-se daquele inferno; nada se podia fazer, senão deixar que
o fogo consumisse tudo.
Na manhã seguinte ao holocausto, um dos fugitivos retornou à cidade para
ver se restava alguma coisa. Demorou muitas horas e quando finalmente
voltou, ao entardecer, as lágrimas desciam-lhe pelo rosto e tudo o que
pôde dizer foi: “Nossa Roterdã não existe mais. Não sobrou nada”.
De todas as cidades e aldeias vizinhas, e até mesmo de Delft, Haia,
Leyden, Haarlem, Amsterdã e Wormerveer, os corpos de bombeiros
acorreram para Roterdã. Pelo dia 15, os incêndios já tinham sido
controlados e no dia seguinte, os de maior vulto e mais ameaçadores
também já tinham sido apagados. Muitos bombeiros trabalharam mais de
24 horas consecutivas, subindo e descendo escadas, galgando montes de
escombros, buscando continuamente os cadáveres dos que haviam
perecido. Demorou muito para que o fogo fosse completamente vencido
nos setores mais afetados, e pequenos incêndios continuavam surgindo
aqui e ali, em meio a destroços fumegantes. Em Haringvliet, as ruínas de
armazéns que continham ervilhas ainda fumegavam dez semanas depois,
mas os estoques de fumo foram os que mais resistiram ao fogo e só em
meados de agosto é que as últimas chamas foram extintas.
Enquanto a destruição de Roterdã ainda estava nos seus primeiros
estágios, os militares de ambos os lados ainda se encontravam em meio à
confusão provocada por motivos conflitantes e pelo colapso desastroso das
comunicações. O Capitão Backer, que recebera o segundo ultimato do
general Schmidt às 13:15 horas, nem bem chegara à extremidade norte do
Willemsbrug quando as bombas começaram a cair. Os dois oficiais
alemães que o acompanhavam fugiram. O capitão demorou 45 minutos
para chegar ao QG do Coronel Scharroo em Blijdorp, pois tivera de
atravessar diretamente pelo centro da cidade, onde o grande incêndio se
alastrava, e o coronel estava desorientado quando Backer chegou. Foi
difícil ler o segundo ultimato, mas uma coisa era certa - exigia a rendição
e esta deveria ser efetuada antes das 16:20 horas. Foi penoso para o
Coronel, tomar uma decisão. O Prefeito Oud e o Vereador Brautigam
aconselhavam-no vivamente a que se rendesse; não bastava um
bombardeio alemão? Não estava claro como o dia que Roterdã sentia
completamente aniquilada se não cessasse a luta? Será que mais vítimas
inocentes teriam de sofrer? O Tenente-Coronel Wilson permaneceu
calado. O mais difícil problema de Scharroo era a impossibilidade de
telefonar para o QG e ele duvidava que pudesse obter instruções a tempo
de pô-las em prática. Roterdã não passava de um caos e a situação militar
parecia desesperada. Backer, que não acreditara que os tanques alemães
haviam chegado a Roterdã, agora os vira com seus próprios olhos. Como
poderiam o coronel e suas tropas esgotadas resistir ainda mais, com
esperança de êxito? Scharroo sentia o peso da enorme responsabilidade,
pois se capitulasse, escancararia as portas da Fortaleza Holanda. Naquele
momento ele (e o general Winkelman) ignorava que Utrecht, Haia,
Amsterdã e Haarlem sofreriam o mesmo destino. O conhecimento desse
fato sem dúvida tê-lo-ia ajudado a decidir.
Em meio às deliberações, Wilson disse repentinamente: “Coronel, estou
aqui como representante do Comandante-Chefe. Em nome dele, portanto,
quero perguntar-lhe: que decisão tomaria o senhor, independente da
opinião de seus superiores?”. “Capitular”, foi a resposta. “Levando em
conta”, prosseguiu Wilson, “que as comunicações com nossos superiores
sofreram colapso, e que todos os meios de defesa estão agora no fim,
declaro, como representante do Comandante-Chefe, que aprovo sua
decisão e por ela assumo toda a responsabilidade”. Eram então pouco mais
de 14:30 horas. Com os dois oficiais que o haviam acompanhado, Wilson
tomou o carro e foi para Haia. Eles não podiam seguir o caminho direto,
porque, a pesar da natureza da missão de Wilson, por certo se teriam
atrasado - ou mesmo sido alvejados, por engano - pelos alemães em
Overschie. Em vez disso, foram para o norte... mas encontraram uma
barricada antitanques em Bleiswijk, perto da rodovia Gouden-Haia, e não
puderam prosseguir. Abandonaram o carro, transpuseram o obstáculo e
continuaram a viagem, de caminhão.
O Coronel Scharroo decidira não arriscar um atraso, e embora seu prazo
fosse estipulado até 16:20 horas, ele e Backer chegaram à ilha Noorder
muito antes das 16 horas. Precisamente às 15 horas ele assinara uma
ordem mandando seu subcomandante cessar fogo e aguardar novas
instruções. No segundo ultimato alemão, Scharroo escrevera apenas uma
palavra: aceito, assinando seu nome e acrescentando seu posto e função.
Juntando-se aos generais Schmidt e Student, e ao comandante da divisão
de tanques num carro na ilha, Scharroo, que no caminho vira a devastação
de Roterdã com seus próprios olhos, deu vazão à sua profunda indignação
e acusou o general Schmidt de quebrar sua promessa. O general
respondeu: “Compreendo seu amargor, Comandante”, e declarou que
lamentava pelo bombardeio e que fizera o máximo possível para impedi-
lo.
Restavam outros assuntos a tratar. Schmidt exigia que todos os soldados
holandeses estivessem ao sul do rio antes do anoitecer, depois do que, às
19:10 horas, as forças alemães entrariam na cidade ainda em chamas. O
coronel pediu permissão para retornar imediatamente para assegurar que a
ordem chegaria às tropas holandesas a tempo, mas a cidade agora era um
inferno de tal monta, que ele só chegou ao eu QG às 18:30 horas. Já então,
os bombardeiros alemães estavam a caminho de Roterdã pela segunda vez,
por ordens de Goering. O chefe da Luftwaffe estava impaciente com a
demora das conversações que visavam à capitulação. As tropas de
Sponeck em Overschie seriam substituídas, Roterdã seria bombardeada
novamente e os tanques penetrariam até Overschie sem demora.
Kesselring preparou uma mensagem radiofônica, deixando claro que a
idéia não era sua. Assim, o segundo bombardeio seria desfechado entre
17:20 e 18:20 horas (hora da Holanda).
É bem provável que os Heinkels tivessem deixado a base às 15:30 horas.
O General Schmidt não perdera tempo utilizando código - às 17:15 horas
enviou a mensagem “às claras” “Norte de Roterdã tomado”, o que não era
verdade ainda; “Não soltem bombas”. Felizmente essa resposta surtiu o
efeito esperado, e os Heinkels, já bem próximos de Roterdã, receberam
ordens de retornar à base.
O embaixador alemão, hospedado no Hotel des Indes, em Haia, foi
informado da capitulação do exército holandês, o mesmo não
acontecendo, no entanto, frisou-se, com a Zelândia e os Fuzileiros navais e
tampouco, também, com o governo holandês.
A Marinha Real e a Frota Mercante Holandesa partiram para a Inglaterra e
o Gabinete holandês transferiu-se diretamente para Londres. Assim,
terminaram os cincos dias de luta desigual e começavam os cinco longos
anos de ocupação alemã.
Da Legação Alemã, instalada no Hotel des Indes, ouviu-se a explosão de
munição e foi exigida a suspensão imediata da destruição de material
bélico. Em conseqüência, aos alemães foi entregue o Estabelecimento de
Artilharia no Hembrug - a maior fábrica de armas e munições da Holanda
- e em perfeito estado. Ela empregava mais de 7.000 operários e o setor
industrial fora totalmente modernizado há pouco; embora fosse uma
empresa de pequeno vulto comparada com as grandes fábricas de munição
da Alemanha, ainda assim contribuiu inegavelmente para o tremendo
poderio da Wehrmacht.
A maior parte da força aérea partiu, seguida dos instrutores de vôo, nos
aviões de treinamento, para a Inglaterra. Recomendaram a Winkelman que
se assegurasse de que o pessoal da força aérea naval, que fora para a
Inglaterra, desistisse de qualquer idéia de luta. Se tentassem algo, seriam
feitos prisioneiros, considerados franco-atiradores e fuzilados. Winkelman
respondeu ao general alemão que só poderia responsabilizar-se pela parte
do exército holandês presente na Holanda, sujeita às condições do
armistício, mas que o país em si ainda se achava em estado de guerra com
a Alemanha. Os soldados holandeses que se encontravam fora dos limites
da Holanda, e especialmente os sediados nas Índias Orientais Holandesas,
continuariam lutando, pois não estavam sob sua jurisdição.
Kuchler assinou o acordo pela Alemanha e Winkelman, pela Holanda. A
luta, exceto na Zelândia, terminara. Eram mais ou menos 10 horas. Hitler
sendo informado de tudo, mandou que a 9ª DP e o SS-Leibstandarte Adolf
Hitler entrassem em Amsterdã e em Haia imediatamente. A imprensa
alemã publicou uma proclamação do Fuhrer na qual agradecia aos
soldados alemães por terem derrotado um exército forte e bem preparado
que se defendia atrás de obstáculos inconquistáveis. O esforço heróico dos
pára-quedistas e das tropas aeroterrestres, “impávidos diante da Morte”,
foi por ele escolhido para menção especial. Os jornais alemães foram
instruídos no sentido de enfatizar as críticas dirigidas ao Gabinete
holandês e usar a caricatura do Príncipe Bernhard, mas não deviam
mencionar a Rainha Gulhermina, como também a Princesa Juliana, que
devia ser respeitada.
Por volta de 11 de maio já se iniciara o trabalho de rebocar para a
Inglaterra os navios ainda em fase de construção destinados à marinha
holandesa e a tarefa exigia certa coragem, pois a travessia lenta do Mar do
Norte, sem escolta, em 1940 tornava-se perigosa. Dois submarinos novos,
o 021 e 022, chegaram incólumes à Inglaterra, mas sem torpedos. Não
dispondo de mapas, eles usaram um antigo mapa pesqueiro alemão
adquirido a um velho navio de cabotagem em Flushing. Dois outros
submarinos, o 023 e o 024, ainda estavam no cais de Roterdã quando os
alemães atacaram, mas mesmo assim tentaram escapar. O 024 nunca
submergira. O risco maior concentrava-se nas minas magnéticas colocadas
no Nieuwe Waterweg, e também se tinha de levar em conta os aviões
alemães que haviam afundado o Van Galen a 10 de maio. Um navio,
carregado de ouro do banco Neerlandês de Roterdã, já fora vítima de mina
magnética. Dois corajosos pilotos ofereceram-se para levar o 023 e o 024
para alto-mar, navegando por fora do canal e o mais perto possível da
margem do rio. Quando a noite caiu eles partiram, sendo percebidos e
alvejados por soldados holandeses que não entendiam o que se passava.
Durante a noite eles avançaram bastante e quando amanheceu os dois
submarinos submergiram para aguardar o anoitecer. Isto trouxe problemas
para o 024. O submarino vazava muito e, por estar cheio de cortiça e
outros entulhos do cais, as bombas entupiram e ele teve de emergir. Mas
também ele chegou a salvo à Inglaterra, mesmo sem usar mapas e tendo
como único aparelho de sinalização um maçarico elétrico. O adido naval
em Londres tinha navios, mas não dispunha de tripulação; cabografou ao
Almirante Furstner pedindo os especialistas necessários, que a marinha
forneceu. A esquadra holandesa, em sua maior parte, achava-se em águas
indianas e, para ela, a batalha prosseguiria como se ignorasse ter havido
capitulação.
O restante dos aviões da Força Aérea da marinha voou para Cherburg e
Brest e, a 17 de maio, 25 aviões e respectivas tripulações e outro pessoal,
conseguiram escapar.
O exército considerou deserção a retirada de tão grande parte da marinha
para a Inglaterra. Contudo, o Almirante Furstner era de opinião que,
embora fosse de lamentar o fato de uma parte do Reino da Holanda
ter sido perdida, ainda restavam as Índias Orientais Holandesas, o
Suriname e as Antilhas a ser levados em conta e que toda a frota mercante
estava na Inglaterra e precisando de escoltas. O almirante consultou seu
subchefe sobre a melhor coisa a fazer e ambos chegaram a conclusão de
que deveriam reunir o maior número possível de oficiais da marinha e
juntarem-se aos vasos holandeses ora na Inglaterra. Furstner chamou
Winkelman para informá-lo de sua decisão e recebeu uma reação nada
amistosa. Entrementes, o general francês, Mittelhauser, mais três oficiais
também franceses, chegavam à Haia a 14 de maio, compondo uma
delegação enviada pelo General Gamelin. E quando explicaram a
verdadeira situação ao general, ele reagiu e disse: “Vocês não me deixar
aqui neste remoinho! Gostaria que me ajudassem a deixar a Holanda o
mais depressa possível”. E dessa forma, o grupo do Almirante Furstner foi
ampliado com a inclusão dos delegados franceses. Considerava-se que
seria por demais óbvio zarpar no barco salva-vidas de Schevening, como
se sugerira, e assim eles embarcaram num pesqueiro, o Johanna, e
rumaram para Dunquerque. Ao largo da costa francesa, alguns elementos
aproximaram-se deles de todas as direções e tudo parecia indicar que
seriam alvejados, mas à vista de Mittelhauser na proa, usando seu quepe
vermelho, a hostilidade se transformou em calorosa acolhida. Furstner e
seu estado-maior mais tarde conseguiram chegar à Inglaterra sem
quaisquer contratempos.
Por volta das 15:45 horas, a Flieger-Division do General Student dera
início à travessia das pontes do Maas e uma hora depois, foi seguida do
SS-Leibstandarte Adolfo Hitler com efetivo de divisão mecanizada. Pelo
anoitecer a divisão das SS chegara junto às tropas combatentes de Sponek,
em Overschie. Student e Choltitz estavam no QG de Scharoo discutindo os
detalhes da rendição. O Prefeito Oud achava-se presente à reunião,
realizada numa sala da frente no primeiro andar, e de súbito ouve-se o
ruído de tiros. Student reconheceu pelo som que os disparos vinham de
fuzis alemães e correu à janela para investigar. Por flagrante e terrível
coincidência ele foi atingido por uma bala perdida e caiu. Centenas de
soldados e civis holandeses estavam naquele momento diante do prédio,
aguardando, e ao brado de Student foi ferido, soldados alemães
encolerizados agarraram-nos e os puseram em fila com oficiais holandeses
arrastados para fora do QG; posicionaram metralhadoras e provavelmente
teriam concretizado uma execução em massa, se Choltitz não interviesse.
Ele mandou que todas as pessoas prestes a serem fuzilados fossem
escoltadas imediatamente para a igreja próxima, para aguardar o resultado
da investigação. (Mais tarde verificou-se que armas alemães haviam feito
buracos de bala na parede do QG). O Prefeito Oud providenciara logo a
remoção de Student para o hospital de Berweg, onde foi operado com
êxito. Mas os soldados alemães ficaram tão apreensivos que muitos deles
nem se atreviam a beber água da torneira, temendo estar envenenada.
Exigiu-se que Oud fizesse uma proclamação no sentido de que garantiria a
segurança dos invasores com sua própria vida e que os alemães ali
estavam como amigos. Ele concordou com os termos da primeira
declaração, mas recusou-se a dar seu nome à segunda, e a proclamação
(impressa em máquina manual, pois não havia energia elétrica) dizia
apenas que as tropas alemães haviam recebido ordens de tratar a
população holandesa com dignidade. Oud, de sua parte, faria o máximo
para defender e promover todos os interesses legais da população vis-à-vis
ao exército ocupante.
Quando Wilson afinal chegou ao QG suas primeiras palavras para o
General van Voorst tot Voorst foram: “General, acabo de vir do inferno”.
Relatou tudo o que vira da destruição em Roterdã e informou que
autorizara o Coronel Scharroo a render-se. A princípio, Winkelman
pensou que a capitulação de Roterdã, embora acompanhada de tamanha
calamidade, fosse apenas uma catástrofe isolada. Novas linhas de defesa
haviam sido construídas e ele esperava que se pudesse manter a Fortaleza
Holanda. Contudo, durante a tarde, Utrecht recebeu um ultimato; tal qual o
documento de Roterdã, ele dizia: renda-se ou será totalmente destruída. De
acordo com a ordem de Winkelman, de lutar até o derradeiro homem, o
ultimato foi rejeitado, mas a Luftwaffe lançou 4.000 panfletos sobre a
cidade, vaticinando-lhe o mesmo destino de Varsóvia, caso não se
rendesse. O comandante de Utrecht informou o grande QG e finalmente
todos viram com clareza o que aguardava a Holanda se continuasse a
resistir. A Fortaleza Holanda ainda se achava intacta e provavelmente
poderia ser defendida por tempo considerável, mas que vantagem haveria,
se todas as cidades fossem destruídas nesse meio tempo e a Holanda
devastada? Mas antes que a rendição do país fosse transmitida
oficialmente ao vencedor, havia muito o que fazer. A marinha foi
encarregada de inutilizar todos os portos e respectivas instalações. Todos
os arquivos militares tinham de ser queimados nos incineradores do centro
de lixo de Haia, e van Oorschot, Chefe do Serviço Secreto Holandês, era
portador de muito documentos, sobretudo de relações de nomes que não
podiam cair em mãos alemães; os arquivos secretos do Ministério da
Defesa foram destruídos; armas foram quebradas, lançadas ao mar ou
desprovidas de peças essenciais. Em seu zelo, os encarregados da
destruição de documentos também destruiram as Instruções para Tempo
de Ocupação, mas esqueceram-se de queimar os arquivos do Serviço
Topográfico, e que vieram a ser posteriormente de grande valia para os
alemães. Finalmente, era preciso preparar o texto da proclamação
radiofônica que comunicaria a derrota à população holandesa.

Ocupação

Os prefeitos de Amsterdã, de Haia e de outras grandes cidades, onde os
alemães iriam entrar triunfalmente, pediram aos cidadãos para manter a
calma e a ordem, que era o apanágio da velha civilização da Holanda e, de
modo geral, a população soube, de fato, mostrar bastante comedimento e
grande dignidade nessa hora difícil para sua pátria.
O Fuhrer honrou as tropas alemães que ocuparam a Holanda com as
seguintes palavras: “Em cinco dias haveis atacado e destruido as defesas
aéreas e finalmente forçado a rendição de um exército forte e bem
preparado, que se defendeu valorosamente atrás de obstáculos
aparentemente imbatíveis e recebendo reforços militares. Com isto haveis
realizado algo único. O futuro mostrará sua importância militar. Só pela
vossa exemplar coordenação, pela liderança decidida e pela coragem dos
soldados, sobretudo pelo valoroso desempenho das tropas aeroterrestres,
com seu desprezo pela morte, é que esse feliz empreendimento se tornou
possível. Em nome do povo alemão, agradeço-vos e expresso minha
admiração”.
Esta é uma pequena amostra da retórica de Hitler, com a qual os
holandeses se acostumaram no decurso dos cinco anos a seguir.
Entrementes, publicava-se um aviso em todos os jornais; o Prefeito de
Roterdã pedia a todos que não tinham motivos imperiosos para ficar na
cidade, que se mantivessem longe dela, por enquanto. Os que desejassem
informações sobre parentes deveriam ir direto ao Departamento da Policia
de Menores, instalado na delegacia de policia de Oostervanstraat em
Roterdã, telefone 35888.
Todos trabalhava desesperadamente para construir de novo tudo aquilo
que desmoronara naqueles fatídicos cinco dias de batalha, havendo
também para resolver o problema de retomada da vida cotidiana. Não era
fácil esquecer que, durante aquela catástrofe, cerca de 2.500 soldados e
aproximadamente a mesma quantidade de civis haviam morrido.
As inúmeras proibições começaram a se acumular; era proibido ter
pombos-correio, e os que havia tinham de ser mortos, dentro de uma
semana; o escotismo fora proibido porque o movimento se originara na
Inglaterra; os cardápios dos restaurantes não podiam mais ser escritos em
francês e sim em holandês ou alemão, exceto nos casos referentes a
restaurantes indonésios, chineses e italianos. As cidades, em sua maioria,
tiveram seus prefeitos substituídos por membros do NSB, sem levar em
conta eficiência e habilitações. Inevitavelmente, e o mais sério de tudo, o
comando alemão emitiu ordens para que nenhum navio, de qualquer
nacionalidade, saísse dos portos; toda tentativa nesse sentido seria
impedida pelos meios que se fizessem necessários. Diante disso, os
holandeses estavam prisioneiros no próprio país.
A ocupação da Holanda durou pouco menos de 5 anos. As dificuldades do
povo holandês aumentavam de ano para ano; a princípio, pelo menos
superficialmente, a situação não mudou muito da dos dias que precederam
a guerra. Jornais eram publicados diariamente e, na verdade, uma olhada
no jornal mais popular de Amsterdã, De Telegraaf, dificilmente revelará
qualquer diferença entre a semana que antecedeu a guerra e o dia após a
capitulação, exceto quando apresenta a alta cotação da taxa de câmbio do
Reichmark em relação ao florim holandês.
As mudanças na vida holandesa ocorreram mais lenta e subtilmente. Os
jornais foram fechados um a um. O racionamento posto em vigor durante
a mobilização em 1939, continuou e tornou-se cada vez mais rigoroso, de
preferência em relação aos produtos que a Holanda recebia normalmente
das colônias, como café, arroz, chocolate, açúcar e chá. Em quase todas as
cidades holandesas viam-se uniformes alemães. Tornou-se rotina encontrar
nazistas armados nas estações ferroviárias, mantendo guarda contra
possível sabotagem. Os trens de passageiros rarearam, sobretudo após a
invasão da Rússia em 1941, porque o material rodante era indispensável
no transporte de tropas e equipamento para a Frente Oriental. As cidades
holandesas desacostumadas de ver cidadãos não-europeus logo tiveram de
aceitar a presença de soldados asiáticos que se haviam apresentado como
“voluntários” para unidades das Waffen-SS; entre eles haviam indianos,
sikhs, tipos mongolóides de nacionalidade indefinida. Sobretudo, a
atmosfera já não era a mesma. Algumas coisas simplesmente não eram
mencionadas. Logo de início os judeus receberam as estrelas amarelas de
Davi e eram obrigados a usá-las na roupa, bem à vista de todos. Muitos
holandeses demonstravam simpatia íntima pelos seus conterrâneos judeus
e até havia quem os ajudasse abertamente. A perseguição franca limitava-
se a cartazes logo afixados em cafés, indicando a proibição aos judeus de
frequentá-los; esses cartazes
apareceram em bancos de parques e em vários outros lugares públicos,
mas o transporte em massa de judeus para os campos de concentração,
verdadeiramente só começou em 1943.
Os alemães haviam sido muito bem orientados no sentido de como tratar
esse país que conquistaram. Os nazistas consideravam os holandeses quase
tão bons quanto os alemães - não fosse pelo cruel destino e pelas
vicissitudes da história, eles poderiam ter tido a sorte de terem sido sempre
alemães - e como, por língua e raça, conforme definidas pelos nazistas,
eles eram indubitavelmente germânicos, os holandeses deveriam ser bem
tratados. A princípio, e de modo geral, eles de fato foram. Os soldados
alemães tudo fizeram para ser gentis, mas essa gentileza era recebida com
desconfiança e descortesia. Os holandeses não aceitavam a maneira como
eram considerados pelo alto-comando da Wehrmacht. Eles vinham de uma
nação orgulhosa, que lutara pela sua liberdade contra muitos invasores
estrangeiros, e os alemães, apesar de como encaravam os holandeses, eram
classificados na mesma categoria, exceto pelos membros do NSB. Muitos
soldados alemães do exército de ocupação não podiam compreender os
sentimentos dos holandeses e os tachavam de ingratos; portanto, em
poucos meses, a brecha que havia entre conquistador e vencido e que os
nazistas tinham tido a esperança de fechar, na verdade aumentou ainda
mais.
Antes da guerra, muitos holandeses não-membros do NSB tinham certa
simpatia por Hitler. Afinal, ele deu trabalho ao povo quando ainda havia
total desemprego e inflação na Holanda. Mas uma vez que o país foi
invadido, é claro, que aquela simpatia deixasse de existir. Houve muitos
holandeses que, como oportunistas, apoiaram a Alemanha; na realidade,
50.000 deles ingressaram nas Waffen-SS e vários outros trabalhavam
como espiões para a Gestapo. Mas a maior parte dos holandeses se
ressentia da destruição que assolou uma das suas mais importantes cidades
e da ocupação que trouxe tanta amargura. Alguns, vivendo na esperança
de vitória aliada, continuavam como antes, só que num desespero atroz e
intimamente envergonhados. Alguns chegaram a trabalhas, às ocultas,
contra a Alemanha. Mas, contrariamente à crença popular hoje em dia,
foram poucos os que se ergueram contra o invasor antes de estourar a
greve portuária em Amsterdã, em fins de 1942, quase dois anos após a
conquista. Como era de esperar, os alemães começaram a ocupar, uma a
uma, as funções importantes dentro do que restava do estado holandês.
Desde os pontos-chaves na policia até o cargo de agente de estação
ferroviária, todos eram ocupados por holandeses “de confiança” e, mais
freqüentemente, pelos próprios alemães. À medida que os holandeses
procuravam refazer-se, lenta e inexoravelmente, do choque da derrota,
uma resistência, um movimento clandestino, começou a tomar forma.
Nas paredes das cidades apareceram proclamações contando que alguém
fora fuzilado no dia anterior, ou que algumas pessoas haviam sido levadas
como reféns porque um soldado alemão fora alvejado ou morto. Essas
tentativas feitas com o intuito de submeter os holandeses pelo terror foram
contraproducentes. A resistência aumentava a cada patriota fuzilado. Se
poucos ingressavam na resistência ativa - afinal de contas, a roupa e o
alimento tornando-se cada vez mais escassos, a maioria das pessoas
preocupava-se sobretudo com a própria família - o ressentimento
aumentava; de modo que, já em 1943, nenhum soldado alemão se atrevia a
andar sozinho à noite, até numa aldeia, e se em companhia de um
compatriota, levava sempre uma arma segura na mão.
Uma volta curiosa a velhos hábitos holandeses de séculos anteriores
começou a ocorrer e que serviu para estimular a renovação do sentimento
nacionalista. Por exemplo, tornou-se moda usar um suéter tricotado a mão
feito de lã de carneiro fiada de maneira irregular, crua e sem tintura.
À medida que o alimento escasseava, a amargura contra os substitutos
ersatz alemães e contra o exército de ocupação começou a se destacar nas
classes médias, que estavam acostumadas à fartura de toda sorte de
alimentos. Quando o pão ficou mais difícil de obter e piorou em qualidade,
muitos se voltaram para o mercado negro de alimentos e outros
começaram a comprar trigo sub-repticiamente, reduzindo-o a farinha
grossa, em seus moedores de café. O pão feito desse material e assado em
seus fornos mostrou-se melhor que o produzido pelo padeiro, privado de
boa qualidade de trigo e de farinha.
A Rádio Oranje, o serviço de transmissão radiofônica holandês que
operava da Inglaterra, era ouvida ansiosamente por muitos cidadãos,
apesar das proibições alemães nesse sentido. Se alguém fosse apanhado
ouvindo a Rádio Oranje ou a BBC, provavelmente era preso e seu
aparelho, confiscado. Não obstante, havia uma fome tão desesperada de
notícias do exterior, e tão grande era a desconfiança da rádio alemã e da
imprensa controlada pelos nazistas, que valia a pena correr qualquer risco,
só para ouvir notícias de uma vitória aliada. Quando essas vitórias
começaram a se tornar comuns, a resistência foi-se declarando mais
abertamente e o controle alemão impôs-se com mais rigor, chegando a
intrometer-se na vida particular dos
cidadãos, a cada revés sofrido na África ou na Frente Oriental. Os judeus
começaram a ser levados. Alguns conseguiram esconder-se, mas muitos
foram encontrados na companhia de amigos holandeses. Quando chegou o
Dia-D, quase não havia mais comestíveis e carvão, e os holandeses foram
obrigados a passar fome e a sofrer com o inverno, mesmo tendo parte de
seu país já libertada em fins de 1944. A Holanda Ocidental, ao norte dos
rios, incluindo as grandes cidades de Haia, Amsterdã, Utrecht e o que
estava da Roterdã, tornou- se um enclave alemão que só foi libertado no
fim da guerra.
Durante o inverno longo e excepcionalmente rigoroso de 1944-45, a fome
foi rotina; milhares de criaturas morreram de frio e de fome e a classe
média foi obrigada a vender seus tapetes orientais, como também seus
móveis antigos, para obter lenha e porções de comida ou batatas.
Assoalhos e móveis eram queimados para se conseguir alguns minutos de
aquecimento. Minha família comeu bulbos de tulipas, sacarina, e repolho-
roxo diariamente num período de vários meses. Nós fomos, no entanto,
dos menos infelizes, pois meu pai se prevenira, comprando um caminhão
carregado de repolhos no outono de 1944, e embora já estivéssemos
terrivelmente enjoados de tanto comer repolho quando se deu a libertação
ainda assim tínhamos de nos sentir bastante agradecidos - muitos outros
estavam carentes até mesmo nas necessidades mínimas de subsistência. A
sorte da Holanda foi que aquele inverno foi o mais rigoroso e o mais longo
do século. As árvores só começaram a brotar em maio - justamente
quando a guerra chegou ao fim. A ocupação alemã foi uma experiência
mais traumática do que esperávamos em 1940. Ela se transformou em
pesadelo e numa luta por sobrevivência que muitos dos meus compatriotas
não conseguiram vencer. A Holanda pagou muito caro pela neutralidade,
sem preparo e sem armas, que a imprevidência, durante os anos 30,
defendeu com a mesma intensidade com que se defende hoje a
neutralidade e o desarmamento na Europa. Foi um preço que os que
passaram por isso não gostariam de pagar novamente. Jamais um holandês
se esquecerá da comida lançada de pára-quedas pelos Aliados pouco antes
da capitulação alemã. Latas de biscoitos, chocolates e bacon caíram nas
mãos dos milhões de famintos, cujos organismos, já desacostumados com
essa fartura, reagiram violentamente quanto as rações devoradas.
Roterdã renasceu das cinzas de 1940. Hoje o Europoort é o maior
complexo portuário do mundo, funcionando com um volume espantoso de
carga oceânica - cerca de 250 milhões de toneladas anuais. O horizonte é
dominado pelo Euromast, uma torre de observação de 188 metros de altura
e de cujo restaurante se pode avistar quilômetros de extensão além dessa
imensa cidade. A Lijinbaan, proibida ao tráfego, usada somente por
pedestres, é também um centro de compras e que foi copiado por toda a
Europa. Quando a cidade foi reconstruída, evitaram-se as ruas tortuosas e
estreitas da Holanda, e largas rodovias, com capacidade para suportar
tráfego pesado, substituíram os escombros. Árvores e arbustos, parques e
playgrounds são abundantes e um moderno sistema de metrô foi
construído (o que é notável, já que a cidade propriamente dita está
localizada abaixo do nível do mar).
Do coração de Roterdã quase nada restou; pelo menos o que o olho
humano pode ver. Mas o espírito da cidade não foi destruído no
holocausto de 1940, e foi esse espírito que reconstruiu Roterdã e continua
vivo no coração dos seus jovens habitantes que jamais experimentaram o
pavor dos sofrimentos de maio de 1940.

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